Localizado na luxuosa região do Inner Harbor, o recém reformado hotel Royal Sonesta Harbor Court Baltimore era a opção preferida dela. Coberto por sua fachada particular e bem reservada de tijolos vermelhos e vidraças escuras ele agraciava seus hospedes com total privacidade. A entrada possuía apenas uma fonte simples decorada com flores temporais; as vidraças escuras permitiam um breve relance do interior do hotel mas nada que pudesse ser deliberadamente identificado. A suíte premier, uma das poucas com porte presidencial, era espaçosa o suficiente; a iluminação clara lhe dava um ar de limpeza e polidez. Os moveis bem posicionados eram visualmente agradáveis; mesas, camas, cadeiras e poltronas seguindo o mesmo tom de cor de modo que a mobília se harmonizava delicadamente. O carpete, embora em um tom mais claro, criava um sobretom com a mobília, condensado pela estampa geométrica padronizada. Em outras palavras, um deleite para seus olhos críticos.

“Precisamos de dinheiro.”

Margot fitou o irmão por cima da taça de vinho branco. Rhys estava em pé, jogando uma pequena bola de borracha contra a parede do quarto do hotel; vestia um terno que parecia ser Dolce mas seu irmão não tinha porte para uma roupa daquela. Estava completamente fora do contexto. Engoliu seus pensamentos com uma risada rouca, chamando a atenção dele.

“Você escutou o que eu disse, irmãzinha?”

“Eu pareço surda por acaso?” Ela terminou a bebida em outro longo gole; virando o corpo para a grande janela de sua suíte e fitou a marina logo abaixo. O azul cintilante contrastava com o branco do iate estacionado ao lado do cais; o corredor de arvores plantadas elegantemente alinhadas e o gramado verde vivo na lateral direito criando um efeito visual de claridade e espaço aberto. “Eu tenho um plano que vai nos dar algum dinheiro.”

Ela ouviu quando o som da pequena bola contra a parede cessou e sorriu, mas não se voltou para encarar. Rhys caminhou até o pequeno sofá acolchoado; sentando-se ali e esticando os pés sobre a pequena mesa de vidro à sua frente. O pequeno móvel possuía a estrutura em metal porém estava delicadamente pintado em um tom dourado. Ele cruzou as mãos atrás da nuca, esticando o corpo como um suave alongamento. “E qual é este plano? Finalmente iremos roubar o cafetão?”

“Regina não está pronta ainda.”

Ele riu, estudando a reação cautelosa da britânica. “Qual é seu lance com essa mulher? Algum interesse além do trabalho?”

Margot virou-se lentamente, os cabelos loiros brilhando à luz do sol enquanto os olhos azuis encontravam os olhos do irmão. Ela sorriu abertamente, os lábios curvando-se genuinamente até a ponta de seu rosto. “Está com ciúmes? Vai querer transar com ela também?”

“Em minha defesa, Felicity…”

“Não fale o nome dela, Rhis!” Interrompeu ela, irritada. Levantou-se e caminhou até o bar, a respiração um pouco irregular. Preencheu a taça com mais vinho, forçando os olhos fechados por dois segundos e respirando fundo antes de dar meia volta e voltar à presença dele. Ele a seguiu com os olhos, aguardando até que ela se sentou elegantemente na poltrona vinho localizada frente à grande janela.

“Qual será a jogada?”

“Vamos pegar a garota dele.” Sibilou ela, cruzando as pernas e balançando o par de saltos Salvatore Ferragamo no ar. Um breve relance da reação que isto causaria à Frank Delfino lhe aqueceu o coração, crepitando por sua veia como uma espécie de dose reconfortante de maldade.

As sobrancelhas dele se ergueram formando um breve arco, mas logo voltaram ao seu estado natural. “Sequestro? Estamos caminhando para este nível?”

“Você matou dois U.S. Marshalls há meses atrás.”

Ele riu, erguendo os ombros em rendição. “Oh. Não precisava me atacar. Eu estava entediado pela companhia do Ben.” Margot virou-se rapidamente com a menção daquele nome, os olhos azuis escurecendo alguns tons e o semblante endurecendo gradativamente. “Também não posso falar esse nome?”

