Regina estava no quinto copo de uísque, sentindo todo seu corpo dormente. Sua visão estava completamente turva — em parte devido ao álcool, em parte devido ao tanto que havia chorado. Humilhação, era tudo que ela sentia. Jogou o copo contra um dos espelhos, e estilhaços voaram por todo lado. Seu reflexo estava borrado e ela começou a rir, as palavras saindo de seus lábios fora de ordem e seguindo uma sequência desconexa. Ela estava exageradamente bêbada, mas a lembrança de que Frank jamais saberia — afinal, ele passaria a noite com suas vagabundas — a deixou aliviada.

Vestindo apenas um conjunto de lingerie vermelho, ela caminhava de um lado para o outro de sua suíte, gritando xingamentos ao vento. Não estava pensando com clareza; pouco se importava com o time de seguranças ou os funcionários que poderiam estar adorando o show que a patroa estava proporcionando.

Andou até o espelho, e deslizou a mão sobre o local onde havia atingido o copo. Sangue apareceu em seus dedos, mas ela não estava sentindo nada. Na verdade, a cor vibrante capturou sua atenção e ela ficou ali, observando como se estivesse encantada. Ela ouviu um barulho na porta e a mesma se abriu lentamente. Os olhos azuis de Stuart a fitaram e ele permaneceu paralisado enquanto entendia a situação, os olhos perceberam sua seminudez e ele desviou o olhar imediatamente, foi quando ela percebeu que ele fitava sua mão agora ensanguentada.

“Senhora.” Clamou ele, com a voz baixa e sobreposta por um semblante preocupado. Ele caminhou até ela, e a pegou no colo, tentando de todo modo não tocá-la embora fosse impossível. Ele a levou até o banheiro, sentando-a sobre o vaso sanitário. Começou a fuçar as gavetas do gabinete, apressadamente. Regina não se sentia bem. Seu estomago não estava animado; ondas de vibrações iam e voltavam, aumentando a sensação de enjoo. Encostou a cabeça na parede atrás de si e fechou os olhos, tentando manter-se acordada. Ouviu a voz dele chamando-a.

Fez uma força que parece descomunal para abrir os olhos. Stuart parecia preocupado. “Eu preciso tocar sua mão para fazer um curativo, senhora.”

Por que ele estava perguntando aquilo? Talvez ela estivesse mais bêbada do que imaginava. Não fazia sentido. Ela riu, uma risada singular e curta; tentou focar nos olhos dele embora estivesse vendo apenas um leve contorno da face do rapaz. “Você não precisa pedir permissão para fazer um curativo.”

“O chefe me disse que se eu tocar a senhora sou um homem morto.”

Ela parou de rir, sentindo o que parecia ser um aperto no peito. “Ele não toca, e mais ninguém pode…” Riu amargamente. “Mas ele pode tocar aquelas putas.”

“Senhora, o sangue…”

Stuart tomou a iniciativa e ela sentiu o toque suave dele ao redor de seu pulso, mantendo a mão parada. Observou com dificuldade enquanto ele limpava o pequeno corte feito por uma ponta do espelho. Com cuidado, ele molhou um algodão e voltou a limpar, fazendo pressão para estancar o sangramento. “Segure aqui.” Pediu ele, colocando um algodão limpo sobre o machucado e colocando o polegar da mão livre dela sobre o mesmo.

Ele se virou e abriu outras gavetas, procurando algo. Segundos depois, virou-se com dois band-aids. Colocou um sobre o machucado e outro um pouco mais abaixo, vedando o ferimento. “Acho que isso vai solucionar. A senhora precisa de ajuda para ir até a cama? Quer que eu peça algo à cozinha? Remédio, suco, chá…”

Antes que ela pudesse responder, a tempestade em seu estomago ficou pior. Ela sentiu as pontadas em sua cabeça ficarem piores e não pode impedir o que veio depois; no minuto seguinte que abriu os olhos tudo que viu foi a barra da calça dele e seus sapatos sujos por seu vomito. Fechou os olhos, envergonhada. Possivelmente nunca mais teria coragem de olhar na cara do segurança.

