Era a terceira vez na semana que Cora aparecia na casa dele, carregando um pacote repleto de guloseimas e uma garrafa de vinho. Na primeira vez, pairou entre eles um clima um pouco intimidante e de uma timidez nata; na segunda eles estavam um pouco mais à vontade, mas agora ela sentia-se definitivamente confortável. Ofereceu-se para guardar as compras, já familiarizada com seus armários. Arthur deixou-a na cozinha e dirigiu-se até o quarto da filha para certificar-se de que a mesma não precisava de nada.

O dia havia sido úmido e um pouco frio; o clima ameno havia se condensado escondendo metade da cidade sobre uma neblina espessa. As janelas estavam embaçadas e ela sorriu ao ouvir o som de Stevie Wonder preenchendo o ambiente. Ela virou-se para trás e percebeu o moreno encostado no batente, observando-a. “O que foi?”

Ele riu, balançando a cabeça. Os cabelos escuros brilharam com o movimento e os dentes brancos se destacaram entre os lábios fartos. “É apenas surreal. Você, aqui, guardando meus cereais no armário de cima.”

“Não se acostume.” Repreendeu ela, fazendo uma careta para ele. “Além do mais, não estou aqui por você. Estou aqui por Violet.”

Ela abriu uma das portas do armário de madeira revestida por tinta branca e retirou duas taças. Voltou-se para o pequeno balcão, pousando-as ali e preenchendo seu conteúdo com o vinho que trouxera. A cozinha de Arthur não era grande, mas a casa toda era bastante modesta de modo que ela se adequava ao quadro geral. Eles não comiam na mesa, de modo que a única coisa próxima à uma cadeira eram as banquetas encostadas ao balcão, que a lembravam as lanchonetes antigas onde ela costumava ir para paquerar e beber milk-shakes mas a lembrança era tão antiga que ela preferiu deletar de sua mente por agora.

Ele tinha um bom fogão e ela cogitou preparar um jantar para eles em breve. O pensamento a atingiu como uma leve pancada do vento. O que estava acontecendo com ela? Ela não deveria estar se apegando tanto. Era inapropriado e não tinha como acabar bem. Arthur veio até ela e retirou uma das taças de sua mão, despertando-a. “Vamos? Violet está esperando.”

Cora sorriu, concordando e eles caminharam em silêncio até o quarto em que a jovem estava hospedada. Ele havia adaptado o quarto, realocando a televisão de quarenta polegadas e os sofás para o canto da sala, de modo que eles pudessem passar mais tempo juntos sem que se sentissem desconfortáveis ou em estado de vigília. Violet deixara claro que não queria seu pai atado à uma cadeira ao seu lado, ele precisava relaxar e ela também preferia assim. Ela estava sentada quando Cora adentrou o cômodo e sorriu, fitando a mulher nos olhos. “Boa tarde, Senhora Mills.”

Cora sorriu, os lábios contornados por um batom escuro entre um tom roxo e púrpura. “Eu me sinto velha quando me chamam de senhora. Por favor, só Cora.”

Ela caminhou até uma das poltronas, sentando-se ali. Arthur estava em pé ao lado da cama, na altura dos joelhos da filha e pela primeira vez ela se deu ao luxo de olhá-lo, a calça jeans justa em suas pernas grossas e a camisa xadrez azul lhe caíam como uma luva, e a barba que começava a sair do profissional para o descaso lhe deixava um pouco mais sexy e...

“Fico feliz que tenha vindo. Meu pai fica mais sorridente quando você está por perto.” O comentário fez com que suas bochechas ganhassem um tom rosado, e ela evitou o olhar de Arthur, sem saber que o mesmo estava na verdade fitando a filha com um semblante de completa incredulidade. Seus olhos capturaram o olhar de Violet, e ela percebeu que a menina havia simplesmente sido sincera, sem nenhuma intenção de coloca-los em saia justa. Sorriu, esforçando-se ao máximo para manter a naturalidade e torcendo para que sua voz não a comprometesse.

“Eu e seu pai somos ótimos amigos. Fico feliz de estar ajudando.”

