Ela sabia o risco que estava correndo. Mas pela primeira vez em sua vida, Regina não se importou. Não se importou com a repercussão de seus atos. Todos haviam lhe deixado sozinha, então ela resolveria seus problemas sozinha.

“Está tudo bem?” Perguntou ele, sorrindo. Inerte à traição gigantesca e absurda que acontecia ali, logo na sua frente. Ele usava uma camisa social verde, que contrastava com os olhos azuis. Estava bonito, os cabelos bem penteados.

“Pensando na empresa.”

“Problemas com Zelena?” A menção do nome fez com que ela fixasse os olhos nele, desconfortável. Percebendo a reação dela, Frank riu.

“Você precisa superar isso, Regina.”

“Se você não tivesse transado com ela eu não precisaria superar nada.”

O rosto dele perdeu a luz, o sorriso desaparecendo em segundos. Ele olhou em volta, respirando fundo e então segurou-a pelo pulso, um pouco mais firme do que o necessário. “Cuidado, Regina. Você não está falando com seus funcionários.”

Ela puxou o braço com força. “Nem você com as suas amantes.” Rebateu ela, afastando o prato em que mal tocara. “Com licença, perdi o apetite.”

Frank estava prestes a dizer algo, mas calou-se. Algo estava muito errado com ela. Seguiu-a com atenção até que ela desapareceu para dentro do saguão, deixando-o sozinho. Regina seguiu seu caminho para o escritório dela, pensativa. Discou alguns números e sentou-se na beirada da mesa, segurando o aparelho sobre a orelha enquanto observava o pequeno exército de seguranças treinando.

“Bishop.”

“Precisamos conversar.”

“Você já está com o pacote?”

“Sim.”

Margot silenciou-se por alguns segundos. “Quer vir até a minha casa?”

Regina não era ingênua. Podia sentir em cada sílaba a velada insinuação da britânica e não conseguia sequer se importar. Havia algo maliciosamente delicioso em ser desejada dessa forma. “Margot…”

“Eu prometo não fazer nada que você não queira.”

Regina riu, entretida. “Chego as 14h.”

***

Robin abriu os olhos e a primeira coisa que veio à sua mente foi ela. Regina. Sentiu-se culpado; principalmente por Meghan estar deitada sobre ele, o corpo delicado e nu sobre o seu. Culpado por tê-la tocado, enquanto seu coração latejava o tempo todo, lembrando que não era com ela que ele realmente gostaria de estar. Esse era o preço por ter ultrapassado os limites; ele comprometera seu coração à um coração já comprometido.

Não culpava Regina por tentar reatar o casamento. Ele a admirava por isso. Talvez se não fosse um patife como Delfino, mas ainda assim, era uma mulher valorizando os votos que fizera. Uma mulher lutando por alguém que amava.

Ao mesmo tempo, ele gostava de sua relação com Meghan. Ela tinha objetivos, ela tinha valores admiráveis. Ela adorava seu filho e eles tinham tudo para se tornar um casal maduro, estável e feliz. Só faltava ele. Ele esquecer a mulher pela qual se apaixonou tão intensamente.

O que parecia uma missão suicida.

“Meggie, eu preciso levantar.” Sussurrou, e ela resmungou, apertando os braços ao redor da cintura dele. Robin sorriu. “Você vai me atrasar…”

“Fica em casa hoje.”

Ele suspirou; sim, ele gostaria de ficar em casa. Gostaria de passar mais tempo com Roland. De passar mais tempo com ela e menos tempo na companhia dos Delfinos. Mas ele tinha responsabilidades a cumprir e uma criança para criar.

“Eu adoraria, mas não posso.” Sussurrou de volta, beijando-a no topo dos cabelos ruivos e se afastando do abraço, de modo que rapidamente saiu da cama e se dirigiu ao banheiro.

***

Assim que saiu do banheiro, ele percebeu que ela já havia voltado a dormir. Seu celular piscou, anunciando uma chamada perdida. Grant.

Retornou a mesma, enquanto caminhava para perto do guarda roupa. “Grant, o que foi?”

“A Ruby não está se sentindo bem. Preciso que você me dê cobertura.”

Robin suspirou. “Fica tranquilo. Leve-a ao hospital, tire o dia para ela. Eu converso com o chefe.”

“Eu fico te devendo essa, Lockhood.” Agradeceu ele, e Robin balançou a cabeça, sorrindo.

