Efêmero
3 Capítulo II: Sozinhos
Notas iniciais
Capítulo II: Sozinhos
Escrito por: Wenky (Andréia)
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— Lumos! — a voz de Hermione ecoou pela floresta ao mesmo tempo em que sua varinha acendeu, clareando o local ao redor e permitindo que ela finalmente conseguisse enxergar alguma coisa em meio a completa escuridão em que se encontravam.
Rapidamente teve sua atenção capturada por uma coloração avermelhada que a neve assumia no chão logo ao seu lado, onde Draco dizia alguma coisa entredentes que ela não conseguiu decifrar e segurava a sua mão ensanguentada com a outra.
— Ah, não! — Hermione exclamou ao perceber o que acontecera, Draco havia estruchado durante a aparatação — Me deixa ver isso — disse se aproximando do rapaz, mas ele afastou a mão antes que ela pudesse puxá-la para perto de si e analisar o estrago.
— O que você estava pensando, Granger? — ele retrucou logo em seguida, sua voz era para ter assumido um tom alterado, tal como estava seu estado de nervosismo naquele momento. Contudo, em função da dor que a perda de parte da sua mão lhe causou, as palavras saíram de forma esganiçada, com dificuldade, e a voz assumira um tom instável — Se você fizesse uma melhor aparatação acompanhada isso não teria acontecido, ugh — fez uma careta de dor ao completar a frase, enquanto tentava identificar melhor o que havia de fato acontecido sob à luz da varinha de Hermione.
A garota o encarou, as sobrancelhas franzidas. Quando Draco se virou para encará-la também, por alguns segundos ignorando a dor latejante que o corte em sua mão lhe causara, ele se deu conta de que aquela era a primeira vez em dois anos que ele via Hermione Granger, afinal, o efeito da poção polissuco estava chegando ao fim.
Ela, por sua vez, tinha os cabelos castanhos bagunçados e cheios exatamente como ele se lembrava, talvez maiores no comprimento, ele não saberia dizer, e olhos de mesma cor que o fitavam desafiadores. Exatamente como ele se lembrava, concluiu irritado, da mesma forma que ela costumava o olhar quando estudavam juntos em Hogwarts e ele a provocava por um motivo qualquer.
No entanto, suas feições estavam mais pálidas do que o habitual, os olhos pareciam fundos, como se ela estivesse dormindo menos do que o esperado. Draco supôs que teve aquela impressão em função da escuridão que os cercava e por ela estar segurando sua varinha entre eles, a única fonte de luz do local, e que isso fizesse sombra no rosto da garota. De qualquer forma, ele concluiu que não era hora e nem momento para estar observando Hermione, no entanto, revê-la lhe causou um súbito e estranho sentimento de nostalgia.
Sua vida estava realmente miserável para até mesmo ela o fazer sentir falta do passado, de quando as coisas eram melhores, de quando ser Draco Malfoy era motivo de deixa-lo orgulhoso.
— Não, se você não tivesse demorado tanto isso não teria acontecido – Hermione ralhou — Agora me deixa ver isso, eu devo ter um frasco com um pouco de essência de Ditmno aqui e acho que vai servir — disse puxando sua bolsa para perto da claridade.
— Não! — Draco a interrompeu, ainda apertando o ferimento — Eu não preciso da sua ajuda, Granger — completou carrancudo, mas sua expressão de dor provavelmente foi mais aparente do que o desprezo que pretendeu demonstrar. E certamente o havia traído, pois deixava bem claro que ele precisava da ajuda dela.
— Ótimo — Hermione, porém, desdenhou, se afastando dele. Se Draco achava melhor não ser ajudado, para ela pouco importava. Mais cedo ou mais tarde ele teria que ceder — Vamos achar um lugar para acampar, ainda não finalizamos nossa conversa. E preste atenção caso aconteça algo fora do normal, aparentemente, estamos sendo vigiados — e se virou de costas carregando sua varinha consigo, deixando Draco para trás no escuro.
— Ei, Granger! Volta aqui — ela o ignorou, se afastando ainda mais — Granger! — tentou novamente.
Merda!
Draco a encarou com um olhar transtornado antes de pragueja-la dizendo algo para si mesmo enquanto tentava com a mão que não estava machucada encontrar a varinha em um de seus bolsos, o que se mostrava uma tarefa quase impossível naquela escuridão.