As sobrancelhas da garota se uniram quando a mesma franziu o cenho, comprovando que aquela resposta passava muito longe da que ela almejava. O pensamento fez com que um calafrio cruzasse a parte superior de seu estomago. Ela ia continuar aquele assunto e eles acabariam encurralados, e era última coisa que ela precisava naquele momento. Ela estava atraída por ele, e sabia disso. Começara única e exclusivamente por conta do belo rosto – um homem daqueles não se encontra em todas as esquinas e ela pensou que seria bom ter alguém para aquecer seus lençóis vez por outra – mas ele se mostrou muito mais do que isso. O acidente os havia aproximado mais, porque ela sabia o que ele estava passando. Sabia o que era quase perder um filho, entendia o desespero de lidar com o medo e o desespero e a solidão. A dor os igualara e ela sentiu algo que há muito tempo não sentia: conexão.

Talvez ela estivesse enganada e ele fosse apenas um vigarista, alguém com um plano ambicioso pronto para seduzi-la e conseguir dela um bom emprego, um bom negócio, um lucrativo contrato. Como uma mulher de negócios, ela sabia que esta opção nunca poderia ser completamente descartada; mas também não poderia ser considerada a única opção. “O que vamos assistir?” Perguntou ele, e ela o agradeceu mentalmente por dissipar o clima chato que pairava entre eles.

“The X Factor.” Pediu Violet e eles trocaram um breve olhar. Ele atravessou o quarto e sentou-se no sofá, percorrendo os canais até o canal escolhido pela filha. Simon Cowell estava discursando sobre algo e os três mantiveram a atenção na tela da televisão. Algum tempo depois, Cora levantou-se e caminhou até o sofá em frente à tevê, sentando-se ao lado dele embora seus corpos não estivessem se tocando.

Ainda.

Muito tempo depois, ou pouco tempo, eles não estavam exatamente cônscios da velocidade do tempo ou do que estava acontecendo ou quem estava cantando. Tudo havia se tornado um enorme borrão na mente de ambos quando Arthur colocou a mão sobre a dela, acariciando lentamente, o polegar fazendo círculos na parte posterior de sua mão. Ela puxou o lábio inferior para entre seus dentes, prendendo a carne ali e forçando-se a parecer concentrada no programa televisivo mas podia sentir o olhar intenso do mesmo sobre ela. Os dedos dele lhe tocavam com suavidade, como o percorrer de um pequeno pedaço de seda sendo roçando levemente contra a superfície de sua pele. Ela queria mais e sentiu-se culpada por toda sorte de pensamentos libidinosos que cruzaram sua mente, afinal, Violet estava logo atrás deles.

Puxou sua mão, retirando-a do toque dele e mesmo se amaldiçoando por ter sacrificado o calor que ele estava lhe proporcionando, ela sabia que era necessário. Forçou-se a olhar para a tela, e manteve os olhos ali. Violet comentou algo sobre o cantor de country que desafinava guturalmente, e Arthur respondeu, fazendo-a rir. A risada da mesma a lembrou de Regina. Elas haviam se afastado muito ao longo dos anos, e ela não sabia dizer exatamente o que havia acontecido. Havia entregue seu bem mais precioso à jovem mulher, havia apoiado e pago por uma exuberante festa de casamento para ela, numa tentativa desesperada de não deixar o recente luto de seu pai privá-la da felicidade e ainda assim um abismo nascera entre elas, ligado apenas por uma ponte estreita de madeira chamada profissionalismo. Como um ritual de passagem, o casamento desfez a ligação entre a jovem Regina e a Regina adulta, apagando os rastros da primeira com completa veemência. Não que ela tivesse feito qualquer coisa para diminuir o abismo – a morte repentina de Henry desgastara os laços da família e depois do casamento, Cora decidira se desfazer de tudo e desaparecer pelo mundo, viajando para os mais distintos lugares em busca de algo que a reconectasse consigo mesmo. Não se orgulhava de tê-las deixado mas apesar de todas as brigas, apesar dos desentendimentos, apesar dos eventuais encontros de egos, ela jamais amara tanto um homem quanto amara Henry Philip Mills e a morte do mesmo fora uma punhalada em seu próprio coração, uma facada pela qual ela sangraria por anos e anos.

“Está tudo bem?” Sussurrou Arthur, apertando sua mão levemente ao perceber a mudança no semblante dela.

