Efêmero
14 Capítulo XIII: Veneno
Notas iniciais
Capítulo XIII: Veneno
Escrito por: Wenky (Andréia)
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"O veneno estava na ferida.
E a ferida não se cicatrizaria” – Vladimir Nabokov [Lolita]
Dois dias atrás
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Draco sabia que eventualmente teria que retornar a fim de terminar aquilo que havia começado, mas essa perspectiva não o impediu de passar a semana que se seguiu após sua conversa com Snape longe da Inglaterra. Com o fim do rigoroso inverno que se instalou no país e a chegada da primavera, o rapaz decidiu que seria agradável tirar alguns dias para colocar sua cabeça no lugar aproveitando os dias mais quentes nos países localizados ao sul do continente.
A nova estação proporcionou paisagens bastante agradáveis. Gerando um contraste com as camadas de neve que cobriram a terra nos meses anteriores agora era possível observar os campos floridos e cheios de vida, a despeito de toda situação que o mundo mágico vivia, ele pensou, a natureza parecia ser capaz de se recuperar.
Indo de encontro com a sua intenção inicial, Draco teve bastante dificuldade em se organizar acerca de qual deveria ser seu próximo passo. Estava consciente que qualquer deslize poderia ser fatal e que carregava consigo uma arma valiosa no momento, a espada de Gryffindor.
Snape havia o dado a falsa ilusão de que ele tinha a possibilidade de escolher o que faria com a informação que recebera. Mas Draco sabia que não. Até porque, como se não bastasse, ainda cabia a ele o fardo de ser o atual mestre da Varinha das Varinhas e somente esse fato o fazia querer fugir, como o covarde que era.
Enquanto segurava a pesada espada em suas mãos, dedicando alguns momentos a observar os detalhes do objeto, seus pensamentos o direcionaram até Hermione. Ele ainda estava em débito com ela. Contudo, não tinha certeza acerca de qual seria a maneira mais apropriada de retornar. Estava receoso.
A lembrança da expressão de desapontamento no rosto de sua ex aliada, assim que ele desaparatou, a deixando, passou a perturba-lo nos dias que se seguiram. Mas não somente isso, as palavras que trocara com Snape também martelavam na sua cabeça, fazendo daquela uma decisão difícil de ser tomada.
E não tem nada, ou ninguém, capaz de fazer com que você retorne?, Snape havia o questionado. No momento, Hermione havia sido sua resposta. E mesmo agora, ela ainda era sua resposta. Instintivamente ele soube que, independente dos riscos, ele deveria voltar. Por ela.
Durante os dias que se seguiram antes que Draco tomasse sua decisão final, seus sonhos quase sempre envolviam Hermione. Até mesmo em situações banais e cotidianas, ela costumava estar presente. Na maioria das vezes, nunca havia uma troca de palavras entre os dois que fosse, mas apenas a presença dela parecia ser o suficiente.
Àquela altura, Draco pôde admitir para si mesmo que sentia falta dela. E os sonhos já não pareciam bastar mais. Como amiga, aliada ou como qualquer coisa que havia entre os dois, ele sentia falta dela. Então, foi quando em uma noite, um de seus sonhos mudou tudo e, a partir de então, Draco já não soube mais dizer o que exatamente Hermione era para ele. E foi quando decidiu que precisava retornar.
*****
Hermione dedicou alguns segundos a encara-lo o que possibilitou que Draco percebesse que ela tinha um olhar cansado estampado no rosto, e ele poderia jurar que ela esteve chorando pouco tempo atrás. Contudo, ainda havia sido ela a responsável por quebrar o silêncio entre os dois.
— Você voltou — Hermione disse simplesmente, com o tom mais frio e distante que ela costumava usar quando se referia a ele.
Instantaneamente, Draco soube: aquela antiga barreira que havia entre os dois estava de volta. E ele sequer poderia culpa-la por isso. Afinal, havia sido ele mesmo o responsável por reconstruí-la.
Ele se limitou a olha-la apenas. Quando sentiu a boca secar, percebeu que seria incapaz de retorquir qualquer coisa que Hermione pudesse falar. A garota se colocou de pé, ignorando a sonolência, e se aproximou dele, dando alguns passos em sua direção.
— Encontrou o que estava procurando? — Indagou, num tom desafiador. Draco apenas se moveu para deixar a pequena bagagem que carregava consigo em um dos cantos do cômodo junto com a espada que, se Hermione havia notado, preferiu ignorar a presença do objeto inusitado.
