Eid Löwenherz

1 Eid Löwenherz


O Império dos Grifos se estende por infindáveis porções de terras e montanhas os quais nenhuma outra raça ousa explorar, entregue aos caprichos da natureza o local possui algumas das paisagens mais belas de todo planeta, uma recompensa formidável para os jovens grifos que são incentivados a explorar os seus arredores e ganhar experiência, assim amadurecendo não apenas de modo cronológico.

Suas cidades são na sua maioria verticais, esculpidas diretamente na segurança das pedras dos mais altos picos e muitas vezes em meio à neve. Outra característica marcante é que essas cidades em sua maioridade são autossuficientes entre si, cada uma delas governada por clã, geralmente composto por uma família nobre poderosa.

Em uma cidade não muito distante da capital, o herdeiro de uma família nobre em ascensão nasceu, seu nome era Bestimmt da casa Löwenherz e logo ele se tornaria um grifo exemplar, alto, forte, carismático e com uma inteligência invejável ele estaria pronto para chamar para si a responsabilidade de trazer prosperidade à sua família.

Porém não é Bestimmt que nos interessa, mas sim seu irmão caçula que nasceu três anos depois, fruto de uma noite calorosa de reaproximação de seus pais que haviam passado por um momento conturbado após o nascimento de seu primeiro filho.

Eid Löwenherz nasceu de espírito livre, sem fardos a carregar sobre seus ombros ele teve uma infância despreocupada e gozava de uma liberdade maior de seus pais. O grifo de pelagem escura e olhos azuis claro logo cresceu e mostrou desinteresse pelos estudos, porém logo cedo sua maestria com coisas delicadas ficou evidente.

Logo nos seus primeiros anos de vida o pequeno grifo se mostrou interessado no instrumento que sua mãe tocava, um velho violino que era presente de sua vó que logo seria seu. Apenas de ouvir e observar a sua genitora manuseá-lo, Eid desenvolveu uma respeitável maestria com o violino, que logo viria a se desenvolver em outras áreas.

Poucos se arriscariam a voar em um céu negro e trovejante como o que cobria boa parte do Império dos Grifos, iluminada pela luz turva das velas Ether Plum tirava suaves notas de seu violino enquanto sua criança estava sentada sobre o carpete em frente à lareira ouvindo sua querida mãe. Eid adorava ouvir sua mãe enquanto ela estava concentrada em seu lazer, ele já havia pedido para ela ensina-lo a tocar, porém ela insistia que seu pequeno grifo ainda não estava pronto e que sem aulas tentar manusear o que era uma importantíssima herança estava fora de cogitação.

“Mãe!” Uma voz jovem, porém alguns anos mais velha do que a de Eid chamou do outro quarto. “Mãnhê!” Ela repetiu e Ether parou de tocar com um suspiro.

“Estou indo querido!” A mãe respondeu enquanto se levantava de sua cadeira, ela olhou de relance para sua cria e disse. “Eu já volto, e fique longe do violino, tudo bem? Estou de olho.” E ele acenou afirmativamente com a cabeça.

Ela ficou na ponta de suas patas traseiras e deixou o violino em cima de uma alta prateleira em sua estante, fora do alcance do pequenino.

Ether saiu da sala e foi ver o que seu filho mais velho queria em seu quarto. “Timmy, chamou?” Ela perguntou com um sorriso.

O jovem grifo que estava concentrado em seus estudos e afazeres olhou para sua mãe com um sorriso e os olhos brilhando.

“Mamãe, eu já terminei meus deveres, posso ir ouvir você tocar também?” Bestimmt perguntou. O grifo de cor azul chumbo estava sentado em apoiado na escrivaninha de seu quarto, sendo iluminado por uma lanterna antiga, ele sabia que era mais do que bem-vindo na sala de estar, porém não poderia deixar passar a chance de mostrar para a sua mãe o quanto ele havia estudado. Uma enorme pilha de folhas estava disposta ao seu lado direito com anotações extensas, desenhos geográficos muito bem feitos e alguns cálculos avançados dignos de um prodígio.

“Mas é claro que sim coração, venha, vamos nos juntar ao seu irmão.” Ether, que sempre foi um doce com suas crianças, ao contrário do pai que as tratava com um rigor muito maior, respondeu. Sua prole se levantou e esticou suas pernas dianteiras, e ambos pararam por um segundo.