Ela o encarou, mas os olhos estavam marejados e ela sabia que não ia suportar o olhar carinhoso e a feição preocupada no rosto dele. Pediu licença e saiu, caminhando pelo corredor com pressa, e antes que ela tivesse alcançado a cozinha sentiu a mão dele entrelaçando-se à sua. “O que aconteceu? Foi o que eu fiz? Eu não quis ofender você, Cora. Eu…”

Ela colocou o dedo indicador sobre o lábio dele, sorrindo, embora as lágrimas já tivessem começado a cair por seu rosto. Ele estava preocupado e ela achou aquilo adorável. “Não foi nada que você fez, Arthur. Eu cometi erros durante a minha vida e as vezes, os erros flutuam até a superfície e eu me recordo deles e acaba sendo impossível não sentir nada. A vida nos machuca em seus pequenos detalhes mas isso passa, tudo… na verdade tudo passa. Seja bom ou ruim.”

“Mas…”

“Mas nada. Você não tem culpa. Você e sua filha tem sido maravilhosos por me deixar ajudar, e eu me sinto bem aqui.”

Ele a encarou por alguns segundos, observando as lagrimas silenciosas que caíam sobre o seu rosto e antes que ela pudesse continuar, Arthur segurou-a pelo rosto e a beijou. Um suspiro escapou pelos lábios dela quando a mesma os abriu e cedeu espaço para que ele a beijasse com profundidade, a língua pedindo espaço e lhe proporcionando calor e desejo. Ele a segurou pela nuca e continuou, caminhando com ela até a parede onde ele gentilmente a encostou sem quebrar o contato entre seus corpos. Ela estava ofegante e ele apenas a soltou para deslizar as mãos pela lateral de seu corpo, colando seus lábios quase em seguida. Ela havia esquecido o que era ser beijada daquela forma e repentinamente encontrou-se viciada na sensação que o ato proporcionava. Ele segurou seu rosto com cuidado, como se ela fosse uma obra de arte que não deveria ser estragada e seus lábios se desconectaram, a boca dele deslizando pela linha da mandíbula até que ele alcançou sua orelha. Arthur mordiscou ali, suas mãos segurando na cintura dela com uma quantidade razoável de pressão. “É melhor pararmos aqui ou eu não vou ser capaz de parar depois.”

“Violet.” Sussurrou ela, e ele se afastou lentamente, concordando de que eles precisavam de autocontrole. Violet estava a dois cômodos dali.

Eles começaram a rir e Cora respirou fundo, limpando seu rosto. “Vá na frente. Vou me lavar e já vou.” Ordenou ela, e ele sorriu, beijando o topo de sua cabeça antes de se afastar pelo corredor. Ela o acompanhou em seu percurso com os olhos, fingindo não estar reparando na curvatura dos músculos dele e chegando à conclusão mais óbvia entre todas. Ela não ia resistir por muito tempo.

***

Poucas coisas faziam sentido na vida de Robin Lockhood e aquele trabalho apenas enfatizava a veracidade disso. Frank era um homem sem padrão nenhum, e amanhecer dentro de um clube noturno era apenas rotina para ele. O Mosaic Nightclub & Lounge abre suas portas para o público regular apenas no entardecer, servindo de anfitrião para quem busca uma saída suave após o horário de trabalho ou uma escolha serena para casais maduros em busca de tranquilidade. Iluminado por um jogo de luzes que parecem tentar reproduzir o ensolarado perfeito de um por do sol californiano, a decoração remete à um local moderno. Os tons entre laranja e lilás sobrepõem as faixas de palha estendidas pelo teto, combinada com as lamparinas suspensas. Globos espelhados rebuscam as origens de discoteca, e os móveis de madeira requintados, desenhados e bem cortados adicionam sofisticação e luxo. Reuniões extraoficiais acontecem aos montes em seu interior durante manhã agitadas, longe do conhecimento público.

Sentado sobre um sofá macio coberto por veludo vinho, Robin observava Frank; sentado em uma poltrona um tanto distante, o sorriso frouxo em seus lábios. Ele estava sem o terno e com alguns botões da camisa social branca aberta, a gravata solta ao redor de seu pescoço. Já havia bebido mais uísque do que Robin ousaria beber em um mês. O desaparecimento da garota o estava enlouquecendo e a falta de informação apenas agravava seu estado. Uma mulher vestindo uma lingerie exuberante em tom brilhosos dançava em sua frente, sensualmente, rebolando o corpo escultural que chamou sua atenção por segundos. Apesar dos olhos dele estarem sobre a garota Robin sabia que ele não estava prestando a mínima atenção. Era apenas uma fuga, uma das constantes e inusitadas fugas que seu chefe mantinha e tudo que Robin almejava saber era o que perseguia aquele homem tão intimamente. Talvez um dia.

