Notas iniciais
OK, primeiro, eu amo muito o yin-yang. Eu acho um símbolo perfeito do equilíbrio do mundo, de como uma coisa precisa de outra pra existir e como algo sempre tem um pouco do outro, e juntos, eles formam a perfeição (um círculo). O melhor de tudo é que ele é extra-simples. Achei que ele combinava com essa fanfic, não só com o enredo, mas também sobre o significado. Então, achei que essa capa - que é um yin-yang super estilizado e foda - era perfeita.

O começo de um relacionamento, o fim de uma vida.

Assim se segue o ciclo infinito de amor e destruição... E a balança de alegria do mundo mantém-se equilibrada. Se você alterá-la excessivamente ao seu favor...

O outro lado cairá sobre a sua cabeça.

Quanto mais peso, mais difícil de carregá-lo.

Assim começou a nossa história. Que se mantém a esse caso, e a toda a humanidade.

A mulher, amarrada a uma cadeira, não podia fazer nada além de observar o rosto quase psicótico do homem que, sorrindo de forma ao mesmo tempo gentil, ansiosa e assustadora, conseguia formar um caleidoscópio de faces tão diferentes que chegavam a formar uma só, sem harmonia, trazendo apenas dor, uma dor que penetrava daqueles olhos que falsamente a sorriam direto nos dela, como se por ele soltasse adagas.

Foi uma dessas que ele retirou de seu bolso, mas, ao invés de matá-la, ele apenas usou para fazer um pequeno corte em seu braço. Jogou o que tinha nesse pequeno corte em uma tigela, que posicionou no centro, em frente à cadeira, e dentro do círculo açucarado que mantinha-se em torno da cadeira.

O que ele faria...? A mataria? O que ele pretendia, usá-la como sacrifício em algum ritual satânico? Ela não conseguia compreender, muito menos aquele olhar, tão alegre, tão assustador, como se esperando pelo seu sangue, como se isso fosse lhe trazer aquilo que sempre esperou...

Ele finalmente falou. Não respondera a nenhuma das suas perguntas até então. Não abrira a boca; o exato oposto daquele que sempre era tão sorridente, procurava tantos assuntos. Parecia algum tipo de possessão. Ela achava que era. No entanto, a voz dele não soava nada além dele mesmo – não só na voz em si, mas seu tom, sua escolha de palavras, e a gentileza típica, tão destoante daquele olhar e da adaga agora avermelhada que ele mantinha entre suas mãos.

— Eu vou ter que pegar um pouco do seu sangue. Não irá doer nada; eu já fiz isso em mim mesmo, juro que não fará nenhum mal.

E ele, com o toque quente e gentil que também lhe era característico, e que também destoava da mão que tremia com a adaga em si, como que louca para usá-la, ou refreando algum tipo de instinto, pegou o seu braço e virou o pulso na direção do teto que os cobria, sorrindo caleidoscopicamente como antes, aquela mistura impossível e existente.

O braço dela mesma tremia, mas no sentido oposto do da mão que segurava a adaga; no sentido do medo, do recuo, ele tremia para longe, tremia como senão fizesse nada mais do que tomar impulso para correr na direção que não lhe era permitida. No entanto, ele estava certo; o corte que fizera era superficial e não doía.

— Eu vou limpar depois. Mas eu não posso agora, me desculpe.

E colocou o sangue que escorria no mesmo pote que o dele mesmo.

E então, começou a entoar. Seu tom ficou mais sério, como se fosse importante. No entanto, não chegava a deixar de ser seu tom – aquele que lhe pertencia, lhe caracterizava.

A mistura de dois sangues arderá em chamas; as mesmas em que ardem os corações apaixonados ao se encontrarem; e ela se perpetuará pelas feridas abertas, fechando-as, curando-as, e chegando junto com o sangue até o coração que tanto desejam.

Ele sorriu. Aquilo soava como um poema, uma canção de amor. E era exatamente o que era; não era uma palavra de ritual, apenas uma explicação, do seu jeito polido e bonito de explicar. Por um instante, ela não sentiu medo. Aquela voz, séria mais doce, e aquelas palavras tão bem escolhidas, mesmo que em sua mente confusa não fizessem sentido, a fizeram ter certeza de que não sentiria mais dor do que a daquele corte – e sairia ilesa, feliz, para uma nova etapa.

Novamente posicionando o pote com sangue mesclado, ele o misturou, mexendo-o em movimentos circulares extremamente suaves, e voltou a posicioná-lo em frente a cadeira. Ele sorria, e ela fazia o mesmo, encarando o líquido avermelhado que agora não lhe dava enjoo – ele vinha, afinal, do coração.

