Efeito Dominó
26 ¡ Bienvenidos a Mexico !
Robin abriu os olhos quando sentiu o solavanco do jato. Eles estavam aterrissando e ele não poderia sentir-se mais aliviado. Não desejava passar mais nenhum minuto dentro daquele avião. Durante seis horas (a sensação era de que foram doze) de voo, ele permaneceu inquieto, tentando bloquear sua atenção de Regina e da maneira territorial com que Frank perambulava em círculos ao redor dela.
Não que ela tivesse tornado toda a viagem um segundo sequer mais fácil. Sentados em poltronas distantes, mas opostas, ele podia sentir que ela mantivera os olhos nele o tempo todo. Podia sentir seu olhar fixo perfurando sua pele enquanto ele tentava desesperadamente não olhar para ela, simplesmente porque seu marido e — eventualmente, chefe dele — estava sentado exatamente ao lado dela. As pernas dela estavam completamente à mostra naquele vestidinho branco, e os saltos dourados apenas brincavam com seus pensamentos. Ele adoraria transar com ela vestindo apenas aqueles saltos. Mordeu seus lábios e se levantou, observando-a sair do leito e ajeitando o vestido. O cabelo escuro caía sobre seus ombros em ondas encaracoladas.
Robin colocou a bolsa esportiva sobre o ombro, e bateu no ombro de Stuart, acordando-o. O loiro demorou alguns segundos para se lembrar onde estava mas adaptou-se rapidamente, levantando-se. “Você realmente dormiu.” Comentou Lockhood, observando-o colocar uma das alças da mochila sobre o ombro. “Eu invejo isso.”
“Você não conseguiu dormir nem um pouco?”
Robin balançou a cabeça, negativamente. Stuart sorriu. “Você sabe que está fodido, não é? Eles não vão nos dar folga.”
Ele chacoalhou os ombros, conformado. Regina carregava apenas uma bolsa nos braços, os olhos já cobertos por grandes óculos escuros. Para ela, a viagem também havia sido exaustiva. Nunca fora seu plano encarar Robin até que o mesmo demonstrasse desconforto, mas ela não pôde evitar. Desde aquele beijo, algo fora acionado em seu interior e por mais que ela não quisesse, de maneira alguma, lidar com isso — bem, eles ainda teriam que conviver pacificamente.
Sentiu a palma da mão de Frank na base de sua coluna, e desceu as escadas que agora estavam dispostas na frente da saída, fitando a limusine preta estacionada ali. O clima quente do México rapidamente a abraçou e ela repensou as roupas que havia trazido, certa de que não tinha nada apropriado para aquele calor. Desceu as escadas, e observou silenciosamente enquanto o motorista, sadicamente vestido com terno e óculos escuros, abriu a porta e a ajudou a entrar no veículo. Perguntou-se como seus seguranças chegariam ao hotel, mas não ousou articular sua dúvida ao seu marido.
Frank entrou logo depois, e minutos depois, estavam em movimento. Perguntou-se o quanto essa ideia tinha sido boa, mas resolveu abandonar seus devaneios. Era hora de permitir-se uma aventura.
“Champanhe?” Questionou ele, preenchendo uma taça. Ela assentiu, e ele entregou-lhe a taça, jogando um morango no interior dela. Ele virou-se apenas para preencher outra taça, inserindo a fruta também e voltou a garrafa para o bar.
“Há mais de 20 museus na cidade, várias catedrais e também o Mercado Central. Ele é enorme e tem todo tipo de coisas. Eu vou passar a maior parte da tarde no escritório, mas pegue o garoto e vá curtir a cidade.”
Ela engoliu o líquido com tanta rapidez que quase engasgou. Quem era esse homem e onde estava seu marido?
“Você pretende passar algum tempo ao meu lado ou minha presença aqui é decorativa?”
Ele sorriu e virou-se para ela. “A noite é nossa, e o domingo também. Eu só preciso resolver essas coisas do trabalho.”
Regina assentiu, e observou quando ele terminou seu drinque, descartando a taça e aproximando-se dela. Os olhos verdes mergulhados nos seus com uma intensidade que parecia roubar o ar de seus pulmões. Sentiu a palma da mão dele sobre o seu queixo, alinhando seus rostos e decidiu deixá-lo avançar. Um beijo não faria mal a ninguém.
Ela só havia esquecido que ele poderia beijá-la daquele jeito. Os lábios dele se encaixaram sobre os seus, e em um movimento suave, ele os entreabriu, permitindo que as línguas de ambos se tocassem despudoradamente. Ele segurou seu rosto, os dedos em seu queixo possessivamente e ela percebeu que de repente o corpo dele estava grudado ao seu, mas percebeu também não se importar. Frank a estava beijando e com uma voracidade que fazia seu coração bater mais forte do que ela conseguia se lembrar. As mãos dele desceram para a base de sua coluna, acima da linha de seu quadril e ele a puxou para si, os lábios formando uma trilha que terminou no pescoço delicado. Regina abriu os olhos, lembrando-se da taça em sua mão, preocupada com o líquido; ele pareceu ter lido seus pensamentos, tirando a taça da mão dela e deixando que a mesma caísse no assoalho do carro.
Ele a queria. Ignorando as vozes malignas que lhe atormentavam, que o acusavam, que o dizia que ele não deveria estar tocando-a e que ele não a merecia, ele girou seus corpos e a posicionou em seu colo. Os dedos dela deslizaram pelos seus cabelos, puxando-os e clamando por outro beijo, o calor emanando por sua pele; ele deslizou as mãos de sua cintura para suas costas, descendo o zíper traseiro do vestido e puxando o busto do mesmo para baixo com uma urgência crescente. A barba dele roçou a pele de seu pescoço, e os lábios capturaram sua pele em uma lambida lenta, fazendo-a fechar os olhos e gemer audivelmente. Até ela se lembrar onde estava.
