Efeito Dominó
17 Hamilton Bakery
O som de violinos preencheu sua mente quando ela chegou à sala. Madame Mae, uma pequena senhora asiática de voz suave, havia com certeza passado por ali. Ela aparecia entre duas ou três vezes na semana para fazer uma limpeza impecável e por alguma razão, gostava de preparar pratos requintados e alguns agrados à sua empregadora. Zelena não entendia o que a mulher via nela, mas ficava grata. Uma das poucas coisas em sua vida que ela sentia-se verdadeiramente grata.
Fitou a vidraça, observando o sol imponente lá fora. Havia um prato com waffles cobertos por uma fina camada de mel silvestre e suco de laranja, ao lado de um copo de vidro onde uma margarida solitária a encarava de volta. Pegou um deles e deu uma mordida, os olhos fechando para intensificar a sensação de absorção daquele sabor maravilhoso. Quando abriu os olhos, voltou sua atenção para uma das fotos sobre o móvel de madeira à sua direita. Haviam algumas fotos; uma dela abraçada à Henry em uma das ultimas festas de natal que eles passaram juntos, uma foto dela com Regina, duas crianças brincando nas areias da praia de Santa Mônica. Um sentimento estranho percorreu sua espinha, lembrando-a do caminho que a relação entre elas havia tomado.
Quando crianças, Regina era a sua única e por isso, sua melhor amiga. Nunca tivera um relacionamento tão aberto, repleto de confiança e cumplicidade; estavam sempre juntas, sempre cúmplices em suas inumeras tentativas de passar Cora para trás com a ajuda do pai. Henry não era seu pai biológico, mas ele a amara com tanta convicção que uma questão sanguínea era meramente trivial quando se colocava em foco o relacionamento dos dois. A morte dele havia atingido-a com força, e ela ainda podia sentir o impacto toda vez que lembranças felizes lhe vinham à tona.
Foi durante sua adolescência que tudo começara a mudar. Regina passou a desenvolver características que ganharam a atenção de sua mãe. O histórico escolar da mesma era impecável, destacando-se por notas altas, aptidão física, um perfil psicológico brilhante. Ela demonstrou potencial para se tornar a sucessora da Apple’s Queen. Mas não era o que Zelena queria. Zelena queria viajar o mundo, queria escrever, queria conhecer o alto escalão e as festas privadas regadas aos mais caros champanhes do mundo. Queria entender o mundo dourado por trás da Vogue, queria conhecer as personalidades por trás dos nomes que assinavam os melhores desfiles em Paris e Milão. Algo que sua mãe desaprovava completamente. Muitas vezes, Regina colocara-se na mira de Cora para proteger a irmã. Ao contrário de Cora, sua irmã entendia que aquela não era o que ela queria. Entendia que elas eram almas diferentes, que buscavam maneiras diferentes de realização e isso jamais a incomodou. Regina nunca lhe julgou por suas decisões, mas Cora a fez pensar que sim. Muitas acusações depois, muitas insinuações, incansáveis manipulações. Foi assim que sua mãe fez com que ela passasse a acreditar que havia algo de errado entre as duas filhas, e Zelena mordeu a isca.
Cora foi a primeira a queimar suas pontes. Passou a colocá-la de lado, ignorando-a, esquecendo convenientemente de incluir a filha mais velha em eventos e ocasiões importantes. A distância se tornou inevitável, assim como a pressa da mesma em terminar seus estudos e desaparecer da casa o mais rápido possível. Quando Frank Delfino apareceu na vida de sua irmã, ela não poderia ter se sentido mais grata. Um casamento era tudo que ela precisava para que sua mãe a esquecesse de vez, ignorando as cobranças excessivas e se concentrando em criar o conto de fadas perfeito para sua filha preferida. Frank era um homem muito diferente naquela época. Apaixonado, romântico, prestativo. Um verdadeiro cavalheiro. Ela jamais havia visto sua irmã tão feliz. Os olhos dela pareciam cometas toda vez que ele aparecia com rosas, ou que ela retornava para casa após sair com ele. Falava sobre como ele era inteligente, como ela a fazia sentir-se única e especial e claro, havia a química entre eles, que incendiavam qualquer lugar onde ambos estivessem presentes. Todos estavam satisfeitos; Cora estava mais do que contente com um marido rico, culto e influente para sua filha, prestes a se tornar uma empresária de sucesso; Henry estava feliz com a felicidade de sua menina; Zelena estava feliz por sua irmã e por ter alguma folga de sua mãe.