“Eu estou anotando, Grant.”

“Eu pago em tequilas.” Zombou ele, e Robin desligou, rindo baixinho. Colocou o telefone sobre a mesa de canto e começou a se vestir, repensando o dia agora que não teria mais o braço direito.

***

Frank Delfino estava com um péssimo humor. As negociações dos cassinos em que era sócio, no sul da Flórida, haviam sido comprometidas por uma manobra política de congressistas e para ele, isso só significava uma coisa: prejuízo.

Seus negócios não eram, nem de longe, limpos e legais. Talvez na superfície, mas não em sua íntegra. Mas ele nunca precisara se preocupar com isso. Para ele, todas as pessoas podiam ser separadas em dois grupos básicos: as que possuíam valor e as que possuíam preço. Era assim que ele conseguia exatamente tudo o que precisava; encontrava as pessoas com preço e as comprava.

Mas o problema é que pessoas com preço podiam ser convertidas por outras pessoas com ofertas melhores.

Respirou fundo e tentou sair de seu redemoinho mental por alguns segundos. Grant não viria trabalhar, e ele poderia até reclamar mas isso significava que a relação dele com a ex secretária de Regina ia bem, e dessa forma ele não era uma preocupação na relação dele com sua esposa. Além do mais, ele poderia sentir-se grato por essa gentileza e gratidão andava lado a lado com lealdade. Era um bom investimento.

Por outro lado, ele agora precisava designar um segurança para ela. Apesar de muito bem selecionados, pagos e avaliados, ele não confiava em quase nenhum deles. Muito menos no que dizia respeito à ela.

“Eu quero que fique no lugar dele, Hood.”

“Senhor?”

“Não me leve a mal, Lockhood. Eu gosto desse time de seguranças mas não confio em nenhum deles perto dela. Eu quero saber o que ela está aprontando. Você vai trabalhar com ela hoje.”

Robin suspirou. Era exatamente tudo o que ele não queria, passar o dia todo sentindo-se intoxicado pela presença massiva dela. Assistindo-a, observando cada movimento, bebendo de cada expressão refletida em sua delicada figura.

“Sim, senhor.”

“Fique atento à abordagens da Bishop. Aquela vagabunda está cercando Regina há muito tempo.”

“Sim, senhor.”

“Dispensado, soldado.” Zombou Frank. “Boa sorte carregando as sacolas de compras.”

Robin retirou-se sem dizer nenhuma palavra.

***

Zelena estava terminando de desembalar as entregas que haviam chegado quando Madame Mae entrou na sala, o rosto vermelho e preocupado. A pequena senhora, uma fortaleza humana repleta de sabedoria, dificilmente transparecia seus sentimentos.

“Mae?”

“O Sr. Delfino está aqui e insiste em querer vê-la.”

Zelena fitou o começo das escadas, certificando-se de que David não estava por perto. “O que ele está fazendo aqui?” Resmungou, seu humor escurecendo em questão de segundos.

Deixou as compras onde estavam e caminhou na direção do hall de entrada. Lá estava ele. Parecia mais velho, portando bolsas escuras na parte inferior dos olhos. Vestia um terno escuro e ligeiramente amassado, os cabelos bagunçados e a gravata balançando solta em seu pescoço. Quando ele se virou, ela lembrou-se imediatamente que não havia lhe contado sobre a gravidez. Os olhos azuis abriram-se ainda mais e ele ficou pálido.

“O que é isso?” Apontou ele, beirando o desespero.

“Não é seu.” Respondeu ela, firme.

“Se fosse meu, você iria tirar isso. Eu não quero.”

“Ainda bem que como eu disse, não é seu.” Repetiu, começando a irritar-se com a prepotência dele. “O que está fazendo aqui, Frank?”

“Preciso conversar sobre a sua irmã.”

Zelena riu. “Você é a última pessoa do mundo com quem eu conversaria sobre ela. Não depois de tudo o que fizemos.”

“Você acha que ela está me traindo?”

“Seria tão maravilhoso se ela estivesse mesmo, não é?” Zelena encarou-o, cruzando os braços. “Você recebendo na mesma moeda o que fez todos esses anos.”

“Quem é você para me julgar? Não esqueça que você também fez parte disso.”