“Frank.” Chamou ela, sentindo os lábios dele redecorando a pele de seu dorso, beijos ousados e molhados que a provocavam, indo até o limite do seu sutiã de renda preto e voltando. Ela precisava chamar a atenção dele, precisava de um pequeno gole de realidade ou as coisas sairiam do controle rapidamente. Segurou na gola da camisa social dele e puxou, chamando a atenção dele, que murmurou uma interrogativa quase incoerente. “Aqui não.”
“Qual é Mills, nunca transou em uma limusine?” Brincou ele.
Foi quando o pensamento a atingiu em cheio. Não, ela não, mas ela sabia que ele já. Inúmeras vezes. Incontáveis. O sabor amargo espalhou-se por suas papilas gustativas e ela permaneceu paralisada por alguns instantes. Quando Frank percebeu a súbita mudança em seu semblante, tudo que ele encontrou foi um par de olhos castanhos sem vida alguma. Como se o brilho de minutos atrás tivesse sido desligado por um interruptor. Regina lentamente saiu de seu colo e voltou ao seu lugar, puxando o vestido para os ombros e subindo o zíper. Ele manteve os olhos nela, incerto do que acontecera ali. Sentiu vontade de perguntar, mas suprimiu seus instintos e eles permaneceram em silêncio durante o resto do caminho.
***
Localizado na cidade de Mexicali, o Hotel Lucerna Mexicali é considerado um dos melhores hotéis na Baja Califórnia. Levou algum tempo para Robin adaptar seus olhos à mistura de estampas, mas a elegância do mesmo, seu luxo — duas piscinas lindas e enormes fizeram seu coração derreter — e seu dinamismo o convenceram. Coqueiros bem cortados emolduravam uma frente repleta de verde e a mais viva natureza vista até ali, as placas de mármore e pedraria que cobria a edificação tornou-se mero pano de contexto. Embora tivesse enfatizado que um quarto de luxo era desnecessário, ele fora simplesmente ignorado. Delfino queria que ele e Stuart ficassem no quarto interligado ao deles e Robin questionou-se mentalmente o quão segura essa opção poderia se tornar.
Stuart, no entanto, parecia bastante contente com a escolha. Colocou a mochila sobre a mesa, no canto do quarto e começou a vasculhar o cômodo, os olhos iluminados como uma criança ao entrar pela primeira vez no parque de diversões. O teto branco desenhado em gesso ornava harmonicamente com as paredes em um tom dourado; quadros com pinturas simples de pescadores na praia adornavam as mesmas. O chão estava forrado por um carpete marrom, cujo desenho padronizado era geometricamente agradável. O guarda roupa feito de sucupira escura fora esculpido com cortes simples, dando a ele um aspecto de móvel cru. Nada ficava a desejar, mesmo com a decoração levemente minimalista. O quarto oferecia todos os tipos de aparelhos eletrônicos existentes, desde a televisão gigantesca como a base para Ipod. Robin caminhou até o bar na lateral esquerda, tentando ignorar o fato de que só havia uma única cama no quarto.
Ouviu a voz de Stuart ressoando um leve assobio. “Cara, tem uma mini sauna no banheiro.”
Robin balançou a cabeça, ouvindo o som de um secador de cabelo por alguns instantes. Estava preso em um quarto com um adolescente, concluiu. Uma das garrafas estava apenas escrito tequila e ele olhou com atenção em seu interior, deparando-se com a silhueta de um escorpião morto. Ele afastou a garrafa e avistou uma garrafa de Jack Daniels. Considerando uma opção mais segura, preencheu duas doses em um copo.
“Só tem uma cama no quarto.” Comentou Robin e Stuart parou, desvencilhando-se do transe abobalhado em que se encontrava. Seus olhos vasculharam o perímetro e ele percebeu que sim, só havia uma cama.
“Eu não vou dormir no sofá.” Respondeu o mais jovem, balançando os ombros com indiferença. Caminhou até o criado mudo e pegou o controle da televisão, ligando o aparelho e sentando-se na beirada da cama. “Pode dormir lá se quiser.”
“Eu não vou ficar com o sofá para o Ken Bodyguard ficar com a cama.”
Stuart transferiu a atenção do televisor para o novo colega de quarto. “Então vamos ter que dividir.”
“Se você encostar em mim vai levar um soco.” Resmungou Lockhood, uma sombra de sorriso brincando no canto de seus lábios.
“Tenho certeza que Regina não se importaria de eu dar uma encostadinha.” Zombou o mais novo, mordendo o lábio inferior e suprimindo uma gargalhada sem muito sucesso. O semblante de Robin variou entre a incredulidade e o mal humor, mas acabou no meio termo entre ambos.
“Você quer mesmo levar um soco na cara, Grant?”
Stuart não respondeu, mas manteve o sorriso malicioso nos lábios. Passou pelos canais de esportes, mas a programação parecia ligeiramente maçante. Continuou passando até que encontrou até que um documentário sobre crimes lhe chamou a atenção e ele deixou ali. Robin havia sentado na frente da vidraça cuja vista exibia o jardim vasto e bem cuidado do hotel. A manhã estava apenas se iniciando e ele parecia estar exausto antes mesmo do dia começar.
