Efeito Dominó

36 Truth or Dare?


Notas iniciais
Olá anjos. Espero de coração que me perdoem por esse hiatus extremamente longo. Tive muitos problemas para focar, para conseguir escrever, bloqueios e outros problemas. Para quem ainda estiver por aqui, um beijo e um abraço gigante e um obrigado por não ter desistido dessa fic. Seguindo em frente pois temos muito - muito - com o que surtar ainda. Beijos, Jéssica. OBS: Capítulo curto porque estou retomando as poucos mas prometo voltar ao tamanho usual em breve.

Enquanto seus pés batiam incansavelmente contra a correia da esteira, Regina tinha muito no que pensar. Por quê levara tanto tempo para ela finalmente entender que estava em um relacionamento fadado ao fracasso? Como pudera ser tão cega, durante tanto tempo? Seus olhos encontraram o medidor, e ela percebeu que já havia percorrido quase uma dezena de quilômetros. Suspirou, continuando seus movimentos como se desafiasse seu próprio corpo. Podia sentir o suor escorrendo por todo o seu corpo; o top vermelho e cruzado estava encharcado, o short curto que Frank detestara (e que por essa exata razão era o seu preferido) grudando em sua pele.

Repensou a reunião que tivera com a Aliança. Victoria não era, de fato, uma inimiga. Depois de ter feito seu movimento pessoal contra Frank, afastando-o de Annalise, ela tornou-se receptiva, um pouco mais amena com Regina. Não que isso importasse. Nada daquilo importava a não ser pelo objetivo unânime de saquear e derrubar. Não importava que fosse seu marido. Na verdade, passou a não importar. De repente, nada mais passou a importar.

A porta de acesso à academia fez seu som regular e o coração de Regina pulou em seu peito, na esperança de que fosse determinado rosto a aparecer em seu campo de visão. Infelizmente, não era.

Cora adentrou o local com os olhos curiosos sobre a montanha de aparelhos muito bem cuidados. Envolta em um casaco aveludado carmim, parecia sentir-se a própria realeza, os saltos finos batendo contra o chão de porcelanato como martelos de um juiz decretando uma pena. Regina suspirou, imaginando que aquela visita seria amarga. Bateu contra o botão de emergência, forçando com que o aparelho perdesse velocidade rapidamente e foi diminuindo o seu próprio ritmo enquanto alcançava a pequena toalha de rosto. Não disse nada quando Cora finalmente aproximou-se e fitou-a de cima à baixo, encarando minuciosamente a musculatura de seu abdômen.

Regina desceu da esteira, colocando o braço sobre o suporte da garrafa e encarou sua mãe. Por algum tempo, ambas ficaram ali – uma batalha travada através do contato visual, como se uma estivesse desafiando a outra a tomar iniciativa.

“O que pensa que está fazendo, Regina?”

Um sorriso brotou nos lábios da mais nova, como se aquilo fosse o esperado. Talvez fosse. Tinha memorizado todas as abordagens de sua mãe; todas as estratégias, as diferentes manobras de intimidação, os jogos. “Correndo. Faz um bem danado à saúde.”

“Estou falando sério.”

“Eu também. Você não me viu na esteira?”

“Estou falando sobre a empresa. A empresa que eu e seu pai construímos com o nosso suor e que você” A voz dela sibilava no limite do desprezo. “Você, em um ataque adolescente de fúria, jogou na lama.”

Regina encarou-a como se tivesse escutado a piada mais cômica do mundo. Seus olhos vaguearam pela academia enquanto ela passava ao lado de Cora, rindo, balançando a cabeça em negação. “Por favor, Cora.”

Sentiu quando as unhas da mais velha fincaram-se em seu braço, impedindo-a de continuar caminhando. Regina virou-se imediatamente, encarando-a com tanta força e raiva que fez com que sua mãe recuasse sem pensar duas vezes. “Meu pai não tem nada a ver com essa empresa. Nunca teve. Não me venha com essa conversinha ridícula de ‘fiz tudo por vocês’ ou ‘estava pensando no futuro de vocês’. Por favor, não me insulte. Nós nunca fomos pobres. Talvez não tivéssemos um império, como você gosta de balbuciar, mas não estávamos sobrevivendo. Papai veio de família rica. Ele sempre teve o bastante. Você queria algo para se gabar e então sua ambição lhe rendeu a Apple’s Queen.”