Hermione, que seguiu andando e inspecionando o local, agia como se ele não estivesse ali, de forma que ele duvidava que ela tivesse ideia da maneira raivosa com que ele a encarava agora. Mas como gostaria que ela se virasse e visse seu rosto, ele provavelmente estava a detestando naquele momento mais do que jamais se lembrara de ter feito em sua toda vida. Mais do que quando ela se atreveu a bater nele por causa daquele maldito do Hagrid, ainda no terceiro ano de ambos em Hogwarts.
Como se já não fosse ruim o bastante ter seu orgulho pisado durante todo aquele tempo, ter de se rebaixar para Hermione se mostrou um verdadeiro pesadelo. E, como se não bastasse, ela mais parecia estar apreciando aquilo com um prazer sádico.
Quanto a ele, embora estivesse naquela situação, não queria admitir que precisava da ajuda dela, precisava dela. E a pior parte disso era que estava ficando difícil manter sua sanidade com a dor tomando toda sua concentração, invadindo sua mente.
— Você vem ou não? — Hermione se virou certa de que àquela distância não conseguiria enxergar Draco mais do que ele conseguia enxerga-la, mas sabia perfeitamente que ele podia ouvi-la, e aquilo lhe causou alguma forma estranha de diversão.
A mania de superioridade do rapaz e a forma como insistia em olhá-la, como se ela tivesse algum tipo de anomalia, havia alcançado o limite de sua paciência. Ela bem sabia que aquelas atitudes em muito se deviam aos preconceitos que ele cultivava por ela ter nascido trouxa, ao contrário dele, que vinha de uma família tradicional de bruxos, de uma linhagem pura. Hermione, porém, não iria tolerar aquilo enquanto tivessem que trabalhar em conjunto. Até mesmo porque, fora ele quem decidira procurar a Ordem.
Depois de ter providenciado certa distância entre os dois, Hermione parou, houve um silêncio até que ela conseguisse identificar os sons dos passos desorientados do rapaz em sua direção. Em seguida, pôde perceber que ele se aproximava um pouco cambaleante, com a varinha acesa e a outra mão pingando sangue com certa intensidade e manchando a neve abaixo de si, deixando um rastro.
A garota se apressou para lançar um feitiço, visando esconder aquilo. Se alguém de fato tivesse enviado aqueles dementadores, assim como ela suspeitava, não poderia deixar pistas e muito menos a guarda baixa.
Então, logo que retirou a barraca de camping de sua bolsa de contas e a montou apropriadamente, tratou de lançar outros feitiços ao redor de maneira que impedisse que eles fossem vistos ou ouvidos.
Pensando com clareza agora, ela percebia que aquela se tratava de uma oportunidade um tanto quanto única. Muito embora a situação fosse das mais desagradáveis, e ela soubesse que não poderia voltar ao encontro de Harry até que tivesse certeza de que não estava sendo espionada, era a brecha que estava buscando para descobrir se poderia ou não confiar em Malfoy, se ele estava ou não os enganando. A princípio, ele parecia não saber nada sobre o ataque que sofreram, o que ela julgou ser um bom sinal.
Acomodando-se em um dos bancos que fazia parte da mobília da barraca, Hermione voltou a encarar sua desagradável companhia. Teria que admitir para si mesma que o estado da Draco havia lhe rendido uma ponta de preocupação, ele tinha uma aparência terrível agora, além de estar perdendo muito sangue.
Se ele pelo menos não fosse tão teimoso e orgulhoso e tivesse aceitado sua ajuda, sua situação estaria infinitamente melhor agora, e, convencida disso, Hermione decidiu deixar a preocupação que se formava em sua mente de lado.
Olhando-o sobre a iluminação da barraca, finalmente tomou consciência de que ele voltara à sua aparência normal e também se deu conta que o mesmo havia acontecido com ela assim que passou uma das mãos por seus cabelos cheios.
Enfim, o efeito da poção chegara ao fim. Mas ela não achou exatamente necessário retomar a aparência da trouxa de antes pois, a princípio, eram só os dois ali. Sentiu uma estranha familiaridade ao ver pela primeira vez seu antigo colega de escola depois de dois anos, Draco aparentava estar mais desleixado do que ela se lembrava, os cabelos loiros estavam bagunçados e maiores e o rosto mais pálido, abatido.
Embora dentre seus colegas de escola ele não fosse a pessoa que ela mais desejasse ver, ainda assim, era como se uma parte de seu passado permanecesse ao passo que todo resto desaparecia.