Quando se virou para a olhar novamente, Draco percebeu que suas feições estavam tomadas por uma raiva iminente. Uma expressão que antes nunca havia visto no rosto da garota, especialmente direcionada a ele. Nem mesmo quando Hermione acreditava que ele estava a traindo a ela e a Ordem, ela havia se demonstrado tão transtornada. No momento, mais do que nunca, Draco poderia afirmar que aquele reencontro estava sendo pior do que ele havia imaginado.
— Então você some por uma semana e não tem nada a me dizer? — Hermione disparou, deixando que a raiva extravasasse. O silêncio de Draco estava a deixando louca. Surpreendendo a ele e a si mesma, ela se moveu em sua direção, atingindo-o em cheio, empurrando seu peito com ambas as mãos, o que o fez cambalear para trás — Fala alguma coisa! — Gritou.
Draco fez menção para segura-la por um dos pulsos mas rapidamente ela se afastou, cambaleando para trás e evitando o toque do outro que, em resposta, deu um suspiro pesaroso.
— Você esteve chorando? — Se limitou a falar pela primeira vez naquela noite. Hermione levantou uma das sobrancelhas.
— Você se importa? — Retorquiu feroz, o olhando com uma expressão de mágoa.
Em partes, ela encontrou dificuldades em racionalizar suas próprias atitudes de forma que deixou se guiar pelas emoções que a consumiam. E, naquele momento, suas emoções estavam prestes a explodir. O medo, os arrependimentos e toda a angústia que suprimira dentro de si durante todos aqueles anos, vieram à tona. Transbordando.
— Eu voltei — Draco respondeu simplesmente. Como se fosse óbvio demais.
Hermione se limitou a fornecê-lo um sorriso amargo. Claramente ressentida. No fundo, ela sabia que não era culpa dele. Que não poderia acusa-lo de nada, ou até mesmo cobra-lo como se ele a devesse o que quer que fosse. Mas ainda assim.
— Você me deixou — uma constatação. Ela deu de ombros com os olhos cheios de lágrimas, que Hermione parecia se esforçar para impedir que caíssem. Draco, porém, a respondeu com um olhar de surpresa. Ele estava ciente que reencontra-la poderia não ser exatamente agradável, e esperava que houvessem represálias eventualmente, porém, a última coisa que poderia imaginar era uma Hermione pessoalmente afetada com sua partida.
— Você precisou tanto de mim assim durante esses dias? Achei que você soubesse se virar sem a minha ajuda, Granger. Não é você que sempre diz que está nesta guerra há mais tempo? — Incerto sobre como se portar, decidiu usar suas provocações habituais. Talvez assim, pensou, as coisas parecessem menos estranhas. Mas quando Hermione o devolveu um olhar ainda mais furioso, ele soube que havia sido uma péssima ideia.
— Covarde! — Ela disse, disparando em sua direção. Dessa vez, Draco foi capaz de segura-la por um dos pulsos, impedindo-a de avançar com os punhos fechados. Mentalmente, ele agradeceu por ela estar tão fora de si que não carregava a varinha, caso contrário, conhecendo as habilidades da garota como bruxa, ele sentiu um tremor diante da possibilidade dela ataca-lo com algum feitiço. — Pelo menos faz ideia do que tem acontecido enquanto você simplesmente fugiu? Você foi embora por que é um covarde! — Continuou, os olhos marejados se encontrando com os dele, que a respondiam com surpresa.
— Granger... — ele começou a falar, numa tentativa de tentar trazer um pouco de razão para àquela conversa, mas ela o interrompeu novamente.
— Pessoas estão morrendo e tudo que você consegue fazer é se importar consigo mesmo! — Ela o acusou — Você foi embora porque estava com medo, mas você não é o único a estar com medo aqui, Malfoy. Todos nós estamos. E se não fizermos nada, vamos perder. Mais pessoas vão morrer. E nós não podemos perder! Eu não posso perder mais ninguém! — Disse, agora num tom mais contido, enquanto balançava a cabeça em negação, numa tentativa de convencer mais a si mesma do que a ele.
Tendo soltado o pulso da garota, que agora se distanciava fisicamente dele, Draco tentou colocar a mão sobre um dos ombros dela, mas foi violentamente repelido.
— Não me toque! — Ela o avisou.
— O que está acontecendo? — Perguntou sério, com os olhos semicerrados. Mas Hermione não respondeu.