Regina achou cômico a mudança no semblante dela. A verdade tem um peso terrível; não se pode lutar contra ela por muito tempo. Sua força é esmagadora. “Isso não quer dizer que você possa jogar tudo no lixo. Foi o meu esforço. O meu trabalho. Você não tem respeito. Você foi um erro, isso tudo foi...”

“Um erro?” Zombou Regina, bebericando alguns goles em sua garrafa de água. “Quando eu sabotei a empresa eu até pensei que estava sendo injusta com você, mãe. Realmente, não é meu esforço, não foi meu dinheiro. Eu pensei bastante nisso. Mas então, sabe o que eu fiz? Pesquisei. Pesquisei o começo do seu tão aclamado império.”

Cora empalideceu, os olhos arregalando-se; gesto que não passou despercebido por Regina. “Oh sim, fique chocada. Assim como eu fiquei. Você lavou dinheiro para a Wonderland aquele tempo todo; se deu ao trabalho de saber o que estava financiando? Você sabia que eles têm ligações com o tráfico de pessoas? Com o tráfico de drogas, comércio de armas, redes de prostituição? A Apple’s Queen nasceu do infortúnio de milhares de pessoas por aí. Carregada do sangue de famílias que nós nem sabemos quem são. Então sim, Cora Mills, você tem dinheiro o suficiente para viver o resto da sua vida como uma rainha e espero que use confortavelmente pois a Apple’s Queen morreu. Ela vai desaparecer. Eu faço questão de deletar todos os seus rastros.”

“Você não pode fazer isso...” Respondeu Cora, sem nenhuma convicção. Sabia que ela podia.

“Posso. Posso fazer tudo que eu quiser. Eu tenho 70% das ações. Eu sou a dona. Eu faço o que quiser sem sequer precisar de aprovação do conselho. E eu quero limpar o que resta de dignidade à essa família. Então a empresa vai cair.”

“E todas as famílias que você vai deixar desempregadas ao destruir essa empresa? Você pensa nelas? Você pensa em alguém além de si mesma?”

Regina balançou a cabeça em negação, rindo. “Você é uma mulher engraçada, Cora. Não que você realmente se importe, mas ninguém perderá o emprego. Eles serão alocados para outra empresa. A que eu vou abrir.”

Cora encarou-a, os olhos fuzilando de raiva. Estava prestes a despejar todo seu veneno em um último movimento quando Regina virou-se de perfil e ela finalmente pode ver, agora que ela não estava mais contra a luz. Aproximou-se repentinamente, assustando a mesma, e tomou seu rosto, segurando-o pelo queixo. “O que é isso?”

“Isso o que?”

“Esse hematoma, Regina. O que é isso?”

Foi quando Regina lembrou-se. Merda. Deveria ter se preparado para isso. Deveria ter pensado no que dizer. Mas nada vinha à sua mente. E pior do que ter de encobrir algo que lhe causava tanta vergonha era o olhar de preocupação, nítido e apavorante, estampado nos olhos de sua mãe.

“Regina, quem machucou você?”

Regina sorriu, um movimento involuntário. Seus olhos não acompanharam, também, como poderiam? “Não é um tanto óbvio?”

“Regina...”

“Foi o homem para o qual você decidiu me vender. Deveria ter escolhido melhor, mãe.”

Regina não disse mais nada. Colocou a toalha sobre o ombro, afastando-se dela e saindo da academia, sem se importar se Cora lhe seguiria ou não. Tanto fazia para ela. O melhor que ela podia fazer agora era endereçar a culpa a todos aqueles a quem esta pertencia e deixar que eles lhe sentissem. Afinal, ela não merecia carregar este fardo sozinha.

***

“Grant.”

Stuart ergueu a cabeça e se deparou com um Lockhood silencioso e inquieto. Seus ombros pareciam querer explodir dentro da camisa branca de malha fina; as mãos abriam e fechavam enquanto ele tentava manter-se menos ansioso. “Sim?”

“Podemos trocar umas palavrinhas a sós?”