Teve também a triste sensação de que os anos foram cruéis para todos, no fim das contas, até mesmo para ele. Em meio a um suspiro pesaroso, Hermione retomou o assunto.
— Então, o que eu estava dizendo... como vamos saber se você é digno de confiança? — disse tentando assumir um tom indiferente a situação dele, o que se mostrou um pouco mais difícil agora que o via com clareza e era capaz de perceber a gravidade do ferimento.
Draco se acomodara em uma das poltronas, um pouco distante de Hermione e agora, já que não havia muito o que fazer, se esforçou para ignorar o estrago que ocorrera em sua mão.
Se Hermione planejara vencê-lo pelo cansaço, ele poderia concluir que ela estava conseguindo. Estava exausto.
— O que você quer ouvir, Granger? — ele começou, tinha um tom contrariado, mas sua voz já estava mais fraca do que o habitual — Acha mesmo que eu estaria aqui, no meio dessa floresta numa barraca dessas com você, a mão quase decepada — sua cabeça se faz menção para o machucado — a troco de nada?
Hermione ficou o olhando por alguns segundos e, de repente, sentiu uma curiosidade imensa por seu mais novo quase aliado. Desejou saber o que havia acontecido naqueles anos para leva-lo até ali, o que o impulsionara a buscar a Ordem e oferecer ajuda.
Estaria sua situação de fato tão desesperadora assim? Gostaria de perguntar, mas tinha quase certeza de que ele não a responderia.
— Você sabe que se ganharmos, se aquele-que-não-deve-ser-nomeado for derrotado, você não tem privilégio nenhum, não sabe?
Como se eu tivesse algum agora, Granger, pensou consigo mesmo. No entanto, Draco não disse nada. Somente assentiu em resposta. Hermione se levantou e pegou um velho frasco que estava por ali durante algum tempo, ela supôs, junto de dois copos de vidro e serviu os dois.
— Beba — disse, entregando-lhe o líquido. Draco a encarou desconfiado.
— O que é isso? Bebida de trouxa? — disse dando ênfase a sua desaprovação e pegando o copo com a mão sã.
— Não faço a menor ideia — Hermione deu de ombros — Não importa, eu preciso de uma bebida e você também — completou antes de voltar a se sentar.
— Tem o gosto tão ruim quanto — disse ao beber um gole, e então se calou rapidamente ao se dar conta do que havia dito, mas aparentemente era tarde demais. Hermione logo se virou em direção a ele, tinha uma expressão confusa no rosto.
— Desde quando você tem contato com coisas relacionadas a trouxas?
Ele fez uma carranca.
— Desde nunca — mentiu — Ouvi dizer que é horrível, como tudo que é relacionado a eles.
E, no momento seguinte, a garota riu. Estava tendo uma terrível impressão que ficar sozinha ali com Draco não estava lhe fazendo bem, mas talvez fosse em partes culpa daquela porcaria que ela serviu aos dois.
Tanto faz, pensou, e ele era tão patético com seus preconceitos que chegava a ser cômico. Ademais, ela começou a ter a impressão de que ele havia perdido de vez toda a classe que uma vez tivera em Hogwarts e sua aparência naquele momento só vinha a confirmar a ideia.
— É, realmente terrível — concordou e largou o copo de lado, desistindo da ideia. Considerava aquele um hábito terrível, tanto para bruxos quanto para trouxas, e vindo dela, deu-lhe a impressão de que estava começando a decair mais do que deveria em seu próprio conceito.
Mas Draco aparentemente deixou de se importar e depois de alguns goles começou a se sentir anestesiado, agora era como se a dor que latejava em sua mão tivesse lhe confundido os sentidos a ponto que ele pensou que estivesse delirando quando Hermione começou a falar novamente.
— Eu acho que essa coisa toda já foi longe demais — começou — Não vou mentir, precisamos de ajuda, porque senão... eu não sei se vamos ser capazes de... — ela parou de falar quando se deu conta de que ele a olhava atentamente, sua cabeça havia tombado de lado, encostada na poltrona.
— Está perdendo as esperanças, Granger? Achei que vocês da Grifinória prezassem mais coisas como coragem — assumiu um tom de sarcasmo.
— Não — ela respondeu rapidamente — Estou apenas cansada de perder pessoas — pausou, interrompendo sua reflexão — Toda essa perseguição aos trouxas e aos bruxos nascidos trouxas já foi longe demais, acredito que você também deva concordar com isso ou... ou não estaria aqui — completou, o encarando firmemente. Era estranho começar aquele tipo de conversa com ele, dava-lhe a impressão de que estava tentando convencer a si mesma da decisão que estava prestes a tomar.
