Efeito Dominó
25 Gardênias
Tudo parecia diferente e Regina não estava familiarizada. Stuart havia acabado de voltar mas havia algo de errado. Ele estava diferente com ela e apesar da sua insistência, ele não dissera nada. Apenas sorriu, e ela observou os olhos azuis com resignação. Ela não conseguiria nada com ele.
Muito menos com Robin. Frank havia realmente voltado para casa e parecia profundamente interessado em sua rotina; e ela sabia que não era disso que se tratava, mas ela ainda não entendia qual era o jogo dele. A cada evento, a cada reunião, lá estava ele — prestando atenção e observando-a silenciosamente. À primeira instância ela pensou que ele havia descoberto a traição mas suas demonstrações de interesse e de atração lhe provaram o contrário. Ela não fazia ideia nenhuma do que estava acontecendo.
A única coisa que ela sabia era que a tensão entre ela e o segurança tornou-se ainda mais densa. Olhares viajavam pelos cômodos da mansão; e eles se encaravam, e Robin a despia com os olhos para o deleite dela. Mas nem tudo eram flores. O loiro também observava atentamente a maneira com que Frank a tocava, a segurava e a beijava e era bastante óbvio que ele não era um fã das demonstrações de afeto do casal. Eles estavam tomando café na varanda da suíte quando Robin entrou. Pôde sentir o olhar incrivelmente rápido que ele lançou sobre seu corpo, envolto em um robe de cetim lilás, mas ele fora bastante rápido em alinhar sua postura e encarar Frank.
“Senhor.” Cumprimentou ele, a voz séria e profissional. Regina forçou-se a fixar os olhos na mesa, bloqueando as lembranças dele entre as suas pernas.
“Precisarei de você no final de semana. Vamos viajar para o México; tenho uma reunião importante.”
Robin assentiu. Viagens eram eventos raros para ele pois Frank preferia viajar sozinho.
“Ok.”
Regina observou o marido por alguns instantes. “Diga à Stuart que precisaremos dele também.” Completou ela, chamando a atenção dos dois homens. Robin encarou-a como se fosse arrancar aquele robe ali mesmo. Frank manteve um olhar compenetrado e uma expressão suave direcionados à ela.
“O que?” Questionou ela. “Não estou convidada?”
“É claro que está, baby. Só não achei que tivesse interesse em ir.” Ele respondeu, inclinando-se; a mão direita escorregando para a sua nuca e os lábios capturando os seus em um beijo suave. Regina afastou-se algum tempo depois, incapaz de olhar nos olhos do segurança; Frank sorriu para ele. “Hood, ajeite as coisas e avise o garoto. Sairemos na noite de sexta feira.”
“Existe mais alguma coisa em que posso ser útil?”
“Está dispensado, Hood.” Comentou o homem na camisa social branca, e observou-o sair. Segundos depois virou-se para o lado e puxou a cadeira dela, aproximando-a. Tombou a cabeça e Regina suspirou ao sentir os lábios quentes sobre a pele do seu pescoço; ele brincou com a textura da superfície,acariciando-a lentamente com a sua barba.
“Frank.” Chamou ela, tentando desvencilhar-se mas os dedos dele estavam deslizando por sua coxa, apertando-a preguiçosamente. “Você vai me atrasar.”
“Desde quando você se importa com horários?” Sussurrou ele diretamente contra a sua orelha, mordendo o lóbulo em seguida e puxando-o com os lábios molhados.
“Desde quando eu deixei de ser chefe.” Respondeu ela e ele respirou fundo, afastando-se. Regina esperava por um Frank bufante e estarrecido que sairia pisando duro mas ele simplesmente sorriu para ela, antes de alcançar a jarra de vidro. “Você quer mais suco?”
“Sim.” Respondeu, atônita com a reação dele. Ele preencheu seu copo, estudando seu rosto enquanto o líquido escorria de um local para outro. “Eu posso fazer uma pergunta sem que você fique nervoso?”
Frank observou por algum tempo. Ele parecia calmo, mas havia certo brilho cauteloso no fundo de seus olhos. Depois de um período que pareceu extensivamente longo para ela, ele assentiu. “Sim, claro.”
“O que aconteceu com a estudante?”
Ele rapidamente fitou seus olhos, mas encontrou apenas um leve constrangimento e uma dúvida sincera. Pensou na pergunta, e se permitiu ponderar pela primeira vez no que havia acontecido. Ele a amava? Sim. Mas Laurel tinha a perspectiva de uma adolescente. Ele se envolvera demais com ela para aceitar que ela tivesse rompantes, beijando o protegido de Annalise sempre que tivesse vontade. Nenhuma mulher jamais brincara com ele e não seria ela a quebrar essa tradição. Há muito ele estava indiferente ao que sentia e quando ela, em um momento impensado, resolveu colocá-lo contra a parede — bem, era a oportunidade perfeita.
“Não existe mais ninguém.” Respondeu ele, e ela não acreditou nem por um segundo, mas concluiu que Laurel estava fora da jogada. Ela havia desejado tanto este momento; por que ele parecia tão amargo? Tão infeliz?
