Efeito Dominó
22 A Night to Remember
Destilado não era seu sabor favorito mas naquele momento era melhor do que o sabor que tentava afogar. Fitou as prateleiras de ébano oriental, as inúmeras e incontáveis fileiras de livros que subiam e subiam até atingir o quase inalcançável pé direito da biblioteca. Toras de uma madeira seca queimavam pacientemente na lareira enquanto Regina provava mais um gole do uísque que encontrara na adega. Aquele costumava ser seu lugar preferido na mansão; lembrava-se das inúmeras noites que passara observando seu pai tocando o piano, que o ouvira lendo algum livro interessante ou quando deitavam na beira da lareira e passavam horas jogando xadrez. Ele nunca a deixava vencer, até que um dia ela o venceu por mérito próprio.
Um sorriso cruzou sua face e ela relaxou contra a poltrona enquanto fitava o fogo ameno. A casa toda estava em repleto silêncio. Sua mãe, qualquer que tenha sido seu paradeiro, ainda não havia retornado e Regina sabia que não deveria enfrentá-la bêbada, mas ela estava ali.
Suas nádegas ardiam, e o mero pensamento sobre a palma firme e soberba de Robin, acertando sua pele e levando-a cada vez mais próxima do orgasmo fez com que uma onda de calor a abraçasse. Suas bochechas ganharam cor e ela se desfez do casaco, derrubando-o no chão. Mordeu os lábios, culpando-se por apreciar tanto aquele gesto. Por apreciar a dominação que ele representava. Por render-se à ele; por render-se aos beijos que faziam suas entranhas borbulhar; por render-se ao prazer inédito e absoluto que sentia por acomodar a montanha de músculos entre seus braços.
Ele sabia o que fazia e ela sabia que podia confiar nele. As palavras dele ecoaram em sua mente e ela sentiu uma leve pontada no peito. Eles estavam deitados sobre a cama; e ela mal conseguia respirar. Podia sentir o olhar dele sobre as suas costas e nádegas e tinha quase certeza que as marcas das palmadas ainda estavam bastante visíveis em sua pele pois ele sustentava um olhar que poderia ser facilmente associado à orgulho. Ela havia deitado a cabeça, tentando acalmar sua respiração descontrolada; haviam sido mais orgasmos que ela fora capaz de contabilizar e ele não lhe deixara descansar entre eles. Ele deslizou os dedos por seu cabelo, acariciando até a base de sua escápula e pânico cruzara o rosto dela. Eles não deveriam ser carinhosos um com o outro. Não se tratava disso. Ele não...
“Seu sucesso não depende dessa empresa, se me permite dizer. Você é maior do que esse Império.” Comentou ele.
Regina bebeu mais um gole do uísque, voltando à realidade. Aquela frase havia lhe atingido em cheio e como se ele tivesse ouvido seu pequeno ataque de pânico após o toque dele, Robin vestiu-se e deixou o apartamento logo depois.
Ela demorara mais algum tempo entre se recuperar da atividade intensa e se recuperar daquele golpe emocional e deixara o apartamento mais tarde, indo direto para a mansão. Precisava entender o porquê de sua mãe tê-la traído. Cora jamais confiou em Zelena, nem mesmo sobre assuntos de trivial importância e ainda assim, havia acabado de entregar à mesma todo o esforço de um trabalho que levara a vida toda para ser construído. Não fazia sentido algum, quer dizer, não fora para isso que ela preparara Regina durante sua vida toda? Como uma sucessora ao trono da Apple’s Queen?
A porta da biblioteca se abriu e Regina não se moveu. Cora notou sua presença e seus ombros se ergueram, tensão sendo construída sobre seus músculos e tendões. A matriarca caminhou até a metade do caminho e pegou a garrafa de uísque da mesa de vidro temperado, sentando-se em outra poltrona acolchoada. Ignorou o olhar acusatório da filha, levando o bocal da garrafa aos lábios e bebendo um vasto gole. O líquido desceu quente e ardente por suas cordas vocais mas ela estava longe de se importar com isso.
“Um drinque à falência da Apple’s Queen.” Provocou Regina, rindo e denunciando sua avançada embriaguez.
“O que você quer, Regina?”