Eles podiam ouvir algo doce e belo vindo da sala, e pegando Bestimmt pela garra a sua mãe o levou até a sala para conferir o que estava acontecendo.

Eid fitava o violino em cima da estante com os olhos que um filhote encara seu dono logo após ter feito algo terrivelmente errado. Ele amava aquele instrumento, e a proibição de chegar perto dele apenas o fazia parecer mais belo e magnífico.

O jovem grifo possuía apenas seis anos e esbanjava um comportamento exemplar apesar dos mimos que recebia por ser o filho mais novo, sempre seguindo ordens sem questionar ou chorar. Porém naquela noite chuvosa ele viu uma oportunidade, uma voz sussurrava em seu íntimo para que alcançasse o instrumento e o pegasse para si apenas pelo tempo que sua mãe estaria fora, e o que acontecesse depois não importava.

Aquela voz, inventada pela sua vontade de ter o que era proibido, foi o suficiente para fazê-lo ter um plano rápido. Eid colocou a cadeira alguns metros à frente a estante, tomou a maior distância possível e correu em direção à ela, com um salto curto ele tomou impulso em cima dela e saltou mais alto, abrindo suas asas e as batendo para tentar ganhar altura. Ah, como eu gostaria de saber voar, ele refletiu naquele meio segundo que ficou no ar até se agarrar contra a estante.

Suas patas traseiras conseguiram ficar sobre uma das múltiplas prateleiras e por sorte não acertaram nada, com uma de suas garras ele se segurou contra o móvel e com a outra vasculhou a prateleira superior e logo encontrou o braço do instrumento que ele tanto queria.

Um sentimento que não poderia ser descrito de outra forma além de puro êxtase preencheu todas as lacunas de seu corpo, a estante balançou um pouco com o impacto e a criança logo se soltou para trás protegendo sua recompensa contra o peito com um sorriso bobo em sua cara.

Por sorte, mais uma vez ela, o grifo não se chocou contra a cadeira em sua queda, a dor pouco o incomodou, e ele logo a colocou de volta no lugar, sentou-se e sentiu o instrumento como um jovem adulto sentiria sua amada e se pôs a experimentá-lo.

No começo imitou sua mãe já que os movimentos pareciam frescos em sua cabeça, o sentimento era sublime e parecia lhe levar para um lugar distante onde mais nada poderia lhe tocar.

Quando Bestimmt, ou Timmy para os íntimos, e sua mãe chegaram até a sala eles se depararam com o jovem Eid Löwenherz manuseando o instrumento musical como se fossem bons e velhos amigos. Timmy olhou assustado para a sua mãe, encostar no seu violino era algo expressamente proibido e por um momento ele temeu pelo bem estar de seu irmão, porém ao notar que sua mãe nada fez além de observar sua prole com espanto e admiração ele se sentiu traído em seu íntimo.

Ele sentiu ciúmes.

O tempo passou e com ele os dois irmãos começaram a desenvolver uma pequena rivalidade misturada à amizade que os laços de sangue haviam criado. Os anos passaram e os dois cresceram, Eid desenvolvia um corpo menor que o de Timmy, porém ele compensava tal destino com uma agilidade invejável. Ele nunca foi um aluno estudioso, apenas prestava atenção nas aulas como sua mãe lhe pedia com tanto carinho e disparava para fora dela assim que possível para brincar e voar.

Bestimmt começou a praticar esgrima, por influência do seu pai, aos doze anos, os movimentos ágeis e as espadas dançantes encantavam Eid que via um outro objetivo em sua vida além de voar e tocar o antigo violino que havia ganho de sua mãe, agora ele queria se tornar um espadachim.

Dois anos se passaram e após muita insistência ele conseguiu começar a treinar o esporte antes da idade ideal. Eid sempre foi o tipo de criança dócil que ouvia seus pais e professores e os obedecia sem questionamento, quieto também era um dos adjetivos constantes que apareciam ao seu redor, porém o que os outros apontavam como timidez não passava de uma defesa do pequeno grifo. Ele não gostava de criar expectativas sobre si mesmo para que pudesse surpreender com maior facilidade, pois isso era algo que ele amava, surpreender.