Mas, inesperadamente, Henry faleceu. E tudo que aconteceu depois disso se tornou uma avalanche, uma bola de neve destrutiva. Regina usou o casamento como fuga. Cora transformou a festa do casamento em uma âncora, desaparecendo em viagens sem destino logo em seguida. Sua irmã cedeu a ela uma porcentagem decente das ações e lhe entregou a empresa. O estresse apossou-se dela, sobrecarregada pela responsabilidade da mansão e de uma empresa daquele porte e pelo peso de um luto reprimido em seu peito. Todos haviam seguido em frente e ela ficara com o trabalho duro, e ninguém, absolutamente ninguém, se importou com quão esgotada ela se sentia.
E foi assim, durante uma noite vazia e regada à rum caribenho, que Frank Delfino a encontrou no chão da biblioteca da mansão de sua mãe. Ela não estava pensando corretamente, ela estava sofrendo, seu rosto estava lavado por lágrimas e ele a beijou. Ele a beijou, e a deitou no chão quente próximo á lareira e ela fechou os olhos, aceitando o carinho que há muitos anos havia sido negado à ela. Não lhe ocorreu nada durante aquele momento, nenhuma das diretrizes morais que a acusariam na manhã seguinte. Naquele momento, ela sentiu-se cuidada, amada, mesmo que fosse por momentos. Sabia que cometera um erro e um erro deu origem à outro, e a outro e a outro. Não entendia o que havia acontecido com o fogo inicial do casamento da irmã, o que o fazia vir atrás dela, vez após vez. Regina havia se transformado em outra pessoa, e ela não ousou intrometer-se ainda mais no relacionamento que ela havia ajudado a destruir.
Frank Delfino era um porco, mas era o único que acreditara em seu potencial desde o principio. O único que lhe enxergara, que dera a ela o benefício da dúvida. Aos poucos, passou a conhecer melhor a fachada que ele escondera por todos esses anos. Delfino era muito mais perigoso e tinha muito mais negócios sujos que aparentava. E infelizmente, ela havia desenvolvido muito mais do apenas gratidão por ele.
Fitou a pasta que Graham havia lhe entregado e caminhou até ela, sentando-se na poltrona confortável ao lado dos waffles. Números e mais números. Haviam algumas reuniões que ela circulara antes de dormir, e tudo que ela precisava fazer era encontrar uma maneira de tirar sua irmã do caminho. Sabia que Regina estava na empresa e o pensamento fez com que cocegas percorressem sua nuca; sua irmã era inteligente e qualquer passo em falso poderia ser sua queda. Errar não era uma opção.
Pegou seu celular e discou alguns números. Dois toques depois, uma voz masculina a atendeu.
“Nós temos que acelerar o processo.”
“Sua impaciência é um erro, Srita. Mills. Você pode colocar tudo a perder se não aguardar o momento certo.”
“Os números estão excelentes. Por que esperar?” Pressionou ela, os olhos fixos no valor das ações.
“Porque não é a senhorita quem está no comando. Os embaixadores não gostarão disso. Aguarde.”
A ligação foi cortada e ela bateu o telefone contra a mesa, impaciente. Minutos depois, Madame Mae apareceu em seu campo de visão, vestindo o uniforme azul e um avental branco com desenhos de borboletas. Ela estava sorrindo e se aproximou o suficiente para colocar sua mão sobre a mão da ruiva. “Minha querida. Como está?”
“Eu estou bem, Mae.”
“Como vai a menina Regina?”