“Oras… mamãe.” Riu a mesma. “Uma filha não pode fazer uma visita? Ou eu não sou mais sua filha favorita?”
“Você está bêbada.” Acusou Cora, irritada. Paciência era uma virtude que naquele momento havia sido esquecida. Ela não estava disposta a fazer o papel de babá para sua filha; tinha problemas maiores para lidar.
“E você é uma traidora.” Rebateu a mais nova, os olhos fixos e raivosos. “Você passou todos esses anos acusando Zelena e é uma cobra muito pior do que ela.”
Cora levantou-se, arremessando a garrafa contra o fogo da lareira. Uma explosão de chamas assustou Regina, mas não a ela, que levantou-se rapidamente. “Cuidado com as suas palavras, Regina.”
Recuperando-se do susto, Regina gargalhou. “Vocês tem isso em comum. A veia cênica. O drama.” Ela terminou de beber seu uísque e estendeu o copo para sua mãe. “Quer arremessar meu copo no fogo também? Ou não é tão dramático quanto uma garrafa?”
“Regina, saia da minha casa.” Pediu Cora. O tom de voz permaneceu ameno, quase que sereno. Ela só queria ser deixada em paz e não ter que enfrentar os fantasmas internos de Regina. Ela só queria deitar em sua cama e esquecer aquele dia. Esquecer que sua filha a havia chantageado com uma gravação ilegal e que ela perdera o único relacionamento real que tivera depois de Henry.
“Essa costumava ser a casa do meu pai também.” Sibilou, o veneno inserido perigosamente em cada sílaba. Sabia que aquelas palavras atingiriam sua mãe e o fato de estar mais desinibida do que o normal apenas facilitou o ataque.
“Seu pai morreu. Supere isso.”
Regina paralisou-se. Por alguns segundos ela custou a acreditar que sua mãe dissera aquilo. Quando finalmente se deu conta do que havia escutado, um sorriso debochado estampou seus lábios. “É disso de que se trata? Superação? Você arrumou um namorado de vinte e cinco anos que trepa gostosinho e quer se desfazer das lembranças do homem que criou suas duas…”
Mas ela não teve a chance de terminar. A palma da mão de Cora acertou seu rosto em cheio, calando-a. “Você pode falar o que quiser de mim mas eu nunca desrespeitei a memória do seu pai! Respeite ao menos isso, sua ingrata!”
“Então por que?” Gritou Regina, furiosa. Encarava a mãe com raiva, o rosto vermelho pela força do tapa. “Por que você fez isso? Por que me traiu e traiu a empresa dando tudo à Zelena? É tudo que eu quero saber! Por que diabos você colocou tudo a perder?”
Por alguns segundos, Cora considerou dizer a verdade. Mas seus pensamentos foram sobrepujados por outros e ela respirou fundo, acalmando-se e retomando sua postura elegante. “Porque você se mostrou ineficiente e incapaz de comandar algo desta magnitude. Eu deveria ter concedido a diretoria à sua irmã desde o começo.”
Regina engoliu em seco o impacto assombroso do fracasso. Lágrimas vieram aos seus olhos e ela lutou até que as mesmas voltaram para de onde saíram. “Você está mentindo.”
“Estou?” Provocou Cora, sorrindo. “Prove que estou errada. Eu gostaria de vê-la tentar.”
Regina limpou as lágrimas que caíam por seu rosto e se aproximou. Frente a frente com sua mãe, fitou seus olhos por alguns segundos, memorizando o conflito no interior deles. Cora podia sentir o hálito do uísque. “Ela vai destruir centímetro por centímetro do seu grande Império e eu vou estar no camarote, apenas assistindo sua derrocada. Você vai rastejar pelo meu perdão, mãe. Eu prometo.”
***
A sala de sua casa estava cheirando a pipoca e ele encontrou o olhar de Megan assim que deu outro passo para dentro do cômodo. “Roland?” Perguntou ele, desfazendo-se da jaqueta e jogando-a sobre o sofá.
“Dormiu faz uma hora.” Respondeu ela, com um sorriso terno nos lábios. Vestia jeans e uma camiseta lilás, os cabelos ruivos amarrados em um rabo de cavalo. Fez menção de se levantar, mas Robin ergueu as palmas em sinal de paz e sorriu, suas covinhas criando nela o familiar encantamento.