“Respondendo à sua pergunta, eu duvido muito. Infelizmente. Ela sempre amou você, mesmo ninguém vendo nada de especial. Mesmo todos dizendo a ela que você estava tão abaixo do nível dela.”

“Cuidado, Zelena.”

“Ou o que Frank?” Desafiou ela.

Ele aproximou-se e ela recuou, batendo contra a parede. Sorrindo, ele deu mais um passo, encurralando-a contra a parede. “Parece que os instintos maternos estão aflorando…”

“O que está acontecendo aqui?”

Frank afastou-se e Zelena alinhou-se novamente, sentindo David posicionar-se ao seu lado. Após certificar-se que ela estava bem, ele virou-se para Frank, estudando-o de cima à baixo.

“Quem é você?” Perguntou Frank, um sorriso irônico no rosto. “O papai dessa coisinha? O infeliz em que Zelena finalmente conseguiu dar um golpe?”

“Se eu fosse você teria mais respeito pela minha esposa e pela minha filha.”

“Esposa?” Questionou Frank. De repente, ele gargalhou, sua risada áspera deixando o casal ainda mais desconfortável. “Você se casou e não convidou a sua irmã? Ela vai odiar você ainda mais.”

“Como se você se importasse.” Rosnou ela, e David segurou seu braço, deslizando o polegar sobre a pele para acalmá-la.

“Você não se importava, Zelena. Ou se esqueceu de quando você transava com o marido dela?”

David encarou-a, o rosto pálido e ela engoliu em seco, segurando as lágrimas que tentavam encontrar caminho para fora de seus olhos. Virou-se para o loiro, o semblante fechado e triste. “Me desculpe por isso.” Pediu, afastando-se para dentro da casa, ignorando o fato de Frank ainda estar parado no hall com um sorriso ordinário no rosto. David observou-a desaparecer e então virou-se para o homem à sua frente.

“Estou lhe fazendo um favor, cara. Ela é uma vagabun…”

David o interrompeu, torcendo seu braço até ouvir um estralo. Uma dor aguda e súbita tomou conta de Frank, e ele ajoelhou-se, lágrimas escorrendo contra a sua vontade. “O que você fez, seu filho da puta?”

“Eu quebrei seu braço.” Disse David, agachando para ficar na mesma altura que o moreno ajoelhado à sua frente. “Se eu souber que você se aproximou de Zelena de novo, ou a incomodou de qualquer maneira, vou quebrar outros ossos.”

“Ela jamais vai consentir com violência.”

“Mas eu não sou violento.” Respondeu ele, calmamente. “Acontece que eu amo aquela mulher, aquela que você ofendeu e intimidou na minha frente. Então, eu posso não ser uma pessoa violenta, mas para proteger minha família eu abro exceções. Agora saia desse apartamento e nem pense em voltar.”

“Você vai me pagar, mauricinho desgraçado.”

David respirou fundo, pegando-o pelo braço fraturado, ouvindo seus urros de dor e levou-o até a porta. Empurrou-o para o corredor, onde um segurança o esperava. “Mate-o.” Sussurrou o rapaz.

O segurança pareceu em dúvida, os olhos flutuando de um para o outro quando Frank empurrou-o, irritado. “Você não vale o salário que eu lhe pago, seu merda.” Tentou alçar o revólver do mesmo, mas David fora mais rápido novamente. Retirou a arma de suas mãos e com um gancho de direita, mandou Frank direto ao chão.

“Leve-o ao hospital. O braço dele está fraturado.” Recomendou ao jovem segurança que o observava espantado e então voltou para dentro do apartamento, levando o revólver consigo.

***

A mansão de Bishop era exuberante. Um telhado verde de cortes íngremes e modernos casava de maneira harmoniosa com a fachada larga e imponente. Grandes colunas sustentavam um terraço circular que parecia mais com uma torre de um belo castelo. Regina riu. O branco era quase pacífico, se não fosse a casa de alguém que nada tinha de pacífico.

Robin estava logo atrás dela e ela nem precisava olhar para trás para sentir os olhos dele em suas costas. Sua presença era intoxicante, e ela não acreditava ter sobrevivido à viagem de carro. Aos olhos azuis que pareciam furar sua alma a cada troca de olhares. Bateu na porta e em seguida, um homem velho usando um terno bonito abriu a porta.

“Posso ajudá-los?”

“Meu nome é Regina Mills Delfino. Margot me espera.”