Sendo assim, decidira, para reafirmar o que estava fazendo, olhá-lo nos olhos, de maneira que conseguisse buscar qualquer sombra de fingimento na íris azulada dele. Mas aparentemente não havia nada, ele tinha um olhar quase tão vazio quanto o dela.
— Está confiando em mim, então?
— Estou te dando uma chance — ponderou — Não faça com que eu me arrependa disso.
Ele se calou, e concluiu que estava para começar a parte mais delicada de seu plano. Por alguns instantes, sentiu algo gelar dentro de si, ele havia se esforçado para ter uma resposta positiva dela, mas e agora? Por onde começaria?
Sentiu uma sensação de desespero se apoderar de si, e se perguntou se Snape também se sentira daquela forma quando assumiu o cargo. Talvez ele não tivesse tomado dimensão do que estava prestes a fazer até o presente momento. Talvez o que o impulsionara até ali estivesse perdendo forças.
Tarde demais, algo no fundo da sua mente o lembrou.
— E você? Vai aceitar minha ajuda agora? — a garota perguntou quebrando o silêncio e fazendo menção à mão de Draco. Talvez fosse a hora de uma atitude mais amigável, enfim, mesmo que soubesse que provavelmente se arrependeria segundos depois. A expressão de dor antes evidente no rosto do rapaz agora parecia ter se dissipado, substituída por outra de exaustão.
— Seja rápida, Granger — disse se endireitando na poltrona quando ela se aproximou. Havia uma parte de si que ainda se recusava a deixar que Hermione chegasse perto, que o tocasse, em partes porque ela era uma sangue-ruim, mas não era só isso.
Aceitar ajuda dela soava como um último golpe em seu orgulho, e ele estava se esforçando ao máximo para evitar que isso acontecesse nos últimos anos, para manter um pouco de dignidade. Mas estava exausto demais para recusar mais uma vez e simplesmente não poderia aparecer no Ministério naquele estado.
Hermione dirigiu um olhar de esguelha para ele antes de analisar o ferimento, seus dedos seguraram-lhe pelo pulso de maneira a puxar para perto de si o que sobrara da mão de Draco.
Por alguns instantes, ela se admirou com a teimosia dele. O estado de sua mão estava um tanto quanto deplorável, o sangue ainda escorria, porém, em menor quantidade pois não havia sido de todo coagulado, e a pele que sobrou estava pendurada. Pareceu-lhe ridículo que ele tivesse feito tanto esforço para recusar ajuda somente porque ela era quem estava oferecendo.
A tirar por aquela situação, porém, Hermione só poderia concluir que aquela parceria era tudo menos promissora, mas sentiu-se satisfeita por estar dando o primeiro passo. Em seguida, apressou-se para pegar sua bolsa de contas, procurando o pequeno frasco conhecido que carregava ali há algum tempo.
— Vai doer um pouco — anunciou, e Draco soltou um gemido de dor depois dela pingar três gotas da essência curativa no ferimento, que logo exalou uma fumaça esverdeada no ar, fazendo com que o sangramento estancasse de vez e o machucado começasse a cicatrizar.
Draco a olhou rapidamente antes de puxar o braço de volta, de maneira que os dedos dela se soltassem de seu pulso antes capturado, e depois seus olhos se voltaram para o que restou do ferimento.
— Parece... razoável — disse entredentes analisando a pele nova que se estendeu sobre a carne antes exposta imediatamente, o resultado estava de fato tão bom que ele poderia jurar que a própria Madame Pomfrey havia sido responsável pelo preparo da poção. Mas aquilo era algo que ele nunca diria a ela.
Já bastava ter que admitir a genialidade de Hermione para si mesmo, fazê-lo aquilo em voz alta era fora de cogitação.
— Parece ótimo, de nada. Eu mesma preparei a poção — retrucou — Agora toma isso — colocou nas mãos do rapaz a conhecida moeda encantada que uma vez usou para marcar os encontros da Armada Dumbledore, era curioso entregar aquilo a Draco Malfoy, considerando que ele fora um dos responsáveis por denunciar os encontros secretos a Umbridge.
— Para que serve isso?
— Quando precisarmos nos encontrar vamos marcar o horário por aqui — ela explicou.
— E onde exatamente vamos nos encontrar?