“Fique mais um pouco. Vou pegar uma cerveja, quer uma?”
Megan assentiu e ele desapareceu por segundos, aparecendo logo em seguida com duas garrafas. Ele lhe ofertou uma e sentou-se ao lado dela, fitando a televisão. “Você está assistindo novela?”
“Algum problema com isso, Lockhood?”
“Não, quem sou eu? Com certeza deve ser uma mega trama.” Riu ele, levando a garrafa aos lábios e bebendo um gole. Megan espelhou seu movimento, bebendo também.
“Muito trabalho hoje?” Perguntou ela, e ele imediatamente sentiu uma pontada de culpa. Ele não podia dizer a ela que ficara até aquela hora em uma cama com a esposa de seu chefe; ainda que tivesse sido extenuante dar à mulher exatamente o que ela precisava. Libertar o prazer adormecido em Regina era uma tarefa árdua e manter seu autocontrole quando ela pressionava mais e mais suas tendências dominadoras exigia muito de si. Regina era ousada, e o prazer dela ressoava a cada palmada, a cada nó em seus pulsos; era como se ele voltasse a vida com ela. Uma vida que ele tentara sufocar.
“Robin? Hello?” Chamou Megan e ele sorriu.
“Ah sim. Nada muito fora do normal.”
“Eu não sei porque você ainda trabalha para eles. Ruby diz que a família toda é bastante problemática.”
“Um homem precisa pagar suas contas.” Respondeu ele, pensativo e ela observou seu rosto por algum tempo, caindo na cilada de focar sua atenção na beleza de seu amigo.
Eles permaneceram em silêncio por algum tempo, até que Robin irrompeu em uma crise de riso, fazendo-a se assustar. “Qual é seu problema?”
“Não é possível que você goste dessa novela, ela é muito mal feita!” Respondeu ele entre gargalhadas. Megan bateu em seu braço, e ele deitou no sofá, rindo.
“Eu vou embora. Você é insuportável.”
Ela se levantou e Robin tentou impedi-la; Megan se desequilibrou e caiu sobre ele. Embora ele ainda estivesse sorrindo ficou claro que a proximidade era muito mais significativa para a ruiva. Eles estavam a poucos centímetros um do outro e ela estava deitada sobre ele, a mão dele ao redor de seu pulso. Ele encarou os olhos verdes com certa curiosidade, surpreso pela maneira que ela fitava seus lábios. “Me desculpe.” Pediu ele, sem saber exatamente pelo que estava se desculpando. Ela era o mais próximo que ele chegara de ter uma amiga, e sim, ela é atraente mas ele não queria estragar algo sólido por mero prazer momentâneo. Além do mais Robin sabia que ela merecia um homem muito melhor do que ele era.
“Não se desculpe, você não fez nada. Eu ainda estou com dificuldades em separar as coisas. Você às vezes é intoxicante.”
Ele a ajudou a se levantar, percebendo que as bochechas dela ganharam um tom rosado. “Eu gostaria de ser alguém para você, Meggie. Mas eu não sou. Eu não sou uma boa pessoa.”
“Você é sim. Pare de besteira.” Riu ela e voltou a sentar-se ao lado dele. Ele se debruçou e tocou a garrafa dela com a sua.
“Um brinde à você.”
Os dois voltaram a beber, e Robin agradeceu mentalmente por ela ser uma mulher madura e entender seu comportamento. Roland precisava de uma figura feminina em sua vida e não seria ele a vetar isso; ele precisava acalmar seus hormônios. Sua relação com Regina não podia alterar o percurso natural das suas outras relações.
Pensou no quão irritada ela estava quando eles se encontraram. Ela não quis conversar e ele não reclamou, afinal, esse nunca havia sido o combinado. Ele dera a ela o que ela procurava, prazer em suas diversas formas e modalidades e mesmo assim, ele sabia que não era o suficiente. Nada nunca seria suficiente se tratando dela. “Você se importa se eu ficar no seu sofá essa noite?” Questionou Megan, a voz fina e trêmula. Ele sabia que ela estava sem graça em pedir isso e sorriu, deslizando as mãos sobre os ombros dela numa tentativa de conforto.
“Seu pagamento está atrasado de novo?”
