Seus lábios estavam dormentes e suas pernas não apresentavam muita consistência. Ele não fazia ideia de que horas eram, mas ao menos sabia que estava em casa. Dispensara Hood e subira as escadas de sua mansão a muito custo. A maioria das luzes estavam apagadas, acompanhadas por um silêncio inquietante. Seguiu seu caminho cambaleando até a suíte e entrou, sem acender as luzes. Sob a luz noturna conseguiu distinguir a curva do quadril de sua esposa, contornada por um fino baby-doll de transparência preta. Sentou-se em uma das poltronas afastadas, perto da porta balcão que interligava quarto e varanda e concentrou sua atenção nela.

Regina. Um sorriso brotou nos seus lábios e ele levou uma das mãos à base do queixo, apoiando o rosto ali e encarando-a. Podia ouvir a respiração suave e relaxada. Seus olhos deslizaram sobre a textura perfeita de sua pele e ele sorriu novamente. Sua esposa era a mulher mais perfeita que ele já vira. Vez após vez tornava-se cada vez mais difícil dizer não, cada vez mais tentador ceder às suas investidas e amá-la. Ele tentava, repetidamente, afasta-la. Destruindo, pisando, mas Regina retornava e ele simplesmente não podia fazer nada a não ser engolir a culpa.

Culpa. Se seu casamento tivesse que ser definido em apenas uma palavra, ele definitivamente escolheria aquela. Sua paixão descontrolada por Regina o levara longe demais. Ama-la era se tornar vulnerável e ele aprendera isso da pior forma possível; mas prometeu a si mesmo nunca mais permitir-se tamanha fraqueza. Um relance de tristeza cruzou seus olhar. Tantas mulheres atravessavam seu caminho e conquistaram seu corpo mas Regina havia sido a única a conquista-lo por inteiro. Lembrava-se de quando eram namorados, sentados em praças arborizadas aleatórias conversando sobre a teoria do caos ou sobre a pulsação eletromagnética dos pensamentos. Sobre testes de resistência de materiais de construção, ou mesmo sobre alterações climáticas inesperadas. Um relacionamento onde eles alternavam assuntos sérios e piadas até o momento em que Regina colava os lábios carnudos nos seus e tudo se transformava em uma longa chama ardente.

Mas tudo havia mudado e a culpa era sua. Não era capaz de faze-la feliz mas ele não conseguia aceitar a ideia de deixá-la ir. Regina era sua e assim permaneceria. A ideia de que ela pudesse ser feliz nos braços de outro alguém lhe enfurecia, mas nada, absolutamente nada, agia tão profundamente em seu sistema como a culpa. Ele jamais seria capaz de corrigir os erros que cometera em nome do amor que sentia por ela.

Respirou fundo e levantou-se com alguma dificuldade. Refez o caminho até a porta do quarto e atravessou o corredor até um dos estúdios. Entrou, acendendo a luz e permanecendo parado por alguns minutos para que sua visão adaptar-se. Caminhou até o pequeno sofá e sentou ali, retirando três saquinhos de cocaína do bolso interno de seu terno. Alinhou a primeira carreira no dorso de sua mão, tomando cuidado para não derrubar. Aproximou o rosto e tampou uma das narinas, aspirando o pó com rapidez e em um único ímpeto. Fechou os olhos e encostou-se no sofá, sendo tomado por uma sensação de tranquilidade e relaxamento.

*

Laurel estava deitada de bruços, sua pele cintilante e cremosa à mostra. Seus cabelos castanhos caíam por cima de seus ombros e ela estava lhe olhando com os olhos brilhantes. Seus lábios macios estavam convertidos em um lindo sorriso. “Eu estou apaixonada por você, Frankie.”

*

Era tarde da noite, e chovia bastante. Ele estava chegando um pouco mais cedo do que havia dito e havia estranhado que metade da casa já estivesse em escuridão — Regina dificilmente dormia cedo. Robin havia partido minutos atrás e ele estava prestes a abrir a porta quando a mesma se abriu e ela o encarou como se estivesse vendo um fantasma. Fitou a mala ao lado dos pés dela e ergueu a cabeça, alinhando seus olhares.

“Regina, o que é isso?”

“Eu estou indo embora.”

*

Ele abriu os olhos e lentamente identificou o estúdio ao seu redor. Havia sido apenas uma viagem ruim. Prendeu o segundo pacote nos dentes e o abriu, repetindo o processo logo em seguida com o terceiro. Ajoelhou-se, despejando o conteúdo de ambos na pequena mesa e montando duas carreiras. Resoluto, bateu a mão em seus bolsos até que encontrou o pequeno canudo que utilizara para isso no bar.