“Benjamin é um traidor.” Comentou ela, a voz soando ríspida e fria. Não, ela não havia o superado. Quinze anos de relacionamento, uma parcela bastante generosa de sua vida havia sido construída ao lado do homem que ela achava que era a pessoa certa. Talvez esse conceito de pessoa certa fosse apenas mais um adendo publicitário para incendiar a venda dos produtos de conquista milagrosos.

“Você está com inveja da senhorita Vaughn.”

Ele sorriu ao ouvi-la gargalhar. “Eu? Daquela mulher sem sal?” Voltou a beber um gole de seu vinho, as unhas pintadas com um esmalte escuro destacando-se em contraste com o cristal caro da taça. “Faça-me rir, Rhys. O que Benjamin fazia na cama, muitos outros podem fazer. Inclusive de maneiras mais prazerosas.”

Rhys fez uma careta, colocando a lingua para fora. “Isso é nojento. Guarde essa informação para você.” Ele retirou os pés da pequena mesa de vidro e pousou-os no chão, alinhando sua coluna e apoiando a base de seus braços em sua coxas, o corpo voltado para a frente. “Certo. Quando pegaremos a esposa?”

“Esposa?” Ela riu, balançando a cabeça. “Você está sendo ingênuo, querido. Nós vamos pegar Laurel Castillo.”

***

A entrada tímida e minimalista do The Daily Grind poderia ser intimidante para um novo cliente. A fachada simples contornava a porta verde escura, tornando-a um tanto enigmática, porém não para Roland. O pequeno garoto empurrou a porta e saiu correndo para dentro do estabelecimento, deixando Robin para trás. Atravessou a porta segurando a mochila verde com o desenho de raposas e o fitou já no colo de Megan. Ela estava com o avental verde e os cabelos ruivos em um rabo de cavalo, rindo de algo que o pequeno contava. Havia um rastro de farinha abaixo de seus olhos, e Roland abriu os braços tentando descrever animadamente algo grande — e quase acertando o rosto dela.

“Rollo, cuidado.” Pediu Robin, e Megan virou-se para ele. Ela estava feliz em vê-lo, aparentemente, pois seus lábios se abriram em um largo sorriso. O café estava razoavelmente vazio. Habituado sobre um clima amigável, ele era bastante espaçoso e bem decorado, além de equipado. Não havia um lugar melhor para se tomar café na região do Fell’s Point e havia se tornado o lugar favorito deles. Havia duas lousas enormes na parte de trás do caixa com os cafés, sanduíches, doces e pratos escritos a giz e coloridamente decorados. Havia algo de alegre nas cores, na predisposição das mesas centrais onde rosquinhas e garrafas de café estavam dispostas, nos balcões de madeira com diversidade de alimentos e maquinas de suco, na iluminação clara e vibrante, que fazia com que as manhãs ganhassem vida. E claro, Megan trabalhava ali e nada mais cômodo para ambos que um rosto amigo todas as manhãs.

“Olá, Robin.”

“Hey Meggie. Como está?”

Ela colocou Roland no chão e ele correu na direção dos fundos. “Eu estou ótima. Parece que Roland acordou elétrico hoje.” Riu.

“Fora de controle.” Respondeu, o sorriso em seu rosto revelando as covinhas que não passaram despercebidas pela ruiva.

“O que vai querer hoje? O mesmo de sempre?”

“Sim. O de sempre.” Robin estendeu a mão na direção do rosto dela e mesmo com os alarmes internos criando uma espécie de sirene explosiva, ela se permitiu ver o que aconteceria. A mão dele estava na lateral de seu rosto e ela sentiu quando o polegar dele deslizou por sua bochecha esquerda. O toque lhe deixou um tanto aérea, de modo que quando voltou a si percebeu o par de olhos azuis encarando-a com curiosidade. “Tinha farinha de trigo no seu rosto.”

“Eu estava fazendo uma torta.” Respondeu ela, a voz um pouco estrangulada pela simultânea vergonha que queimava em seu rosto.