“Sim, e Doug não tem coragem de vir até a sua porta me cobrar. Mas se eu voltar para casa…”
“Você pode ficar quanto tempo quiser. Essa casa é tão sua quanto minha.” Respondeu ele, notando a maneira como ela relaxou os ombros e respirou aliviada. “Eu fico com o sofá e você dorme na cama.”
“Robin, não!”
“Shhhh. A casa é mais minha que sua. O sofá é meu, você fica com a cama, ponto final.”
Debater não os levaria a lugar algum e ela aceitou. “Se você quiser um empréstimo, ou um adiantamento para pagar o Doug, não tem problema também.” Concluiu ele, ajeitando-se no sofá e permitindo que ela se deitasse entre as suas pernas e sobre ele. O cabelo dela ficou na altura de seu maxilar e ele percebeu o cheiro do shampoo de rosas. Era maravilhoso.
“Não precisa. O dono do café me pediu para esperar apenas alguns dias.” Respondeu ela, relaxando sobre o corpo dele e fitando a tevê. “Mas obrigada, Robbie. Eu não sei o que seria de mim sem você.”
“Você nunca vai saber.” Respondeu ele, encostando a cabeça no sofá e sentindo a fraqueza inicial do sono. Megan estava deitada sobre ele e ele não ia pedir a ela que saísse, afinal, ele iria dormir ali. “Se precisar de alguma coisa lá em cima você sabe onde está tudo, certo?”
“Sim.” Respondeu ela. “Boa noite, Robin. Daqui a pouco eu subo e deixo o sofá para você.”
Ele assentiu, murmurando alguma coisa e ela permaneceu ali, deitada. Sentindo o corpo másculo ao redor do seu, o perfume almiscarado de notas orientais, o calor do tórax firme aquecendo suas costas, ela sequer conseguia se concentrar no que era transmitido pelo aparelho. Só conseguia pensar nele. Na proximidade dele e no quanto aquela situação era confortável para ambos. Por que era tão difícil para ele aceitar que eles podiam ter um relacionamento?
O celular dele apitou, chamando sua atenção. Ela ainda não havia entendido a súbita necessidade dele ter dois aparelhos, mas não fora isso que lhe traíra. Fora o nome na tela. Torta de maçã poderia ser muitas coisas, mas um nome? Ele parecia adormecido, e Megan fez o que ela jurou a si mesmo que nunca faria. Desbloqueou a tela.
Havia apenas um ‘obrigada’. Ela fechou a janela e devolveu o aparelho ao seu lugar, perguntando-se quem seria essa pessoa e qual a relação dela com Robin.
***
“Fiquei surpresa com seu convite.” Comentou Mellie, observando a morena por cima de sua taça de Prosecco. O pequeno jardim revestido por madeira escura e de origem africana conservava um certo ar de bistrô francês. Um cavalete segurava um quadro de origem humilde, o desenho simples de uma camponesa distraída em algum campo florido. As cadeiras eram escuras também, talvez do mesmo material que cobria as paredes que o cercavam com a adição de assentos macios e cobertos por um veludo verde musgo. Flores decoravam o ambiente, assim como os pequenos balaústres franceses; pedregulhos brancos cobriam os lados do jardim onde o forro de madeira não alcançava. Regina nada disse, os olhos ainda fixos na porcelana branca com estampas geométricas; parecia ter se distraído. “Depois do nosso almoço, você não me respondeu. Achei que havia fechado uma porta entre nós.”
Regina afastou a xícara depois de terminar seu chá de limão e cravo da índia. Fitou a mulher à sua frente, os cabelos presos em um coque bem escovado, o corte liso e perfeito do tailleur cor de rosa que a mesma usava. Tão elegante quanto a própria realeza britânica. “Eu não sou uma pessoa muito convidativa e sua abordagem foi bastante direta. Acho que me assustou um pouco.”
“É da minha natureza.” Completou a senadora. Sorriu, fitando a maneira com que Regina brincava com a xícara de porcelana, as unhas bem pintadas de vermelho sangue em contraste com o branco dos utensílios.