“Ela realmente gosta de você, sabia?” Começou ele, mas não tirou os olhos do televisor. Porém, de alguma maneira, ele pode sentir exatamente o momento em que Robin virou-se na cadeira e fitou a parte de trás de sua nuca.
“Que?”
“Regina. Ela gosta de você. De verdade.” Robin manteve os olhos no garoto, perguntando-se porquê ele estava lhe dizendo isso. Qual era o propósito, ou o gatilho, que resultara naquela revelação.
“Eu sei.”
“E você?”
“E eu o quê?” Perguntou Robin, como quem não queria nada. Na verdade, ele não queria mesmo. Principalmente continuar aquela conversa pois sabia que ela acabaria trilhando suntuosas situações nas quais ele não tinha interesse em trilhar.
“Gosta de batom ou gloss?” Ironizou o jovem segurança, virando-se para ele com o semblante entediado. “Não se faça de bobo, Lockhood. Perguntei se gosta dela.”
“Claro que gosto dela.”
“Só isso?” O loiro ergueu as sobrancelhas como se estivesse perguntando algo bastante claro.
Robin bufou, encarando-o com o semblante fechado. “É pouco para você?”
Stuart sorriu, virando-se na cama; suas costas voltadas para o televisor e os olhos voltados para seu tutor. Ele analisou a expressão facial e corporal do homem à sua frente por alguns instantes. “Não parece que seja só isso.”
Robin riu, e o sarcasmo de sua risada se espalhou pelo cômodo. “Olha, garoto. A vida vai muito além dessa fantasia romântica incorrigível que você vive. Você é novo e está apaixonado e o mundo parece um local bonito e a vida parece reluzir aos seus olhos com a perspectiva de que tudo ficará bem. Mas deixe eu te dar a opinião de um homem que já provou bastante das amarguras e desilusões da vida: sentimentos pesam. Sentimentos nem sempre são bem vindos e muitas vezes se tornam indesejados. Você vai aprender que existem muitos tipos de relacionamentos e que poucos deles se baseiam nesses sentimentos bonitos e puros.” Robin encarou-o novamente e Stuart percebeu algo que não havia notado antes — a tristeza no fundo de seus olhos azuis. “Seres humanos são criaturas corrompidas, Grant. Nós acabamos por envenenar tudo o que tocamos, quer seja sentimentos, pessoas, vidas.”
“Você sabe o significado da gardênia?” Rebateu o mais jovem, e Robin abriu os olhos com incredulidade, supondo que Stuart não escutara absolutamente nada do que ele havia dito.
“Que?”
“A flor que você deu a ela. Sabe o que significa?”
Robin revirou os olhos. “Claro que sei. No intervalo entre os treinos de artes marciais eu costumo fazer pesquisas sobre todos os tipos de flores que existem e seus devidos significados.”
“Significa amor secreto. Espero que isso lhe diga algo. Não que ter jogado o resto do buquê no lixo não tenha dito muito, mas você escolheu aquela flor.”
“Como é que você sabe disso?” Perguntou, as sobrancelhas franzidas em confusão.
“Você não é o único com um cérebro por aqui. Pare de agir como tal.” Resmungou Stuart, virando-se de costas para ele e voltando sua atenção para a televisão.
Robin manteve os olhos nas costas do colega de quarto por algum tempo, e depois voltou a observar o jardim. Ele não sabia. O velho senhor da floricultura apenas o escutara falar sobre ela e fora montando o belo buquê à frente de seus olhos; ele não chegou a identificar as flores, nem seus nomes nem nada a respeito delas. Por que escolher justamente aquela flor? Ele também não tinha respostas para isso. Seguira seu instinto naquele momento e lembrando-se da maneira com que o semblante dela havia se iluminado ele afirmou a si mesmo que deveria ter oferecido o buquê completo. Não se lembrava quando é que ele havia se transformado em um homem tão covarde. Qual era o problema de aceitar seus sentimentos por ela? Já havia acontecido. Ele deveria saber. Deveria ter examinado a natureza de suas motivações antes mesmo daquele acordo ter começado. Quem ele queria enganar ao dizer que sentia apenas atração por ela? Alguma vez isso fora verdade?
Se tudo começou como admiração, os anos que se passaram apenas fortaleceram o desfoque das linhas que estabeleciam limites. Quantas vezes ele não observara a mulher silenciosa e fechada que perambulava pela mansão? Quantas vezes não fitava a bela mulher que acompanhava seu chefe nos cocktails e bailes beneficentes? Quantas noites sentindo compaixão pela mulher deixada em casa quando assistia involuntariamente seu empregador transando com dúzias de mulheres? Regina sempre fora um misto confuso de emoções para ele e embora não fosse algo tão intenso no passado, ele poderia negar que essa faísca nascera há muito tempo?
Mistérios a acompanhavam e apesar de sua curiosidade, a distância entre eles sempre fora bastante segura. O peso de suas decisões ainda o perseguia, agarrando-se à sua carne como as presas de uma fera; suas noites repletas de pesadelos que o mantinham alarmado dia e noite; os gritos de medo de seu filho que soavam como a mais sombria acusação. E apenas algumas palavras, trocadas em uma noite em que Robin estava insatisfeito com sua vida e ligeiramente alcoolizado e Regina encontrava-se na mesma situação (talvez um pouco menos vestida; ele se lembrava da tentação de olhar para as pernas soltas por cima do braço da poltrona) foram suficientes como ponte para o que mais tarde viria a ser o maior carma da vida dele: apaixonar-se pela mulher de outro homem.
