Efeito Dominó
7 Sorte ou Revés
O motorista a deixou no estacionamento do shopping, e ela seguiu para dentro do estabelecimento na companhia de Stuart. A ideia, sugerida pelo segurança, era ideal. Quando a secretaria de sua irmã a ligou, ela sentiu que havia algo muito errado acontecendo. Ruby Lucas jamais havia sequer falado com ela fora do expediente de trabalho; e então de maneira súbita havia pedido um encontro particular com a mesma. O motorista não poderia dizer a Frank nada além do óbvio — levara sua esposa às compras. Nada mais.
Quando chegou ao segundo pavimento, avistou a jovem sentada na última mesa do Hard Rock Café. Caminhou até lá,dispensando o contato do garçom. Ruby levantou-se, estendendo a mão em um contato profissional que fez com que Regina sorrisse para ela. “Estamos no shopping. Apenas duas amigas se encontrando.”
Regina puxou a cadeira e sentou-se; a secretária a acompanhou. Seus olhos se cruzaram; a garota parecia bastante nervosa. Notou um tremor quase suave em suas mãos, e ao erguer os olhos percebeu que ela encarava Stuart. Ele havia sentado a duas mesas de distância e mesmo se quisesse não poderia ouvi-las. “Ele é de confiança?”
“Acha que ele contará à Zelena? Ele trabalha para mim.”
“E para o seu marido.” Sibilou a garota, fazendo com que a traqueia de Regina fechasse por dois segundos.
“O que isso quer dizer?”
“Quer dizer que eu vim até aqui dizer muitas coisas que não agradarão a ninguém. Eu não estou temendo apenas por meu emprego, Sra. Delfino. Eu estou temendo pela minha vida.” Regina sentiu que a voz dela tremulou durante a ultima frase, porém não podia culpá-la. “Eu sei quem o seu marido é.”
“Eu confiaria minha vida à ele.”
A garçonete aproximou-se, deixando dois cafés. Regina olhou com surpresa para seu cappuccino, pedido exatamente como ela o tomava, com calda de chocolate e leite sem lactose, duas colheres de canela em pó. “É o hábito.” Ouviu a voz de Ruby, desculpando-se. Acenou, dispensando a justificativa. Ao menos alguém prestava atenção aos seus hábitos.
“Eu não vou permitir que nada lhe aconteça, Ruby. Mas você precisa ser honesta comigo. Sobre tudo. Eu prometo a você.”
Ruby bebeu um gole de seu café expresso. Parecia estar tentando agrupar o montante necessário de coragem para fazer aquilo. De maneira delicada, abriu a bolsa e retirou um recorte de jornal, empurrando-o na sua direção. Regina abriu o papel e leu o recorte; era o jornal do dia corrente, falando sobre o assassinato de um turista chinês. Não havia foto, e Regina reconheceu o sobrenome vagamente, sem lembrar-se exatamente de onde o conhecia.
“O que isso tem a ver comigo?”
“Ele estava na reunião dos investidores ontem. Zelena os fez assinar um contrato diferente do que você havia estipulado. Ela afirmou que você não poderia comparecer à reunião e que havia a colocado no encargo.” Ruby respirou fundo antes de continuar. “Os outros homens apenas assinaram. Mas esse aqui, ele exigiu uma reunião com você — para se assegurar da veracidade da transação. E ele está morto agora.”
“Eu não acredito que ela me enganou sobre a reunião. Ela me mandou um memorando dizendo que havia sido adiada!” Exclamou Regina, levando um dos dedos aos lábios e mordendo a pele dele; ansiedade espalhou-se pelo seu corpo deixando-a tensa. Não era à toa que a garota estava com medo. Um assassinato daqueles havia sido mais do que conveniente para sua irmã — era perfeito. Quase como se fosse proposital. Mas Zelena não tinha condições de fazer aquilo sozinha, a menos que… Frank.
“Você acha que foi o meu marido que a ajudou?”
“Com todo respeito, Sra. Delfino. Eu não acho. Eu tenho certeza.”
“Mas como?”
“Eu acho que a senhora precisa descobrir por conta própria. Eu já estou me arriscando bastante aqui.”