Era óbvio que algo a atormentava. Mellie não se denominava uma expert em leitura corporal, mas ela havia ingressado na política e se tinha algo que ela sabia era como prever alguns movimentos antes que os mesmos de fato acontecessem. Regina estava inquieta e mesmo fazendo seu melhor para parecer a anfitriã perfeita em seu pequeno sonho francês ela estava longe de seu estado natural. Elas haviam conversado por mais de uma hora; o assunto transferindo-se através das áreas, passando pelos projetos sociais da Apple’s Queen, abordando questões políticas, contornando trivialidades sobre restaurantes ou a cena noturna em Baltimore. Por mais que elas estivessem desenvolvendo os tópicos com proeza, era bastante claro que Regina continuava à beira do precipício, o controle emocional ultrapassando as linhas da discrição e revelando as emoções à flor da pele.
“Pergunte.” Finalizou Mellie, deixando de lado a simpatia generalizada e encarando a outra mulher.
Regina pareceu despertar de um torpor interno. “O quê”
“Regina, você está me deixando inquieta. Há algo que você quer dizer ou perguntar, e isso está consumindo você e está começando a me consumir. Fale. Jogos não caem bem em alguém como você.”
Ela suspirou, decepcionada com sua inabilidade. Afastou a xícara, e aproximou-se da mesa, cruzando as pernas e alinhando seus ombros; a postura ajudou-a a ganhar alguma confiança extra e Mellie aproximou-se também, prestando detida atenção às palavras que viriam a seguir. Mas a força de seu olhar a fez recuar. Regina desviou o olhar para a mesa, e suspirou, os olhos cheios de lágrimas. “Você o deixou. Eu quero saber como, eu quero saber de onde você tirou forças.” A voz da herdeira pareceu trêmula, como se ela fosse se partir a qualquer momento, mas a mesma se manteve. “Você teve Andrew. Você… Parece ter sido muito mais forte do que estou sendo neste momento.”
Mellie sorriu, sentindo compaixão pela mulher à sua frente. Sabia o que era aquele sentimento. A sensação de completa inutilidade, de vulnerabilidade por uma pessoa que parecia lhe dominar. O quanto era sufocante amar alguém a este ponto. Regina respirou fundo, concentrando suas forças em calar as emoções que rebentavam contra seu peito como ondas furiosas quebrando-se contra uma encosta rochosa. Lágrimas ameaçavam cair mas ela simplesmente concentrou-se em respirar, acalmando-se. Encostou-se na cadeira e voltou a fitar a senadora. “Eu… Eu não sei o que fazer. Eu me sinto culpada, mesmo sabendo tudo que o que ele me faz e isso é tão… Meu Deus isso é sufocante.”
Mellie levantou-se, puxando sua cadeira para mais perto dela. Sentou-se ali, colocando a mão sobre a mão dela e ao receber o olhar de Regina, sorriu. “Você não está sozinha, Regina. Eu sei o que você pensa. Que você o ama, e bem, você quer o melhor para ele. Você se convence de que ele está passando por uma fase ruim, mas essa fase nunca realmente acaba, não é? Você se convence de que se for uma pessoa melhor para ele, em algum momento ele vai notar os seus esforços e vai mudar o proceder dele, mas isso não acontece. Você descobre a primeira traição e se convence que a culpa é sua, que você está deixando algo a desejar e que pode lidar com isso. Mas elas continuam, ano após ano. Independente do quanto você se esforça.”
Regina a fitou como se tivesse levado um soco na boca do estômago; como se o ar estivesse deslizado para fora de seus pulmões instantaneamente. Era exatamente assim que ela se sentira grande parte da sua vida, mas ela não esperava que outra pessoa pudesse lhe entender. Não com tantos detalhes. Não tão intimamente. “Você dedica sua vida à ele, você coloca suas perdas em segundo plano, você devota toda uma vida a ser uma esposa melhor e no final, o coração dele não lhe pertence, não é mesmo? E você se culpa.” Mellie sorriu enquanto limpava uma lágrima solitária que caiu de seu olho esquerdo. “Você se culpa por não ser capaz de fazê-lo feliz. Você se perde, perde sua identidade, perde sua vida. Bem, pelo menos foi o que eu fiz. Eu me entreguei completamente ao Fitz. Eu abri mão de tudo, da minha integridade, do meu coração, da minha dor — tudo para estar ao lado dele e apoiá-lo. Para que ele conseguisse alcançar tudo que sempre sonhou. E quando ele alcançou, bem, eu não era a pessoa que ele queria ao lado dele para celebrar. Foi um esforço em vão. Foi uma tentativa de capturar o vento.”