Ela não respondeu, apenas consentindo silenciosamente. Frank levantou-se e pediu licença para sair, afastando-se em seguida sob o seu olhar atento e focado. Voltou a beber o resto do seu suco e observou enquanto Stuart vinha em sua direção; a postura estava alinhada mas o rosto estava virado para os pés. Assim que chegou nas imediações da mesa ele a encarou. “Lockhood me passou o recado sobre a viagem. Existe algo em que possa auxiliar a senhora?”
Regina mordeu o lábio, incomodada com o excesso de profissionalismo dele. Seus olhos de repente pareciam mais úmidos que o normal. “Stuart, o que aconteceu com você?”
“Nada, Sra.”
“Eu odeio que me chame de senhora. Eu odeio que você me trate assim.”
“Não foi minha intenção desrespeitar você.”
“Pare com isso!” A voz dela soou um pouco mais alta, denunciando a mágoa e o desconforto ali presentes. “Nós não somos assim. Você desapareceu e depois voltou como se eu tivesse decepcionado você, e como se nós nunca tivéssemos sido nada mais do que contratante e contratado.”
“Você é a contratante e eu sou um contratado, Regina.” Respondeu ele; e amaldiçoou a si mesmo por isso. Regina não estava facilitando nada e ele não queria criar problemas, nem pra ela, nem pra ele, nem para Robin.
“Você é um amigo para mim, Stuart. O que eu sou para você não é problema meu mas você continua sendo tão importante para mim quanto um irmão mais novo.”
Stuart podia ver que ela estava combatendo firmemente as lágrimas que queriam escapar. Respirou fundo e deu mais um passo na direção da mesa. “Regina…” Ela ergueu o rosto e eles mantiveram contato visual. “Você precisa colaborar comigo. Eu estou tentando ser o mais profissional possível. Por favor.”
“Quem é que se importa com isso?” Resmungou ela, exasperada.
“Seu marido.” Respondeu ele.
Como um carro na contramão lançando o farol na direção oposta, a resposta dele iluminou seu semblante. Os lábios carnudos se entreabriram, e as palavras brincaram em sua mente mas não chegaram a ser proferidas. Ela os fechou novamente, e pensou novamente, lidando com as ramificações daquela resposta. “Então é isso? Ele está observando você?”
Stuart assentiu silenciosamente, balançando a cabeça para cima e para baixo.
“Stuart… É por isso que você se afastou de mim? Por que Frank está com ciúmes e quer você longe?” Ele gesticulou a confirmação, e ela forçou as pálpebras, fechando-as com força e engolindo sua decepção. Não entendia porque ela continuava depositando fé no comportamento do marido, sabendo que a decepção estaria logo atrás. Era óbvio que esse súbito interesse dele era proposital. Ela fora ingênua novamente em achar que o esforço dele era a favor dela. Não era, como sempre. Foi quando o pensamento óbvio cruzou sua mente. “Stuart… ele machucou você? Você realmente sofreu um acidente?”
Stuart sabia que essa pergunta aconteceria em algum momento e ele sabia que dizer a verdade a colocaria em risco. Então ele mentiu. Desempenhou o melhor papel que pôde e sorriu, abrindo os lábios de modo reconfortante. “Eu caí mesmo, foi uma irresponsabilidade minha andando de moto.”
Ela suspirou aliviada e sorriu para ele em seguida e Stuart não pode evitar a sensação de ter sua alma partida em dois. “Parabéns pelo namoro. Eu sempre soube que em algum momento essa garota ia perceber o que ela estava perdendo.” Continuou ela, sorrindo alegremente.
“Como você soube?” Questionou ele, mas assim que ela ergueu as sobrancelhas sinalizando que era óbvio, ele caiu em si. Robin.
“Vocês ainda…”
Ela balançou a cabeça, confirmando.
“Já faz algum tempo.” Comentou ele, e a breve observação a acertou em cheio.
“O que isso quer dizer?”
“Nada.” Respondeu ele, rápido demais e isso não passou despercebido por ela. Respirando fundo, ele continuou. “Achei que a esse ponto vocês já teriam se afastado ou avançado.” Ela permaneceu quieta, digerindo as palavras dele. Um silêncio constrangedor os abraçou e ele limpou a garganta ruidosamente. “E-Eu não quis me intrometer. É melhor eu voltar ao trabalho.”
O rosto dele ganhou um tom rosa e Regina sentiu-se tocada pela timidez repentina. Ela sorriu, suprimindo a gargalhada que formou-se na sua garganta e o liberou. “Pode ir, Stuart.”
Ela o observou se afastar com um sorriso nos lábios até as palavras dele retornarem para a sua mente. Achei que a esse ponto vocês já teriam se afastado ou avançado. A ideia de afastar-se dele sequer havia passado em sua mente. Mas ela estava pronta para avançar? E avançar para onde?
***
“Eu acho que você deveria namorar com o meu papa.”
Megan arregalou os olhos, sua atenção focando-se totalmente nos pequenos olhos amendoados de Roland. “Roland, esse é um assunto muito sério. Você não deve brincar com isso.”