Memórias de Marian se propagaram pela sua mente enquanto ele olhava para um ponto aleatório da vidraça. Ele adorava vê-la sentada na varanda da casa quando voltava do trabalho. Às vezes chegava a ficar semanas fora. Voltar para casa e encontra-la do lado de fora, muitas vezes de shorts e regata, o sol dourando a pele de suas longas e delicadas pernas — era seu pequeno paraíso na terra. Nunca se sentia tão confortável do que quando ela o abraçava, surpreendendo pelas costas, os braços finos e delicados contornando sua cintura e apertando-o contra seu corpo, o rosto dela pousado sobre sua lombar. Um sorriso atravessou seus lábios antes da dor cruzar seu peito. Se tudo tivesse sido diferente… Você teria estragado tudo, assim como fez com Victoria.
“Como está a senhorita Lucas?” Questionou Robin, abandonando seu inquérito mental e tentando distrair-se.
“Ruby vai bem.” Respondeu o mais jovem, ainda de costas para ele. Segundos depois ele respirou fundo e virou-se, encarando Lockhood. “Eu comprei um anel.”
“Que?” Bem, ele poderia ter entendido errado.
“Eu disse que comprei um anel.” Repetiu Stuart, estabelecendo contato visual.
Robin o encarava em silêncio, discernindo se o garoto estava falando sério. Para a sua completa surpresa, ele estava. “Stuart, me desculpe se estou me intrometendo, mas já? Vocês não começaram a se entender agora? Você não acha que é muito cedo para isso? Quer dizer…”. As palavras lhe deixaram. Ele manteve a atenção em Stuart, e no sorriso que se abriu nos lábios do outro.
“Robin, eu nunca senti por nenhuma mulher o que sinto por ela. Nunca. Não é como se fosse sequer uma escolha minha, você sabe? Eu a via com Graham e tudo que eu podia fazer era desejar que ele a amasse e cuidasse dela como eu gostaria de fazer. Eu tentei esquecê-la, eu tentei me afastar, mas todos os caminhos me traziam de volta para ela. Era quase como se o universo estivesse dizendo Onde você vai? Seu lugar é exatamente aqui. Ela me faz uma pessoa melhor, ela faz com que eu me sinta um ser humano melhor. Eu sou uma pessoa melhor por ela. Eu sei que vocês acham que tem a vida toda para descobrir o que sentem um pelo outro, mas eu já tenho certeza do que sinto e de que eu a quero comigo para sempre e não pretendo desperdiçar um segundo sequer até isso acontecer.”
“Wow.” Respondeu Robin, sorrindo. “Eis um homem verdadeiramente apaixonado.”
Stuart riu, balançando a cabeça negativamente. “Robin, você é o homem mais idiota que já conheci.” O segurança o fitou simulando ofensa, mas os dois estavam bastante confortáveis. “Você não enxerga o óbvio. Você não se dá ao trabalho de perceber que você a tornou uma pessoa melhor. Que Regina não interagia com ninguém e hoje em dia ela me considera um amigo e você… Sei lá o que ela considera você. Prefiro não saber.” Riu. “Que ela parou de beber até cair e chorar todas as noites. Que ela voltou a focar no trabalho e definitivamente não vê como ela muda de semblante quando você aparece no campo de visão dela. Você se faz de cego ou você é um pouco tapado, ainda não decidi. Só sei que se eu fosse você, pararia com a negação. Você não pode impedir o rio de seguir seu fluxo pois a água sempre encontra um meio de contornar os obstáculos e seguir seu caminho.”
“As coisas não funcionam assim, Stuart. Não esqueça que ela é casada.”
Stuart revirou os olhos. “Ah sim, que belo matrimônio temos aqui. Melhore as desculpas, Lockhood.”
“Eu não sou uma pessoa muito melhor do que ele. Por que ela faria algo assim? Ela de fato nem sabe…”
“Todo mundo sabe quem você é, Robin. Está na internet. Se ainda assim, ela quis se relacionar com você, quer dizer que isso não importa para ela. E não deveria importar para você.”
A resposta de Stuart o deixou pensativo, mas ele não teve oportunidade de continuar. Seu telefone tocou e ele foi informado por Frank de que estavam saindo para a reunião naquele instante.
***
“Wow.” Exclamou Regina, os olhos fixos nos painéis à sua frente. Para ser honesta, ela sabia muito pouco sobre a cultura mexicana. Caminhando pelo corredor de cimento queimado, ela observava os painéis com o dobro da atenção. Stuart caminhava ao seu lado em silêncio, observando-a. A arquitetura do Instituto Cultural Cabañas, apesar de simplista, mostrava ser predominantemente neoclássica, em uma larga escala. As paredes de tijolos de concreto que em algum momento do passado serviram de abrigo para órfãos, idosos e pessoas enfermas, hoje se portavam como moldura para uma das maiores coleções de obras primas da história da arte mexicana.
“Jose Clemente Orozco.” Comentou Stuart, sem estabelecer contato visual; os olhos fixos em um dos painéis.
“O que?”
“O artista por trás dos painéis. Ele era adepto do Muralismo, um movimento artístico popular no México em 1920 e acompanhava de perto as revoluções sociais e políticas que o país enfrentava na época. Seus quadros retratam muito da história do povo daqui e de seus antecedentes.”
Regina parou de andar; deu meia volta em seus saltos e fitou o segurança que a olhava com surpresa. Um meio sorriso brotou em seus lábios quando ela percebeu que ele havia ficado sem graça. “O que foi?” Questionou ele, tentando disfarçar.