Regina estava chorando mas a esse ponto ela havia desistido de tentar combater suas lágrimas. Ela estava familiarizada à todas aquelas sensações e tê-las narradas por outra pessoa se tornou um gatilho inevitável. “Eu me sentia tão culpada, mas tão tão culpada por me envolver com Andrew… Mas ele era o único que me enxergava. Que me ouvia. Talvez eu tivesse sido movida pela minha carência, pela solidão, pelo prazer. Eu sabia que Fitz estava enlouquecidamente apaixonado por Olívia e não fazia questão nenhuma de esconder isso, e mesmo assim, eu sentia que estava traindo a lealdade que devotara à meu marido. Eu sentia como se eu fosse a errada. Como um monstro.”
A senadora sorriu, respirando fundo e abanando as mãos como se quisesse secar as lágrimas. “Não caia nessa armadilha, Regina. Se a sua relação com aquele segurança é apenas sexo, que seja apenas sexo mas não permita que isso lhe afunde. Pule do barco, mas não afunde com ele.”
Choque estampou o rosto de Regina, que agora estava molhado pelas lágrimas. Ela fitou a senadora com os lábios entreabertos e os olhos arregalados, procurando as palavras que haviam simplesmente desaparecido de sua mente. Como ela poderia saber disso? Stuart não contaria, ela tinha certeza de que…
“Stuart não disse nada.” Respondeu ela, como se estivesse lendo a mente da outra. “Eu vi os olhares que vocês trocaram no hall de entrada. Qualquer que seja a finalidade dele em sua vida neste momento, se estiver lhe fazendo bem, você deve mantê-lo.”
Regina assentiu, balançando a cabeça para cima e para baixo em silêncio. Respirou fundo, reajustando novamente sua postura e regulando sua respiração. Assim que retomou o controle, voltou a falar. “Quando eu estou com ele, eu sinto que tenho algum controle sobre a minha vida. Algo que eu não tenho desde que meu pai faleceu. Desde aquele dia, a sensação que tenho é que tudo começou a desmoronar. Nada foi real. Tudo foi desfalecendo, como meu casamento. Minha família, minha empresa, minha vida.”
“Você é uma mulher capaz, Regina. Você pode dar a volta por cima de tudo isso. Basta querer. Mas enquanto você estiver em busca do amor dele, da aprovação dele, das migalhas de atenção que seu marido pode lhe oferecer… Isso não será possível.”
“Eu o amo.” Suspirou Regina. “É tão ruim assim?”
“Se você o ama mais do que ama a si mesma, sim. É tão ruim assim.” Mellie encarou-a com atenção. Ela ainda não estava pronta. Mesmo identificando a toxicidade de seu casamento, ela ainda assim apegava-se a um sentimento idealizado. A uma relação que era muito mais imaginária do que real.
“Você lutou por Fitz. Como pode me dizer o contrário? Como pode me aconselhar a abandoná-lo?”
“Onde esta luta me levou, Regina?” Questionou Mellie, a voz firme e segura. Seus olhos azuis estavam alinhados aos olhos cor de chocolate. “É isso que você não está querendo aceitar. O porquê de eu estar aqui te dando este conselho. Eu entreguei literalmente tudo a ele, e não me restou nada. Eu perdi minha integridade, eu perdi minha autoestima, eu tive que enfrentar a morte do meu filho, eu tive que sorrir perante um país todo e aceitar o fato de que o homem pelo qual eu fiz tudo isso estava apaixonado por sua assessora. Eu tive que aceitar zombaria, eu tive que engolir desprezo, eu cheguei literalmente ao fundo do poço. Eu cheguei literalmente ao zero e pelo quê? Onde ele está agora? O que eu ganhei com esta luta? Eu desperdicei anos da minha vida, eu perdi pessoas importantes, tudo isso para finalmente entender que não importa o que você faça, você não pode comprar o amor de ninguém. Você acha que eu não sei o que você está sentindo? Eu já estive nesse lugar. Se eu estou dando lhe dando esse conselho, é porque eu não desejo a você passar pelo mesmo processo que eu. Mas se é o que você quer, bem, vá em frente.”