Ele assentiu. “Um minuto, irei anunciá-la.” Desapareceu em seguida, caminhando para o labirinto por trás dos corredores que pareciam intermináveis. Robin estava parado, os olhos fixos no chão. Qual era o problema dele? Mas antes que pudesse perguntar, a voz suave carregada com o inconfundível sotaque os abraçou.

“Queridos. Que surpresa adorável.”

Luxo. Essa seria a palavra que Regina utilizaria para descrever aquela cena. Margot tinha os cabelos perfeitamente cacheados, o loiro dourado que fazia sua pele cintilar absurdamente. Usava um vestido azul, um tom entre o azul marinho e um azul oceano, algo escuro mas com certo brilho magnético. Joias douradas adornavam seus pulsos, brincos de pérola balançavam em suas orelhas. Desceu as escadas com um sorriso diabólico, e Regina segurou a vontade de revirar os olhos. “Não é uma surpresa se você esperava por mim.”

“Por você sim, mas vocês dois juntos…” Os olhos dela finalmente deixaram Regina e vasculharam o corpo do segurança, de cima a baixo, fiscalizando e deliciando-se com a figura dele. “Robin.” Cumprimentou ela, com um sorriso que Regina não entendeu. Não era o sorriso de sempre, era como se eles… tivessem uma nova camada de intimidade.

Robin nunca respondeu. Apenas balançou a cabeça, respondendo.

O mordomo ainda estava parado ao lado deles. Margot olhou para ele, sorrindo. “Peter, traga um garrafa de espumante e três taças. Iremos esperar na sala de estar.”

“Apenas duas. Estou trabalhando.” Adiantou-se Robin, mas ela apenas mordeu o lábio inferior, sorrindo de maneira ordinária.

“Três taças, Peter. Obrigada.”

Eles seguiram em silêncio para a sala. Margot empurrou as portas de vidro, revelando uma sala imensa com muitos e muitos metros de espaço. Diversos ambientes a dividiam, e Robin caminhou até a vidraça que cobria toda a parede esquerda. Atento, olhou por entre as cortinas com a arma empunhada, arrancando um riso da anfitriã. “Esses vidros são à prova de balas. Não perca seu tempo. Sente-se, Robbie.”

Regina ignorou o leve comichão do ciúmes nascendo na boca de seu estômago. “Margot, eu não posso demorar. Frank já está desconfiado que…”

“Achei que estivesse fazendo seu trabalho completo.”

“Isso não é da sua conta.” Respondeu a morena, finalmente forçando contato visual com a loira, desafiando-a a continuar.

“Tudo bem, estressadinha.” Riu a britânica. “O que temos aqui?”

“Ele tem pelo menos dez hoteis em meu nome.”

“Vamos vender todos.”

“Que? Você ficou louca?” Regina encostou no sofá macio de veludo branco. “Ele me mataria.”

“Ele não sabe se foi você. Se você não sabe da existência dos mesmos, como poderia tê-los vendidos?”

“Mas…”

“Colocaremos parte do dinheiro em uma conta anônima na suíça. Não se preocupe.”

“Parte do dinheiro?”

“A aliança precisa ser financiada.”

Regina arqueou uma das sobrancelhas. “E eu tenho que financiar você, Mellie e aquela mulher?”

“Victoria não é tão ruim quanto parece.” Margot riu, alcançando o notebook que descansava na mesa de centro, revestida de vidro desenhado. “Quer dizer, ela é ruim. O próprio demônio a devolveu, mas ela não é ruim com você. Acredite, eu já vi coisas bem piores.”

Conectou o pendrive que Regina lhe estendeu, copiando os arquivos para o ambiente criptografado que Nolan havia preparado para ela. Peter apareceu com a garrafa, passos lentos e firmes. Colocou as taças na mesa, e a garrafa aberta. “Eu continuo daqui, meu querido. Obrigada.”

Os olhos de Regina acompanhavam o processo de extração do arquivo enquanto Margot preenchia as taças. Estendeu a sua, e então ergueu o olhar, avistando o segurança de costas para elas. Sorriu. Caminhou até ele, e então, aproximou seus corpos. Os olhos dele pareciam alertas, muito diferentes dos olhos que descansavam no pub. “Eu disse que não posso beber, Bishop.”

