Efeito Dominó
4 Capítulo 4: Competição
Notas iniciais
Tentei focar minha visão em um ponto qualquer da quadra que não fosse no moreno de 1,90 mais a frente. Meus dedos tamborilavam nervosos sobre minhas pernas enquanto eu tentava conter a sensação de nervosismo que crescia em meu peito a cada novo segundo. Ergui meu rosto para procurar por Naruto. Eu diria a verdade para o loiro e torceria para que ele conseguisse descobrir um método de levar-me para casa sem que eu acabasse desmaiada no meio do caminho. Bom, pelo menos, eu esperava que ele encontrasse uma forma de levar-me para longe da multidão.
Porém, mesmo que eu tentasse um milhão de vezes, eu não conseguia encontrar o meu melhor amigo. Naruto parecia que havia desaparecido em uma nuvem de poeira ou, na melhor das hipóteses, em um passe de mágica. Suspirei lentamente tentando absorver o oxigênio necessário para manter a mente sã. Forcei minhas mãos sobre minhas coxas e fechei os olhos. Era um hábito para evitar que o pânico atingisse o limite imposto por minha mente.
Meus olhos encontraram novamente a quadra. Um homem alto e completamente desconhecido estava no centro da quadra com uma bola grande e alaranjada. Tão rapidamente quanto possível nas minhas atuais condições, defini aquele como sendo o árbitro e aquela bola como sendo a responsável por indicar qual seria o primeiro jogo da noite, basquete.
Os dois times estavam em quadra. Rapidamente reconheci os dois rapazes que estavam um de frente ao outro. Os rostos sérios enquanto se encaravam. Um deles era um rapaz alto e loiro de olhos azuis. Vestia um uniforme laranja com o número 7 (sete) estampado em suas costas. Também conhecido por mim como loiro cabeça oca, Naruto estava definitivamente agindo como capitão. A sua frente havia outro rapaz um pouco mais alto que Naruto. Os cabelos negros estavam desleixadamente jogados para trás. Os olhos redondos e escuros definitivamente contrastavam na pele alva. Usando um uniforme azul escuro com o número 1 gravado nas costas, indicava a todos que ele era o capitão do time adversário.
Quando busquei alguma informação sobre o cara que havia provocado uma grande reviravolta em minha pacata vida descobri, sem querer, que Sasuke era um dos jogadores do time de basquete daquela faculdade e que já haviam ganhado muitos campeonatos desde que o Uchiha havia ingressado no time. Porém, por algum motivo, ele nunca comparecia aos treinos. Encarei os dois rapazes e os vi, de modo relutante, darem as mãos em um cumprimento rápido e, logo após, adotando uma postura diferente.
O juiz arremessara a bola para cima. Sasuke e Naruto, quase que automaticamente pularam para o alto. Era uma disputa individual que, provavelmente, garantiria o primeiro ponto da partida. Meus olhos tentaram acompanhar o movimento seguinte, mas apenas a bola estacionando nas mãos de um rapaz do time azul fora vista por mim. Eu não era expert em basquete, mas até mesmo uma tola como eu sabia que a diferença entre alturas poderia facilmente definir o rumo que esta partida tomaria.
Tentei concentrar-me ao jogo. A bola voava de uma mão à outra em uma velocidade incontrolável. Os segundos no relógio passavam como um passe de mágica. Sasuke estava com a bola em mão próximo a linha de três metros. Naruto era seu marcador e tentava acompanha-lo, mas o Uchiha era indescritivelmente rápido. Os joelhos flexionaram lentamente e logo os pés de Sasuke estavam a centímetros do chão. Um pulo alto o bastante para atrasar Naruto alguns segundos. A bola deixou as mãos do moreno e seguiu rumo a cesta, mas o Uchiha não parecia seguro que seu arremesso acertaria o alvo. A expressão na face do moreno fora facilmente explicada quando a bola dançou no aro e saiu da quadra.
O apito soara e o primeiro quarto havia finalmente acabado em um empate grandioso feito pelos jogadores principais de cada time. Meus olhos encararam Naruto que aproximava-se do banco bufando. Era perceptível que ele estava quase esgotado, afinal, havia dado seu sangue para manter um empate no primeiro quarto de jogo. Ergui-me do banco e aproximei-me do loiro que deixou um sorriso brincalhão escapar por sua face bronzeada.
― Estamos causando um grande show, certo? ― ele perguntara em seu tom cotidianamente divertido. Era isso que eu admirava em Naruto. Mesmo sendo confrontado, ele sempre tentava manter a esperança que as coisas mudariam. Ao contrário dele, eu era uma ameba prestes a desistir de tudo e jogar os panos ao mar. E, se aquele sentimento irritante e desconfortável permanecesse no meu peito eu, sem sombra de dúvidas, o faria. ― Aconteceu alguma coisa, pequena Doroty? ― ele perguntou-me, provavelmente pela careta de enjoo que estava estampada em minha face desde o momento em que eu entrara naquele ginásio. ― Tem alguma coisa que eu, seu nobre homem de lata, pode ajudar?