“Então você pode adicionar um pedaço da torta no meu pedido. Faço questão. E um donut cor de rosa.”

As sobrancelhas dela formaram um arco. “Um donut cor de rosa?”

“Eu prometi a ele.” Respondeu, erguendo os ombros como quem se desculpa por algo inevitável. Um grupo de jovens passou pela porta, o som do burburinho juvenil preenchendo a atmosfera da recepção. “Bem, vou deixar você trabalhar. Estaremos na galeria.”

***

A galeria do café nada mais era do que um espaço aberto nos fundos do mesmo. Com uma decoração rústica de tijolos vermelhos entrecortados por uma pintura antiga descascada, ele acolhia algumas obras de artes locais. Quadros singelos de retratos e obras abstratas pairando sobre as mesas e cadeiras de madeira. Tinha a aparência de um prédio antigo e histórico, com esquadrias antigas e vasos canteiros repletos de um verde bem vivo, proveniente das plantas que nasciam de seu interior.

Robin estava tentando ler o jornal mas Roland puxou o mesmo de sua mão. “Eu estava tentando ler, Roland.”

“Eu quero conversar.”

A frase provocou um riso solto no segurança, que dobrou o jornal e o colocou na mesa, fitando o pequeno garoto. O cabelo dele estava brilhoso, os cachos escuros caindo pelas laterais com leveza; seus olhos grandes pareciam um satélite para coisas novas, sempre atento a qualquer movimento aleatório ao seu redor porém desatento ao que era demasiadamente importante. Vestia o uniforme da escola, a calça preta e a camiseta branca com o brasão da instituição em um lado do peito e o desenho de um leão do outro.

“Quando sua namorada vai ir lá em casa de novo?”

Inesperada era a melhor descrição para aquela pergunta. Robin segurou o ar por alguns segundos, mas a resposta apareceu antes que ele pudesse elaborá-la.

“Que namorada?”

Parada ao lado da mesa deles estava Megan, carregando as bandejas. Seus olhos rapidamente encontraram o olhar alarmado de Robin mas ela não continuou. “Aqui estão os pedidos. Uma xícara de chocolate duplo, um croissant de peito de peru e olha só, um donut cor de rosa para você, senhor Roland.”

Roland abriu um largo sorriso e bateu as palmas, hipnotizado pelo doce coberto de confetes rosa. Megan colocou o café expresso com essência de baunilha e o pequeno prato com um pedaço generoso da torta de maçã na frente de Robin sem dizer nenhuma palavra, e estava se retirando com as bandejas quando sentiu-o segurando com firmeza ao redor de seu pulso. “Meggie.” Chamou ele, e ela respirou fundo antes de olhar para ele; o medo de que lágrimas viessem aos seus olhos e denunciassem sua decepção presente ali.

Ela fitou Roland, mas ele estava distraído com seu doce e ignorando completamente a interação deles. Robin ficou em pé, alinhando seu olhar com o dela. “Você não precisava ter escondido isso, Robin. Eu só esperava não ter descoberto assim.” Sussurrou ela, incapaz de mascarar o dano que aquela afirmação lhe causara.

“Eu não estou namorando, Megan.” Respondeu ele, encarando dentro de seus olhos verdes. “Nós somos melhores amigos, eu jamais ingressaria em uma relação sem saber sua opinião.”

“Melhores amigos não beijam daquele jeito.” O comentário o atingiu como uma onda quebrando-se contra uma rocha e ela se arrependeu imediatamente. Suas bochechas coraram e ela engoliu em seco, sua garganta ficando árida em questão de segundos. “Robin… Desculpe. Eu não deveria ter tocado nesse assunto.”

“Tudo bem. Eu que deveria pedir desculpas. Não devia ter feito aquilo.” Ele captou o ligeiro relance de tristeza nos olhos dela e sorriu, reconfortando-a. “Não me arrependo de beijar você, Meggie. Eu gostei dessa parte.” Ela sorriu, e ele continuou. “Mas de atravessar essa linha. Porque você é família, tanto para mim quanto para Roland e eu não quero bagunçar as coisas. Eu não estou pronto ainda. Eu ainda sonho com Marian quase todas as noites.”