Zelena a encarou com os olhos sorridentes. Mae não se cansava dessa abordagem que ela achava ser sutil, mas que a ruiva sabia que era só uma maneira de forçá-la a falar sobre a irmã. A pequena mulher possuía esperanças convictas de que algum dia elas voltariam a ter laços mais fortes do que mera genética.
“Você sabe que há muito tempo eu e Regina sequer conversamos, Mae. Acho que ela está bem, não sei. Aparentemente Regina nunca esteve em melhor forma.”
“Vocês são irmãs minha querida. Não é assim que deve ser. Quando nascemos interligadas a outra alma sob o fio da irmandade, não nos resta outro caminho a não ser o da cumplicidade, do amor, do andar lado a lado. Quanto mais vocês se afastam, mais azar é atraído para a vida de vocês. E isso nunca acaba, a não ser que você resolva o impasse.”
“Nesse caso todo o azar deve estar vindo para a minha vida.” Zombou Zelena, rindo sarcasticamente.
“Não faça piada com a palavra do Sasana.” Ralhou Mae, e percebendo que mantinha a atenção dos olhos incrivelmente azuis nos seus, continuou. “Eu sei que você sente falta dela, menina Zelena. Mas vocês jamais se reaproximarão enquanto o senhor Frank continuar aparecendo aqui.”
Qualquer outra pessoa evitaria aquele assunto, mas não Mae. Em nenhum momento seu tom de voz ou suas palavras discriminaram ou condenaram a mulher à sua frente. Não lhe cabia a função de juiza da vida dos outros, de regulamentadora da moral alheia e ela sabia disso. Suas crenças moravam bem longe deste tipo de comportamento. Mas ainda assim, ela não era leiga sobre os assuntos que permeavam aquela casa. Zelena era muito querida por ela, como uma filha, e ela sabia que alguém precisava lhe chamar à tona. Um silêncio instalou-se entre elas, já que Zelena não ousou rebater aquele comentário. “Você parece muito pálida. Vou fazer um suco de laranja com cenoura. Um pouco de cor não lhe fará mal.”
Um sorriso atravessou o rosto de Zelena. “Mae, não precisa. Eu tenho que sair daqui a pouco. Vou tomar um banho e me arrumar.”
“Isso quer dizer que há tempo para fazer o meu suco. Não o subestime. Você vai tomá-lo sim.”
“Você é mandona.” Resmungou, antes de se levantar e beijar a pequena senhora no rosto. “Obrigada.”
Zelena subiu as escadas. Cobertas por um carpete branco e acompanhadas por um corrimão dourado, pareciam uma passarela pessoal e faziam com que ela se sentisse em seu próprio filme. O corredor iluminado possuía espelhos com cortes decorativos, redondos e de diâmetros diferentes, que formava um desenho do sistema solar. A porta de seu quarto era verde escura, de madeira densa. O quarto era grande e espaçoso, bastante iluminado. Uma cama grande pairava no meio, coberto por um dossel, tecidos finos confeccionados com fios marroquinos. O cheiro de baunilha era evidente, e havia mais margaridas ao lado de sua cama, o que ela sabia que era coisa de Mae. Um espelho largo e grande marcava presença entre as duas grandes janelas; havia uma arara à esquerda, com alguns itens de vestuário e pares de sapato.
Não era muita coisa e ela realmente não fazia questão disso. No criado mudo havia alguns livros e seu notebook, além do abajur e seu mundo morava praticamente ali. Algo estava piscando na tela de seu aparelho, e ela se aproximou. Apertou uma das telas do aparelho, e a tela do mesmo se iluminou, revelando a notificação piscando no canto inferior esquerdo. O aplicativo de rastreio de transações imobiliárias foi aberto em um clique, e suas sobrancelhas formaram um arco de surpresa e dúvida quando ela percebera o motivo: Frank Delfino havia colocado um de seus cassinos à venda e ela não fazia ideia do por quê.