“Eu não tô brincando.” Disse ele, os cachos brilhosos e escuros caindo nas laterais do rosto delicado. “Você pode ser. Eu deixo. Eu até fecho os olhos quando vocês beijarem.”
A ruiva riu, encantada pela fofura do garoto. Por mais tentadora que aquela realidade fosse, ela não depositava suas esperanças nisto. Robin era veemente ao enfatizar que a amizade dela era muito mais importante e que ele não faria nada que arriscasse isso.
“Obrigada por me aceitar mas acho que essa é uma decisão para o seu pai.”
“Você gosta dele?”
Ela voltou a encarar os olhos doces que a assistiam com toda a curiosidade do mundo. “Claro que gosto. Somos amigos.”
O jovem garoto pôs a língua para fora e franziu o cenho, formando uma careta adorável. “Mas amigos podem namorar?”
“Podem, se eles quiserem.” Ela respirou fundo e sorriu. “Por que você está preocupado com isso?”
“As vezes eu acho meu papa muito sozinho. Eu queria que ele tivesse uma namorada. O pai do Neal tem uma namorada nova e ele disse que o pai dele ficou mais legal depois que começou a namorar com ela.”
Ela sentiu-se ligeiramente culpada por achar que aquele assunto era sobre ela. Tratava-se de Roland sentindo a falta do pai. Tratava-se dele achando que Robin seria um pai melhor se tivesse uma namorada. Ela precisava conversar com ele o mais rápido possível.
“Você acha que seu pai vai ficar mais legal se tiver uma namorada?”
Roland colocou as peças no chão, empurrando-as para longe e ela entendeu que o jogo havia acabado. “Meu papa já é legal.”
“Certo.” Concluiu ela. “Que tal um filme agora?”
“Robin Hood!!!” Gritou o garoto, rindo docemente logo em seguida. Ele a ajudou a recolher as peças do jogo, arremessando-as para dentro da caixa e correndo para o quarto. Ela recolheu a caixa e colocou-a no canto da sala. Segundos depois, ele estava de volta com um caderno e um lápis nas mãos. Ela sentou-se sobre o sofá e sorriu quando Roland deitou a cabeça sobre a sua coxa; deslizou a mão e começou a acariciar os cabelos macios.
Mas ele não estava necessariamente assistindo todo o filme. Roland dividia sua atenção entre algumas cenas e seu caderno, rabiscando os desenhos de árvores e florestas cheias de plantas exóticas. Ela pensou na última vez em que estivera naquele sofá, deitada nos braços de Robin e odiou-se por continuar se iludindo.
Roland virou algumas páginas e ela prestou atenção em algo. “O que é isso?” Questionou ela, e o garoto inclinou-se para entender o que ela apontava.
“Ah é uma coisa minha e do meu papa.”
“Tudo bem.” Respondeu ela, sem forçar nada. Conhecia Roland muito bem e sabia que ele só se abriria se estivesse à vontade, caso contrário ele poderia ser irredutível.
“Você pode ver se quiser.” Completou ele e estendeu o caderno. Megan o pegou, a letra redonda e trêmula trazendo um sorriso aos seus lábios. Identificou o que parecia uma lista.
1. Cabelos iguais ao meu. Castanho escuro.
2. Sorriso lindo.
3. Olhos de cor de chocolate.
4. Linda
“Parece ser uma pessoa linda.”
“Ela é.” Respondeu o garoto, sorrindo.
Megan sentiu um leve torpor, a sensação amarga e crepitante do ciúmes fazendo-se presente em seu sistema. “Ah, você conhece essa pessoa?”
“Eu achava que sim mas meu papa disse que não. Na verdade acho que essa namorada dele não existe, mas não conta para ele que eu disse.”
Megan riu. “Então quem você conheceu?”
“Aquela moça para quem meu papa trabalha. Gina.” Os olhos dela abriram mais, subitamente. “Ela veio aqui um dia, com um cara legal que disse que trabalha com o meu pai. Eu achei que ela fosse a namorada do papai, por que não é verdade que ela parece com essa lista?” Ele deu de ombros, ignorando o olhar de choque no rosto de sua babá. “Mas ele disse que não. Que é outra pessoa.”
Megan fitou a lista novamente, sua garganta diminuindo a entrada de ar até que sua respiração ficou rarefeita. “E você gostou dela? Vocês conversaram?”
“Conversei um pouquinho, mas fiquei com vergonha. Ela era linda.” Sorriu ele com sua adorável inocência. “Ela conversou com meu papa na cozinha e o amigo dela assistiu filme comigo. Depois ela foi embora.”
A ruiva engoliu em seco aquelas informações, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. A mera hipótese que formou-se na sua mente embrulhou seu estômago. Robin não era imbecil o suficiente para se envolver com Regina Delfino, era? Ela esperava que não. Torcia para que não. Principalmente porque além de ser o maior erro da vida dele, ela sabia que com essa concorrência, ela estava fadada ao fracasso.