― Não é nada, Naruto. ― resmunguei tentando esboçar o sorriso mais falso que eu já havia dado. Surpreendi-me quando o loiro sorriu de volta, afinal ele sempre percebia quando eu estava fingindo um sorriso. ― E digamos que o homem de lata não é o par perfeito para a garotinha de sapatinhos vermelhos.
― Para mim, ele é. ― disse rapidamente. ― Afinal, o que ele mais deseja é um coração e ela, de bom grato, oferece sua amizade. Digamos que esse é o meu tipo de casal perfeito. ― ele, por fim, disse. ― Mas diga-me de uma vez por todas o que está lhe atormentando, afinal, eu lhe conheço melhor que você mesma, Sakura. ― ele disse e eu simplesmente deixei um suspiro escapar por meus lábios. ― Sei exatamente quando está tentando desvencilhar o assunto com um sorriso falso. Desembuche!
― Provavelmente é apenas minha claustrofobia atacando novamente, Naruto. ― eu resmunguei vendo o loiro me encarar completamente preocupado. Naruto conhecia bem minhas crises claustrofóbicas. Ele sabia exatamente como o ar faltava aos meus pulmões e como eu me sentia extremamente desconfortável. Porém, após anos sem apresentar uma crise, até eu mesma havia esquecido desse pequeno detalhe, quem diga o Uzumaki ao meu lado. ― Mas não precisa se preocupar. Aparentemente, não será uma grande crise...
― Quer que eu a leve para casa? ― perguntou rapidamente, tanto que ele cortara minha declaração ao meio. Franzi o cenho e encarei a quadra atrás do loiro. Os companheiros de time de Naruto estavam conversando no banco logo atrás de mim ou apenas recuperando o fôlego. Uma garota de cabelos longos e castanhos gritava com eles para que deixassem de folga e começassem a se aquecer novamente. Não podia fazê-lo deixar todos ali só para levar-me em casa, podia? ― Porque se você quiser...
― Não se preocupe, ok? ― murmurei desta vez abrindo realmente um sorriso sincero. Toquei minhas mãos sobre as suas e ergui-as. Os olhos azuis do Uzumaki me encaravam em dúvida, provavelmente pensando que eu havia endoidado por negar sua ajuda. ― Eu estou bem... Ficarei bem, ok? E além do mais... Eu não posso perder o seu jogo, certo? Você ainda precisa dar uma surra no outro time jovem Apolo. ― resmunguei entrando em sua brincadeira e fazendo-o sorrir. ― Eu vou ficar bem, Naruto. Não se preocupe.
― Então tudo bem, doce Afrodite. ― disse e eu ergui a sobrancelha, sorrindo em seguida. ― Eu realmente não sei quem ficaria bem como par de Apolo, ok? Eu realmente chutei!
― Tudo bem... ― sussurrei assim que o juiz aproximou-se dos bancos chamando os jogadores. Naruto me encarou ainda incerto e eu apenas sorri minimamente. ― Agora vá lá e faça umas cestas por mim.
― Pode deixar! ― ele exclamou dando alguns passos para trás. ― Torça por mim, Mulher Maravilha.
[...]
Estava difícil, mas eu, de certo modo, conseguia segurar os sinais de que minha crise claustrofóbica estava piorando. Os borrões negros ainda surgiam, mas seus intervalos estavam mais afastados. Minha respiração ainda estava incerta e pouco controlável, mas eu estava aguentando. Já estávamos no início do quarto tempo. O jogo estava novamente empatado na casa do trinta. A bola estava nas mãos de Naruto que tentava passar novamente pelo Uchiha. Aparentemente, eu havia visto este conflito entre os dois mais de cinquenta vezes durante o jogo. De algum modo, eu conseguia perceber que Naruto encarava Sasuke mais intensamente do que o necessário em uma partida amistosa de basquete. Não sabia ao certo o motivo, mas sabia que provavelmente tinha relação com o ocorrido algumas semanas atrás no corredor das salas.
Naruto iria driblar para a esquerda, pelo menos fora isso que eu imaginei, mas ao contrário disto, ele foi rumo à direita. Sasuke ficou para trás, mas não por muito tempo. Antes que o Uzumaki chegasse a linha de três, o moreno novamente lhe interceptou. Não havia muito a se fazer no momento. Tanto Sasori, quanto Deidara, os dois melhores jogadores depois de Naruto, estavam cerradamente marcados. Sasori era, dito pelo Uzumaki, o melhor arremessador de três pontos da faculdade, mas nem mesmo um gênio conseguiria fazer uma cesta naquela situação e, ainda por cima, Naruto não conseguiria passar a bola sem que essa fosse roubada pelo time azul.