Regina colocou as mãos sobre as têmporas. “Já que você está se arriscando, me diga uma coisa. Para onde está indo todo o dinheiro que está faltando nos livros da contabilidade?”
Ruby apenas sorriu, os olhos formando um semblante de contentamento ao olhar para a herdeira da Apple’s Mills. O sorriso foi suficiente para Regina entender. Era óbvio que o dinheiro estava fluindo diretamente para alguma conta fora do alcance em nome de sua irmã. Arrependeu-se da confiança que havia depositado nos laços familiares; arrependeu-se ainda mais de não ter dados ouvidos à sua mãe quando teve chance. Ao que parecia, Cora Mills nunca estava errada em seus julgamentos.
“Eu ainda vou precisar da sua ajuda, Ruby.” Regina bebeu um gole de seu café, mas ele deslizou pela sua garganta com um gosto não muito melhor do que terra molhada arrastando por suas cordas vocais. “Eu preciso de algumas confirmações antes de retomar o controle da empresa. Vou devolver os livros e dizer que não encontrei nada; ela não pode desconfiar que algo mais está acontecendo.”
“Senhora, se ela desaparecer com o dinheiro dos chineses… Você será presa por fraude.”
“Eu sei disso.” Regina bebeu mais um gole do café e sorriu, encarando a jovem que ainda parecia extremamente nervosa. “Eu não serei presa e ela não vai desaparecer. Você tem a minha palavra.”
Ruby acenou, assentindo com as palavras da outra. Parecia um pouco mais calma agora. Regina permitiu observá-la mais calmamente agora. Não somente muito bonita e proficiente profissional invejável, ela tinha um ótimo gosto para roupas. “Por que, Ruby? Por que me escolheu? Por que ser leal à mim?”
Ela abriu um sorriso gentil, como se tivesse escutado algo bastante óbvio. “Porque sua irmã nada mais é do que uma chefe; eu já tive antes e provavelmente terei outras depois. Você é uma líder, Regina. A grande maioria se ressente do momento em que você passou a presidência para as mãos dela; somos constantemente usados ao bel prazer sem nenhum tipo de garantia de retorno. Você faz ideia de quantas pessoas foram mandadas embora por não fazerem o trabalho sujo que ela queria?”
Regina ficou em silêncio. Não, ela não fazia. Por muito tempo, seus problemas conjugais eram tudo no que ela conseguia pensar. Ela abandonou tudo que lhe dava prazer ou a fazia sentir viva, ela abandonara até a si mesma por ele. Ela se isolara do mundo, buscando uma resposta; mas agora percebia que estava fazendo as perguntas erradas a si mesma. “Isso vai mudar. Como eu disse, eu tenho um plano.” Regina afastou os pensamentos tristes e ergueu a cabeça. Muitas coisas iam mudar. “Volte ao seu trabalho, e faça o seu melhor, como sempre faz. Deixe o resto comigo.”
A garota sorriu, timidamente; pegou sua bolsa e se saiu, afastando-se sem olhar para trás. Regina manteve os olhos na parede, percebendo que não podia mais adotar uma postura de indiferença e acomodação perante o que lhe fora apresentado. Terminou seu café, sendo teletransportada para o dia anterior; lembranças de seus dedos acariciando o abdômen de Robin Lockhood a surpreenderam e um sorriso brotou em seus lábios. Não sentia nem um leve toque de arrependimento. Havia algo naquele homem, algo na sensação formidável que a abraçou quando ele colocou as mãos em sua cintura que a fazia querer mais e mais. Respirou fundo, voltando à sua realidade. Poderia pensar nisso em outro momento. Tinha algumas coisas a provar.
Levantou-se, colocando duas notas sobre a mesa; a garçonete apareceu antes que ela se afastasse. “Senhora.” Regina virou-se para ela. “O café já foi pago por aquela mocinha que chegou primeiro.” Regina olhou para longe, tentando encontrar Ruby mas ela havia sumido de seu campo de visão. Sorriu. A garota tinha integridade.
“Então fique como gorjeta.”
A garçonete sorriu, admirada com a generosidade daquela madame. Observou-a sair acompanhada de seu segurança e agradeceu aos poderes divinos por ainda existirem pessoas assim. Finalmente poderia levar seu filho pequeno ao cinema.