“Regina não vai se importar com uma taça.” Flertou ela, aproximando-se ainda mais. O cheiro dele era viciante. Adorava a mescla natural e rústica que parecia com o cheiro de um bosque fresco, pinheiros sendo regados pela garoa da manhã. Deslizou a mão pela mão dele, e ele acompanhou com os olhos, mas não se afastou. Ela colocou a taça ali, forçando-o a segurar a mesma.

Regina acompanhava toda a cena. Era óbvio que eles estavam muito mais confortáveis um com o outro; na verdade, Robin. Margot sempre se jogara para cima dele, mas ele jamais fora tão… receptivo? O que havia entre eles? Ele não seria capaz de… Regina balançou a cabeça, e voltou a olhar para o notebook, e em segundos, Margot estava ao seu lado novamente.

“E depois? O que faremos?”

“Estamos estudando esvaziar o cofre de seus cassinos. Ter as plantas e a síntese do sistema de segurança irá nos ajudar a saber como e quando fazer isso.” Margot suspirou. “Você quer que ele viva?”

O ar desapareceu de sua garganta. Por alguns segundos, ela esqueceu qual era o processo necessário para respirar. Seus olhos encontraram os olhos azuis da britânica, que a olhava como se tivesse perguntando seu sabor de sorvete preferido. “Que raios de pergunta é essa?” Respondeu ela, em um sussurro estrangulado.

“C’mon. Estou perguntando se quer que seu marido seja um vivo falido, ou se ele perca tudo e depois morra.”

“Eu não vou matar Frank.”

“Ninguém pediu para você fazê-lo. Estou perguntando se é o que você quer.”

“Você não pode me perguntar isso e esperar que eu diga sim. Ele é meu marido.”

“Um marido que você disse ter engravidado sua irmã e que você quer destruir.”

“Ainda assim, eu não, não. Não é assim que funciona. Eu não vou planejar a morte dele.”

Margot sorriu, balançando a cabeça.

“O que é tão engraçado?”

“Você ainda o ama, Regina. Você pode desejar um mundo de coisas ruins para ele, mas você o ama. Não quer machucá-lo de verdade. Você só quer vingança.”

Regina encarou-a com raiva. “Eu me casei com ele por amor. Pare de me julgar por isso.”

“Nada contra, muitas pessoas casam por amor. Eu quase casei, uma vez. Mas me preocupa que você deixe isso entrar no nosso caminho. Você sabia exatamente as consequências de entrar nesse esquema. Você foi bem orientada.”

“Se você quer matá-lo, vá em frente. Mas não venha me pedir para agir como se isso não fosse me atingir. Não me diga que eu não posso chorar em seu enterro.”

“Tudo bem.” Margot encarou-a por algum tempo. “Próximo passo.”

E a reunião continuou.

***



Zelena estava em pé ao lado da porta de correr, olhando através varanda e observando a vista privilegiada da cidade. Sempre soube que seria exposta por seus pecados, e até então isso jamais a incomodara. Mas as coisas eram diferentes agora. David… Ele era importante.

Não somente pela gravidez. A ideia de ter um filho dele e eles estarem em um relacionamento era calorosa, lhe dava segurança e uma sensação de paz. Mas a presença dele havia se tornado indispensável. Quer fosse enfrentando seus demônios, quer fosse rindo sozinho, ou nos momentos de silêncio mútuo que às vezes os acompanhava. Ela o amava.

“Hey.” Disse ele, e ela sorriu, sentindo-o abraçá-la, as mãos dando a volta em sua cintura, posicionando sobre a pequena barriga que começava a se formar. Ele beijou-a na nuca, e ela descansou o peso contra o corpo dele.

“Me desculpa.” Suspirou ela.

David apertou um pouco mais o abraço, beijando-a agora na clavícula, no ombro, e então no pescoço. Suspirou, inebriando-se com o perfume dela. “Não me peça desculpas por algo que não foi culpa sua.”

“Se eu jamais tivesse me envolvido com ele, eu…”

“Possivelmente estaria casada agora e eu não teria você.”

Ela sorriu, fechando os olhos. “Você não pode ser tão gentil assim.”

“Eu não sou. Eu quebrei o braço dele.”

