❝ Ei, Professor . . .
2 1. Exorcista
Notas iniciais
Foram necessários alguns segundos para ela entender que não estava sonhando. Quase tinha morrido, mas seu novo professor a salvou. Isso não era uma situação muito comum, nem mesmo para ela, que estava acostumada com coisas mais estranhas do que poderia contar. A garota encarou Mitsuo. No lugar de seus jaleco branco estava um sobretudo negro, com um broche em formato de cruz no lado esquerdo do peito. Ele se virou e começou a andar, como se simplesmente estivesse indo embora. Mas obviamente, Risa levantou em um pulo, o segurando com força pelo pulso.
– ... Onde pensa que vai? – Ela perguntou em um tom mais ameaçador do que pretendia.
– Casa... Estou cansado, quero comer bolo. Vim te ajudar, mas já que você não gosta de mim...
– Me conte o que está acontecendo aqui.
A mais nova ignorou completamente a fala do outro. Estava confusa e agitada, e tinha que admitir... Com medo. Nunca tinha passado por uma situação como aquela. O máximo que aqueles seres costumavam fazer era perturba-la durante a noite, até o dia em que aprendeu um “encantamento” para mantê-los fora da casa. Além disso, algumas vezes a arranhavam, quando já tinham uma forma, ou então tentavam puxa-la. Mas uma ilusão? Essa tinha sido a primeira.
– Você é... Lisa?
– Risa!
– Isso, Risa. Numero vinte e três da chamada, penúltima cadeira a direita. Suas notas de literatura e redação são as melhores da escola, e se não me engano, ganhou um premio estadual de redação no ano passado?
– Como você sabe isso tudo mas não se lembra do meu nome?... Ah! Você está tentando fugir do assunto. Me conte logo. Eu quase morri, não é? Acho que tenho o direito de saber.
– Hmm... – O professor resmungou, guardando a embalagem do chocolate no bolso, apenas para pegar um pirulito e coloca-lo na boca, antes de começar a falar. – Sou um exorcista oficial do Vaticano. – Mas antes que pudesse continuar, precisou desviar de um soco que a garota tentou lhe dar. – Isso teria machucado...
– Você tá brincando comigo! Não me trate como criança, fale sério!
E ele falou. Com a voz mais séria que ela já tinha ouvido, o homem a olhou diretamente nos olhos.
– É verdade. Achou que era a única “diferente”? Não seja criança.
Ao ouvir aquilo, ela respirou fundo. Não gostou da forma que ele falou, mas estava certo. Ninguém tinha falado que era a única que via aquelas coisas, que tinha ‘poderes’ fora do comum. E sabia da existência de exorcistas em tempos antigos, mas não tinham provas de que não existiam mais.
– Como sabe que eu vejo... essas coisas?
– É obvio. Estão te seguindo. Pessoas com essas habilidades são como um almoço ambulante para eles. Você tem muita... muita sorte por não ter acontecido nada com você, ainda.
Risa respirou fundo, passando a mão pelo rosto. Estava começando a finalmente voltar ao normal, após aquele susto.
– Certo... E o que houve aqui?
– Esse que está atrás de você... Parece que você fez algo de ruim a essa coisa, e ele quer vingança. Não posso deixar crescer, já que aparentemente ele cria ilusões capazes de enganar o cérebro humano... E fazer com que você ache que está correndo atrás de amiga, enquanto na verdade está prestes a sofrer uma queda de quinze metros em um rio perigoso e congelante.
“Eu não sabia que ele falava tanto”, foi o que a garota pensou. Mas aquilo realmente parecia perigoso. Quando se preparou para falar algo, o homem fez um sinal de silencio, cuidadosamente começando a andar, a chamando com o dedo. Após andarem apenas alguns passos, Risa finalmente conseguiu ver. Escondido nas sombras de uma das ruas, estava o ser que viu pela manhã.
Era como uma nuvem negra, duas vezes maior do que antes. Seus olhos olhavam em todas as direções, como que procurando algo. Até que todos os olhares pararam na direção deles. E do meio daquela coisa, um buraco começou a abrir. Sua forma mudou rapidamente em uma enorme boca, que sorria de forma que a fez sentir um frio na espinha.
– Um... ExorCISTA! – A coisa começou a falar. Não era apenas uma voz que saia dali: Vozes agudas e grossas, de mulheres, homens e crianças. Tudo se misturava, criando um som macabro. – CHEIRO.... bom. Ele trouxe... EXORcistA! Vou... vamos... Comer!