***
Suor. Era tudo o que ele conseguia se concentrar. Suor, escorrendo pelo corpo dela, tornando-o de alguma forma ainda mais atraente. Robin estava debruçado do lado de fora, observando-a pela porta lateral. Regina corria, incansável. A velocidade da esteira deveria estar acima dos vinte quilômetros, pois o corpo dela demonstrava esforço intenso; o top esportivo vermelho estava molhado e o shorts era justo apenas na cintura fina, soltando-se no resto do quadril. Os cabelos, presos em um rabo de cavalo feito apressadamente, balançavam de um lado para o outro. Ela não estava prestando atenção nele — na verdade, ela parecia bastante distraída com os fones de ouvido. Algo muito importante parecia ocupar seus pensamentos.
Ela continuou. Robin manteve os olhos na curvatura de seu abdomen, subindo e descendo devido à respiraçao ofegante. Perfeição. Era isso que vinha à sua mente quando ele pensava em Regina Mills. Uma estrutura corporal perfeita. Músculos definidos, curvaturas salientes e uma pele macia e aveludada. Seios redondos e cheios, uma cintura pequena, um quadril pecaminoso. Suas pernas tinham linhas que faziam com que arrepios fossem enviados à uma específica parte de seu corpo. Ela era uma deusa.
Regina desceu da esteira, libertando-o dos pensamentos. Ele a acompanhou com o olhar, e ela caminhou até a maquina de remada, ficando de costas para ele. A cada movimento, ele podia observar a musculatura entre suas escápulas sendo retraída e relaxada, uma espécie de ritual lento porém visivelmente agradável. Ele não deveria estar ali, assistindo-a como um lunático. Mas ela era um vício e depois do que ela fizera, ele não possuía mais nenhum controle sobre a sua mente. Ela o havia dominado.
Minutos depois ela terminou a sessão, caminhando duas máquinas à direita e encaixando sua perna na maquina de glúteos. Damn boy. Encaixou o pé em um dos pedais e empurrou, fazendo com que a carga de 100kg se concentrasse na musculatura de suas nádegas. Os olhos dele viajaram para a região onde o movimento acentuava, a curva, o músculo em destaque, a força que ela utilizava. Foi quando ele captou. Regina tombou a cabeça e sorriu, encarando-o pelo canto de seus olho.
Ela o tinha visto.
Os movimentos continuaram, cada vez mais lentos. Regina mordeu o lábio inferior e continuou, empurrando a barra e realizando os exercícios com calma e precisão. Dor e queimação se mostraram presentes, anunciando o sucesso da serie. Fitou o papel preso no suporte com a lista de exercícios providenciada por seu personal trainer. Ainda restavam as barras e abdominais.
No entanto, ela sentiu um toque urgente em sua cintura, virando-a e antes que pudesse pensar, a boca dele encontrou a sua. Robin subiu a mão e segurou no rabo de cavalo, puxando-o com força e devorando seus lábios. A língua dele adentrou seus lábios com pressa, com uma fome insaciável. As unhas dela deslizaram para baixo da regata de algodão que ele usava, arranhando-o e Robin continuou o ataque aos lábios dela, beijando-a com força, os lábios amassando os seus. Ele enrolou os cabelos dela em seus dedos, puxando ainda mais firmemente e tomando seu pescoço em lambidas vigorosas e mordidas, enquanto a outra mão a mantinha presa contra seu corpo.
“Robin.” Chamou ela, mas ele não ouviu. Ele soltou seu cabelo apenas para descer ambas as mãos para o seu quadril, espalmando suas nádegas e fechando as mãos sobre elas num aperto firme e forte que a fez gemer, puxando-a para o seu colo. Regina cruzou as pernas ao redor da cintura dele e ele a chocou contra a parede mais próxima, segurando seus pulsos contra a parede enquanto voltava a beijá-la. Havia algo na maneira como suas bocas se encaixavam, um calor eminente proveniente do encontro da faísca e do combustível, da colisão de dois planetas. Ele jamais tivera uma necessidade tão primitiva de beijar uma mulher, um vício tão incontrolavel que o fazia apagar as premissas pavorosas e assustadoras que as consequências de serem pegos lhe traziam.