Stuart olhou ao redor. Havia poucos seguranças no vestiário, mas ainda assim, não era um terreno seguro, se é que Robin queria lhe falar sobre o que ele achava que era. Balançou a cabeça, afirmativamente e terminou de amarrar seu sapato social. Robin seguiu caminho até a lateral, caminhando em silêncio absoluto até a piscina oeste. Parou perto da borda, dando uma olhada minuciosa pela casa antes de voltar a encarar o loiro à sua frente. Entretanto, permaneceu em silêncio, deixando o mais novo um pouco confuso.

“Então...” Tentou Stuart, puxando o assunto.

“Então...”

Mais silêncio.

“Eu não sei como fazer essas coisas.” Suspirou Hood.

“Comece falando.”

“Eu quero saber como ela está. Eu... Nós não estamos em um bom lugar agora, mas eu me importo. Ela está bem?”

Stuart encarou-o com subjetividade. Era tão óbvio o quanto Robin era apaixonado por ela; assombrava-o o fato de que Frank não era capaz de ver. Odiou o mundo por ser como era. Por pior que fosse Lockhood, por mais misterioso, por pior que fosse seu passado, com todas as probabilidades contra ele – ainda assim ele seria um homem melhor para ela. Um homem muito melhor do que o atual marido. “Ela está... bem.”

“Você não parece convencido disso.”

“Ela está se ajustando. Finalmente algumas verdades estão finalmente fazendo sentido e ela está meio triste. Só isso.”

“Que verdades?”

“As que nós sabemos, cara. Que o casamento é uma porcaria. Que ele não vai mudar ou melhorar. Que ela merece mais.”

Robin sorriu. Stuart teve vontade de rir, mas lutou para suprimi-la. Somente Regina para fazer aquele homem demonstrar qualquer emoção positiva.

“Eu só quero que ela seja feliz.”

“Então nunca deveria tê-la deixado ir.”

O semblante dele fechou-se de maneira imediata. “Não é assim que funciona, Grant. A mulher é casada com um maldito filho da puta. E quer ficar com ele.”

“Você recuou. Não me venha com historinhas. Você recuou e procurou o que parecia mais seguro e confortável.”

“O que é que você sabe para ficar falando com toda essa propriedade?”

“Eu sei que você ama aquela mulher ali dentro, Lockhood.” Desafiou Grant, encarando-o. “Eu sei porque já vi como você olha para ela. Eu sei porque você não viria aqui me perguntar sobre alguém por quem você tem mero afeto. Eu sei porque você foi até uma porcaria de uma floricultura comprar um buquê para ela, e teve medo de estar se apaixonando, então jogou tudo no lixo. Jogou o relacionamento para longe assim como fez com aquele buquê, temendo algo que já tinha acontecido. Você se apaixonou e em vez de lutar, você sugeriu que ela tentasse ficar com aquele homem.”

“Regina disse que não queria nada sério. Ela disse para eu não me apaixonar. Ela disse que”

“Ah por favor, Hood. Qualquer mulher com medo diz a mesma coisa. Você acha que mesmo que ela sentisse o mesmo, ela diria a você? Ela é casada com um monstro, ela teria medo até de assumir para si mesma qualquer outro sentimento. O que você achava? Que ela ia largar tudo e dizer ‘vamos fugir’?”

“Mas ela poderia....”

“Não se trata do que ela poderia fazer, mas do que você poderia ter feito. Eu entendo que Regina pode ser mimada. Ela pode ter tido uma vida confortável onde se acostumou a ter tudo o que queria, e nunca receber um não como resposta. Mas vocês deveriam ter conversado sobre isso. Resolvido. Não ficarem se bicando o tempo todo. Está mais do que na cara que os dois se amam, mas a cada dia que passa vocês se afastam um pouquinho mais.”

Robin riu. “Você é mesmo um sonhador, criança.”

“Um dia, Lockhood, você vai olhar para trás e perceber o quanto eu estava certo.” Stuart olhou ao redor, e depois voltou a encarar seu mentor. “E permanecer nesse relacionamento não vai te fazer esquecer ela, nem mais feliz. Pessoas não devem substituir pessoas, não funciona assim. Se seu coração está ocupado, de certa maneira, você já está sendo desonesto. Mesmo que não esteja fazendo nada explicitamente.”