Megan sentiu-se estupidamente ridícula. Ela havia criado tantas situações em sua mente, tantas explicações para as atitudes dele e ela havia simplesmente ignorado a mais óbvia e simples dentre elas. Ele ainda amava sua ex mulher e a morte da mesma ainda estava recente em seu coração. Ela alcançou as mãos dele e segurou, apertando-as e acariciando a pele do dorso dele com carinho. “Robin, nós estamos bem. Isso não vai mudar nossa amizade.” O sorriso dele derreteu-a. “Agora tome logo esse café antes que vire um frappuccino.”

Ele se debruçou e beijou-a na bochecha. “Obrigada, Meg. Você é a melhor.”

Megan voltou para o balcão com a cabeça nas nuvens, certa de que não merecia o elogio. A realidade era exatamente a oposta. Ele era o melhor, e ela nunca tivera tanta certeza disso.

***

Arthur estava concentrado em suas planilhas. Tinha um editorial a produzir, além do portfólio com as possíveis áreas de expansão industrial ao redor de Maryland que Regina havia requisitado. Sabia que andava trabalhando demais; Violet havia reclamado de sua ausência na noite anterior, deixando-o em uma péssima situação. Guinevere o havia abandonado, mas também havia abandonado a filha e ele não estava desempenhando um papel melhor.

Ele se arrependia de muitas coisas. Quase se perdera em sua ambição; e envolver-se com os negócios sujos de Zelena havia sido apenas o estopim de seus problemas. Mas não era esse o legado que ele queria deixar. Não queria envergonhar a única mulher de verdade em sua vida. Violet merecia o melhor dele.

Seu celular tocou e ele ligou a função viva voz do aparelho. “Arthur.”

Um som metálico surgiu, sendo quase imediatamente substituído por uma voz masculina e séria. “Arthur Cambridge?”

“É ele. Quem fala?” Respondeu, os olhos fixos no estudo topográfico exibido na superfície de seu monitor.

“Aqui é o Delegado Stan. Precisamos que o senhor se encaminhe imediatamente ao Hospital Geral de Baltimore. Mais informações serão dadas quando o senhor chegar aqui.”

Levou algum tempo para Arthur entender o que havia sido dito e realizar a ligação mental entre as informações dadas. Só havia uma única razão para eles estarem ligando. “O que aconteceu com a minha filha?”

“Senhor, precisamos que venha até o Hospital.”

Seu coração passou a bater em aceleração, e ele levantou-se em estado de choque, a visão um pouco turva. “E-Estou a caminho.”

A ligação foi desconectada e ele sentiu-se um pouco tonto, mas não parou. Colocou o celular no bolso traseiro, pegou a jaqueta e as chaves de seu carro. Deixou todo o resto exatamente como estava, ignorando completamente a importância de seu trabalho. Algo havia acontecido com sua filha. Caminhou com a visão turva, o estômago embolado, cruzando o corredor até o elevador. Alguém falou com ele mas ele ouviu apenas zumbidos, continuando seu caminho.

O elevador demorou o equivalente a uma vida, causando-lhe desespero. A preocupação com a seriedade do que poderia ter acontecido começou a latejar sobre suas têmporas enquanto seus olhos acompanhavam o processo decrescente de andares. Seu estômago doía.

Arthur praticamente pulou para fora do mesmo quando as portas se abriram e revelaram o andar da garagem. Ele andou em uma velocidade absurda até o carro, e retirou as chaves do bolso. Estava tremendo, seus dedos chacoalhavam e ele precisou se esforçar para seus olhos focarem no molho de chaves e encontrar a certa. Luzes se fizeram presente e ele ouviu um carro estacionando na vaga ao lado da sua. Escolheu uma das chaves mas suas mãos tremiam muito e ele derrubou-a no chão. Abaixou-se e pegou a chave, ignorando o estremecer de seus dedos e tentou abrir novamente o carro. Sem sucesso.

Um acesso de ira e desespero tomou conta dele e antes que pudesse pensar no que estava fazendo, seu pé encontrou a lataria em um chute nem um pouco amigável.