Irritado, ele a segurou pelos dois ombros e enquanto Hermione buscava se desvencilhar, dando passos para trás, na tentativa de afastá-lo. Porém, Draco se demonstrava irredutível. Quando suas costas foram de encontro a uma das paredes do cômodo, ela soube que não funcionaria. Levantou as mãos, na tentativa de remover as de Draco, mas ele continuou a segura-la. Bufando e irritada, enquanto se esforçava para conter as lágrimas, Hermione falou novamente, dessa vez, quase numa súplica.
— Me solta.
— Não até que você me diga o que está acontecendo — Draco insistiu, com os olhos fixos nela.
Em seguida, Hermione abriu a boca para responde-lo, mas logo se calou. De súbito, se viu incapaz de falar, de encontrar palavras para responder a pergunta de Draco. Assim, parou de lutar contra ele, como se outra coisa tivesse chamado sua atenção. Era a segunda vez que aquilo acontecia, ela constatou. Aquela proximidade.
A primeira vez havia sido no pequeno hall na antiga mansão dos Black. Algo dentro dela a dizia que Draco também havia notado, porque ele pareceu hesitar, ainda que sua resolução tivesse parecido firme segundos atrás, e apenas se calou em vez de continuar insistindo para que ela lhe contasse o que estava acontecendo.
A sensação costumeira na boca do estômago que aparecia sempre que estava ao redor dela se intensificou, e seu coração batia forte contra o peito. Draco estava prestes a soltar os ombros da garota, diminuindo a pressão que colocava sobre eles para mantê-la fixa no mesmo lugar. Hermione soube que aquela seria uma possibilidade de se livrar dele, de se afastar. E desejou ser capaz de fazê-lo e simplesmente ir para casa e, quando estivesse com a cabeça fria, talvez fosse capaz de conversar com ele como normalmente faria. Mas sentiu que suas pernas estavam presas no chão abaixo de si, incapazes de se mover. Então, ela se demorou olhando-o por mais tempo do que gostaria.
Ela se pegou olhando, agora com maior riqueza de detalhes que a proximidade permitia, as feições pálidas de Draco e o formato de seu rosto, bem como a maneira como seus cabelos loiro claro caíam fazendo uma sombra em seus olhos acinzentados, quase impedindo-a de enxerga-los se não fosse pela distância praticamente ínfima entre os dois.
Seu olhar era incerto sobre ela, dando-lhe a impressão de que ele tentava descobrir qual seria seu próximo movimento, mas encontrou dificuldade. Hermione pôde sentir a respiração dele contra seu rosto quando se colocou na ponta dos pés e levantou uma das mãos para toca-lo na face. Draco pareceu incerto ao toque, mas não recuou. E Hermione teve a impressão que ele encontrava a mesma dificuldade do que ela em se afastar.
Surpreendendo a Draco, e a si mesma, seus lábios colidiram com os dele. Gerando um contraste com o toque delicado, e quase inocente, de suas mãos, Hermione o beijou com ferocidade. Enquanto capturava os lábios dele entre os seus, um lampejo de uma recente conversa entre os dois se formou em sua mente.
Talvez você devesse começar a fazer as coisas mais por si mesma, Draco dissera lhe uma vez. E, como numa epifania, ela começou a se questionar no momento em que seus lábios se tocaram. Afinal, era aquilo algo que fazia por si mesma? Um desejo puro e espontâneo? Sem considerar as consequências. Sem se preocupar com elas.
Hermione sabia que não estava em seu juízo perfeito para beijar Draco Malfoy mas, ao mesmo tempo, ela não queria estar. Não queria pensar mais naquele dia ou nos acontecimentos recentes, queria apenas esquecê-los por alguns instantes. Então, se concentrou em apenas em sentir. Talvez beija-lo pudesse fazer com que ela sentisse alguma coisa além daquele vazio que vinha lhe consumindo na última semana e mais ainda agora que soube da morte da professora Minerva. Ou talvez neutralizasse esses mesmos sentimentos. Ela não sabia, mas estava aceitando qualquer coisa.
Era um ato de desespero, soube de antemão. Mas não deveria ser. Não deveria tê-lo beijado porque estava desesperada. Mais tarde, seria inevitável que não se condenasse pelo o que havia feito, mas por hora, apenas agradeceu seus sentidos estarem traindo sua razão enquanto prosseguia com aquilo.