“Me desculpe, Stuart. Me desculpe, eu não…”

“Senhora.” Chamou ele, e ela continuou em negação, sussurrando uma porção de desculpas quando ele segurou em suas duas mãos. “Regina.” A voz calma e firme fez com que ela respirasse fundo e olhasse para ele. “Não peça desculpas. Eu estou aqui para isso. O que mais a senhora precisa?”

“Um banho.”

Por essa ele definitivamente não esperava. As únicas funcionárias mulheres da casa trabalhavam na cozinha, condição que fora determinada exatamente por ela e seu ciúme do marido. Ele a ajudou a levantar; colocou o braço dela sobre o seu pescoço e a ajudou a chegar frente ao box de vidro. “A senhora… quer que eu chame alguém? Uma das cozinheiras? Robin?”

“Você pode fazer isso, Stuart.” Disse ela quase sem força. “Desate o fecho do sutiã.”

Ele respirou fundo e com cuidado colocou os dedos sobre o tecido, com cuidado para não tocar a pele dela. Já era completamente constrangedor que ela estivesse seminua na sua frente; ele não precisava de mais motivos para sentir-se numa posição esquisita. Ela segurou o sutiã com as mãos e entrou no box; segundos depois ele ouviu o chuveiro sendo ligado e a água escorrendo. “Eu vou esperar do lado de fora. Pode me chamar se precisar de ajuda.” Informou ele e saiu apressado. Encostou-se à parede, fora da visão dela e respirou audivelmente. Robin estava certo — aquela função o havia encrencado.

Regina sentia a água lavando de si não somente o estado de torpor, mas também as suas dúvidas. Só lhe restavam certezas. Certeza de que havia sido idiota ao acreditar que as traições jamais lhe atingiriam. Certeza de que saber que seu marido deitava-se com outras não era absolutamente nada comparado ao desprazer de ver tal ato acontecer. Fechou os olhos e encostou a cabeça na parede gelada enquanto a água quente contornava seu corpo agora nu. Lembrou-se da mulher que se aproximara dela no estacionamento do casamento; era a mesma loira que vira conversando com Frank, a mesma com a qual ele havia flertado abertamente. Educada, não a havia abordado imediatamente, pedindo permissão aos seguranças.

Olá, meu nome é Margot Bishop. O sotaque britânico era inconfundível e Regina estava tão fora de si naquele momento que não se dera ao trabalho de perguntar ou mesmo tentar descobrir de que país. Tinha uma vaga lembrança de ter dito algo extremamente rude sobre o seu marido, concluindo que a mulher só podia ser mais uma das dezenas que ciscavam ao redor dele. Meu interesse não é no seu marido, Regina. E vale dizer que aquele homem tem algum problema de validação sexual. Riu contra a parede, era uma ótima observação. A mulher era belíssima e bastante intrigante, o que surpreendia a Regina o fato da mesma não ter interesse em Frank — ao menos era o que ela dizia. Eu só quero deixá-la com meu cartão.

Em qualquer outro momento, Regina teria conversado com ela. Teria feito perguntas, demonstrado interesse, tentado desvendar a abordagem sutil e eficaz. Mas ela estava passando por um inferno naquele momento, de modo que a única coisa que lhe veio à mente quando pegou o mesmo, era perguntar o que a fazia pensar que ela ligaria para aquele número. Ligue para ele quando estiver pronta para destruir seu marido. Sussurrou a loira de modo que nenhum dos seguranças a ouvira.

A memória de seus lábios formando a seguinte frase estava vívida em sua mente. “Isso não vai acontecer.” Mas a loira apenas sorrira como se tivesse ouvido uma boa piada, e desaparecera novamente entre os carros. Ela possivelmente sabia muito mais sobre seu marido que Regina ousava saber e somente por isso havia feito tal proposta. Mas nesse momento a morena não se sentia apta para fazer uma ligação. Sequer sentia-se apta para finalizar aquele banho.