Um arrepio percorreu o corpo dela, e Zelena virou-se para ele, preocupação estampada em seu rosto. “David, o que você fez? Ele não vai deixar isso barato. Ele vai matar você, David. Eu não quero ser mãe solteira, eu preciso de você nessa jornada e…”

David enfiou as mãos entre as madeixas ruivas, puxando-a para um abraço firme e quente. Ela permitiu-se abraçar, adorando o calor do corpo dele contra o seu. “Nós vamos embora dessa casa.”

“Essa é a minha casa, bobo. Vou embora para onde?” Riu ela, o rosto ainda enfiado na camisa social.

“Para a nossa casa. Eu não disse aquilo para ele da boca para fora, Zelena. Talvez seja cedo agora. Talvez precisemos nos conhecer melhor, precisemos discutir a educação dessa criança na sua barriga, quer seja um garoto ou uma garota, discutir sua família, ou a minha. Talvez tenhamos que discutir como serão as finanças, que escola ele ou ela irá frequentar, mas a única coisa que não preciso discutir é que eu quero me casar com você. Pode ser daqui um ano, três, cinco. Eu quero.”

“David…”

“Vamos começar apenas mudando de casa. Ele não saberá onde nos encontrar. Depois nós daremos um jeito nas outras coisas. Tudo bem?”

Zelena sorriu, balançando a cabeça. “Sim.” Ela encarou os olhos azuis. “Você sabe que eu não valho todo seu sacrifício, não sabe? Eu não sou uma boa pessoa, David. Eu sou bem menos do que você merece.”

O semblante dele fechou-se e ele colocou o indicador sobre os lábios dela. Zelena manteve o contato visual, até que ele aproximou o rosto e disse as palavras seguintes de maneira séria e suave. “Nunca mais repita isso, Zelena. Você é exatamente tudo o que eu quero, mereço e almejo. E ponto final.”

***



A viagem de volta para casa fora ainda mais silenciosa. Mas apenas externamente.

Regina Delfino estava em chamas e ela queria queimar Robin Lockhood até as chamas dele virarem cinzas por baixo de seus mocassins.

Não podia sequer fechar os olhos sem a imagem de Margot beijando-o no canto dos lábios e dizendo que estava ansiosa para revê-lo em breve. Evitou abrir a boca para que chamas não voassem por entre seus lábios, labaredas de raiva por ele ter mentido para ela. Oh eu estou em um relacionamento, eu serei fiel à ela, blá blá blá.

Miserável mentiroso.

Podia senti-lo encarando-a de maneira direta mas manteve os olhos no caminho. “Regina.” Chamou ele, e ela podia sentir que ele estava preocupado. Ele havia percebido que ela estava furiosa, ou talvez fosse a expressão mortífera em seu rosto. A expressão de que iria matá-lo com o cinto de segurança se a viagem demorasse mais do que o necessário.

Ela suspirou, os olhos fixos às paisagens, mas ela não estava vendo nada. Sua mente estava em polvorosa, trabalhando em excessivas linhas de raciocínio; uma tentava digerir tudo o que Margot havia lhe dito; outra preocupando-se e sentindo falta de Stuart; outra odiando Robin mais uma vez; outra logo paralelamente misturando seus sentimentos por Bishop, incerta se eles eram positivos ou negativos ou ambos.

Eles entraram na rua principal para a sua mansão e ela respirou fundo. Deveria ir para a academia. Deveria colocar toda essa raiva em sua esteira e correr como se sua vida dependesse disso. Não gaste sua raiva; recicle-a.

Estava prestes a descer na frente da casa quando Robin deu dois toques na divisória e o motorista não parou. Ela sabia o que significava. Ele só pararia na garagem. O que Robin estava pensando?

“O que está fazendo?” Questionou ela, a voz carregada de soberba e raiva.

Ele não respondeu, os olhos azuis ganhando um tom escuro. O veículo seguiu caminho até à vasta garagem, e algum tempo depois, parou. Robin desceu do carro, e ela ouviu-o se despedir do motorista; ele deu meia volta e abriu o porta-malas. Em seguida, caminhou até a lateral e abriu a porta do carro, auxiliando-a. “Eu disse que queria descer aqui, segurança?”

A resposta foi imediata; Robin ergueu a cabeça e encarou os olhos cor de chocolate que o desafiavam. “Por que está agindo dessa maneira, Regina?” Questionou ele, e ela quase cedeu. Mas respirou fundo, tentando passar por ele em silêncio. Robin segurou-a pelo braço, fechando a porta e colocando-a contra a lateral do carro.

