Efeito Dominó

6 Negócio da China


Robin respirou fundo, suor escorrendo por seu dorso. Continuou as flexões, ignorando a dor em seus tríceps. Com os pés sobre o assento de um dos equipamentos, ele precisava forçar todo o tronco até o chão e voltar. Continuou, fechando os olhos e concentrando-se na força de seus músculos. Subia relativamente devagar e se reerguia na mesma velocidade. Tentava manter a mente aberta, mas uma confusão de pensamentos o fazia ir e voltar. Se recusava a aceitar que estivesse com ciúmes de seu pupilo; mas sabia que a amizade do mesmo com Regina era, pra dizer o mínimo, incômoda.

Os nervos gritavam, mas ele os ignorou. Continuou, decidido à exaustão. Precisava de mais — sentia-se atrofiando com o empobrecimento de tempo de treino. Frank o mantinha em missões o tempo todo, apenas para limpar a bagunça causada por dinheiro e jogatina. Bufou e desceu os pés do assento, levantando-se e alongando os braços; com um movimento os puxou para trás e os esticou o máximo que pôde para longe do corpo. Alguns instantes depois repetiu o movimento mas com os braços para a frente. Assim que sentiu a musculatura relaxar, ondulou os ombros de modo que esses seguissem movimentos em sentido horário. Usava apenas um shorte preto e as botas altas cujos cordões ele havia amarrado alto; sua camiseta branca estava jogada na entrada da academia. Inicialmente a academia havia sido feita para Regina — Frank não queria a mulher treinando em aparelhos que lhe colocavam em posições sexuais na frente de outros homens. Mas acabou se tornando um centro de treinamento útil para os formandos da equipe de segurança; de modo que quando a esposa não estivesse usando todos eles possuíam permissão para frequentá-la.

Ele soltou o ar e bebeu dois goles de sua água, e caminhou até as grossas cordas firmemente presas ao alto pé direito do prédio. Abaixou e levantou algumas vezes, alongando as pernas; tomou impulso e pendurou-se na corda, subindo e descendo apenas com a força de seus braços. Tocou o teto, e pulou para a outra corda, descendo por ela sem usar as pernas. Ao chegar ao chão, respirou fundo e refez o processo, forçou os braços e subiu pela corda até tocar o teto, descendo pela mesma em seguida.

Atingiu o chão com um baque e debruçou-se, colocando as mãos nos joelhos para um breve descanso, mas rapidamente se levantou ao ouvir a voz grave e rouca. “Isso foi impressionante.”

Ele se virou para ela; Regina estava na sua frente usando apenas um top esportivo e um shorts de modo que bastante de seu corpo estava à mostra. Ele se virou rapidamente, mas esqueceu-se que agora estava frente a um espelho e o reflexo dela o fitava com curiosidade. Seus olhos viajaram involuntariamente para o abdômen delineado; a pele branca contrastando com o shorts pink que ela vestia, chamando mais do que a costumeira atenção. “Já estou de saída, senhora Delfino.” Respondeu ele, mas ela o impediu de passar por ela ao agarrar seu antebraço.

“Por que está fugindo?”

“Não temos autorização de usar a academia quando a senhora está aqui, sabe disso.”

Ela revirou os olhos. “Mas você é o braço direito dele.”

Robin sorriu, encarando os olhos cor de chocolate pela primeira vez. “E você é a esposa dele. Não há exceções para isso.”

Regina entendeu o que ele queria dizer, mas mesmo assim não o soltou. Em vez disso, seus olhos viajaram pelo corpo dele; o tórax largo, os músculos definidos do abdômen, os músculos que faziam o caminho do seu quadril para dentro do shorts que ele usava. Ele tinha um corpo estonteante; os braços enormes e duros com mais músculos que ela possuía no corpo todo. Ela não devia estar ali, não devia estar alimentando as fantasias que estavam assombrando seus sonhos mas não conseguia simplesmente parar — havia algo completamente magnetizante nele. Robin percebeu o que ela estava fazendo mas não a impediu e nem se afastou, permitindo que ela observasse exatamente o que queria.

“Posso?” Perguntou ela, sem olhar para ele. Se olhasse, teria encontrado o olhar dele, um azul intenso que estava em dúvidas sobre aquilo estar realmente acontecendo, sobre a proximidade dela, sobre o fato das unhas dela estarem cravadas na pele de seu antebraço. “Como desejar, senhora.” Respondeu ele, a voz rouca e carregada pelo momento.