“Arthur!” Gritou uma voz feminina, e ele virou-se assustado. Cora Mills o fitava atônita, vestindo um dos vestidos mais recentes da atual coleção de Alexandre Herchcovitch e saltos vermelhos como sangue. O tecido preto caíra como uma luva em seu corpo, assim como o lenço da Hermés atado em seu pescoço. Mas nada disso era páreo para o semblante de incredulidade e horror em sua face. “O que diabos você está fazendo?”

“Eu… Ele estava com dificuldades de formar uma frase coerente. “Eu… Minha filha…”

“Arthur, você está bem?”

“Minha filha está no hospital e eu não sei o que aconteceu e essa merda de carro não quer abrir.” Respondeu ele, as palavras todas emboladas fazendo nenhum sentido em sua mente.

“Você nunca vai conseguir abrir este carro. É o carro da Regina.”

Ele fitou o automóvel, incrédulo. A vontade de vomitar voltou com mais intensidade e ele estendeu a mão para ela numa tentativa de se desculpar. “Peça desculpas a ela. Ela pode descontar esse chute do meu salário. Eu… Eu preciso ir. Minha filha…”

Cora caminhou até ele, e puxou as chaves de sua mão. Arthur a encarou, assustado. “Você não vai dirigir nesse estado.”

Em seguida, ele ouviu o som do alarme da Range Rover sendo destravada. Cora desceu o vidro da janela do passageiro, encarando-o. “Entre no carro.”

“Cora, você não precisa…”

“Entre na merda do carro. Sua filha está esperando.”

Ela não precisou repetir.

***

“Fico feliz que tenha aceito meu convite, Regina.”

Regina sorriu para ela, e Stuart adiantou-se, puxando a cadeira elegantemente para que a mesma pudesse se sentar, gentileza que não passou despercebida por sua tia. O local fora escolhido por Mellie, o que acabou se tornando uma agradável surpresa. Ela não esperava que Mellie Grant frequentasse o Restaurante Tio Pepe. Além de sua vertente voltada para a comida espanhola e mediterrânea, era um ambiente elegante porém demasiadamente simples, frequentado por famílias.

Um lustre barato pairava sobre a cabeça delas, cercadas por seus seguranças. Os olhos de Regina viajaram pelas paredes brancas de textura rústica, os pequenos pratos personalizados com pinturas manuais. Apesar de fechado, a ventilação era excelente. Havia alguns quadros de autoria desconhecida pendurados em alguma das paredes, mas ela reconhecera a elegância e técnica de cada um deles. Finalmente seus olhos caíram sobre os olhos azuis do outro lado da mesa. Os cabelos de Mellie estava soltos, mas escovados para o lado e ela usava um tailleur rosa salmão; possivelmente a vestimenta de alguma conferência ou reunião posterior.

“Não sabia que você era fã de comida espanhola.”

“Não sou. Eu escolhi pensando em você.”

Rubor atravessou a face de Regina por um breve período de tempo. “Você não precisava, foi muita gentileza sua. Eu aceitaria independente do lugar.”

“Quando queremos a amizade de alguém precisamos nos retirar da nossa zona de conforto e ingressar na do outro, não? Pelo menos é o que dizem os livros de psicologia.” Mellie sorriu para ela, e fitou Stuart. Regina seguiu seu olhar e o fitou também. “Sente-se, Stuart.”

“Eu não vejo problema em ficar de pé, Senhora Delfino.”

“Stuart, eu não estou pedindo.”

Ele fitou ambas as mulheres encarando-o impacientemente e concluiu que teria menos trabalhando obedecendo que argumentando. Puxou uma das cadeiras e sentou-se, conquistando um sorriso da senadora. O segurança de Mellie debruçou-se sussurrando alguma coisa e ela o dispensou; ele seguiu caminho até o balcão do bar e ali se instalou, observando-os a uma curta distância.

“Eu ainda não pedi, então se quiser fazer seu pedido eu aguardo.”