Sua atenção se voltou para o painel atrás do bar, uma grande e espaçosa estante iluminada por um fundo salmão com diversas repartições, onde garrafas de bebidas caríssimas e algumas plantas ornamentais exerciam com destreza o papel de decoração. Uma movimentação inesperada aconteceu e Robin voltou à posição de alerta; segundos depois Donovan e Yago entraram no clube, acompanhados por uma mulher loira e um outro homem, de estatura baixa e magra. Rapidamente identificou a mulher, tratava-se de Margot Bishop. A mesma que comandava a Kensington Firm e que havia abordado Regina algumas vezes.

“Delfino, querido. Não é muito cedo para isso?” Perguntou ela, um sorriso insinuativo nos lábios enquanto apontava para a linda moça.

Frank ergueu os olhos e afastou a dançarina, irritado. “Você não foi convidada, Bishop.”

Robin levantou-se e caminhou até eles, a arma em mãos. Margot permitiu encará-lo, fitando-o demoradamente de cima a baixo, os olhos parando demoradamente em alguns pontos de modo que ele exatamente o que ela estava imaginando. Ao perceber que havia sido pega, ela sorriu e voltou sua atenção para Frank.

“Eu seria um pouco mais educada comigo, se estivesse em seu lugar.”

“Me dê um motivo para meus seguranças não darem um tiro nesse lindo cérebro neste momento.”

Ela sorriu. Deslizou as mãos pelo vestido azul até encontrar a pequena bolsa lateral. Robin ergueu a arma, mirando-a e ela apenas acompanhou seu movimento, sorrindo. Abriu a bolsa delicadamente, mantendo os movimentos lentos e retirou do interior da mesma uma pequena fotografia. Ela entregou para Robin, que a direcionou á Frank. A imagem mostrava Laurel sentada em uma poltrona, com dois homens armados logo atrás dela. Não estava ferida, aparentemente. Seu rosto estava vermelho, contornado pelo transtorno quando ele se levantou, caminhando até ela.

“Sua vagabunda…”

“Como eu disse, Frank, se eu fosse você começaria a me tratar como a dama que eu sou. Porque a sua bela namorada está ilesa agora, mas pode acabar se machucando no processo.”

Ele a fitou por alguns segundos.

“Você conseguiu minha atenção, Bishop.”

***

O interior da sala VIP não era exatamente o que ela esperava. Havia um sofá ao redor de um mastro, redondo, onde ela imaginou que acontecia todo tipo de atividade sexual e o pensamento a fez sorrir. O chão, coberto por um carpete preto com desenhos de uma folha vermelha combinava com os sofás e poltronas vermelhas, o teto remetia à coberturas industriais e suas diversas tubulações. Rhys caminhou até uma das poltronas e Frank tomou a outra, com o belíssimo segurança ao seu lado. Um verdadeiro exemplar, ela precisava admitir. Adoraria escalar aquele homem.

Bem, talvez em outra hora. Alinhou sua coluna e fechou contato visual com o homem que a encarava com mais ódio do que lhe era possível contabilizar. “Apesar de achar um tanto interessante a maneira que você decide passar suas manhãs, eu tenho uma agenda cheia. Vamos pular para a parte onde eu estipulo o valor?”

“Qual é seu plano com isso? Dinheiro?”

“E os sequestros servem para outra coisa?” Questionou Rhys, fazendo-se presente. Ele recebeu um olhar nem um pouco amigável, mas não se importou.

“Que garantias eu tenho que você não irá matá-la de qualquer jeito?”

“Não tem. E é isso que torna tudo interessante. A única garantia que você tem é de que eu tenho a garota e as coisas podem ficar bastante turbulentas se eu não conseguir o que quero.”

Ela se levantou, caminhando pela sala e ao perceber que a havia um parapeito e uma vista generosa do que acontecia lá embaixo, no clube, ela voltou-se para ele. “É uma boa sala para quem tem tendências de voyeurismo.”