Draco hesitou por alguns instantes antes de corresponde-la. A princípio, ele apenas deixou que ela guiasse os movimentos, se limitando a sentir os lábios dela indo de encontro ao seus. Foi inevitável que toda aquela torrente de pensamentos que vinha cultivando acerca de Hermione o invadisse. A pessoa que ela costumava a ser para ele, a pessoa que ela havia se tornado e que agora se tornava se misturavam em sua cabeça.
Sangue-ruim.
Aliada.
E, algo a mais? Contra a sua vontade, a lembrança daquele sonho que tivera sobre ela na noite antes de retornar pareceu se fundir com a realidade. O gosto era exatamente o mesmo: veneno. Guiado pelo impulso, ele se deixou sucumbir. Uma de suas mãos deslizaram pela cintura dela, puxando-a contra si.
Queria ser capaz de tornar todas as imagens tão vívidas em sua mente reais, palpáveis. E parecia estar sendo bem sucedido porque ela tinha o mesmo gosto que ele havia imaginado. E o cheiro dela, antes uma mera lembrança, agora lhe inebriava os sentidos. Hermione se deixava levar pelo toque, seus lábios ainda sobre os dele, os dedos finos exercendo uma pressão em seu pescoço. Ela estava ali, exatamente como ele havia imaginado.
Quando se separaram, ela tinha os lábios úmidos e claramente avermelhados, gerando um contraste com sua pele clara. Os cabelos estavam levemente mais bagunçados do que o habitual e os dedos de Draco seguravam-na pela nuca, de maneira que seus rostos ainda permaneciam próximos.
Hermione podia jurar que enxergava nos olhos dele a mesma confusão, e o mesmo questionamento, que estavam presentes nos seus: como, exatamente, aquilo havia acabado de acontecer?
Draco, porém, pareceu disposto a ignorar o questionamento novamente, de maneira que se moveu para puxa-la para si e se inclinou beija-la mais uma vez. Hermione o correspondeu, dessa vez, num ritmo mais lento e contido. As mãos dele, agora mais desinibidas, foram em direção à bainha da blusa de mangas compridas que ela vestia. Quando mãos frias a tocaram na barriga, Hermione sentiu um arrepio lhe percorrer o corpo diante da expectativa do que eles estavam prestes a fazer.
Num movimento rápido, Draco fez menção para retirar a blusa dela, o que Hermione o interrompeu, preferindo fazer por conta própria. Com o tronco exposto e usando apenas o sutiã, ela sentiu os pelos do corpo se arrepiarem. Draco a trouxe de volta para perto de si, abraçando-a. A sensação do tecido das roupas que ele usava contra sua pele exposta deixou Hermione tensa e, quando uma de suas mãos passou pelas costas dela, subindo até o fecho do sutiã, na intenção de abri-lo, Draco sentiu o corpo dela enrijecer contra o seu.
Realidade.
A garota se afastou repentinamente, e cruzou os braços, como numa tentativa se esconder a si mesma. Sentia-se envergonhada. Abaixando o olhar e evitando encara-lo, ela tentou formular uma sentença coerente. Uma explicação, cuja a forma que Draco a olhava pareceu demandar. A razão parecia estar a encontrando novamente.
— Eu... não posso — começou a falar — Nós não deveríamos... — num suspiro pesaroso, ela colocou uma das mãos no peito dele, na intenção de impedir sua tentativa de se aproximar ainda mais. Mesmo que eles estivessem próximos o suficiente para que ela sentisse a respiração de Draco bater contra seu rosto.
— Granger, você é... virgem? — Ele indagou, levantando uma das sobrancelhas em confusão. Pensou que talvez aquela fosse uma explicação coerente fazê-la hesitar tão subitamente. Hermione poderia ter rido da pergunta se ao menos não estivesse se sentindo tão mal pelo o que acabara de fazer.
— Não — Respondeu, ainda evitando o olhar dele sobre ela — Rony e eu, nós... — se interrompeu novamente caindo num silêncio doloroso quando as memórias a invadiram. Desde que Draco chegara ali, Hermione havia se esforçado para impedir que suas lágrimas caíssem. Mas, ao falar do ex companheiro de time, ao pensar que acabara de beijar justamente uma das pessoas que Rony mais odiava, foi impossível evitar que o líquido quente e salgado rolasse por suas bochechas. Sentiu-se suja. Uma traidora.
E então, entendendo onde ela queria chegar, Draco sentiu o próprio corpo ficar tenso também.
Weasley.