“Como é que você sabe esse tipo de coisa? Você já esteve aqui antes?”
Ele sorriu. “Eu pesquisei algumas coisas sobre a cidade quando soube que viríamos para cá.”
“Meu Deus, você é um legítimo nerd.” Disse ela, revirando os olhos. Sentiu o suor escorrendo por sua nuca e amaldiçoou-se por ter vestido algo tão pesado. “Está calor demais aqui dentro.”
“Você não está vestida apropriadamente. Entre no clima do país, Regina.” Brincou ele.
“Talvez mais tarde. Agora quero que você me mostre o quão bem você estudou. Seja meu guia.”
Ele segurou-a gentilmente pelo braço e a guiou para um corredor paralelo. “Nesse caso, vamos por aqui.” Ela permitiu-se ser levada, a atenção intercalada entre seu segurança e as belas pinturas feitas nas paredes centenárias. “As obras de Orozco estão espalhadas por toda a Jalisco. Há diversas nas escolas, nas faculdades, no Palácio Governamental, nos museus. Aqui é o berço dele e as pessoas têm muito orgulho de seu representante.”
“Parece um tanto… trágico. As pinturas.”
“Bem, a história dele não foi exatamente generosa.” Stuart continuou caminhando, e parou abaixo de um ponto de luz. “Ele era pobre, tinha o coração danificado por uma febre reumática adquirida na infância e perdera metade de sua mão esquerda em uma explosão, durante a adolescência. Mesmo assim, ele insistiu em seu desejo ardente de se expressar através da arte, e triunfou ao tornar-se um artista cujos sensos morais e éticos estavam muito à frente de sua época. As obras dele mostram certa fascinação pelo sofrimento humano — algo que ele conhecia como ninguém.”
Ela ergueu as sobrancelhas. “Isso sim é impressionante.”
Stuart ergueu o dedo indicador e apontou para o mural sobre as suas cabeças, mantendo a atenção de sua chefe. “E esta é sua obra mais famosa. El Hombre de Fuego.” Arriscou o loiro com seu melhor sotaque espanhol, conquistando um sorriso dela. “Mas para falar a verdade, não sei explicar o significado para você. Talvez eu precise estudar um pouco mais.”
“Você foi muito bem.” Eles mantiveram os olhos nas pinturas, até que Regina suspirou, o suor lembrando-a de que estava vestido de maneira inadequada para aquele clima. Estava cedo para que Frank retornasse, e ela queria muito conhecer o Palácio Governamental, mas quem é que aguentava aquele vestido? “Precisamos de uma loja.”
“Como?”
Mas ele não obteve resposta. Regina continuou caminhando pelo pátio externo, seus saltos batendo no solo de pedra violentamente. Ela olhou ao seu redor assim que alcançou a calçada, e avistou uma loja razoavelmente sofisticada do outro lado da rua. Ia servir. Atravessou a avenida com cuidado, tendo o loiro ao seu encalço e entrou na loja.
Talvez Guadalajara não fosse para mulheres como ela. A primeira coisa que Regina constatou é que não existiam roupas sem estampa no México, a não ser calças e ela preferia sair na rua nua do que vestir uma calça. Caminhou por entre as araras de roupa enquanto ouvia Stuart balbuciando em espanhol com uma das vendedoras; vestidos e mais vestidos, flores e mais flores. As pontas de seus dedos deslizavam pelos diversos tecidos, até um deles chamou sua atenção. Seu desapontamento inicial fora o fato dele também ser florido, porém eram poucas flores, de tamanhos maiores e em poucas cores. O fundo do mesmo era um verde escuro, quase musgo e ela achou relativamente sóbrio, para as opções que tinha. Decidiu provar aquele.
Caminhou até o provador, e deu uma breve olhada para seu segurança, mas ele parecia entretido pela vendedora (ou fascinado por estar conseguindo se comunicar, ela ainda não havia descartado essa hipótese). Retirou-se do vestido branco com alguma dificuldade, colocando-o sobre a banqueta. Puxou o vestido verde por suas pernas, sentindo na sua pele a diferença entre os tecidos. Eles estavam preparados para o clima, realmente. Apesar de justo, o vestido era leve e ventilava apropriadamente. O decote em V havia valorizado seu busto de maneira quase surpreendente e o comprimento do mesmo proporcionava uma visão esplêndida de suas pernas. Antes que pudesse refrear seu cérebro, ela já estava pensando nele. Mordeu o lábio inferior e encostou sua têmpora contra o espelho, respirando fundo e tentando afastar as fantasias envolvendo o vestido e Robin Lockhood.
Contou até dez silenciosamente e reabriu os olhos, analisando seu reflexo. Puxou a etiqueta do mesmo e decidiu sair dali com ele no corpo. Stuart estava do lado de fora e assim que ele registrou o que ela estava vestindo, as palavras morreram em sua boca. Ela sorriu. Passou por ele, estendeu o cartão por cima do balcão e a atendente rapidamente passou a finalizar a compra. Elas perguntaram sobre o vestido e Regina limitou-se a balançar a cabeça negativamente, ouvindo-as sorrir de alegria. Um vestido daqueles deveria custar muito mais que o salário de todo um mês e ela estava feliz em ajudar.
Assim que recebeu seu cartão de volta, ela se virou e encarou um Stuart ainda perplexo. “É apenas um vestido, Grant. Supere.” Brincou ela, mas ele balançou a cabeça, seus dedos deslizando pelo próprio cabelo e seguindo caminho até a nuca.