“Senhora Delfino para você. Nós não temos mais nada.”

“Não me provoque, Regina.”

“Ou vai fazer o que? Me matar? Você já tem alguma experiência, não é mesmo?”

Robin deu um passo para trás, chocado com a ousadia dela de trazer aquele assunto à tona. “Não fale do que não sabe.”

“Se é que você a matou mesmo. Depois de hoje percebi que você é um mentiroso.”

Robin puxou-a pelos braços, grudando-a ao seu corpo. Ela havia esquecido da sensação de estar tão perto dele. E ele teria se lembrado, se não estivesse cheio de raiva. De ressentimento. “Não me chame do que eu não sou, Regina.”

“Senhora…”

“Para o inferno com esse maldito sobrenome. Eu não sou mentiroso. Eu nunca menti para você.”

“Você me disse que estava sendo fiel à aquela garotinha.” Sibilou ela, os olhos presos aos olhos azuis. Em nenhum momento ela afastou o contato visual, obrigando-o a sustentar o olhar. “Mas parece que isso só é válido quando sou eu. Você pode ir para a cama de Margot Bishop, sem problemas. Então você é — sim — um mentiroso sujo.”

Ele soltou-a, rindo de maneira irônica. “É isso que a está incomodando, realeza? Ciúmes? Está explodindo de ódio porque eu fodi Margot Bishop?”

Os lábios dela entreabriram-se, mas ela não conseguiu dizer nada. Ele havia confirmado. Robin havia transado com ela. Ondas amargas de ciúmes agora anundavam seu corpo, fazendo-a odiar ambos. Porque deveria ser ela. Porque ela queria que tivesse sido ela. Ela o queria, absurdamente. E o queria apenas para ela. Ninguém mais.

“Eu fiquei com ela uma noite antes de aceitar esse relacionamento. Nós também não estávamos em um bom lugar.”

“Espero que tenha feito bom proveito. Espera que tenha sido bom para você.”

“Você é uma das pessoas mais hipócritas que eu conheço, Regina.”

Ela passou por ele, caminhando na direção da entrada da casa e Robin correu até ela, puxando-a gentilmente pelo pulso. “Me deixe em paz, Hood.”

“Você não tem direito nenhum de ficar irritada comigo por isso.”

“Eu tenho o direito que eu bem entender e não será você…” Debochou ela, olhando-o de cima a baixo. “Que vai me dizer o contrário. Volte ao serviço.”

Robin entrelaçou os dedos nos cabelos castanhos, puxando-a para si. O corpo delicado chocou-se contra o dele, e ele suspirou ao sentir a curvatura da bunda dela contra o seu corpo. Seus lábios rapidamente alcançaram a orelha dela. “Robin, me solta, alguém…”

“O que você acha que eu senti ouvindo você transar com ele? Não uma, não duas, todas as vezes? Ouvindo seus gemidos, ouvindo-o gemer, ouvindo o som sufocado dos seus pedidos? Você acha que eu fiquei indiferente à isso, Regina?” Sussurrou ele contra a orelha dela, fazendo com que um arrepio deslizasse pela espinha dela. “Você acha que foi bom para mim?”

Ele virou-a, forçando-a a olhar para ele. Regina tentava a todo custo manter sua postura, manter seu rosto impassível, o olhar de desprezo. “Então sim, eu transei com ela. Eu a fodi em um banheiro apertado, contra a porta, na pia, no chão. Eu fiz sua amiguinha ver estrelas com meu pau, com a minha língua, com os meus dedos. Mas ainda assim, não foi tão ruim quanto o que você me fez. Você não estava lá para ouvir a maneira como ela gemia. Você não ouviu como ela clamava meu nome, como ela choramingava por mais. Mas deveria ter ouvido. Porque é o que seria justo. É o equivalente ao que você fez comigo.”

Robin soltou-a. Regina suspirou, engolindo lágrimas que um dia pensaram em cair de seus olhos. “Eu odeio você.”

“Não odeia.” Respondeu ele. “Mas também não ama. E esse não é o problema. O problema foi você ter achado que porque eu tinha sentimentos por você, eu seria seu capacho. Você estava enganada.”

Ela permaneceu paralisada e Robin simplesmente se afastou, caminhando sozinho na direção da entrada e deixando-a para trás.

Notas finais
Feliz aniversário, Fernanda