Regina usava um vestido branco justo ao seu corpo, que delineava cada curva de seu exímio corpo. A senadora sabia que a belíssima herdeira passava horas na academia e bem, ela simplesmente podia dizer que o resultado era gritante. Regina Mills Delfino era uma das mulheres mais estonteantes que ela já conhecera, e ainda assim, havia nela uma profunda vulnerabilidade que a fazia parecer cristalizada e esse paradoxo a incomodava — como um enigma a ser resolvido. Assim como seus olhos escuros que pareciam atravessar qualquer matéria apresentada à frente deles com uma fúria descontrolada.

Regina virou-se para o garçom. “Eu vou querer este Costilla de Buey a la Parrilla.” Ela olhou para os outros dois que a encaravam com dúvida. Possivelmente era a primeira vez deles em um restaurante como aquele e o pensamento a fez sorrir. “Três pratos?”

Eles assentiram, aliviados. Ela solicitou também algum vinho que eles não faziam ideia do que representava, mas confiaram na voz da experiência. Assim que o garçom se afastou, ela virou-se para Mellie. “Como vai a campanha?”

“Podemos não falar de trabalho? Pelo menos não do meu. Estou sobrecarregada.”

A espontaneidade fez com que ambas rissem. “Eu entendo você.” Confessou Regina, virando a taça menor e preenchendo-a com um pouco da água da moringa locada no centro da mesa. “Mas quando paro para pensar no rumo da minha vida atualmente, ou eu falo de trabalho ou eu simplesmente falo sobre o tempo.”

A observação fez com que a outra mulher se inclinasse um pouco mais na direção da mesa e permanecesse em silêncio por algum tempo. “Desculpe.” Pediu Regina, lembrando a si mesma que não deveria ficar despejando sua infelicidade no almoço alheio.

“Não peça desculpas por isso.” Mellie colocou um pouco de água em sua taça também, um sorriso tímido em seus lábios. “Eu não sou uma pessoa invasiva, Regina. Não pretendo perguntar sobre a sua vida, vasculhar, me intrometer. Então fique a vontade. Estou satisfeita com o que você quiser falar. E se não quiser falar, podemos almoçar todos em silêncio e eu vou para casa feliz com isso.”

Regina estudou-a por alguns segundos, sentindo as barreiras emocionais sendo abaixadas em rendição. Com algumas palavras, a mulher havia esclarecido suas duvidas sobre confiança e intenção. Era óbvio que ela tinha ressalvas e esperava que a outra lhe atropelasse através de um interrogatório disfarçado de reunião social mas aquilo — aquilo sim fora inesperado. Surpreendente, de uma maneira adorável. Sorriu, os lábios se estendendo horizontalmente. “Obrigada. Significa muito para mim.”

“Vamos falar sobre Olivia ser um pedra no meu sapato. Como as pessoas aguentam aquela mulher?”

“Dizem coisas maravilhosas sobre ela.”

Mellie ergueu as duas mãos como que fazendo uma saudação aos céus. “Sim, Liv é a melhor do mundo no que faz. A eficiência dela me espanta, como se ela fosse um daqueles átomos do sol que se você explodir destrói a galáxia toda? Pois bem. É ela. Eu nem sei se eu saberia me guiar se não fosse por ela, me trazendo orientação, objetivo, foco.”

“Então qual é o problema?”

“Ela é uma tapada! Ela não percebeu que se eu deixei o meu marido, é porque ele não vale muita coisa?”

Regina ergueu as sobrancelhas. Oh. Era aquele assunto. Claro que ela sabia dos rumores, mas ela não era nem um pouco íntima da senadora para trazer aquele tópico a tona. “E você está bem com isso?”

“Eu? Eu fico com pena da Liv se permitir ser tão bobinha por ele. Honestamente, aquele homem não tem atitude nenhuma! A carreira dele toda foi construída por ela. E ela poderia ficar com o Jake. Ele realmente a ama.” Mellie olhou em volta com o semblante sorridente e os olhos sonhadores. “Ela é minha amiga agora e eu a amo, sabe? E eu não gosto de ver as raríssimas amigas que eu tenho sendo feitas de idiota.”