“Não é apenas um vestido, Regina. É o vestido. Você tem noção do quão...“
“Gostosa estou nesse vestido? Sim, eu tenho. Como eu disse, supere.” Ela estava na calçada e Stuart percebeu que a atenção das pessoas se voltaram para ela, e para a maneira como o tecido abraçava seu corpo delineado com perfeição.
“Quais dos dois você está tentando impressionar?” Comentou ele, arrependendo-se quando ela parou de caminhar e fincou os olhos nele como uma águia encarando sua presa. Ela mordeu o lábio inferior e ele temeu que ela fosse lhe dar um tapa no rosto.
“Stuart.”
“N-Não é da minha conta.” Respondeu ele, odiando-se por tomar mais intimidade do que deveria. “Me desculpe pela ousadia.”
Ela o encarou por alguns segundos, como se estivesse pensando na resposta. Entretanto a resposta nunca veio. Regina deu meia volta e voltar a caminhar, abrindo seu mapa e voltando a atenção para o próximo ponto turístico em sua lista.
***
Suor escorria por sua camisa social e Frank respirou fundo, fitando o homem à sua direita. Cada um dos integrantes estava acompanhado por seus seguranças, algum deles em dobro, ou triplo. Fitou o relógio em seu pulso, imaginando onde Regina estaria.
“Algo precisa ser feito sobre o Cartel de Madalena.” Resmungou Chávon, um dos organizadores da reunião. Ele era conhecido por ter sido o braço direito da máfia chinesa por anos, e agora encabeçava um dos maiores esquemas de tráfico de drogas do México. “Aqueles garotos, aquelas crianças” Sibilou ele, tomado pelo desprezo. “Eles não podem chegar na nossa terra e tomar o nosso legado.”
“É o que os americanos fazem.” Comentou um homem alto, negro, cabelos raspados. Suas roupas — uma mescla de cores e estampas — traziam referências africanas. Frank devolveu o olhar duro, percebendo a indireta em suas palavras.
“Algum problema comigo?” Perguntou, e percebeu que Robin enrijeceu-se.
“E se tiver? Vai fazer o que, garoto?”
“Vocês vieram aqui para fazer negócios ou brincar de queda de braço? Deixem a luta livre para os tatames.” Finalizou Chávon. Ele fitou os homens ao redor da mesa. Estava cansado. Os negócios estavam em queda, e sua vida pessoal em decadência. Sua filha havia se mudado para Washington e recusava veementemente qualquer recurso vindo dele. “Eu não sei duro, e sangue, e suor, e a vida dos meus homens para ser desbancado por dois surfistas metidos à cientistas. Vamos pegar a garota, vamos matá-la como um aviso e vamos queimar os carregamentos deles.”
“Queimar uma tonelada de maconha hidropônica?”
“Você tem objeções, muchacho?”
“O que esse cara está fazendo aqui? Por que deveríamos confiar nele?” Resmungou um dos barbudos, apontando para Frank. “Até onde sei, ele poderia ser um dos surfistas.”
Frank fitou-os, pensativo. A ideia de adentrar uma reunião com os mais violentos e impiedosos traficantes do México não havia sido necessariamente muito boa, mas ele não estava preocupado com a sua segurança e sim com seu negócio. “Eu sou o intermediador. Dono da maioria dos cassinos, hotéis, e eventos por onde o seu produto entra e é distribuído para o resto do país. O facilitador de papéis e quem providencia álibis confiáveis para os coitados que vocês mandam para lá, apenas para engolir suas bombas.” Frank virou-se diretamente para o barbudo que o provocara. “Se você não me quer aqui, Hensel, basta dizer. Não me falta mercado.”
A tensão da sala permaneceu intragável por alguns instantes até que alguém teve a magnífica ideia de voltar o assunto para a situação do Cartel.
Do canto da sala, Robin respirou aliviado. Ele podia sentir os ânimos de cada um daquela sala, e com certeza, ele não era um dos menos tensos. Frank Delfino não se acovardou diante desses homens — e era claro, não era a função dele proteger sua vida. Era a de Robin. Sem mover-se muito, mantinha os olhos nos outros seguranças e nos que deveriam parecer seguranças, porém estavam mais próximos da definição de carrascos. Frank estava adentrando um mundo perigoso ali e ele perguntou-se o que Regina diria sobre isso. Se é que ela não sabia.
Horas haviam se passado, e essa reunião parecia interminável. Pensou em Stuart, que deveria estar acompanhando Regina por todos os cantos de Guadalajara e suspirou, uma pequena faísca de inveja ganhando vida. Perguntava-se se ela havia cedido às investidas de Frank. Sabia que aos poucos, essa ideia começara a ganhar seu desprezo e mero pensamento dele a tocando fazia seu sangue borbulhar. Não era um direito dele, não era sequer aceitável, mas quem é que possui as rédeas dos próprios sentimentos?
Observou que o nível de decibéis da conversa se elevara novamente. Frank parecia relaxado, de modo que Robin também não se moveu. Chavón, que presidia a reunião, terminou dando coordenadas pelo telefone e voltou para eles, sorrindo. Todos começaram a se levantar, cada qual voltando-se para os seus seguranças quando o brilho de uma lâmina o deixou alerta. Ele teve alguns segundos para identificar o portador como sendo um dos seguranças de Hensel, caminhando na direção de Frank e sua resposta foi imediata; ele colocou-se entre os dois, afastando Frank com seu corpo e sentindo o exato momento em que a lâmina adentrou sua carne, uma incisão direta em seu músculo grande dorsal. Ele respirou fundo e virou o corpo rapidamente, arrancando a faca de onde estava e voltando-a para a mandíbula do homem, forçando-a contra o céu de sua boca e dando-lhe um tranco na mesma. O homem caiu aos seus pés e Robin manteve a faca ensanguentada na mão; o outro segurança o encarou com os olhos cheios de fúria e estava prestes a comprar a briga quando Hensel colocou a mão sobre o abdômen dele, impedindo-o de continuar. “Chega.”
