Efemeridade Planejada
1 O início, o meio, e o fim -
Era o caso perfeito. Ter um relacionamento programado. Conhecer uma pessoa e, ao invés de se apaixonar por ela, e fazer coisas realmente estúpidas e sem sentido, ficava decidido através duma conversa clara, sensata e absolutamente nada romântica, que iriam ficar juntos por um tempo pré-determinado.
Isso evitava a chateação que era ter de terminar com alguém e passar por uma cena; evitava toda e qualquer agonia, já que as pessoas andavam constantemente preocupadas com seus parceiros, fazendo perguntas sobre onde haviam passado a tarde, ou porque voltaram para casa no meio da madrugada, ou simplesmente porque havia um homem trancado no armário do banheiro, sendo que para todas as perguntas sempre surgia uma explicação extremamente banal e sem graça; evitava que um dos lados dissesse que amava o outro e o outro achasse que estava tudo muito bom... tudo muito bem... mas realmente... mas realmente, ele preferia que você dissesse isso depois, de preferência quando já tivesse rolado muita coisa que teoricamente provaria o que você tentou falar aquela primeira vez.
Tudo isso, como foi provado por uma experiência engraçadíssima envolvendo um peixe, um copo plástico, um relógio digital e um reator de fusão nuclear, era algo totalmente desnecessário, uma vez que a maioria dessas coisas que comprovariam o que foi dito anteriormente: a) nunca iriam acontecer de fato; ou b) o relacionamento acabaria muito antes que qualquer explicação sobre o assunto pudesse ser dada.
Enfim, era o caso perfeito. Ao menos, era o que Bob pensava. Conhecera Lara de maneira interessante, quase atropelou-a. Nada grave, um arranhão aqui, outro ali, e segundo o médico, uma fratura no mindinho.
Descobrira que ela viera de Helsínquia para ficar quinze dias. Conversaram por mais algum tempo, se acertaram sobre de quem foi a culpa do atropelamento, e decidiram que isso se resolveria normalmente, após tomarem uma cerveja num bar.
-Só tem chopp. – Disse o Barman.
-Desce dois. Desce mais.- Conversaram mais um pouco, se conheceram um pouco mais, e Bob pagou a conta.
Saíram do bar. Estava decidido, iriam passar os quinze dias juntos. Eles formavam um belo casal, um casal sensacional.
Eles se abraçavam apaixonadamente. Se beijavam apaixonadamente. Conversavam apaixonadamente. Fizeram, obviamente, outras coisas, que o autor não tem a menor intenção de descrever, apaixonadamente.
Certa vez foram num parque ver o pôr-do-sol. Estavam de mãos dadas, sentados debaixo de uma árvore.
O ar estava perfumado. O céu estava límpido. O sol parecia uma enorme bola de fogo, o que de fato é, pintando o cenário com um efeito até hoje nunca reproduzido pelo homem. Não que eles não tenham tentado, mas Deus em sua infinita sabedoria não iria revelar todos seus segredos assim tão fácil.
Tudo estava muito lindo. Ora, não vamos medir palavras, estava inefavelmente maravilhoso, estupidamente espetacular, inegligentemente...bom, já deu pra ter uma idéia.
\"Ótimo\", pensaram ao mesmo tempo, \"só faltava uma trilha sonora bem romântica agora\". Um homem tocando gaita de foles apareceu de trás de uma árvore e começou a ensaiar ali perto. Calmamente Bob levantou- se, foi até o homem da gaita, deu- lhe algumas moedas e tudo ficou resolvido, voltou e sentou- se novamente. Outra música começou a tocar. \"Dire Straits... agora sim !\". Lara aproximou- se e disse :
- Amanhã é o último dia.
Afinal, tudo estava muito bom para ser verdade.
Notas finais
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