Isso fez com que ele progredisse em uma velocidade assombrosa na academia, sua agilidade e precisão eram incríveis para a sua idade, dia após dia, combate após combate ele mostrava que suas garras possuíam uma destreza incomparável, porém nunca deixou seu discurso de que a sorte o protegia. No seu âmago ele repetia silenciosamente para si, eu sou bom.

Os elogios que acariciavam seu ego, a adrenalina dos sabres e dos toques, a necessidade de mostrar que aquele pequeno e silencioso garoto era uma ameaça real o levou até as categorias de seu irmão em pouco tempo apesar da diferença de três anos que separava os dois.

Bestimmt e Eid encaravam um ao outro através de duas máscaras na pista, o placar marcava 14 a 14 e a audiência estava tensa, os irmãos Löwenherz haviam feito o seu caminho até a grande final depois de muito suor e vitórias apertadas. O gigante Bestimmt manejava seu sabre com voracidade e uma força estúpida castigando a proteção de seu irmão e explorando o chicotear de sua arma, enquanto isso o pequeno Eid abusava de sua velocidade em estocadas sublimes e oportunistas.

Stahl e Ether Löwenherz assistiam às suas crianças cheios de orgulho, os primeiros anos de casamento foram difíceis e doloridos, porém agora tudo parecia estar se encaixando, ambas as suas crianças eram especiais ao seu modo, Eid era um exímio violinista e despontava como um esgrimista de primeira classe, enquanto Timmy também tinha seus méritos com o sabre a sua inteligência e carisma faziam com que seu pai ficasse tranquilo quanto ao futuro da família.

Logo Timmy partiria de casa para explorar e conhecer o mundo, porém antes ele e seu pequeno irmão tinham contas a acertar, o campeão não levaria consigo apenas o primeiro lugar, mas também o direito de jogar na cara do outro quem era o melhor, sem desculpas da outra parte.

Ambos mediram a distância e avançaram lentamente até que o tempo começou a fluir devagar apenas para os dois enquanto a multidão apenas veria vultos.

O sabre de Bestimmt avançou em uma estocada a média-baixa altura, ele estava satisfeito com seus feitos, e queria viajar com o coração leve, sabia que seus pais se orgulhavam dele, porém queria mostrar ser melhor que seu irmão mais novo em algo que ele amava.

Eid recuou um pouco e puxou seu sabre para o centro de seu corpo o mais rápido que pode, e por sorte ou agilidade, o copo acabou bloqueando o ponta da arma inimiga fazendo com que ele avançasse mais que o necessário. Era esse o momento que ele sempre havia esperado, a hora de mostrar que ele era o melhor, que o seu silêncio deveria ser temido e respeitado.

O sabre de Eid avançou em direção à face de seu irmão, esse seria seu coup de grâce, o ponto final.

Porém Bestimmt era experiente e deslocou seu corpo para o lado e para baixo, erguendo sua arma de modo que apontasse contra o peito do grifo menor.

E assim o juiz assinalou o ponto e o placar foi atualizado para 15 a 15, e todos se levantaram e aplaudiram de pé. Eid deixou seu sabre cair contra o chão enquanto o de seu irmão ainda estava pressionando contra o seu peito, incrédulo.

Timmy fez uma bela manobra e acertou o Eid como planejava, porém ele não contava com o fato de que o pequenino conseguiria o acompanhar, ele levou o golpe na máscara antes que o seu pudesse conectar.

Os dois logos trataram de tirar as máscaras, vestir um sorriso político e trocar cumprimentos como manda o esporte, eles só viriam a fazer isso novamente quando Bestimmt partisse em sua viagem.

Após a partida de seu irmão para longe, Eid começou a passar a maior parte do tempo sozinho, e apesar de sentir falta dele o silêncio era muito bem-vindo.

Os anos se passaram sem muitos acontecimentos importantes, o jovem grifo ficava cada vez menos jovem, trocando os dias por experiência e amadurecimento ele refinou sua caça, música e esgrima enquanto se preparava para sair de casa, pois mais cedo ou mais tarde, como todos os grifos, ele teria que encarar o mundo sem a sua família por trás.