Risa entrou em posição de defesa, pensando se conhecia algo que poderia afastar aquilo. Tinha que pensar rápido, já que a criatura se aproximava rapidamente... Mas Mitsuo continuou parado. Não se moveu, e não demostrava medo ou nervosismo. Ele tinha pensado em algo? Ah, é claro. Se ele era o que dizia ser, aquilo devia ser algo comum para ele. E Risa estava certa ao pensar isso. Com calma, quando aquela coisa estava a poucos passos de distancia, o homem cravou a espada no chão.
– Carcer... – Ao dizer aquela simples palavra, a coisa parou. Não se movia, nem mesmo seus olhos. Tirando a espada do chão, em um único movimento, Mitsuo o cortou no meio. Não correu para as sombras: Foi cortado a meio, e quando suas metades chegaram ao chão, foram lentamente sumindo, até não existir mais. Foi destruído. – Era apenas um filhote... Não faria mal a ninguém, mas parece não ter gostado de você. Lisa, você está branca.
Ela nem mesmo se importou do nome errado. O que tinha acontecido ali? Se aquilo estava atrás dela por tê-lo afastado naquela manhã, outros deviam estar fazendo o mesmo, só não tinha notado antes. Seu pensamento foi interrompido quando Mitsuo lhe deu um pirulito.
– Vá para casa. Me procure no intervalo amanhã, e conversamos.
– O que? Não, eu... Ei, professor! Espere! – Ela tentou para-lo, mas antes que pudesse, ele já tinha saído de seu campo de visão.
Ficou parada. Sua cabeça parecia não aceitar que aquilo era a realidade. Mas tinha sido tão repentino. Tudo aquilo aconteceu em menos de meia hora. Era obvio que ficaria em choque. Ainda pensando, abriu o pirulito, o colocando na boca e olhando para o chão, onde a criatura tinha sido derrotada. “Credo”, foi o que pensou antes de voltar a andar para ir para casa.
Quando foi destrancar a porta, viu que já estava aberta. Ela respirou fundo, sentindo o corpo gelar. Se a porta estava aberta, só podia significar uma coisa... Lentamente abriu a porta, tentando não fazer som algum. A fechou com cuidado, querendo não ser notada... mas logo sentiu algo passando em alta velocidade ao lado de seu rosto. Ela congelou, vendo um bisturi preso na porta. Com a voz fraca, começou a falar.
– Oi... mamãe. Como foi ao trabalho?
No corredor, estava sua mãe. Ela fazia bico, com as mãos na cintura, como uma criança irritada.
– Você sabe que é perigoso ficar na rua até tarde!
Ela reclamou, batendo o pé. A mulher se chamava Leia. Tinha apenas trinta e cinco anos, mas aparentava ser ainda mais nova. Como Risa, tinha cabelos negros e a pele branca. Seus olhos eram esverdeados, mas quase não eram vistos. Ela sempre mantinha os olhos semiabertos, ou aparentemente fechados. “Aparentemente”, pois mesmo que parecessem fechados, ela fazia tudo normalmente. Vez outra, até mesmo trabalhava assim. Ela criou Risa sozinha, pois o noivo a largou assim que soube que estava gravida. Leia nunca teve problemas com isso. Era cirurgiã, muito procurada por ser extremamente boa no que fazia, mesmo que estranhassem o fato de manter os olhos fechados. E, é claro, o único motivo de Risa não se assustar quando ela jogava bisturis em sua direção quando estava irritada, era que desde jovem, mantinha o titulo de “Melhor Atiradora”.
– Eu até comprei uma torta, mas você não vai ganhar nem um pedacinho! – A mulher mostrou a língua, virando e correndo em direção da cozinha.
Risa riu, a seguindo e falando para ela esperar. Sabia que ela poderia mesmo comer tudo, como forma de vingança pela preocupação.
Quando finalmente chegou a hora de dormir, Risa estava tão agitada pensando sobre o que tinha acontecido que nem sequer conseguia dormir. Após uma hora deitada, desistiu, pegando um livro qualquer para ler. Mas se irritou ao ver o livro. Já tinha lido. Era sobre uma jovem de poderes extraordinários, que encontrava um homem que a entendia, e então eles se tornavam um casal. Naquele momento, declarou que não gostava de livros de romance envolvendo jovens com poderes.
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