Frank fitou o corpo que agora jazia aos pés de Robin por segundos, voltando-se para o barbudo que sorria logo em seguida. “Mas que belo cão de guarda você têm, Delfino.” Comentou o homem, indiferente ao empregado caído no chão.
“Qual é seu problema, seu estrume do Texas?”
“Eu só queria testar se você é mesmo digno de confiança. E se o seu segurança se colocou na frente de uma faca por você, bem, você é merecedor de alguma lealdade. Faça uma boa estadia em Jalisco, meu querido.”
Hensel atravessou a sala, passando por cima do corpo como se fosse apenas um obstáculo para a rua; o outro segurança o seguiu, mas não sem antes lançar um olhar de completo desprezo para Lockhood. Frank engoliu em seco, aproximando-se do segurança, o semblante denunciando sua completa surpresa com o que acabara de acontecer. Robin retirou a camiseta cuidadosamente, passando os dedos sobre o local onde a lâmina havia perfurado. “Quão sério é?” Perguntou Chavón, observando-o com sobriedade.
“Não foi muito profundo, bordas retas. Alguns pontos e ficará bem.” Comentou Frank, analisando o corte.
“Eu vou chamar a enfermeira da casa.” Comunicou o mexicano, e desapareceu logo em seguida. Frank deu meia volta e encarou o segurança e por alguns segundos eles permaneceram imóveis dentro do contato visual estabelecido.
“Você não precisava ter feito isso.”
Robin riu, o sarcasmo mais do que explícito. “Se eu não fizesse isto, então eu não teria propósito aqui. Eu sou seu guarda costa. É meu trabalho mantê-lo vivo. Não haja como se eu tivesse feito algum milagre.”
Frank acenou, indicando que entendera o ponto e segundos depois, uma jovem vestida com uniforme cirúrgico adentrou a sala, trazendo uma bandeja repleta de ferramentas cirúrgicas.
***
Stuart engoliu em seco observando-os. Regina já estava bastante bêbada; Frank estava gargalhando e Robin também havia bebido algumas doses e parecia um pouco mais sorridente que o normal. A pior ideia que Regina poderia ter tido veio em forma das palavras Vamos experimentar os diferentes tipos de tequila daqui? e bem, este era o resultado.
Eles finalmente haviam escolhido a preferida. Frank e Robin optaram por garrafas de Casa Noble Single Barrel Extra Anejo Tequila — uma garrafa singular que mais parecia um frasco de perfume, 750ml de uma tequila com notas de chocolate, baunilha, nozes e frutas, envelhecida por nada menos que sessenta meses. Regina estava praticamente abraçada às garrafas peculiares com formato de X. A X.Q. Añejo Tequila tinha um processo de envelhecimento mais curto que a da Casa Noble, com seus trinta e seis meses e seu sabor distinto misturada à notas de caramelo, especiarias e torta de abacaxi.
Nada daquilo parecia um bom sinal. A noite mexicana era agitada, e para Stuart, pareceu ser seu maior pesadelo. Ele podia ver a maneira explícita com que Regina encarava Robin, quase que ignorando o fato de que seu marido estava ali, ao lado deles. “Você não está bebendo nada, Grant.” Sibilou Frank, os olhos vermelhos e o sorriso preguiçoso nos lábios. Ele inclinou-se desengonçadamente e apoiou um braço sobre o ombro do mesmo. “Sei que tivemos nossas d-t-diferenças, mas esta noite é de diversão.”
Stuart esboçou um sorriso, mesmo estando sem jeito. “Alguém precisa se manter sóbrio.”
“Oras…” Riu o chefe. “Nós temos o Lockhoof, Lock...hood” Frank riu de sua piada interna. “Quem ousaria mexer com a gente…”
“Prefiro não testar minha sorte, senhor.” Respondeu o loiro, permanecendo com a postura alinhada. Ele sabia que não poderia beber. Regina estava sorrindo tanto que a musculatura de seu rosto logo começaria a doer e se Robin resolvesse seguir o mesmo caminho, bem, alguém teria que mantê-los longe um do outro.
“Muito bem, garoto. Você é mesmo um bom segurança para ela.”
“Eu quero dançar. Vamos dançar?” Pediu Regina. O rosto dela brilhava, exibindo alguns sinais de sua eminente embriaguez, os olhos turvos, as bochechas rosadas, o corpo relaxado. Frank abaixou a cabeça, encostando-a na mesa.
“Eu não vou. Pegue um dos dois e vá.” Resmungou ele, cedendo à tontura. “Leve o Lockhoof. Ninguém vai ousar mexer com você com ele perto.”
Ela mordeu o lábio, olhando para Robin. Ela fez algum esforço para levantar da cadeira, sentindo uma ligeira tontura mas o loiro segurou-a até que a mesma retornasse ao seu eixo gravitacional. Segundos depois, eles desapareceram na multidão, indo na direção da pista de dança. Stuart fitou-os até que desapareceram de seu campo de visão e depois voltou a atenção para Frank, que parecia estar cochilando contra a mesa. Ele pegou um dos shots de tequila e virou contra seus lábios, levando uma rodela de limão aos lábios logo em seguida. Uma dose não ia matá-lo, e era bem possível que ele fosse precisar dela.