Colocando fogo em um fósforo, ele incendiou o sangue, que soltava uma fumaça estranha e espalhava o cheiro do líquido. Ela sentiu em si uma sensação entorpecente, o oposto do fogo, mas ela sabia que ele se propagava em seu corpo, trazendo consigo não desespero, mas puro calor, que subia dentro de suas veias, espalhando-se ao torno do corpo, fazendo ela se sentir aquecida, bem, amada... Essa sensação maravilhosa corria por dentro dela, até que formava um círculo que cercava o seu coração...

E foi assim que ela desmaiou.

Uma vida feliz, foi isso o que tiveram. A simpatia deu certo, em seu puro romantismo e beleza. A mente da mulher, bem como seu coração, foi alterada, e assim, o amor que ele tanto desejava alcançou-a... Eles namoraram, viveram juntos, e ela nunca soube que isso foi culpa de uma simpatia – não se lembrava desse momento tão crucial em seu falso, mentiroso, patife relacionamento. No entanto, sua mente não era mais a mesma. Era a mente de uma mulher apaixonada, mas, pior do que isso, era uma mente alterada, uma mente cheia de magia. Uma mente que não funcionava de acordo com si mesma, mas sim com a daquele fogo, que lentamente destruía as células do sangue e os enviava como fumaça, até que o ar os dissipasse – o clima do amor atingia um pouco mais do mundo. Mas o problema do fogo, não é que ele apaga, pois seus vestígios ficam para sempre nesse mesmo ar, nessa mesma fumaça. O real problema do fogo, é que ele corrói – e, seguindo essa reação química, o fogo, aos poucos, destrói o que era sangue.

E, sem o sangue, a mente passa a precisar dele.

É assim que a magia gera a loucura.

É assim que a mente alterada fica fadada a se independer da lucidez.

É assim que termina uma bela história.

Desesperado, ele tentava conter os gritos que escapavam, ecoando por toda a casa, contaminando o ar. O efeito oposto ao do sangue do amor finalmente chegara; e a loucura dominara completamente a cabeça da moça. Ele tentava decifrar o que dizia, afinal, toda loucura é o reflexo de um desejo, algo que ele, como um bom psicólogo, sabia. No entanto, aqueles gritos não eram decifráveis. Ela chorava, e as lágrimas vertidas eram salgadas, muito salgadas, o oposto daquele sangue que se banha em glicose. O seu cenário se revertera; e, com o tamanho e duração que tivera sua felicidade, batia-lhe na porta o desespero para compensar. Assim funciona a justiça; a balança não apenas se move quando alterada; ela também gira. E, uma hora ou outra, o lado que ficava cada vez mais leve flutua sobre você – chegando à sua mente e derramando-se em seu destino. Ele colocara peso demais na alegria; a tristeza, para lhe fazer justiça, agora derramava-se sobre si. Era o fim, ela estava louca. Não era a loucura normal, curável, que indica um desejo, uma chance de recomeçar. Era apenas uma loucura inevitável, tão impossível de se entender como a magia. A mulher gritava, não gritava palavras, nem pedidos, nem ordens. Apenas gritava, fazia coisas sem sentido, atirava algumas delas. Seu olhar não mantinha mais sentimento algum, apenas uma frieza, como se ele estivesse esvaziando todo o seu estoque de emoção através dos gritos desesperados. Ela se descabelava, fugia, gritava. Ele chamara a polícia, indicara o ocorrido. Queria uma ambulância, queria ajuda. Veio um grupo de médicos com roupas brancas sem graça, tom ou sentimento.

O oposto da cor escarlate que impregna nossas veias.

Eles a levaram. Ele tinha esperanças de que a curariam. Mas não foi isso o que aconteceu. Nada de terapia de choque, cirurgias, remédios. O que realmente fizeram, foi levá-la para um hospício, no qual, após um tempo de sofrimento, concluíram que seria melhor sacrificá-la.

O homem chorou pelo fim de uma vida. Mas, na verdade, isso já tinha acontecido há muito tempo.

Afinal, um coração, para bater, tem que viver imaculado.

Notas finais
OK, essa história fala sobre muitas coisas. Primeiro, toda a coisa da balança, de que temos que conviver não só com a felicidade, mas também com a tristeza, porque assim nós crescemos e aprendemos, e ambas são necessárias na nossa vida. A segunda é sobre o egoísmo humano, de querer tudo para si sem pensar nas consequências disso. O homem (propositalmente sem nome) alterou a mente e o coração dela, e assim, ela ficou louca e ele a perdeu sem nem entender o motivo. Isso representa o egoísmo e a loucura humana.
...
OK, não são muitas coisas, são duas coisas, mas eu gosto de escrever contos que podem ser interpretados como a pessoa quiser. Por isso, acho que é bom que cada um de vocês encontre um significado e interpretação, independentemente do que eu disse, já que o conto está aqui para ser compartilhado. Outra teoria, ideia, imaginação? Deixe-me saber o que você pensa nos comentários, não importa se faz sentido ou não
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!