Robin sentiu o peso daquelas palavras. Era como ele se sentia a respeito de Meghan. Como se já a tivesse traído desde o começo. Em nenhum momento Regina havia desocupado seu coração, ou os sentimentos que nutria por ela haviam mudado, diminuído, tornando-se menos influentes. Ele podia sentir, batidas firmes e fortes, lutando bravamente contra os limites de sua caixa torácica toda vez que ela aparecia em seu campo de visão. Toda vez que a voz rouca chegava até ele. Ele a amava. Um sentimento que ele jurou que jamais voltaria a sentir, mas ali estava ele, apaixonado enlouquecidamente pela difícil mulher.

“Você está certo.”

“O que?” Stuart ficou momentaneamente perdido.

“Você está certo, Grant. Tudo o que falou, está certo. Eu tive medo. Eu recuei. Eu não quis enfrentar isso.”

Grant permaneceu em silêncio, chocado com a sinceridade de Robin. “E isso quer dizer o que?”

“Quer dizer que no devido tempo vou consertar as coisas. Obrigado.” Encerrou Lockhood, batendo em seu ombro amigavelmente e afastando-se. Stuart virou-se, encarando as costas revestidas de músculos até que a mesma sumiu de sua perspectiva. Não fazia ideia do que estava se passando na mente dele mas torcia para que de alguma forma, eles achassem o caminho de volta de um ao outro.

***

O sabor do uísque já não lhe parecia tão saboroso. Talvez fosse porque seu organismo estava saturado; talvez fosse seu simples mal humor. De fato, as últimas semanas haviam se tornado uma catástrofe natural absurda. Tudo havia saído de seu controle, até mesmo coisas que não haviam como darem errado. Suspirou, empurrando o liquido janela afora. Apertou o botão para pedir ao motorista que parasse na próxima distribuidora de bebidas, mas seu telefone tocou, chamando sua atenção.

“Delfino.”

“Donovan na linha.”

“Sim, fale.”

“Encontrei algo para o senhor.” Respondeu o garoto, aparentemente animado. “A Senhora Delfino recentemente vendeu um loft na área central.”

Frank revirou os olhos. “Minha esposa vende muitos imóveis, rapaz. Isso não tem nada de absurdo.”

“Esse loft foi obtido através de uma compra individual, e vendido através de uma corretora individual também. Até onde sei, a sua esposa vende blocos de imóveis.” Donovan continuou. “Eu conversei com um dos vizinhos e ele alega que um homem e uma mulher visitavam esse loft com regularidade.”

Foi quando Frank ajustou-se no banco da limusine. Aquilo lhe chamava a atenção. Possivelmente não era Regina, não é mesmo? Ela não seria louca o suficiente para trai-lo. Mas ainda assim, qual a serventia daquele imóvel? Se é que ela poderia estar traindo-o, com quem?

“Dê um lance de compra e diga que faremos uma visita ao local.”

Frank permaneceu na linha, enquanto vasculhava o bar. Achou uma garrafa de uísque antigo que iria servir ao seu humilde propósito de embebedá-lo. “Só há horário disponível na segunda feira, senhor. Devo agendar?”

“Sim.” Comentou ele, abrindo a garrafa com os dentes e dando um longo gole no liquido viscoso. “E nada de dizer ao Lockhood. Aquele bostinha pode contar ao Stuart, que pode contar à Regina e ela pode dar um jeito de sumir com tudo.”

“Sim senhor.” Respondeu o garoto antes de desligar.

Frank jogou o celular ao seu lado, rindo. Até parece que Regina iria traí-lo. Bebeu outro longo gole, queimando sua garganta e deixando que o álcool fosse direto ao cérebro já alcoolizado. Não depois de tudo que ele fizera por ela. Para tê-la. Não depois do preço alto que aquele casamento havia lhe custado.

Sua paz, sua vida, sua alma. Ele havia dado tudo por ela.

Riu, bebendo outro gole, certificando-se de amortecer todo o seu corpo, embora quisesse amortecer sua mente da mesma maneira. Queria impedir os pensamentos que o atormentavam; queria poder impedir a verdade de persegui-lo. Um dia, todos irão descobrir. Um dia, ela irá descobrir. “Não!” Sibilou ele, chamando a atenção do motorista por alguns segundos, mas o mesmo preferiu não prestar atenção na loucura do homem que assinava seus cheques.

Sua vergonha será exposta, Little Frank. Ele bebeu outro gole, ainda mais longo, deixando que o gosto doce e amadeirado tomasse conta de seus sentidos. Precisava apagar. Anne foi apenas a primeira. Aos poucos, eles derrubarão você.