***
Zelena podia sentir o cheiro de comida vagando para dentro de seu escritório e sorriu. Madame Mae estava cozinhando novamente e a velha senhora cozinhava alegremente um pequeno banquete em todas as refeições — quase como se as duas não fossem as únicas a comer ali. Sabia que Mae tinha esperanças de que Regina apareceria em dia aleatório para comer com elas e não podia sentir-se mais solidária às ilusões de uma alma senil embora soubesse que isso não aconteceria nunca.
Clicou na seta vermelha no canto do site e uma nova página foi aberta. Seus olhos viajaram pelas fotos, analisando o perfil de cada um dos doadores. Havia rostos belíssimos, donos de uma genética deslumbrante. Sua atenção foi chamada por um rapaz loiro, de olhos azuis e cabelos dourados. O rosto era marcante, e ele tinha um lindo sorriso; o cadastro profissional indicava um QI maior do que o comum. Ele era um agente confederado de uma agência secreta do governo, e por questões de segurança eles não podiam especificar qual delas. David Nolan. Um nome marcante.
Pensou em quanto gostaria de uma segunda opinião no que estava planejando. Madame Mae a apoiaria em qualquer empreitada, ela sabia disso. Mas ainda assim, era uma decisão importante e naquele momento, a solidão arraigou-se em seu sistema como uma parasita em sua planta hospedeira. Era exatamente por essa razão que uma criança era tudo que ela mais almejava em sua vida. Sua vida lhe parecia muito sozinha e solitária, e esperar por um homem que tinha mais amantes do que pares de sapato não era promissor. Estava explícito que ela havia destruído a relação que tinha com sua mãe e irmã, e não lhe restavam muitas conexões. Ela queria uma relação pura, companheirismo, amor. Queria ter alguém a quem se dedicar. Alguém para quem pudesse direcionar o seu amor e atenção e esforços sem o medo intimidante de ser trocada ou substituída.
Poucas coisas em sua vida haviam sido tão reais e puras quanto o amor de seu pai, e ela buscava desesperadamente manter essa chama viva. Lembrou-se de uma manhã ensolarada e silenciosa em que Henry a levou para passear no Druid Hill Park. Apesar das reclamações constantes de Cora, ele sempre fazia um esforço para sair apenas com Zelena e dar a ela toda a atenção, sem a necessidade de se dividir entre ela e a irmã; essa atitude tornou a relação entre os três muito mais saudável, ao contrário da relação das garotas com a mãe. Muitas pessoas gostavam de ir correr pela manhã naquele parque, principalmente na beirada do lago. O verde das folhagens bem cuidadas criava uma atmosfera saudável, bancos de concreto bem desenhados que permitiam aos transeuntes admirar as nuances da natureza. Zelena fechou os olhos e sentiu-se resgatada pela sensação quente da mão dele segurando a sua e como aquilo, por alguns instantes, a fazia sentir-se segura e protegida. Sorriu com a lembrança, deixando a mente vaguear para esse momento. Papai, você me ama? Perguntou a pequenina Zelena, encarando o homem com dúvida nos olhos, quase como se temesse a resposta. Henry a encarou com um sorriso nos lábios, seu semblante transmitindo calma e sabedoria. É óbvio que eu amo você, little bear.
A lembrança do apelido dado por Henry fez com que a garganta dela se estreitasse mas ela manteve os olhos fechados e a cabeça encostada no suporte da cadeira onde estava sentada, incapaz de permitir que essa memória escapasse dela. Como você pode me amar se eu não sou sua filha? Henry a puxara para seu colo, e logo em seguida eles se sentaram em um dos bancos. Estavam de frente para a água serena e bucólica do lago, mas as atenções dele estavam todas nela, admirando-a como se ela fosse a criança mais linda que ele já vira. Zelena o encarou com incerteza, e de certa forma, medo. Ele bateu com a ponta do dedo sobre o nariz dela, fazendo-a sorrir.
Quem disse que você não é minha filha?
A mamãe contou para a gente. Ela disse que só a Regina é a sua filha de verdade. Henry balançou a cabeça negativamente. Virou-se para a garota e sorriu com doçura, acariciando seu rosto com amor. Pode ser que eu não seja o seu único pai, mas você com certeza é minha filha. Você e sua irmã são minhas filhas. Não existe mais filha e menos filha, vocês são e pronto. Ele se debruçou e beijou o topo da cabeça dela. E olha, você não perdeu nada demais. Já pensou se você tivesse nascido com o meu cabelo ou com os meus olhos?
Zelena riu, e ele a acompanhou. Você é muito mais bonita assim, com essas coisas que puxou do seu outro pai. E não importa o que sua mãe diga, eu amo você. Tanto quanto amo sua irmã.
A pequena criança o abraçou, apertando os braços ao redor dele e ele a embalou, apertando-a contra si. Zelena suspirou e seus olhos se encheram de lágrima lembrando o quanto Henry a havia feito sentir-se amada e querida naquele momento. Lembrou-se das palavras que proferiu contra o tecido da blusa dele. Promete que vai viver para sempre? E da maneira doce com que ele afagou seus cabelos, proporcionando-lhe conforto. Para sempre eu não posso prometer mas prometo que você vai me ver ficando cada vez mais velho e careca e feio.