Regina permaneceu em silêncio. Mellie continuou. “Se você acha que tem como afundar ainda mais, olhe ao seu redor, Regina. Você já alcançou o fundo do poço e pelo quê?”
Não houve resposta; Regina fitou seus pés como quem acabara de levar uma bronca da mãe e Mellie pegou sua bolsa e saiu do jardim, irritada, deixando a anfitriã para trás.
No caminho para seu carro, ela discou alguns números e aguardou a chamada ser atendida.
“O que houve?” Questionou a voz feminina do outro lado da linha, abreviando as cerimônias sociais.
“Regina não está pronta.”
“Não é possível. Ela acabou de levar um bote da própria irmã e da mãe. Frank não deixou o apartamento da garota desde que eu a entreguei. O que mais ela está esperando?”
“Eu não sei. Mas ainda há muita relutância.” Mellie acenou para o motorista, e este abriu a porta para ela, permitindo que ela adentrasse a limusine. “Você tem certeza de que ela é a pessoa certa?”
“Você está duvidando do meu julgamento, Mellie? Alguma vez eu errei?”
“Posso listar algumas.” Respondeu a senadora, rindo e fazendo a outra mulher rir também.
“Isso não vem ao caso. Regina é quem procuramos. Nós só precisamos esperar mais um pouco.”
“Espero que saiba o que está fazendo, Bishop.” Concluiu a morena, desligando a ligação.
Do outro lado da cidade, Margot fitou a tela de seu notebook. “E eu sei.” Respondeu ela embora estivesse sozinha. Deu uma última olhada na tela de seu notebook, fitando uma foto de Robin Lockhood e mordeu o lábio ao analisar cada centímetro do abdômen nu. Ela já sabia exatamente o que tinha que fazer.
***
Ruby estava remarcando as reuniões de Regina para os horários que Zelena havia solicitado quando seu celular começou a tocar. Levou segundos para ela analisar o número; ela afastou o aparelho, ignorando a chamada do número desconhecido.
Tinha muito a fazer e Zelena, diferentemente de sua irmã, parecia não ter a mesma concepção de tempo e espaço das outras pessoas. Tudo era uma urgência a ser feita para o dia anterior se assim possível. Soterrada de trabalho, a jovem mulher sequer tinha tempo para entrar em contato com seu noivo; se é que o noivado permaneceria convicto.
O telefone tocou e ela pressionou o botão do viva-voz, enquanto redigia um e-mail para a Secretaria do Meio Ambiente de Baltimore. “Ruby Lucas.”
“Eu posso saber porque você não atende a porcaria do celular?” Sibilou Zelena, e seus olhos se arregalaram. Era ela que estava ligando para o seu celular? Mas ela estava na sala ao lado!
“Eu…”
“Nós não temos nenhuma política contra atender ligações pessoais durante o horário comercial desde que seja um assunto relevante.”
“Que?” Aquela ligação não estava fazendo sentido algum. De fato, a mulher havia enlouquecido.
“A polícia está tentando entrar em contato com você. Na outra linha.” Disse a ruiva, sem demonstrar qualquer interesse no assunto. “Se por acaso for um mandato de prisão você passe aqui e me avise. Não posso ficar sem secretária.”
Ruby permaneceu imóvel, fitando sua mesa. Zelena havia desligado e ela podia sentir suas mãos trêmulas. Apertou o botão e transferiu a outra linha. “Ruby Lucas?”
“Sim, sou eu.”
“Aqui quem fala é o Oficial Ferraz. Houve um acidente e o seu nome estava na lista de contatos de emergência. A senhora poderia comparecer ao Hospital Mediterrâneo de Maryland imediatamente?”
“Sim.” A voz dela saiu sussurrada, e ela respirou fundo algumas vezes tentando retomar a calma. “Você poderia me dizer se Graham está bem?”
“Quem?”
“Humbert Graham.”
“Não é esse o nome que temos aqui no prontuário. A senhora é Ruby Elise Lucas, correto?”
“Sim. Mas se não é o Humbert que está internado, então…”
“O paciente se chama Stuart Grant.”
Ele não precisou terminar. Ela levantou-se e pegou sua bolsa. “Estou a caminho. Chego em dez minutos.”
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