Regina mordeu o lábio inferior e deslizou as unhas pelo abdômen dele, desenhando a linha entre os gomos evidentes. Seu toque era suave e leve, causando uma sensação de carinho e formigamento. Ela aprofundou o toque, permitindo que suas digitais percorressem o caminho de seu tríceps, contornando cada músculo; seu toque conduzia uma eletricidade entre eles que era de certo modo viciante — nenhum dos dois ousava quebrar aquele contato, era poderoso demais. Regina deslizou os dedos pelo contorno dos ossos da clavícula dele, e então seus olhos se encontraram; havia desejo em ambos os olhares e isso surpreendeu apenas à ela. Mesmo assim, Robin não havia mexido nem sequer um músculo em sua direção. Talvez em seu subconsciente a linha que delimitava um limite estava muito mais nítida do que para ela; ele tinha ressalvas por sua posição, possivelmente.

Ela havia perdido o juízo, jurava a si mesma. Mas o calor que emanava do toque de seus corpos era algo que ela jamais havia provado e ela não estava nem um pouco preocupada com as consequências naquele momento. Segurou na palma da mão dele e então levou-a até a pele descoberta de sua barriga; o toque fez com que ele puxasse a mão. “Senhora Delfino.” Eles ainda mantinham contato visual, e ela percebeu a incerteza dele embora ele não tivesse desvencilhado sua mão das mãos dela. “Eu não posso…”

“Shhhh.” Ela o interrompeu. “Você não está fazendo nada. Sou eu. Deixe que ele me culpe.” Com isso ela colocou as mãos dele sobre a pele de sua barriga e apertou-as ali, fechando os olhos e respirando fundo; Robin deslizou os polegares sobre a pele da mesma em carícias circulares e delicadas que a fizeram entreabrir os lábios para facilitar a entrada de ar. As pontas dos dedos dele deslizaram com suavidade em sua lombar e ela suspirou, tragada pelo calor que aquele toque proporcionava. Ela estava inebriada pelo toque dele e quando Robin fez apenas uma leve insinuação de força e a puxou, aproximando seus corpos quase que definitivamente, ela abriu os olhos. Eles mergulharam um no olhar do outro e ele soltou a cintura dela, subindo uma mão até seu rosto, fazendo com que ela encontrasse caminho até a nuca dela e a trazendo para cima em uma manobra de posse. Seus lábios estavam próximos, perigosamente localizados a um sopro de distância; ela podia jurar que sentia a aura dele sobre sua boca.

Ele roçou os lábios nos dela e Regina podia jurar que nunca havia sentido tanta ansiedade e tanta luxúria ao mesmo tempo, mas de repente Robin simplesmente a soltou. “Não posso fazer isso.” A voz dele veio como um golpe firme e frio, derramado sobre a febre passional que se apossara dela. Regina observou incrédula enquanto o segurança pegava a garrafa d'água e caminhava no sentido da saída; ele pegou a camiseta perto da porta da entrada e a vestiu, sem sequer olhar para trás. Regina deu uma gargalhada rouca no ar, balançando a cabeça. Talvez aquele fosse seu destino mesmo — desejar homens que a não a queriam.

***

Zelena caminhou pelos corredores da empresa como se estivesse desfilando pelas passarelas de Milão. Chegou à sala dos investidores, e fitou os chineses sentados do outro lado da grande mesa de vidro. Um deles disse alguma coisa, e Zelena sentou-se.

“Ele perguntou onde está Regina.”

“Minha irmã não pode vir. Ela me deixou encarregada desta reunião.” Ao proferir aquilo, Ruby ergueu os olhos e fitou a ruiva com o olhar contrariado. Mais uma mentira. A morena sabia que sua chefe sequer havia informado Regina sobre a reunião; era mais uma das pequenas sabotagens feitas pela mais velha das irmãs Mills — sempre tentando destruir a carreira e reputação profissional de sua irmã mais nova.

O chinês mais velho começou a falar, de modo que Zelena o observou com curiosidade enquanto repassava o contrato com os olhos. Abriu sua pasta e retirou um novo contrato, substituindo-o. Ruby observou o movimento, em silêncio. “Ele disse que em sua cultura, é importante ter palavra. O acordo foi feito com a Senhora Mills-Delfino.”

“Mas tudo que foi acordado com a sócia majoritária da empresa continuará o mesmo. Só iremos fazer um última apresentação do mesmo projeto e assinar os contratos. Nenhuma modificação. Apenas conclusão do negócio.”

A interprete proferiu as palavras com rapidez, e após uma leve consideração dos três homens à sua frente, pediu para que esta prosseguisse. Arthur foi chamado, e ele, através da apresentação de um vídeo explicativo e traduzido para o chinês conseguiu remeter ao negócio de expansão de mercado oriental para diversas cidades americanas. Aquela parceria remeteria milhões e uma imersão da cultura chinesa em bairros predominantemente tomados por americanos, providenciando assim que nativos e descendentes pudessem ter um contato ainda que mínimo com sua cultura de nascença. Algo que os agradava e muito, e a propaganda visual fez com que os homens sorrissem. Sim, era exatamente aquilo que eles queriam e esperavam.