Infelizmente, ele jamais cumpriria essa promessa. Zelena abriu os olhos e limpou algumas lágrimas do canto de seus olhos. Sua atenção voltou-se para a tela, embora sua mente ainda estivesse bailando ao redor das lembranças com Henry, como sua voz e seu toque, e o calor familiar de sua pele. Ela queria que seu futuro filho tivesse isso. Relações saudáveis. Aceitação. Apoio. Debruçou-se e alcançou o telefone, discando alguns números.
“Gostaria de falar com Elizabeth.”
Uma voz feminina a recepcionou segundos depois. “Sim?”
“Olá, Elizabeth. Eu estive na sua agência semana passada. Zelena Mills.”
“Ah sim! Como está?”
“Bem. Eu gostaria de fazer uma entrevista com um dos doadores.”
“A política da empresa não recomenda encontros fora do ambiente. O que posso fazer é ligar para o candidato e marcar um horário que seja razoável para ambos. Aqui.”
“Sem problemas. O nome é David Nolan. Referência 01534.”
“Ah sim, o David. Eu ligo para ele e depois retorno para você.”
Zelena confirmou e desligou o telefone. Segundos depois, Mae bateu na porta. “Menina Zelena, a comida está pronta.”
A ruiva não respondeu, então a pequena senhora caminhou para dentro do escritório. Ela usava um avental bordado com flores e os cabelos presos em um coque. Uma das mãos estava em sua cintura e ela franziu as sobrancelhas. “Você está precisando limpar esses ouvidos, mocinha. Ande, largue esse computador e vamos comer.”
Zelena sorriu, afastando-se da mesa e levantando. Aproximou-se de Mae e a abraçou com delicadeza. Elas caminharam lado a lado pelo corredor, até a ruiva quebrar o encanto do silêncio. “O que você acha de termos uma criança ruiva correndo por esses corredores, Mae?”
“Acho que já é hora.” Brincou a pequena senhora. A ausência de resposta fez com que a mesma segurasse no antebraço da ruiva, fazendo-a parar alguns passos antes de alcançarem a porta da sala de jantar. “Nós estamos esperando um bebê? Eu devo mudar a alimentação nessa casa? Meu Deus… Essa criança é do senhor Frank?”
A gargalhada de Zelena preencheu o ambiente. “Acalme-se. Eu só estou considerando a ideia e eu gosto da ideia de termos companhia. Mas por enquanto, não há nenhuma criança no interior dessa barriguinha…” Brincou ela, acariciando seu ventre com a palma aberta. “Só uma grande sensação de fome.”
Mae sorriu. “Nesse caso, continue andando. Tenho a solução exata para esse problema.”
***
Robin estava a caminho de casa quando recebeu a mensagem de Regina. Ela havia marcado de encontrá-lo no estacionamento atrás do condomínio onde este morava, no carro de Stuart. Fitou o relógio, e calculou que ir para casa era inviável. Teria que se explicar para Roland, e pior, para Megan. Decidiu então desacelerar.
Veio caminhando pela calçada, as mãos nos bolsos frontais do jeans. Era um encontro incomum mas ele já começara a sentir falta dela; a presença constante de Frank limitava qualquer interação entre eles. Aquele pensamento trouxe à tona suas divagações internas, como o súbito interesse do mesmo na esposa que há pouco tempo ele descaradamente ignorava. Ou nos mistérios por trás do falso acidente de Stuart. Algumas perguntas aqui e ali confirmaram o que ele já imaginava — Grant havia sido ameaçado e coagido.
Talvez essa fosse a natureza por trás das ações de Frank, mas ele sabia que não era só isso. Podia ver em cada toque, cada beijo, cada sorriso, que ele a queria. Frank a queria e isso o incomodava; e ele não tinha direito nenhum de sentir isso, não era o casamento dele. Balançou a cabeça e limpou a garganta. Sua atenção viajou para a vidraça à sua esquerda e ele avistou uma floricultura. Sem pensar muito, Robin empurrou a porta e um sino suave tocou acima de sua cabeça. Um senhor de cabelos brancos apareceu de trás de algumas caixas de madeira, portanto um sorriso gentil nos lábios. “Olá meu querido. Posso ajuda-lo?”
“Eu gostaria de dar flores a uma mulher.” Respondeu Robin, sentindo-se um pouco desajeitado.
“Ah, você veio ao local certo.” Disse o ancião, batendo as mãos sobre o avental e se aproximando. “Você conhece as preferências dela? Rosas são sempre bem queridas.”
“Eu não queria um buquê de rosas. É muito… não sei, clichê. Eu queria algo personalizado. Algo único.”
“Nesse caso, vamos optar pelo buquê especial. Você a descreve e eu seleciono as flores.”
Robin sorriu e concordou, acompanhando-o pela loja. “Ela é intensa. E teimosa. As vezes ela parece uma pequena criança, delicada e frágil, e até mesmo um pouco vulnerável.”