***
“Foi essa mulher que abordou Regina no estacionamento?”
Frank ergueu a foto para um dos seguranças. Robin estava ao seu lado, prostrado em pé silenciosamente. A foto era idêntica, não havia dúvidas.
“Sim.” Confirmou Donovan. “Ela disse algo mas foi um sussurro, bem próximo e não pudemos ouvir nada.”
“Estão dispensados.” Comentou o homem, sentado em sua cadeira estofada. Ele estendeu a mão e pegou o copo, bebendo um gole longo do conhaque. “O que você acha, Robin?”
“Eu não sei lhe informar. A Sra. Delfino não a conhecia e definitivamente não foi muito polida com ela, talvez por causa de sua dor de cabeça excruciante.”
O homem levantou-se; ajeitando o terno azul escuro. Os olhos de Robin viajaram até a arma presa no cós da calça. Um revolver Taurus 605; metal preto e brilhante. A arma que causaria sua morte se ele desconfiasse do que acontecera entre o segurança e sua esposa. “Margot Bishop não faz nada ao acaso, Lockhood. Nada. Aquela vadia sabe como dar nó em gota d'água.”
“O senhor já descobriu o alvo?”
“Não.”
“Talvez o senhor queira se incluir na lista. Por que mais eles viriam atrás de sua esposa?”
Frank parou de andar e o fitou. Era óbvio. Ele bebeu outro gole, com um sorriso aberto nos lábios. Caminhou na direção do segurança, segurando-o com as duas mãos e beijando sua bochecha como um lunático italiano. “Você é um gênio, Lockhood!” Ele andava de um lado para o outro, com as mãos na cabeça. “Por isso eu não consigo rastreá-los. Por isso não consegui encontrar o alvo ainda. Eu estou na mira deles.”
Robin lutou contra a sua respiração, forçando-se a regularizar seu ritmo cardíaco. Frank continuava falando, animado com sua nova teoria. “Eles querem me roubar. Deixem que venham; eu enviarei todos eles para o inferno antes que consigam.” Ele parou e fitou o segurança que permanecia em sua pose. “Amanhã vamos dobrar o time de seguranças. Contrate mais um time. Vamos iniciar mais uma classe no treinamento de base.”
Era uma atitude imprudente; Robin sabia disso. Abrir as portas os deixava vulneráveis. A mulher poderia infiltrar meia duzia do pessoal dela entre os seguranças e ela estaria dentro da mansão antes que eles pudessem ligar o interruptor. Ele fitou o homem à sua frente, e uma ideia passou pela sua mente. “Como desejar, senhor. Ligarei para a agência imediatamente.”
***
O coração de Zelena acelerou quando ela ouviu os funcionários correndo de um lado para o outro. Regina estava no prédio. Novamente. Por um instante, sentiu-se em apuros. Talvez Regina houvesse descoberto sobre a morte do empreendedor e vinha em sinal de guerra tirar satisfações sobre a reunião que ela havia informado o adiamento. Sabia que podia culpar Ruby; a secretária confundiu os memorandos e mandou o errado. Nada que nunca ocorrera em empresas de grande porte.
Ajeitou-se, alisando a saia da Burberry e a camisa branca, os saltos Prada tocando elegantemente contra o chão de porcelanato líquido e adicionando o verde necessário ao seu look minimalista. Dois toques na porta anunciaram a entrada de sua irmã. Regina sorriu. “Interrompo algum divertimento?”
“Só estou trabalhando.” Zelena não se deu ao trabalho de levantar-se. Passara da fase de cumprimentos afetuosos, sua relação com sua irmã não era mais sequer amigável. Apenas afastou um pouco o corpo da mesa e direcionou o olhar que antes estava atento ao seu Mac para a irmã; Regina estava elegante com um vestido justo e vermelho como sangue. A associação a fez sorrir. “A que veio?”
“Devolver os livros da contabilidade.” Regina colocou a bolsa sobre a poltrona e caminhou pela sala, verificando o chão, analisando a distância entre a mesa e as paredes. Quando voltou a olhar para a irmã, percebeu que os olhos azuis da ruiva a seguiam com curiosidade. “O que diabos está fazendo, Regina?”