“Nós… precisamos de um lugar.” Sussurrou ele, apertando a cintura dela. Regina deslizou as unhas pelo cabelo dele, brincando com seu cabelo quando sentiu os lábios dele sobre a pele do seu pescoço. Ela sabia que ele estava certo. Não podiam continuar se arriscando daquela maneira, podendo ser pegos por outro segurança além de Stuart. Ou mesmo por Frank. Era um risco desnecessário.
“Eu sei.” Gemeu ela e ele deslizou os lábios pela clavícula dela, afastando um pouco a alça do top. Eles iam derreter ali mesmo, ela tinha certeza disso. Ele deslizou o polegar sobre os lábios dela, os olhos fixos nos olhos cor de chocolate. “As coisas que eu quero fazer com você, Regina…”
“Me diga.” Sussurrou ela, sugando o polegar dele em seguida. Ele sorriu, a malícia transbordando em seus lábios quando ele a desceu de seu colo, encaixando uma das pernas entre as pernas dela e iniciando uma leve movimentação, uma fricção suave no clitóris que implorava por alívio.
“Eu quero dominar você.” Sussurrou ele, a língua contornando a linha da mandíbula dela, seguindo caminho até a orelha enquanto continuava a torturosa fricção. Ele beijou a pele logo abaixo da orelha, subindo-a lentamente e mordendo o lóbulo antes de deslizar a língua ali. “Imobilizar seus pulsos.” Ela gemeu, rendendo-se aos lábios que brincavam em seu pescoço. “Quero ouvir você gritando meu nome.” Ele voltou aos seus lábios e segurou seu rosto com cuidado, beijando-a lascivamente, sua língua causando labaredas no ventre dela. “E finalmente, quero possuir você, fazer moradia nesse corpo sensacional...” Voltou a encará-la nos olhos. "Me apossar da sua libido com tanta força que quando alguém lhe falar sobre prazer você irá imediatamente associar ao meu nome."
Ele empurrou a perna com mais força sobre o centro dela, e ela fechou as pernas ao redor dele, denunciando o alívio proporcionado. “Eu vou pedir para Stuart lhe entregar um celular descartável. Não é seguro nos encontrarmos assim.”
Regina respirou fundo, sendo surpreendida em seguida pelos lábios dele, beijando-a novamente. “Você é sensacional, Regina.” Sussurrou ele, afastando-se em seguida e saindo pela porta lateral. Ela riu, uma risada feliz e sincera. Voltou a encarar a lista de exercícios, e respirou fundo. Tinha mais algumas series a seguir.
***
Localizada na Harford Road, a Hamilton Bakery ostentava o título de possuir um dos melhores cupcakes de Maryland. Sob uma fachada humilde de tijolos vermelhos e banner amarelo, a padaria abrigava uma coleção de cafés autênticos e doces feitos com carinho e amor, ou ao menos era o que dizia o quadro escrito atrás do balcão de atendimento. Violet insistira com os pedidos dos cupcakes de bolo de laranja com recheio de chocolate, e ele simplesmente não podia nega-los por muito tempo. Aproveitou para comprar algumas tortinhas e brownies, um pouco mais de açúcar não faria tanto mal assim.
Estava frio, e ele ajeitou o cachecol ao redor do pescoço, abraçando seu saco de compras enquanto caminhava pela calçada. O vento parecia firme, e ele estava atravessando o parque quando viu uma jovem aos prantos, usando apenas uma camiseta fina. Ele podia ter escolhido não parar; poderia escolher não se envolver mas por alguma razão, ele tomou o caminho contrário. Aproximou-se do banco de madeira, molhada pela relva do vento gelado. “Posso me sentar aqui?”
A garota o olhou por cima do lenço molhado, os olhos vermelhos e os lábios pendendo para um tom arroxeado. Balançou a cabeça, permitindo que ele se aproximasse. Ela manteve contato visual, visivelmente desconfiada. “Eu… Não vou lhe fazer mal.” Disse ele, sorrindo timidamente. “O que aconteceu com você? Você precisa de ajuda?”