O velho senhor colocou algumas rosas vermelhas entre as acácias amarelas. Intercalou alguns ramos de lavanda, puxando algumas gardênias para o meio. Ele sorriu e gesticulou para que Robin continuasse. “As vezes ela é arrebatadora como um furacão. Feroz como um tubarão. Ela se impõe e brilha sobre as outras.”
Ele inseriu algumas unidades de sálvia azul. “E o sorriso dela é quente; brilhante. Os olhos tem suavidade, e parecem perfurar a nossa alma.”
O velho riu baixinho, chamando a atenção de Robin, que fez uma careta de preocupação. “Eu disse alguma coisa errada?”
Ele olhou nos olhos do outro homem, ansiedade desestabilizando seu sistema nervoso. “Fazia muito tempo que não via um homem tão apaixonado.” Respondeu o mesmo, fazendo com que Robin empalidecesse.
“Eu, eu não. Não estou…”
“Eu que peço desculpas por me intrometer, rapaz.” Ele puxou uma fita de cetim e amarrou uma fita vermelha ao redor dos caules, embrulhando em seguida a copa das flores com um papel de seda quase transparente. Ele pagou o valor declarado pelo senhor e guardou o cartão do mesmo no bolso e minutos depois ele estava na rua novamente.
Mas sua mente parecia estar perdida em uma multidão de pensamentos aleatórios. Pensamentos que o incriminavam; que o julgavam. Apaixonar-se por ela seria um erro e ele não era burro o suficiente para cair em uma armadilha tão óbvia. Repetiu mentalmente 'não estou apaixonado por ela', uma, duas, três, cinco, sete, dez vezes. Mas a voz em sua cabeça, aquela que trazia à tona seus pensamentos sombrios, suas lembranças mais perturbadoras, estava ali — perguntando por que ele estava comprando flores para ela se não sentia nada. No seu debate interno, ele tentava convencer a si mesmo que só estava sendo um cavalheiro e Regina merecia ser tratada como uma dama.
Balançou a cabeça, afastando-se dos próprios pensamentos. Mas a imagem mental do sorriso dela instalou-se na sua mente. A maneira como seus olhos se iluminavam, como as bochechas subiam quase que imperceptivelmente, como luz refletia sobre a sua face e a deixava ainda mais bela. A risada dela era um som doce e viciante, uma melodia que o fazia sorrir e ele percebeu que estava sorrindo abertamente.
Estava a duzentos metros do estacionamento quando balançou a cabeça e jogou o buquê contra a lixeira. Observou o belo arranjo e debruçou-se sobre o mesmo, puxando uma única flor. Ao virar a esquina, avistou Stuart. Ele estava encostado contra o muro e eles se saudaram em silêncio, um olhar breve e silencioso. Os olhos do mais jovem pairaram sobre a flor por alguns segundos e Robin podia jurar ter visto uma expressão se formar mas Grant desfez-se dela antes que esta pudesse ser interpretada.
Se aproximou do carro, os olhos dela fixos nos seus estabelecendo o contato visual profundo que os desestabilizava. Ela sentada no banco do motorista; usava jeans e botas de couro preto que se esticavam até os joelhos. Ele nem se lembrava da última vez que a vira de jeans; uma jaqueta jeans com as mangas de algodão completava o visual casual e bastante atípico. “Obrigada por vir.” Comentou ela e ele sentiu o quanto ela estava frágil naquele momento. Sua voz perdera o tom reverberante que o fazia pensar nas rainhas da Idade Média.
“Eu estava aqui perto.” Comentou ele, e então lembrou-se da flor. Esticou-a na direção dela e então percebeu que ele nunca estivera pronto para aquele momento. O rosto dela iluminou-se de uma maneira que ela jamais havia presenciado; como se uma força gravitacional o levantasse, seu semblante ganhou força e os olhos brilharam ao se deparar com as pétalas da gardênia.
“Para mim?” Perguntou ela sem esperar nenhuma resposta. Robin estava hipnotizado pelo rosto dela, pela maneira delicada que os lábios dela ganharam elasticidade, produzindo um dos mais belos sorrisos que ela já tivera o privilégio de testemunhar. Ele ouviu ou deveria ter alucinado, mas podia jurar que ouvira um leve riso escapando por entre os lábios macios e no segundo seguinte, eles estavam mergulhados no olhar um do outro e Regina sentiu uma necessidade absurda de beija-lo, de deixar que ele o beijasse, de abraçar sua cintura… Ela segurou o lábio inferior entre os dentes. Precisava de foco. “Por que você não me contou?”
Robin foi retirado de seu transe e a fitou com dúvida. Ela balançou a cabeça e apontou Stuart, que estava encostado no muro do outro lado da rua. Pela maneira que ele estava sorrindo deduzia-se que estava falando com Ruby. “Por que não me disse que ele foi ameaçado por Frank?” Robin desviou o olhar dela e fitou o teto do carro. “Você tem alguma coisa a ver com o acidente dele?”
O olhar que ele lhe lançou parecia bastante similar ao de um animal ferido. A voz dele soou baixa. “Eu não sei quem você pensa que eu sou mas essa pergunta chega a ser ofensiva. Eu não machucaria Stuart só para proteger meus encontros com você, independente do quanto eu goste deles.”