Debruçado sobre a mesa, ele respirou fundo e aspirou a primeira carreira, aguardando apenas alguns segundos antes de aspirar a segunda. Uma explosão de cores o abraçou, seu cérebro dançando através das incontroláveis sinapses que piscavam desesperadamente. Os sons criavam novas dimensões de cores em seu cérebro e ele sentiu uma leveza quase absurda; riu, inerte em sua viagem mental. Sentiu a ponta dos dedos formigando e apertou-se firmemente sentindo um novo lapso de memória aproximando-se com força.

*

“Você nunca vai se separar dela!” Gritou Laurel, jogando a caneca em sua direção. Ela estava enrolada em um lençol, os cabelos desalinhados e os olhos vermelhos. Cacos voaram para todos os lados e ele continuou tentando chegar até ela, embora ela estivesse dando a volta atrás da mesa. “Eu não sou idiota, Frank. Isso aqui não tem futuro!”

“Pare de gritar Laurel.” Pediu ele, mantendo a calma.

“Eu odeio você! Toda essa merda de ‘meu casamento é uma farsa’ e eu ainda caí!”

“Meu casamento não funciona, Laurel. Eu não menti sobre isso!” Respondeu ele exasperado e estendendo as palmas das mãos para cima.

“Você a ama, seu imbecil! Não me interessa o que você fala. Me interessa o brilho nos seus olhos quando fala dela. É por isso que você nunca vai ficar comigo de verdade! Você não tem coragem de se separar dela!”

*

Sua respiração estava agitada e ele estava realmente preso em suas viagens. Sentia como se sua cabeça estivesse girando compulsivamente e ele não pudesse evitar o enjoo.

*

Regina nunca estivera tão linda; parecia verdadeiramente uma deusa. Prostrada sobre o pequeno arranjo de rosas brancas e rosas, ela o fitava com um sorriso. O padre continuava discursando, mas tudo que ele conseguia fazer era encará-la como se ele nunca tivesse visto uma mulher à sua frente. Seus lábios estavam cobertos por um batom vinho e a maquiagem simples trazia luz à seu rosto, iluminando-o ainda mais. Seu cabelo estava preso, algumas flores formando uma coroa delicada por onde o véu descia. Ela estava sorrindo para ele, os dentes perfeitos alinhados e segurava o buque de flores brancas com firmeza.

Ele estava nervoso, e ela sabia disso. Seus olhos capturaram os dele e ela sussurrou um I love you que somente ele consegui detectar, fazendo-o sorrir. Ela estendeu a mão e ele segurou, e ela mordeu o lábio inferior muito bem colorido antes de continuar. “Eu, Regina Mills…”

Culpa. Você sabe o que fez à ela.

“Aceito você, Frank Delfino, como meu legítimo esposo…”

Ela jamais irá perdoar você.

“Para amar e respeitar.” Ela sorriu, os olhos brilhando. Ele sorriu de volta, tentando não tremer tanto e assustá-la sem necessidade.

Você é um porco. Você já estragou tudo. Interrompa essa festa.

“Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.”

Você não a merece. Afogue a si mesmo em culpa.

“Todos os dias de nossa vida.” Finalizou ela, apertando a mão dele levemente e piscando com o olho esquerdo. Ela podia sentir que seu nervosismo e estava tentando fazer com que ele se acalmasse e ele não conseguia entender o que fizera para merecer uma mulher como ela.

A verdade é que ele não merecia.

***

“Regina!”

O grito a acordou de sobressalto e ela abriu os olhos, encontrando apenas escuridão. Seu coração estava acelerado, ela tinha certeza de que ouvira seu nome. Ela estava sozinha na cama. Ouviu outro grito, um tanto mais baixo e teve certeza de que não havia se enganado. Levantou às pressas e caminhou até o corredor, guiando-se no escuro pelo som abafado e desesperado. Abriu a porta do estúdio, tateando a madeira pesada e acendeu a luz, encontrando seu marido se debatendo contra o chão em meio de lágrimas e gritos.

Correu até ele, levantando a cabeça dele e impedindo que ele a batesse contra o chão. Seus reflexos ainda estavam um pouco turvos, mas ela tinha ideia do que estava fazendo. Sentando-se atrás dele, ela passou as pernas ao redor dele e o posicionou entre elas, puxando-o. Frank abriu os olhos imediatamente e seus olhares se cruzaram. Ele estava drogado. Suas pupilas haviam se tornado duas enormes crateras de escuridão, e ele deitou a cabeça em seu ombro, chorando como um garoto.