Zelena entregou os contratos para Ruby e a mesma caminhou até os homens que assinaram animados. A ruiva seguiu com os olhos cada um deles, o movimento da caneta sobre o papel, e quando o ultimo terminara, um sorriso verdadeiramente maligno cruzou sua face. “Fico muito feliz que nossa empresa serviu aos seus propósitos, Sr. Nashiko. Espero lhe dar boas noticias em breve.”

Ela aguardou a interprete passar sua mensagem; o homem mais velho gargalhou, entretanto o mais sério deles virou-se para a interprete e disse algo. Zelena aguardou ansiosamente, não podia sair daquela sala sem ter certeza de que estava segura. “Ele disse que gostaria de agendar uma reunião com a Sra. Delfino. Apenas para certificação.”

“Como desejar. Minha secretária irá agendá-lo.”

Ruby estava saindo com os contratos para entregar ao jurídico quando a ruiva a parou. “Onde você vai? Você não foi dispensada ainda, Sra. Lucas.”

“Eu iria levar os contratos para o jurídico. Regina sempre diz que”

“Regina não está aqui.” A voz da ruiva soou extremamente fria e rude. Ela deu mais um passo, ficando perigosamente próxima da jovem secretária. “E sua lealdade à ela pode acabar custando seu emprego. É isso o que quer?”

“Não senhora.”

Zelena sorriu. Retirou os contratos das mãos dela e colocou-os na mesma pasta onde estavam os contratos oficiais. “Eu cuido disso. Você e Arthur irão levá-los a um restaurante de comida chinesa com strippers e fazer com que eles aproveitem tudo que há de indecente nessa cidade.” Ruby ainda estava olhando para a pasta nas mãos dela, e Zelena estalou os dedos na sua frente. “Vá.”

A ruiva fitou a secretária, que conversava com a interprete e virou-se, saindo da sala segundos depois. Voltou desfilando, mas dessa vez, estava mais segura de si. As palavras de Frank ecoavam em sua mente e lhe traziam ainda mais confiança. Você pode ter o que quiser. Tudo o que quiser.

***

“O que há de errado, love?”

Ruby rolou na cama e encontrou o olhar do noivo, que estava sentado na escrivaninha, em frente ao notebook. Ele estava usando moletom e camiseta e ainda assim ela o achou tão incrivelmente sexy que pensou não ser digna de tanto sensualidade. “Nada.”

“Não minta para mim, garotinha.” Ele retirou os óculos de leitura e fechou o aparelho eletrônico; levantou-se e caminhou até a cama, sentando-se ao lado dela. “Desde que você chegou está olhando para o nada e rolando nessa cama. Algo está incomodando você.” Ele acariciou seu rosto, afastando uma mecha de cabelo e colocando-a atrás da orelha. “Sou eu? Você quer que eu faça a barba? Estou parecendo um mendigo?”

“Você seria um mendigo sexy.”

Ele riu, debruçando-se e a beijando com carinho. “Acho que desvendamos um fetiche.” Ele deitou-se na cama, ao seu lado; uma de suas pernas dobradas e a outra esticada. “O que houve? Qual das irmãs metralha está incomodando agora?”

“Regina não me incomoda. Ela as vezes é um pouco dura, mas não é um problema.” Resmungou ela, deitando-se contra o tórax dele; ele passou a acariciar seus cabelos.

“Hummm, o problema é a ruivinha.”

“Sim, Zelena. Ela trocou os contratos de uma importante transação de Regina.”

“E Regina não falou nada?”

“Aí que está... Regina faltou à reunião. Ela jamais falta a encontros com investidores. Na minha opinião, isso foi proposital. Assim ela teria a oportunidade.”

“De quantos estamos falando?”

“O contrato é de 20 milhões.”

“Wow.” Ele se ajeitou, e puxou o rosto dela para que Ruby olhasse em seus olhos. “Love, isso é muito dinheiro.”

“Eu sei disso, Graham. Mas o que eu posso fazer? Eu sou um passarinho em uma batalha de águias.”

“Eu acho que Regina precisa saber. Se por acaso a ruiva decide fugir com toda essa grana; possibilidade que existe já que este novo contrato pode ser um desvio de dinheiro — quem vai responder por fraude é a sócia majoritária. Ou seja…”

“Regina vai para a prisão.” Concluiu Ruby, fechando o punho ao redor do tecido da camiseta dele. Graham voltou a acariciar os cabelos dela, lentamente.

“Independente do que decida fazer, eu vou estar com você, love.”

Ruby debruçou-se e beijou-o nos lábios; Graham aproveitou para virá-la na cama, encaixando-se por entre as pernas dela e a puxando para um beijo quente. “Mas até você decidir, me deixe distrair você.” Sussurrou ele, antes de voltar a beijá-la ferozmente.