Um dia ele e seu amigo desceram da cidade e foram para zonas mais baixas da montanha onde a vegetação e caça era mais abundante, um cão selvagem da montanha foi avistado e logo cercado pela dupla. Os dois grifos eram ágeis e não tiveram problema para cerca-lo, porém o companheiro de Eid avançou com muita confiança e cometeu um erro básico, deixando suas garras próximas à boca do animal.

O cão seria devorado depois, porém deixou sua marca de resistência, arrancando dois dedos de Roland com uma bela mordida antes de sucumbir às garras e bicadas raivosas de seu primeiro agressor.

E assim em apenas um dia Eid descobriu dois de seus traumas, ver seu coloca perder seus preciosos dedos lhe deixou uma ferida mental profunda, não gostaria de sofrer do mesmo destino, seria impossível empunhar um sabre ou tocar seu belo violino sem seus dígitos.

Desde então o grifo passou a evitar colocar suas garras em qualquer tipo de risco, passou a usar suas garras apenas em presas que não poderiam feri-las, combatendo outros predadores com um sabre, com lâmina e não apenas de esgrima, e seu bico. E também passou a evitar cães, ao comer de sua caça, Eid inchou de todo modo possível, e se não fosse pelas condições de sua família em conseguir um bom médico, além de uma pitada de sorte, a reação certamente poderia ter levado ele dessa para uma melhor.

Três anos depois dos últimos acontecimentos Bestimmt ainda não havia voltado, porém enviava correspondências esporádicas dizendo que estava bem, porém ainda não poderia voltar já que sua sede por conhecimento ainda não estava saciada.

Eid por sua vez se via prestes a começar sua jornada, e uma pergunta que nunca havia assolado o pequeno grifo começou a assombrá-lo.

O que ele queria dali em diante?

Seu mundo era pequeno até então, tocava seu violino em concertos e orquestras porque sentia nisso um enorme prazer, porém não era o que gostaria de fazer para ganhar a vida. Era bom no manejo de uma espada, passara um tempo treinando com lâminas de verdade e tudo lhe pareceu uma transição natural, indolor e até mesmo prazerosa, e ser um esportista parecia interessante, porém ele queria mais.

Deitado no sofá de sua casa, ele fechou seus olhos e pensou em suas possibilidades, lembrou-se daquela voz que sussurrou em seu ouvido quando pegou pela primeira vez o violino de sua mãe, aquela voz que era ninguém a não ser ele mesmo e que sussurrara tantas coisas em seu ouvido durante sua vida.

Sair em uma jornada apenas para descobrir o que queria? Não, isso apenas o faria andar em círculos, mas o quê? Ele era apenas um garoto que teve todos os mimos possíveis e nenhuma preocupação em sua vida, se ficasse um ano fora viajando e retornasse para casa sem um desejo, ele apenas continuaria a competir ou arrumaria um trabalho e sua vida seria pacata e sem surpresas.

Seu irmão estava à procura de conhecimento para gerenciar a família, um objetivo nobre e que havia sido perseguido durante toda a sua vida, enquanto ele estava deitado em um sofá tentando espremer algo de sua cabeça.

“Eu preciso dar uma volta...”

Eid então saiu de casa e esticou suas asas, precisava arejar a sua mente e nada melhor do que o bom gosto de asas contra os céus para isso, porém algo lhe chamava e atraía, era essa aquela voz que ele havia criado para si quando criança? Oh, o jovem grifo era cético demais para acreditar que aquela voz não era sua e que alguém sussurrava em seus ouvidos.

Naquela tarde o jovem Löwenherz descobriu por mero acaso uma casa onde grifos dos mais variados tipos apostavam em jogos de azar, e aquele mesmo sentimento de quando havia pegado o violino voltou a lhe assombrar.

E ele jogou. E assim se passaram os dois últimos meses antes de sua partida, Eid havia descoberto o que mais gostava na vida, ganhar, a sensação de correr um alto risco e sair triunfante o fazia continuar em frente com excitação mesmo que tivesse que amargurar com derrotas.

“Então assim eu jogarei com a vida, quero descobrir e encarar os desafios que para mim foram guardados no futuro.” Ele falou para si mesmo enquanto batia suas asas no alto do céu, um sorriso no rosto e sua bagagem de viagem em suas costas. “Lanço-me a ti como se lança um par de dados!” E assim Eid deixou o disfarce de bom menino que vestira a vida inteira em casa e foi encarar o mundo.

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