Havia acontecido no casamento de Bill e Fleur, três anos atrás. Antes que precisassem fugir do ataque repentino, e depois entrassem numa luta com os Comensais, Rony e Hermione conseguiram um momento a sós. Certamente não fora planejado, como Hermione imaginou que seria. Foi rápido, mais dolorido do que ela esperava, e eles tiveram pouco tempo para pensar no assunto depois e muito menos discutir sobre ele. Mas parte de si acreditava que depois daquilo, sua relação com Rony começou a se deteriorar.
Os ciúmes se tornaram mais constantes, bem como seus impulsos para protege-la. Embora entendesse as razões de Rony, tendo em vista que o relacionamento entre os dois estava, de fato, mudado e que eles deixaram de ser apenas amigos para se tornar algo a mais, não podia negar para si mesma que sobraram resquícios de arrependimento. Talvez se eles tivessem esperado um pouco mais antes de dar um passo tão grande, as coisas teriam sido diferentes.
Mas a situação não era muito diferente do que agora. Havia o sentimento de que poderia ser a última vez, que nunca tivessem a mesma chance de ficar juntos novamente e então, ela se deixou levar pelo momento. Pelos sentimentos que vinha cultivando por Rony durante todos os anos daquela amizade turbulenta entre os dois. Até que chegou aquela fatídica noite, onde num acesso de ciúmes, enquanto acusava a ela e a Harry de estarem num relacionamento pelas suas costas, Rony saiu e nunca mais voltou. Havia sido, de fato, a última vez.
Ao escuta-la falar do Weasley, a conversa que tivera com Snape retornou às memórias de Draco. Com amargura, pensou que havia muito mais em comum entre ele e o antigo professor do que jamais poderia ter imaginado. Prontamente, ele se afastou de Hermione, acatando o pedido.
Mas foi impossível que desviasse o olhar da imagem dela parada em sua frente, com os cabelos bagunçados, os lábios marcados e avermelhados e com o sutiã relativamente folgado no corpo, com uma das alças caída no ombro. Seu corpo reagiu por instinto imediatamente.
A pouca luz presente no cômodo permitiu que ele reparasse em algumas marcas no corpo dela, que ele supôs pertencerem a algum feitiço. Sentiu vontade de pergunta-la o que aconteceu. Havia tantas coisas sobre Hermione que ele ainda não sabia e que desejava saber. Contudo, tinha plena consciência de que o que acabara de acontecer havia anulado todas as possibilidades.
Quando ela levantou o rosto novamente, a expressão que ele encontrou fez uma parte de si desmoronar por dentro. Hermione o olhava com uma tristeza que Draco desconhecia, talvez porque ela fosse realmente boa em esconder, mas agora, da mesma forma que estivera enquanto o beijava, ela estava transbordando. E as lágrimas já rolavam desinibidas pelo seu rosto.
— Eu tenho que ir — anunciou enquanto se movia para pegar sua blusa que se encontrava atirada no chão, próxima a seus pés, e vesti-la novamente.
Draco sentiu algo dentro de si se apertar. Precisava dize-la alguma coisa, qualquer coisa. Hermione estava mesmo certa quando o chamou de covarde. E ele soube que era quando tudo que conseguia pensar era na menção que ela fizera a Rony. Por mais que tentasse desviar o foco tudo que conseguia pensar era no quanto ela ainda desejava e sentia falta do Weasley. Estava estampado em seu rosto o arrependimento por tê-lo beijado.
Se fosse capaz de deixar esses sentimentos de lado, ele cederia ao impulso de caminhar até ela e abraça-la, como Hermione havia feito com ele quando ele mais precisou. Mas seu corpo parecia ter congelado. Não era a ele quem Hermione queria.
Covarde, a voz dela ecoou novamente. Covarde!
— Me desculpe por ter... te deixado — ele disse por fim, incerto sobre como deveria prosseguir com o diálogo.
A garota apenas a levantou uma das mãos até o rosto para de secar as lágrimas, com a manga da blusa a fim de se recompor. Havia um olhar de compreensão no rosto dela mas ela não esforçou para dizer mais nada antes de desaparatar, deixando-o sozinho.
Draco se limitou a observa-la desaparecer de seu campo de visão e, em seguida, seus olhos correram para a espada de Gryffindor esquecida em um canto qualquer, cuja ele deveria ter entregue à Hermione naquela noite. Tomado pelo cansaço, deixou que seu corpo desabasse no sofá mais próximo que encontrou. Na medida que a tensão em seu corpo diminuía, Draco se permitiu pensar na textura dos lábios de Hermione contra os seus enquanto adormecia no silêncio de seu apartamento.
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