“Me dê a merda do preço, Bishop.”

“Cinco milhões.”

A risada dele ecoou pela sala, chamando a atenção de todos os presentes ali. Até mesmo Robin estreitou sua visão para o chefe, imaginando o que estaria passando pela mente do mesmo. “Cinco milhões? Você acha que eu vou lhe dar cinco milhões, assim, de bandeja? Não seja boba, Margot. Isto não vai acontecer. Mas foi bonita vê-la tentar.”

Ela se levantou e caminhou até ele, sob o olhar atento dos homens no recinto. Com cuidado, ajeitou suas pernas e sentou-se no colo dele, alisando seus cabelos enquanto encarava seus olhos com uma sutil alegria. Sua voz saiu como um sussurro íntimo. “Você tem dois dias. Quarenta e oito horas. Se isso não acontecer, eu vou te contar o que vai ser. Eu vou devolver Laurel Castillo. Pedaço por pedaço, até que não sobre mais nada. Primeiro vão ser as partes não vitais, para que ela permaneça viva pelo máximo de tempo possível. Estamos entendidos?”

Ele apenas balançou a cabeça, afirmando. Margot debruçou-se e beijou seu rosto, saindo do seu colo e chamando o irmão, enquanto se dirigiam à saída. Ela virou-se para Robin, soprando no ar as palavras me liga, e rapidamente voltou ao seu caminho. “Seu tempo está correndo, Delfino.”

Quando a mesma passou pela porta, e ambos ouviram o som da porta batendo contra o batente, Frank levantou-se e arremessou sua poltrona contra o chão. “Minha vontade é de matar essa vaca.”

Robin manteve-se em silêncio, mas um sorriso pairava sobre os seus lábios.

***

Ruby estava na cozinha quando ele apareceu com três rosas vermelhas amarradas por um laço grande e azul. Regina estava na empresa, o que significava que ela poderia vê-lo, mas ser surpreendida assim estava fora de contexto. Stuart vestia o terno alinhado e bem cortado de sempre, preto, com uma camisa social branca e a gravata preta. Seu cabelo estava perfeitamente alinhado e escovado para trás. Ela pegou as rosas, sorrindo.

“Qual a ocasião?”

“Não preciso de ocasião para lhe dar flores. Você merece.”

Um leve rubor atravessou seu rosto. Adiantou-se, colocando as flores em um pequeno vaso de vidro e virou-se para o segurança. “Onde ela está?”

“Na sala de conferências em uma vídeo-chamada. Pode tomar seu café tranquilamente.”

“Você quer um?”

“Você faria um para mim?” Pediu ele, os olhos pidões e um sorriso aberto, ao qual ela não ousou resistir. Pegou uma das canecas, preenchendo com café e dois dedos de leite, essência de baunilha e uma pitada de canela. Bateu os ingredientes e colocou algumas pitadas de canela por cima da espuma, finalizando. Ao estender para ele, encontrou-o com um semblante de surpresa.

“Você lembrou.”

“Pelo amor de Deus, Stuart. Óbvio que lembro como você gosta do seu café. Somos melhores amigos e aliás, você é uma criatura de hábitos. Você o bebe assim há anos.”

“Está maravilhoso.” Respondeu ele, rindo e denunciando uma linha de espuma acima dos seus lábios que a fez sorrir. Ela se aproximou, estendendo a mão e limpando-o com o polegar, seus olhos alinhados aos olhos azuis do loiro. A proximidade fez com que ela se perdesse no momento, observando a maneira como os olhos dele faiscavam sobre ela. Ah, o tempo. Ela deveria culpá-lo. Nada como o tempo, nada como a convivência pacífica e harmoniosa através de inúmeros anos para nos fazer perceber que certos laços são definitivamente mais profundos do que pensamos.

“Ruby…” Sussurrou ele, rendido pela beleza dela, tão próxima dele como o próprio sol. Mas algo estalou nos pensamentos dela, algo que a fez se afastar imediatamente. Conformado, o segurança decidiu mudar o foco da conversa. “Como está Megan?”