Ela engoliu em seco, e deitou a cabeça contra o encosto. Respirou fundo, sentindo o ar preenchendo seu tórax lentamente, os músculos abdominais relaxando. “Eu estou estragando tudo.” Sussurrou ela e isso chamou a atenção dele.
“Por que diz isso?” Questionou ele, observando a maneira carinhosa com que ela voltou a admirar a flor entre seus dedos, girando lentamente o cabo da mesma.
“As consequências dos meus atos tem prejudicado todo mundo que eu amo. Eu afastei Stuart, e perdi uma das poucas pessoas que viu em mim uma amiga. Eu não tenho muitos amigos, Robin.” Ela levantou o olhar e deitou a cabeça para o lado, olhando em seus olhos. Eles permaneceram em seu momento, encarando as irises alheias com algo mais do que mera admiração embora não lhes parecesse cabível. Robin fechou os olhos momentaneamente ao sentir a parte posterior dos dedos o acariciando por cima da barba rala.
“E tem você.” Ela pousou a mão na lateral do seu rosto, e Robin não se moveu. “Eu sinto que estou prejudicando você. Você é solteiro, livre, poderia estar com qualquer mulher que quisesse e sabe disso. Basta olhar para o seu rosto, e para o seu corpo tão bem construído, e eu nem preciso entrar em detalhes sobre as suas outras qualidades bastante específicas.” Um sorriso cruzou os lábios dela, e o leve rubor na sua face denunciou a natureza de seus pensamentos. “Eu não quero passar a ideia errada de que isso, entre nós, vai se tornar outro tipo de coisa porque não vai. Nós não podemos. Ao mesmo tempo, sinto que estou impedindo você de realmente estar com alguém que poderia ser a pessoa certa para você.”
Robin engoliu em seco. Diversos pensamentos cruzaram sua mente, influenciados pela intimidade daquele momento e o calor do toque dela. As palavras que ele queria proferir palpitavam na ponta de sua língua — Não existe mais ninguém, eu não quero mais ninguém, eu quero você, só você— mas Robin as segurou. Sufocou-as através de sua própria respiração. Era claro que ela não se sentia do mesmo modo, que para ela o acordo continuava sendo imparcial. Ele que havia ultrapassado seus limites e ele que deveria resolver isso sozinho. “Você não está atrapalhando nada, Regina.”
“Você tem certeza?” Perguntou ela, os olhos brilhando e o lábio inferior preso entre seus dentes.
“Eu tenho certeza. Apesar de tudo, nós podemos nos considerar amigos.” Robin acariciou a maçã do rosto dela e o gesto inesperado de carinho a paralisou, porém a sensação era tão doce e viciante que ela recusou-se a se afastar. A ponta dos dedos dele tocando sua nuca, brincando com as madeixas macias de cabelo escuro. “Você é uma mulher sensacional, Regina.” Os olhos dele caíram sobre os lábios dela, e a vontade de beijá-la queimou sua pele. “Você merece ser feliz. Se for com o seu marido, tudo bem. O acordo foi feito para isso, certo? Dar a você o que você precisar. Não se preocupe comigo.”
“Eu não mereço você.” Respondeu ela sorrindo e ele a soltou, deitando contra o banco do carona.
“Não mesmo. Você já teria devolvido se soubesse de tudo.” Riu ele. Ela o acompanhou, rindo descontraídamente. Alguns instantes depois, ele virou-se para ela novamente. “E como você está? Como tem lidado com tudo?”
“Minha mãe não retorna minhas ligações e eu prefiro evitar Zelena. Estou tentando manter ao menos os meus projetos e ignorando as diversas baixas que as ações da empresa tem sofrido desde a posse da minha irmã.” Resumiu ela, respirando fundo. Robin observou-a deslizar o dedo sobre a aliança dourada e segurou o ar, sabendo o tópico que viria a seguir. “E Frank… Bem, eu não sei o que pensar. Eu definitivamente não sei. Ele decidiu agora fazer o papel do marido perfeito mas eu não sei se acredito nessa súbita mudança. Eu me sinto tentada a tentar de novo, eu me sinto tentada a ceder às investidas dele mas ao mesmo tempo, eu não sei. As vezes sinto que isso é um jogo para ele e que ele vai desaparecer assim que vencer o desafio.”
“Você não quer ficar com ele?” Questionou Robin, culpando-se por estar secretamente desejando que ela respondesse negativamente.
“Eu acho que sim… Mas ao mesmo tempo eu me pergunto se algum dia seremos capazes de recuperar o que foi perdido.”
As palavras escaparam antes que Robin pensasse sobre elas. “Você deveria tentar e sei lá, ver o que acontece.”
Regina o encarou com surpresa, os olhos esbugalhados em seu rosto e as sobrancelhas arqueadas. Essa reação chamou a atenção dele e ele percebeu que havia algo mais, algo que parecia ligeiramente com… Decepção? Tentou ler a expressão dela mas ela fixou os olhos na janela, fitando algo distante. Ele se odiava. Odiava sua incapacidade de permanecer calado, sua covardia, seu código de honra. Odiou-se por desejar que ela fosse feliz, mesmo que não fosse com ele.