Com a sensação de que seu corpo pesava o triplo do seu peso real ela se arrastou pelo banheiro e pegou uma toalha. Deslizou-a sobre seu corpo, permitindo que o tecido macio enxugasse sua pele com delicadeza. Quando sentiu-se um pouco melhor, enrolou a toalha sobre o corpo e apareceu na porta do banheiro. Stuart estava encostado na parede, em silêncio. “Você me ajuda a chegar ao closet, por favor?”

“Como desejar.” Respondeu ele, a guiando com cuidado e certificando-se de que ela não bateria em nada. Regina entrou, e a toalha enroscou na maçaneta, de modo que quando ela deu mais um passo a toalha foi violentamente puxada de seu corpo. Seu rosto queimou e ela ergueu os olhos rapidamente, mas o que viu foi apenas Stuart com os olhos firmemente fechados. Ela rapidamente pegou a toalha e revestiu seu corpo, assustada.

“Pode abrir os olhos.” Ele abriu, mas não olhou para ela.

“Vou fechar a porta e pedir que um dos rapazes da manutenção venha fazer a limpeza e retirada dos estilhaços. Eu estarei do lado de fora do quarto o tempo todo.”

“Obrigada.” Sussurrou ela, e ele saiu, fechando a porta atrás de si. Regina gemeu em frustração, a cabeça ainda doendo e o estomago reclamando um pouco. Ela não deveria beber daquela maneira, nunca mais. Sentou-se sobre a banqueta e permitiu um pouco de descanso ao seu corpo. Pensou em como Stuart Grant havia se portado a noite toda; aquele rapaz tinha algo de extremamente nobre e respeitoso em seu caráter, algo que seu marido sequer sonhava em possuir. Sentiu algo que há tempo havia esquecido. Ele a havia respeitado. Respeitado sua vulnerabilidade, seu corpo, suas decisões. Podia jurar que ele até mesmo sentiu-se constrangido por toda a situação. Sorriu. Vestiu uma calcinha e antes de encontrar o baby-doll ouviu o som do aspirador ressoando por dentro da suíte.

***

Os primeiros raios de sol criavam um efeito de luminosidade quase artístico no quarto, e Zelena voltou da cozinha pensando em quão boa ficaria uma fotografia sobre aquele efeito natural. Vestindo apenas uma camisa social masculina, ela se dirigiu à vidraça do quinquagésimo andar e observou a cidade. Amanhecia silenciosamente e ela cogitou não ir trabalhar, embora soubesse que essa opção não existisse.

Ouviu-o resmungando algo e sua atenção voltou-se para o homem deitado em sua cama. Seu tórax estava descoberto e com marcas de chupões que ela mesma havia dado. “Não se acostume.”

“Com o que?”

“Aparecer aqui no meio da noite, Frank. Sem avisar.” Ela caminhou de volta até a cama com um sorriso travesso. “Já pensou se minha irmãzinha estivesse aqui?”

“Ela saiu da festa ontem porque estava com dor de cabeça. Por que diabos ela viria para cá?”

“Ela só tem dor de cabeça quando bebe demais.” Comentou Zelena, distraída. Frank levantou-se rapidamente e a capturou, segurando-a pela nuca e beijando seus lábios. Ela deslizou os dedos pelos braços fortes e então ao encontrar o relógio, seus olhos se abriram e ela se afastou dos lábios dele.

“Esse relógio é maravilhoso.”

“É um Patek Philippe 2523 Heures Universalles.” Proferiu ele, com desdém. “Acho que foi presente da sua irmã. Não lembro. Você quer?”

Os olhos dela ganharam um brilho especial com a proposta. Ele estava me oferecendo um dos relógios mais luxuosos do mundo a ela como quem oferecia um pacote de bala?

“Eu… quero.”