A irritação em sua voz não passou despercebida, causando um prazer quase absoluto na morena.Todavia, seu prazer morreu repentinamente quando seus olhos caíram sobre o relógio no pulso dela. Como se cordões estivessem se rompendo em sua mente, ela se aproximou. “Eu adorei essa camisa. É Chanel?” Perguntou, adentrando um disfarce superficial. Mas não se importava. Conhecia aquele relógio. Gastara muito dinheiro comprando-o como presente de aniversário de casamento. Inclusive lembrou-se do valor exorbitante que pagara para marcar o PP com fios de ouro sobre a pulseira de couro legítimo. Então era isso que Ruby queria que ela soubesse por conta própria. Que seu marido estava transando com sua irmã. Que era por isso que ele a ajudara a se livrar dos obstáculos que poderiam impedi-la de continuar roubando seu dinheiro.
“É uma Carolina Herrera.” Respondeu Zelena, sorridente. A morena desejou ardentemente quebrar todos aqueles dentes com socos. Sentiu vontade de chorar, de gritar, de quebrar tudo naquela sala. Mas trancou a tempestade de emoções dentro dela, e pela primeira vez desde que entrara ali, teve certeza da decisão que tomou.
“Você sabe, Zelena… Vai precisar afastar a sua mesa um pouquinho para o lado de lá.”
A ruiva franziu o cenho, confusa com a súbita mudança de assunto. “Por que eu faria isso?”
“Porque eu não vim aqui só para devolver os livros da contabilidade. Eu também vim lhe dar uma notícia.” Um sorriso brotou nos lábios pintados com um tom tão vermelho quanto o do vestido que contornava suas curvas. “Eu vendi trinta por cento das minhas ações.”
“Que?” A voz de sua irmã elevou-se alguns decibéis rapidamente. “Regina, o que você fez? Você agora tem o mesmo que essa pessoa! Você não poderá mais decidir o futuro da empresa sozinha.”
“Não se preocupe. A visão dela é quase a mesma que a minha.”
Zelena levantou-se, agitada. Seu rosto queimava, e ela andou de um lado para o outro por alguns segundos, até que parou e virou-se para sua irmã que havia sentado sobre a sua mesa e cruzado as pernas com um semblante calmo.
“Para quem?”
A grande porta de madeira se abriu, e uma terceira pessoa adentrou a sala. Cora Mills fitou ambas e sorriu. Ela vestia um sobretudo preto, e um chapéu também preto sobre os cabelos elegantemente penteados. “Eu senti falta desse lugar.”
Zelena virou-se para Regina com os olhos cheios de lágrimas. “Eu não acredito que você a trouxe de volta. Você sabe muito bem que ela me odeia.”
Cora passou por trás dela. “Não seja tão dramática. Eu só desgosto de você. Não chega sequer a ser ódio.”
“O que aconteceu com você? Essa empresa era tudo o que você queria… Porque está devolvendo à ela?”
Regina desceu da mesa, caminhando até ficar frente a frente com sua irmã. Olhou em seus olhos azuis, sentindo o que parecia ser um fervor interior que a fazia querer sorrir até o sorriso rasgar sua face. Retirou uma mecha de cima dos olhos dela, colocando-a atrás da orelha. “Por muito tempo, tudo que eu queria era essa empresa. Este grandioso império. Só que agora existe algo que eu quero mais. Muito mais.”
Zelena continuou olhando, ainda incrédula sobre estar vivendo um pesadelo ou uma esmagadora reviravolta do destino. “O que pode ser tão valioso para você? O que você tanto quer?”
“Vingança.” Regina finalmente permitiu os lábios se abrirem em um gigantesco sorriso. “São sessenta por cento das ações contra os seus vinte e cinco. E o fato de você não ser exatamente a filha preferida da mamãe só tornou isso mais fácil. Parabéns, irmãzinha. Eu espero que todas as transas com ele tenham valido a pena.” Sibilou Regina, apontando para o relógio. “Como eu disse, eu quero vingança. E vingança eu vou ter.”
Regina deixou-a para trás, pegando sua bolsa sobre a poltrona e caminhando para fora da sala. O jogo havia apenas começado.
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