Um sorriso cruzou o sorriso dela e ele não poderia sentir-se menos abençoado por estar ali para vê-lo. “Meggie está ótima. O trabalho no café não é exatamente uma fonte de renda absurda, mas ela pode tomar café à vontade e conversar com as pessoas o tempo todo. Ela tem tempo extra de estudar e pode passar tempo com Roland e Robin.”

“Ela os adora.”

“Sim.” Ruby o fitou e algo veio à sua mente. “Aliás, vocês são amigos, não são?”

“Eu não acho que minha relação com Lockhood seja uma amizade saudável, mas sim, nos damos bem. Por que?”

“Há algum tempo atrás, ele e Megan tiveram… Um momento? Eu não sei o que aconteceu, mas eles se beijaram. Ele falou algo a respeito?”

Um olhar confuso atravessou o rosto dele, o que não passou despercebido por ela. “Não. Na verdade, quando se trata de Megan ele é bem enfático ao dizer que eles não tem nada. Que ele não a vê assim.”

“Não a vê assim mas enfiou a língua na garganta dela e a a agarrou contra a porta.”

“Quem enfiou a língua na garganta de quem?”

A voz feminina chamou a atenção deles, e Regina entrou na cozinha, passando por eles. Stuart arregalou os olhos, mas Ruby não deu nenhuma atenção aos seus gestos. “Aquele segurança, Lock alguma coisa e minha amiga Megan.”

“A babá?”

Os olhos de Regina rapidamente capturaram o olhar aterrorizado de Stuart, conseguindo sua confirmação. Sim, a babá. Então ela e Robin tinham muito mais em comum do que a atenção do pequeno Roland e uma luta contra o vício do cigarro. Ela não deveria se importar com aquilo mas não conseguiu ignorar a sensação incomoda apossando-se de seu peito. Imaginou Robin segurando a garota com a mesma força e tesão que a prensava contra mesas e paredes. Imaginou-o beijando com a avidez que ele a beijava, como se fosse derretê-la através da língua.

“Homens são todos iguais.” Resmungou Ruby e Stuart reclamou. “Vai dizer que você não faz isso? Separa mulheres entre aquelas que vocês acham potenciais esposas e aquelas que vocês acham atraentes para noites de diversão?”

Ele riu, chamando a atenção das duas. “Sim. Eu separo mulheres. Entre aquela que eu quero e as que não me interessam.”

Regina sorriu, observando a maneira que ele fitou sua secretária e o pensamento a atingiu. Era ela. Ruby Lucas, a mulher pela qual seu segurança era apaixonado e que era comprometida. Chocou-se com quão pequeno o mundo podia se tornar através das suas conexões. Eles estavam falando sobre algo mas Regina deixou de prestar atenção. Seu pensamento viajou para a informação que havia obtido ao entrar na cozinha. Lockhood. Atormentada por seus pensamentos, ela deixou a cozinha, pedindo licença à Ruby e Stuart e caminhando de volta à sala de conferências. Precisava de mais trabalho no qual pudesse se enterrar e esquecer aquela maldita distração revestida por belos músculos.

***

Zelena estacionou o carro na vaga de número setenta e um, e aguardou. Minutos depois, a porta do passageiro foi aberta e ele entrou, vestindo um moletom escuro com capuz. Abriu a mochila esportiva da Nike, retirando uma pasta também escura.

“O dinheiro, primeiro.” Pediu ele, e ela o fitou como que analisando se aquela era uma boa ideia. Suspirou, abrindo seu casaco verde e retirando um pacote e entregando a ele. Mas o homem não estava com pressa. Abriu o mesmo, contando as notas pacientemente e assim que se assegurou que estava tudo ali, colocou o pacote em sua mochila e cedeu a ela a pasta.

“Está tudo aqui?”

“Tudo. O que quer que ela tinha em arquivos secretos ou confidenciais, tudo escondido em qualquer repartição daquele notebook está nesta pasta.”

“Se não estiver eu vou atrás de você.”

“Como quiser.” Sibilou ele.

Ela o encarou por alguns segundos, analisando o lindo rosto. “Posso fazer uma pergunta?”

“Não.”

“Você a ama?”

Ele abriu a porta do carro, e colocou uma das alças da mochila sobre o ombro. “Não é da sua conta.” Respondeu, sem olhar para trás. A porta do carro foi batida e ela observou em silêncio enquanto Humbert Graham se afastava nas sombras.