“Eu…” Ela começou mas um soluço desencadeou outra crise de choro. Arthur não sabia exatamente o que fazer, de modo que ele permaneceu ao seu lado, em silêncio. “Se eu falar, você vai achar uma perda de tempo. É melhor ir embora.”
“Nada que a faça chorar dessa maneira pode ser uma perda de tempo, senhorita.”
Ela sorriu, os olhos ainda marejados. “Como é seu nome?”
“Arthur. E o seu?”
“Samira.”
Ele consentiu, encarando-a com atenção. “O que aconteceu com você, Samira?”
“Você já amou alguém, Arthur?”
Ele sorriu. “Sim.”
“Eu também. E essa pessoa acabou de ser tirada de mim. Eu podia ter feito diferente, eu…” Ela chorou, as lágrimas silenciosas indicando que a dor era ainda maior internamente. “Eu protelei. Ele estava o tempo todo ao meu lado, ele era meu amigo, e nós sabíamos o que estávamos sentindo. Mas eu deixei pra depois. Eu achei que tinha todo o tempo do mundo…” Ela fitou um local distante, permitindo sua mente viajar.
“Todos nós cometemos erros de julgamento, Samira. Achamos que temos todo o tempo do mundo, mas não temos. Mas se você não contar a ele, ele”
“Ele está morto.” Sibilou ela em meio a outra tempestade de soluços e choros desesperados. Arthur tomou a iniciativa e colocou a mão sobre a mão dela, acariciando timidamente.
“Eu sei que as coisas parecem dificeis agora.” Ele sorriu enquanto ela ainda chorava. “Mas essa dor ameniza. Ela não passa, como gostamos de dizer às pessoas. Mas ela se torna suportável, como uma pequena deformidade no joelho. Não nos impede de andar, ou correr, ou dançar, mas nós as sentimos ali, quando nos esforçamos demais. Um pequeno lembrete feito de dor.”
“Mas…”
“Você não me conhece, eu sei. Mas eu conheço essa dor. E você vai ficar bem, menina. Tenha fé.”
Ele permaneceu ao lado dela, acompanhando-a enquanto ela chorava sua dor. Minutos depois, quando os soluços deram lugar a suspiros suaves, a garota de cabelos pretos e olhos amendoados o fitou. “Você é solteiro?”
“Você é muito nova para mim, minha querida.” Respondeu ele, sorrindo.
Ela limpou os olhos enquanto soltava uma leve gargalhada. “Não é isso. Queria saber se há alguém na sua vida.” Os olhos dele ganharam um brilho repentino que a fez pensar que uma resposta verbal era desnecessária. Sim, havia alguém. “Não perca tempo. Se você a quer, diga. Lute por ela. Fique com ela.”
Ele assentiu. Não era tão simples. Mas o que ele poderia dizer a uma adolescente em luto?
“Eu não estou brincando. Você me promete que vai atrás dela? Essa noite?”
“Não posso prometer nada.”
“Por favor.”
“Eu prometo ir atrás dela o mais rápido possível. Tudo bem?”
“Sim.” Disse ela, sorrindo. Ela fitou as luzes externas da padaria. “Acho que vou ir comprar um bom cupcake de chocolate também.”
“Você está sozinha? Não fique até tarde na rua. Ligue para alguém.”
“Pode deixar.”
Arthur se levantou, ajeitando o saco em seus braços. “Fique segura, Samira. E lembre-se, isso tudo vai passar.”
Ela assentiu, observando-o se afastar. Segundos depois, retirou o celular do bolso e rediscou o último número, sendo atendida por um alô feminino.
“Está feito. Exatamente como pediu.”
“Você foi envolvente o suficiente?"
“Não subestime meu trabalho, Zelena. A semente foi plantada. Não era este o combinado?”
“O dinheiro está sendo transferido agora.”
A morena fitou a tela do celular, minimizando a ligação e checando seu extrato bancário. A quantia foi imediatamente creditada.
“Foi um prazer fazer negócios com você.”
A linha ficou muda, e Samira caminhou na direção da padaria com um sorriso no rosto. Agora podia comprar mais cupcakes do que seria capaz de comer em uma semana.
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