Seu peito se encheu de agonia. Ela já o vira completamente bêbado algumas vezes mas aquilo era algo inédito e ela preferia que tivesse continuado inédito. Ele estava chorando, compulsivamente, lágrimas umedecendo seu baby-doll. “Me perdoa, por favor, me perdoa.” Implorou ele e ela ignorou o que ele dizia, certa de que ele deveria estar alucinando sobre qualquer uma de suas mulheres. Sobre a estudante que ele tanto amava. Sobre Zelena. Ela deslizou os dedos pelos cabelos dele e segurou seu rosto, mantendo-o preso ao seu corpo e tentando acalmá-lo. Deslizou a outra mão pelo seu dorso, acariciando-o. Shhhhhh

“Me desculpa, Regina, por favor, me desculpa.” Pediu ele, chorando desesperadamente. Os olhos dela encheram-se de lágrimas mesmo ela não sabendo a razão do pedido dele. Ele estava em um sofrimento horrível e apesar de tudo que havia acontecido ela não desejaria aquele tormento a ninguém, muito menos a seu marido. Ela continuou apertando-o em um abraço firme, alinhando-o ao seu colo. Milhões de pensamentos permeavam sua cabeça, sobre o porquê daquele surto, sobre o que ele tanto queria que fosse perdoado. Ela estava acariciando seu braços quando seu olhar alcançou e ela avistou o canudo e os vestígios sobre a mesa, concluindo o que havia acontecido ali.

Regina permaneceu ali por basicamente uma hora. Acariciando seus braços, deslizando os dedos em seus cabelos, beijando o topo da sua cabeça e sussurrando shhhh até que ele se acalmou. A respiração dele voltou a se alinhar, embora ele ainda estivesse sussurrando súplicas de perdão à ela. Ela pode finalmente sentar-se e Frank deitou a cabeça no colo dela. Ela permaneceu acariciando os cabelos dele enquanto cantarolava uma música que havia escutado alguns dias atrás.

I hate you, I love you, I hate that I love you. Don’t want to, but I can’t put nobody else above you.

I hate you, I love you, I hate that I love you. You want her, you need her and I’ll never be her.

Quando ele finalmente adormeceu, ela pousou a cabeça dele em cima de uma almofada e foi até seu quarto. Pegou cobertores e dois travesseiros, voltando para o estúdio. Trocou a almofada dele pelo travesseiro, ajustou o seu e os cobriu com os cobertores. Deitada no escuro, ficou rebatendo seus pensamentos sobre o que havia acontecido até que o sono a abraçou.

***

Robin fitou seu relógio esportivo da The EVO. A pulseira preta de fibra de carbono contrastando com os detalhes cor de laranja e o pequeno detalhe no fundo, o brasão da Luminox com letras vermelhas. Marian havia insistido, mesmo que ele considerasse um absurdo aceitar um relógio de quinhentos dólares — mas ela nunca aceitava um não. O pensamento o fez sorrir, até que seus olhos fixaram-se na posição dos ponteiros. O horário estava próximo da metade do dia e seu chefe não havia dado nenhum sinal de vida. Frank jamais ficava tanto tempo sem entrar em contato com ele. O homem não dormia por períodos inteiros, e apesar de ser loucura, era um hábito quase ininterrupto. De acordo com os funcionários nem ele nem Regina haviam descido ou solicitado o café da manhã. Repassou os acontecimentos da madrugada anterior quando o deixou um tanto bêbado porém razoavelmente lúcido. Nada alarmante. Entretanto, Bishop havia entrado em contato e o fato dela ter solicitado uma nova reunião era uma clara prioridade para seu chefe. Resignado, respirou fundo e subiu as escadas, virando-se para o corredor da direita. Bateu na porta do quarto apenas uma vez. O som oco ressoou pelo corredor silencioso. Pessoalmente não considerava uma boa ideia interromper o que quer que fosse, mas a urgência da situação o impelia.

Entretanto, outra porta se abriu, metros à frente. Ele observou em silêncio quando ela saiu do estúdio vestindo um baby-doll preto transparente e ela parou imediatamente assim que seus olhos encontraram os dele. Por algum tempo, nenhum dos dois disse nada. Entretanto Regina quebrou o contato visual caminhando até ele, e Robin permaneceu paralisado onde estava. Ele tentou não fitar as pernas lisas e delineadas, e o decote profundo, mas sem muito sucesso; ela estava deslumbrante e ele nada pode fazer a não ser engolir seus pensamentos antes que escapassem por entre seus lábios.