“Zelena, meu amor. Quantas vezes vou ter que explicar isso á você? Se quer ser bem sucedida…” Ele se aproximou, alinhando seus olhos contra os olhos verdes; fitou os lábios dela por alguns segundos e voltou a encarar decisivamente o par de íris verdes fixas nele. “Seja convicta. Fale com certeza. Tenha postura. Não existem pausas para vencedores. Diga eu quero. E será seu. Tudo será seu.”

“Eu quero.” Repetiu ela, agora imersa no luxo e motivada por uma ambição sem limites. Seu sorriso alargou-se e ela mordeu o lábio inferior quando ele retirou o relógio e o colocou sobre o delicado pulso; ajustando seu tamanho. Ela observou o mesmo em seu pulso, erguendo o braço e admirando-o ali.

“Ficou maravilhoso.” Sussurrou ela, obcecada pelo brilho da peça em contraste com sua pele branca e a luz matinal que os cercava.

“Sabe o que mais ficaria maravilhoso?” Provocou ele, descendo da cama e caminhando até estar atrás dela, fora de seu campo de visão. Zelena apenas podia ouvir a voz rouca e embargada pela luxúria atrás de si. “Você, usando apenas esse relógio.”

Ela fechou os olhos e gemeu quando sentiu os dedos dele desabotoando o primeiro botão da camisa.

***

Os olhos dela estavam fixos no espelho, mergulhados na profundidade dos olhos azuis atrás dela. Seu corpo ardia, derretendo sob o olhar intenso que recebia através do reflexo. Ele deu um passo à frente, e as mãos firmes seguraram em sua cintura, dando-lhe meia volta e empurrando-a contra a superfície gelada, eliminando a distância entre seus corpos. Regina ergueu os braços, e ele entrelaçou seus dedos nos dela, mantendo-os firmemente imobilizados.

Ela não sabia no que focar; parte de si queria morder a barba rala, a outra parte desejava que ele enfiasse a língua em sua boca e a beijasse ferozmente. Sentiu uma das pernas dele posicionando-se entre as suas e modulou o quadril de modo que seus corpos se encaixaram e a pressão fez com que ele gemesse baixo. Ele ergueu suas duas mãos e as manteve imobilizadas acima de sua cabeça com uma mão; com a outra acariciou a lateral de seu rosto. “Você é tão linda, Regina.” O sotaque causou arrepios em seu estomago. Ele deslizou o polegar por seus lábios, hipnotizado; Regina não pensou duas vezes antes de abrir os lábios e capturar o dedo dele, deslizando a língua sobre a pele do mesmo com suavidade, desejando fazer aquilo em outra posição e em outro lugar.

O movimento fez com que ele pressionasse ainda mais a perna entre as pernas dela, levando-a a gemer ainda mais alto. “Oh Robin…” Ele soltou suas mãos imediatamente após ouvir seu nome ser proferido de maneira tão doce e sôfrega, as duas mãos viajando para a parte de baixo de suas coxas, as palmas abertas sobre as suas nádegas e fechando em seguida em um aperto firme e poderoso que quase a levantou do chão, ao mesmo tempo em que suas bocas se encontraram em uma explosão fervente de línguas e tesão.

Ela deslizou as mãos para baixo da camiseta branca que ele usava e arranhou, puxando a carne com força numa tentativa vã de abafar o que sentia. Ela sentiu-o afastar o rosto e assim que abriu os olhos, encontrou o rosto de Frank a observando.

“O que está fazendo?”

O susto foi tão grande que ela acordou. Febril, usando apenas um baby-doll azul bebê. Estava sozinha em sua cama. Seu coração estava disparado. Olhou pela janela, e fechou os olhos, abrindo-os lentamente dessa vez para que os mesmos se adaptassem à luz matinal. Estava suando bastante; sua respiração sendo reorganizada lentamente. Deitou-se novamente e fitou o teto de seu quarto com uma expressão de pânico em seu rosto. Ela estava sonhando com o segurança — e não somente qualquer sonho, mas aquele sonho. Desejou ardentemente estar bêbada para que essa fosse sua justificativa. Mas ela sabia que não. Estava mais lúcida do que nunca.