“Faz todo o sentido do mundo para mim, embora as pessoas acabem relacionando a sua atitude protetora ao Fitz e não à ela.”

Mellie riu, pausando a mão sobre a mesa. “Mas eu amo o Fitz. Só que ele é um bundão e sempre foi.”

Stuart começou a rir, levando Regina ao riso também. “Tia!”

“Querido, uma hora ou outra você teria que encarar a realidade sobre seu tio. Me perdoe.”

“Achei que estivesse com o Andrew, para falar a verdade.” Respondeu o segurança, encarando-a.

Os olhos dela se arregalaram, denunciando-a. “Você sabia? Meu deus… Eu não sou muito discreta pelo jeito.”

“Na verdade, a lingerie…”

“Stuart Grant!” Clamou Regina, segurando no antebraço do mesmo. “Não fale mais nada. Você vai matá-la de vergonha.”

Eles começaram a rir, e Mellie respirou fundo numa tentativa de dissipar o rubor em seu rosto. O garçom chegou com os pratos, locando-os em seus devidos lugares e preenchendo a taça com o líquido viscoso.

“Talvez eu não devesse beber, Regina. Eu estou em horário de trabalho. Se o chefe…”

“Eu me resolvo com o meu marido, Stuart. Você faz o que eu lhe digo.”

Mellie acompanhou a movimentação. Estava clara para ela a natureza do relacionamento entre Regina e seu sobrinho, e em nada se parecia com a relação de chefe e empregado. Apesar das tentativas de formalização dele, Regina insistia em tratá-lo como um amigo e não havia nada que ele pudesse fazer. O pensamento a fez sorrir.

“A carne não vai ficar quente e macia para sempre, Mellie. É hora de comer.” Reclamou Regina, trazendo-a de volta à realidade. Era hora de comprovar se os espanhóis tinham mesmo a arte de transformar carne em obras primas culinárias. A primeira garfada entrou por seus lábios e a sensação que a acometeu foi extraordinária. Sim, eles sabiam fazer maravilhas com um pedaço de carne; e pela maneira que Stuart comia animadamente ela entendeu que ele concordava.

“Você viaja bastante, Regina?”

“Não muito. Costumava viajar bastante no inicio do meu casamento mas…” Algo capturou sua atenção por um instante mas ela rapidamente eliminou a fonte, encarando Mellie. “Não tenho viajado muito. Exceto voos locais, a trabalho.”

A senadora entendera exatamente onde estava o problema, mas se a mulher à sua frente optara por não nomeá-lo não seria ela a primeira a fazer isso. “É uma pena. Deveria ir à Barcelona. É esplêndido.” Mellie deu um longo gole do vinho antes de continuar. “Estive lá no ano passado. Foi caótico. Uma socialite francesa estava realizando uma despedida de solteira em Madrid e eu recebi um convite. Espanhóis e franceses juntos são uma combinação horrível mas me rendeu boas risadas e lembranças selvagens. Tivemos que assinar uma cláusula de confidencialidade e eu nunca me senti tão grata porque as coisas que aconteceram nessa festa…”

“Eu estou comendo, pelo amor de Deus.” Resmungou Stuart, fazendo Regina sorrir. Fazia tanto tempo que ela não ria e sorria tão levemente, de maneira genuína; tanto tempo que ela não se sentia verdadeiramente confortável entre outras pessoas que por um momento seus olhos se encheram de lágrimas mas ela tratou de dissipa-las imediatamente.

“Acho que vou me candidatar para a próxima.” Brincou, mas no fundo ela sabia que aquilo era apenas ilusão. Frank jamais permitiria que ela fosse tão longe e sem ele, ele jamais permitiria que ela escapasse do controle sufocante que ele havia imposto sobre a sua vida. Ela estava vivendo uma versão sofisticada da Síndrome de Estocolmo, apaixonada pelo homem que a sequestrara de sua própria vida.

“Eu vou ter que colocar este restaurante na lista de permissões da Casa Branca quando eu for eleita.” Brincou Mellie, e Regina piscou para ela em resposta.

“Ponto para mim, então.”