“Ele ainda está dormindo.” Disse ela, e custou a ele toda a inteligência emocional reunida em seu sistema para não tirar nenhuma conclusão daquela situação. Era óbvio que ele sequer deveria estar concluindo algo — seu papel era servir, não subjugar ou condenar a vida amorosa de seus patrões. Mas eles tinham dormido juntos e… “O que aconteceu com ele? Como você deixou-o chegar à este ponto?” Ela interrompeu seus pensamentos e ele soltou um riso frouxo, surpreso.

Regina Mills Delfino estava indignada com ele e ele não conseguia sequer pensar numa razão meramente óbvia para isto. Ela o encarava com as írises escuras e as sobrancelhas franzidas, e a jugular aparente em seu pescoço não era um sinal de agradabilidade. “Eu o deixei lúcido na porta da frente. Ele me dispensou, então eu fui embora.”

“Eu não vejo a necessidade dele pagar um guarda-costas se sou eu que tenho que socorrê-lo quando ele está à beira de um colapso.”

O sorriso dele desapareceu instantaneamente. Ela estava questionando o seu trabalho e ele não permitiria que ninguém fizesse isso. Ele cometera muitos erros e os assumia veementemente mas ineficiência não era um deles. “Eu fiz exatamente conforme fui solicitado.”

“Bela porcaria. Eu quero saber desde quando ele está metido com essas drogas.”

Oh. Ela havia descoberto. Na certa, ele havia trazido aquelas coisas para a mansão e possivelmente tivera o princípio de uma overdose ou uma viagem ruim. De qualquer modo, ela havia escolhido culpá-lo em vez de atribuir à seu querido esposo a responsabilidade por seus atos. Não entendia a necessidade dela de protegê-lo quando a falta de reciprocidade era absurdamente gigantesca.

“Eu não posso ajudá-la, Sra. Delfino.” O tom de voz frio e afastado fez com que ele desse um pequeno passo para trás. Seus olhos se estreitaram como se ela estivesse tentando ler através dele, sem sucesso. “Como eu lhe informei, eu sigo ordens do seu esposo. Eu não sou pago para vigiar, fiscalizar, ou gerenciar as decisões que ele toma.”

Ela sorriu, mas seus olhos faiscavam e ele sabia que não era nada que pudesse ser traduzido com palavras positivas. Ela estava com raiva dele e ele sequer conseguia entender o porquê. “Talvez ele deva repensar o quadro de funcionários quando acordar.”

“Talvez seja melhor contratar um profissional que melhor se adapte às necessidades dele. Quem sabe uma babá.”

Ela deu um passo à frente e seus olhares se cruzaram novamente, conectando-se. O contato visual beirava à explosão, como se um dos dois estivesse esperando pelo outro pelo primeiro ataque. Regina conseguira irritá-lo com suas acusações sem alicerce algum, e ele duelava entre o ódio que sentia por ela e a atração latente em seu corpo. “Qual é seu problema?” Sibilou ela com a voz carregada de irritação e sem quebrar a conexão de seus olhos.

“Meu problema?” Ele riu. “Eu não sei o quão bom de cama ele possa ser para fazê-la esquecer que é um homem bastante adulto que faz apenas suas mais sublimes vontades e que meu trabalho é apenas certificar-se de que outra pessoa o ataque. Eu não estou aqui para passar a mão na cabeça dele e lhe dar conselhos sobre a vida e eu não posso impedi-lo de foder a própria vida. Talvez ele devesse contratar uma pessoa mais qualificada.”

“Uma babá?” Zombou ela, revirando os olhos.

“Ou uma esposa.”

Ela ergueu a mão no ar mas ele foi mais rápido e segurou seu pulso, sem machucá-la. Ainda encarando os olhos cor de chocolate, ele continuou. “Eu estarei lá embaixo, caso ele decida acordar. Inclusive diga a ele que Margot Bishop ligou. Ele tem esperado por essa ligação há dias.”

Robin delicadamente pousou seu pulso ao lado de seu corpo, mantendo o braço estendido e virou-se, atravessando o corredor em silêncio e com as mãos no bolso. Ela o acompanhou com os olhos, até que ele desapareceu de sua vista.

Mas não de sua mente.