“Sim. Você está certo.”
Ela o encarou por alguns segundos, e ele estava prestes a desmoronar. Ali, naquele momento intenso e tão simples, ele parou de mentir para si mesmo. Sim, ele havia se apaixonado por ela. Era um risco que ambos sabiam existir e mesmo assim, não os impediu de continuar. De qualquer forma, ela não mencionou a quebra do acordo e apesar de não ser o que ele desejava, era tudo que o que ele tinha. Antes que ele formasse as palavras, seu telefone tocou.
“Me desculpe.” Pediu ele, levando o aparelho ao ouvido e observando-a consentir com o ato. “Oi Maggie.”
O nome estalou contra os ouvidos da morena, e ela imediatamente fixou os olhos no rosto dele. Ele estava ouvindo em silêncio. “Sim. Mas ele está bem?”
Os olhos dele permaneciam fixos nos lábios dela, enviando arrepios diretamente para a sua espinha. “Estou resolvendo um assunto agora. Conversamos quando eu chegar em casa. Beijos.”
A ideia da garota esperando-o em casa parecia mais amarga do que ela iria assumir. Invejava a relação tão íntima dos dois, perguntando-se como essa não se tornara em um relacionamento. A voz dele a resgatou de seus devaneios. “Eu preciso ir.”
“Roland?” Questionou ela.
“É… Ele está mais manhoso que de costume.”
“Não o culpe. Esse trabalho rouba você dele. Eu também preciso voltar antes que ele perceba minha ausência.” Ela o encarou com um sorriso. “Obrigada por vir e ouvir meus desabafos.”
“É um prazer.” Respondeu ele e ela se debruçou, segurando o rosto dele e plantando um beijo delicado em sua bochecha. A mão dele pousou sobre a sua e Robin a segurou ali. Eles trocaram um olhar intenso, os rostos separados por uma curta distância; ele podia sentir a respiração dela encontrando seus lábios.
“O que foi, Robin?”
“Posso beijar você?”
Ela riu, e considerou aquele um dos gestos mais adoráveis que ela já vira em um homem. “Sim, você pode.”
Robin deslizou as mãos para o rosto dela, acariciando lentamente. O polegar deslizou sobre a maçã do rosto delicado, um toque ao qual nenhum dos dois estava familiarizado. Ele aproximou o rosto, deslizando o nariz no nariz dela, os lábios roçando uns nos outros, as respirações misturadas. Não era isso o que ela tinha em mente quando aceitou o beijo; ela sequer sabia o que era ser tocada assim por ele. Aquilo havia deixado de ser simplesmente carnal, como os beijos ardentes e famintos que eles trocavam toda vez que estavam com as mãos movendo freneticamente pelo corpo do outro. Na verdade, ela estava aterrorizada e seu corpo paralisou-se. A sensação era boa, muito muito boa. Deveria ser tão boa assim? O nome dele escapou por entre seus lábios — Robin— e ele aplicou uma leve pressão nas mãos que seguravam o rosto dela, colando seus lábios e beijando-a com cuidado. Suas bocas se moveram,uma sobre a outra, pela primeira vez sem pressa alguma, saboreando e deliciando-se com o toque.
Um mundo de sensações os abraçou; seus lábios moveram-se, a língua dele pedindo permissão contra seus dentes e Regina cedendo a ele espaço para ele. Ela fincou as unhas na jaqueta dele, puxando-o para si e Robin continuou os toques suaves, as mãos que brincavam com os seus cabelos, que tocavam seu rosto, que a faziam sentir como uma obra prima sendo pintada. Ele inclinou-se e aprofundou o beijo e ela concedeu a ele toda a abertura que podia, aceitando seu toque, submetendo-se ao abraço, submetendo-se a aquele momento enlouquecedor. Era quase como se estivessem com saudades um do outro, quase como se houvesse passado anos desde a ultima vez que seus lábios se tocaram. Ar se fez necessário quando já não era possível mais aprofundamento, e eles se afastaram gradativamente, Robin mordiscando seus lábios, beijando-os, pequenos beijos formados pelo toque de seus lábios, até que ele estava novamente roçando os lábios contra os seus, mas dessa vez, a respiração de ambos estava desregulada.
“O que foi isso?” Sussurrou ela, os olhos fechados, as testas encostadas, os dedos dela ainda segurando com força as lapelas da jaqueta dele. Ele sorriu, voltando a beijar sua boca, encostando os lábios por alguns segundos.
“Eu acredito que se chama beijo.” Brincou ele, e desvencilhou-se dela contra a sua vontade. Regina continuou observando enquanto ele silenciosamente saía do carro, caminhando até Stuart e despedindo-se dele. Quando ele virou a esquina e desapareceu de seu campo de visão, Regina levou os dedos aos lábios e os deslizou ali, as digitais roçando suavemente sobre os lábios recém beijados, sua mente trabalhando exaustivamente para responder sua única dúvida. O que acabara de acontecer ali?
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