— Largo Grimmauld, número doze — informou, fazendo Draco cerrar as sobrancelhas — Você me avisa caso tenha alguma novidade ou caso precise discutir algum assunto, e vice e versa.
— E essa não era a antiga casa dos Black? Como vocês conseguiram ter acesso a ela? — perguntou num tom se misturava a curiosidade a certo grau de desdém. Ele se lembrava vagamente de ter estado no local quando ainda era criança, era uma casa muito luxuosa e pareceu-lhe absurdo que alguém como Hermione tivesse acesso a ela.
— Era, Sirius a deixou para Harry — Hermione disse antes de se afastar da poltrona em que Draco estava sentado — Você deveria dormir um pouco — acrescentou.
— Estou bem, Granger — ele rebateu, mas bastou alguns minutos de silêncio para que se rendesse ao cansaço. Caiu então num sono sem sonhos, se acomodando de qualquer jeito na pequena poltrona.
Com o passar das horas, Hermione, porém, se manteve em alerta, sempre aguçando sua audição para qualquer movimento suspeito ao redor da barraca, mas nada pareceu lhe chamar a atenção. Exceto, depois de algum tempo, o canto de alguns passarinhos que vinham anunciar a aurora de mais um dia frio de inverno na floresta. Espiou do lado de fora para ter mais certeza e enfim concluiu que provavelmente não apareceria ninguém por ali atrás deles. Não naquele dia.
Quem quer que tivesse enviado os dementadores adiara o ataque para outro momento. Assim, colocou o incidente de lado em sua mente, de maneira a não se preocupar com aquilo no momento.
— Acho que podemos ir, já está amanhecendo — disse ao retornar, Draco logo abriu os olhos relativamente aturdido e fez menção para se levantar e sair da barraca e, antes mesmo que Hermione pudesse acrescentar mais alguma coisa ao combinado dos dois, ele já havia desaparatado.
Aparentemente, seu orgulho havia tomado um golpe mais forte do que ele esperava naquele dia, o que curiosamente a concedeu certa satisfação. Uma pequena sensação prazerosa em meio ao caos, ainda que por um motivo como aquele, lhe pareceu bem vinda até.
Percebeu em seguida que estava sendo completamente idiota por alimentar aquele tipo de pensamento, mas ela também deveria assumir que havia muita pouca coisa para a divertir em tempos como aquele, nem mesmo os livros tinham a mesma graça de antes. Ter se tornado fugitiva, ter de viver se escondendo por tanto tempo não havia gerado resultados positivos em seu estado mental, e aquela era uma das provas disso. Além disso, aquela breve aproximação que tiveram também lhe trouxe novas impressões acerca de Draco.
Num suspiro pesaroso, tratou de desarmar a barraca e recoloca-la na pequena bolsa de contas, desfez os feitiços ao redor do acampamento e se voltou para o amanhecer gélido que parecia inundar toda a floresta. Quando chegou ali, ainda de noite e sob o efeito da adrenalina que a fuga dos dementadores lhe causou e com a pior companhia que poderia ter no mundo, Hermione não pôde observar a paisagem ao seu redor.
Agora, nas primeiras horas da manhã, com os primeiros raios de sol refletindo sobre as copas dos pinheiros, ela teve a oportunidade de admirar o local enquanto um vento gélido e agradável vinha de encontro ao seu rosto.
Desejou em seu íntimo que pudesse fazer aquilo mais vezes, sem aquela eterna sensação de perigo iminente, de que algo muito ruim pudesse acontecer caso ela deixasse a guarda baixa. Desejou não ter de manter-se alerta constantemente. Desejou ser livre.
No momento seguinte, porém, seus dedos correram para o medalhão que carregava no pescoço. As terríveis lembranças, então, a inundaram. Pensar naquilo gerava uma dor sufocante. Hermione carregava o objeto consigo o tempo todo, revezando com Harry às vezes.
Haviam passado dois anos desde que ela, Rony, e Harry o roubaram de Umbridge, quando juntos os três invadiram o Ministério da Magia a fim de pegar uma das Horcruxes, mas parecia que havia uma década desde então. Instantaneamente, teve nojo ao se lembrar mais uma vez que ali continha uma parte da alma de Voldemort.
O objeto, porém, nada mais era do que parte da coleção de fracassos que fora o plano de caça às Horcruxes. Afinal, depois de tanto tempo, eles ainda não faziam a menor ideia de como destruí-lo.
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