A cesta de três cabia a ele, isso era algo certo. Eu sabia, por experiência própria, que Naruto era um horror em mirar a distância e que só fora aceito no time reserva de basquete durante o ensino médio por causa das enterradas. Ele, provavelmente, não conseguiria aquele ponto, pensei comigo mesma. Mesmo que eu dissesse que havia detestado a ideia de vir a este jogo. Mesmo que eu dissesse que estava praticamente prestes a desmaiar. Mesmo que eu dissesse que minha cabeça zumbia por causa da crise que, aos poucos, ia se intensificando, eu estava completamente ansiosa pelo o que aconteceria. Eu, de alguma forma, queria saber o que aconteceria em seguida. Meus olhos fixaram-se no moreno que ainda marcava Naruto. Ele parecia completamente relaxado, até demais para uma partida intensa como aquela.
Somente agora observando direito, percebi que Sasuke era realmente atlético. Além da altura, ele também tinha as pernas longas e fortes. Os braços, não muito musculosos, escapavam calmamente pela camisa azul. O suor escorrendo por sua testa e fazendo que alguns cabelos grudassem a sua testa. Bestifiquei-me ao notar que eu seguia o caminho de uma destas gotas de suor por seu pescoço. Balancei a cabeça para as laterais, negando-me a ter tais pensamentos. Meu cérebro só poderia estar realmente sufocado pela crise de claustrofobia. Encarei novamente a quadra e pisquei ao ver que havia perdido a noção de tempo.
Sasuke corria em direção a cesta. A bola quicando entre o chão e sua mão direita em grande velocidade. Naruto tentava segui-lo, mas parecia que o moreno praticamente voava pela quadra. Nem mesmo os companheiros de Sasuke conseguiam alcança-lo. O silêncio tomou conta da plateia assim que o Uchiha dera um pulo vários metros a distância do aro da cesta. A mão erguida segurava a bola entre os dedos. Minha boca entreabriu-se quando o som de pontuação fora ouvido por mim. Sasuke soltava o aro metálico deixando que seus pés novamente tocassem o chão. Todos estavam plenamente chocados. Até mesmo Naruto, que ainda bravo ficara incrivelmente chocado com o ocorrido. Aparentemente, Sasuke era um gênio no que se referia ao basquete.
Os segundos restantes deixaram claro o que todos já temiam. Quando o juiz dera o jogo, finalmente, por encerrado, o placar eletrônico mostrara o resultado de 70 a 76 para o time azul. Ergui-me novamente do banco. Eu estava, em parte, preocupada com Naruto, afinal, ele permanecera sério por todo o restante da partida desde que o moreno fizera aquele pulo memorável. Meus olhos tentaram encontrar a cabeleira loira de Naruto entre a multidão, mas não havia nenhum sinal. Virei-me apenas no momento de ver Sasori e Deidara aproximarem-se dos bancos. Caminhei até eles logo em seguida.
― Ei. Belo jogo. ― disse para eles que apenas deixaram um sorriso desanimado escapar por suas faces. ― Cadê o Naruto?
― Ele disse que ia ao banheiro. ― disse Deidara enquanto soltava os longos cabelos loiros e abria uma garrafa de água. Seus olhos castanhos fixaram-se ao líquido cristalino que transbordava pelo gargalo. ― Mesmo que ele esteja tentando se manter forte, foi uma derrota. É difícil absorver isso.
― Sim, é... ― Sasori resmungou rapidamente enquanto terminava de secar-se com uma toalha branca. ― Mas ele vai superar...
― Obrigada. ― resmunguei para os rapazes e forcei meus pés a seguirem até a saída. Eu realmente não estava interessada em assistir o jogo seguinte então ninguém me mataria se eu simplesmente saísse do local. Passei pelas pessoas ainda prendendo a respiração e joguei-me para fora do ginásio respirando profundamente. Curvei-me para frente para que pudesse respirar melhor. O ar escapava a galopes por minha garganta e provocava um som oco quando finalmente eu o absorvia de volta. Uma garrafa de água mineral apareceu a minha frente. Ergui-me e vislumbrei a figura masculina a minha frente. Suspirei lentamente e dei-lhe as costas.
― Não é educado virar as costas a alguém que lhe oferece um pouco de água. ― disse o moreno rapidamente. Suspirei por alguns segundos antes de finalmente o encarar. Sasuke ainda usava o uniforme do time azul e carregava uma toalha em seu pescoço. Os cabelos negros já havia secado e agora estavam ainda mais assanhados. Apenas virei novamente as costas para ele. ― Realmente...
― Não é educado fingir ajudar alguém a quem você chamou de meretriz. ― resmunguei ainda de costas para o Uchiha. ― Passar bem.
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