***
Calor. Um irrefreado e escaldante calor; era tudo que seu corpo conseguia produzir. Enfiada na multidão de pessoas que dançavam freneticamente ao som daquela batida, Regina teve certeza de duas coisas. A primeira, que seu corpo estava entrando em combustão espontânea. E a segunda é que ela o queria. Ela precisava dele, do toque firme e possessivo sobre seu corpo. Puxou a camisa dele, chocando seus corpos; Robin manteve-se parado, apenas observando-a. Ele parecia estar lutando contra suas próprias vontades, ciente da periculosidade daquela situação.
Regina riu, sabendo que aquilo causaria um dano irreparável nele. Deu meia volta, grudando seus corpos, sabendo que aquele vestido contornava seu corpo lealmente. Podia sentir o quão excitado ele estava e aquilo só a fez sentir-se ainda mais sexy. Rebolou lentamente contra ele, esfregando sua bunda sobre o volume nas calças do mesmo. “Regina” Gemeu ele, enlaçando os dedos no cabelo dela e puxando-a para si sem nenhuma gentileza, e aquilo só fez com que seu corpo mergulhasse cada vez mais naquele torpor induzido por tesão.
Ele começou a se mover junto com ela, cedendo ao que estava acontecendo entre eles. Sentiram-se seguros no meio da multidão; ela deitou-se ainda mais contra o corpo dele e Robin subiu as mãos por suas coxas, arranhando-a de leve, fazendo-a segurar os lábios entre os dentes. As mãos firmes deslizaram por sua cintura, e Regina gemeu quando ele agarrou seus seios com as palmas das mãos, segurando-os de maneira firme e plena, ambos rebolando ao som da música. “Robin… oh god”
Ela poderia culpar o álcool, os diversos tipos de tequila que eles haviam tomado, mas aquele era apenas o efeito que o segurança tinha sobre seu corpo. Ele a deixava em chamas, ele possuía a ignição que incendiava todo seu sistema nervoso. A boca dele alcançou o lóbulo da sua orelha e ele brincou com o mesmo, mordendo-o e depois lambuzando-o enquanto o prendia entre seus lábios. “Você tem ideia das coisas que eu gostaria de fazer com você agora, Regina?” Sussurrou ele, a voz ainda mais rouca e voluptuosa.
Regina estava com os olhos fechados, as mãos sobre as mãos dele. Ela soltou o lábio inferior e uma brisa de ar quente deixou seus pulmões. Foi só então que ela percebeu que estava segurando a respiração há algum tempo. “Me fala…” Sussurrou ela, tão entregue aos toques dele que Robin precisou segurar-se para não rasgar aquela peça ali mesmo.
Conferindo se ninguém os observava-as pessoas estavam ocupadas se atracando ou mesmo bêbadas demais para ver mais do que meros borrões, e ele ficou agradecido por isso — Robin agachou-se, alinhando seu rosto com o quadril dela; seus dedos deslizaram desde seu calcanhar, memorizando o caminho, cada centímetro de pele até alcançar seu quadril. Ele deslizou as mãos para a parte baixa de seu quadril, os dedos apertando-a exatamente sobre os ossos de seu fêmur e ele aproximou seu rosto da nádega dela, roçando o rosto ali, sentindo-a mover o quadril na direção dele, querendo mais, e ele simplesmente a adorou naquele momento. Deslizou as mãos para a frente, tocando a parte interna de suas coxas e sentindo-a estremecer; abriu os lábios e fechou os lábios sobre a pele da nádega esquerda, mordendo-a de maneira lenta e um pouco firme, mas nada que fosse machucá-la.
Ela quase perdeu o equilíbrio, mas Robin a segurou, voltando a subir, roçando o rosto pela linha de sua espinha, subindo, até que afastou o cabelo e plantou um beijo no pescoço dela e ela gemeu alto. Ela deu meia volta, os dedos dela voaram para o cabelo dele e Regina eliminou a distância entre eles, puxando-o pelo cabelo e encaixando seus lábios. A mais obscena luxúria emanava daquele beijo, e ela sentiu-se pronta para abaixar a calcinha e permitir que ele a tomasse ali no meio de toda aquela gente. A língua dele dançava sobre a sua, uma carícia quente, intencional, algo que fazia todo seu ventre dar cambalhotas; “Robin, por favor” Pediu ela, sussurrando contra a orelha dele e ele olhou em volta, procurando um lugar mais escondido onde ele pudesse dar a ela o que ela queria. Puxou-a para um dos cantos, contra a parede; seus lábios rapidamente encontraram caminho para o pescoço dela, enquanto ela apertava seus braços, os olhos fechados. Ela pegou uma das mãos que a segurava pela cintura e guiou exatamente para entre as suas pernas, e ele sorriu, ansioso para…
“Meu Deus, o que vocês estão fazendo?” Gritou Stuart, afastando Robin dela. Regina encarou o loiro mais novo com o semblante de quem havia sido pega fazendo algo extremamente errado e se ele não estivesse extremamente irritado, ele poderia rir daquela situação. “Vocês perderam a cabeça? Ele está ali, na mesa do lado. Pensem antes de fazer algo que vai resultar em todo mundo aqui ser morto porque não conseguem segurar o fogo.”
Regina encarou Stuart e depois fitou Robin; resignada, respirou fundo e voltou para a mesa. Stuart fitou seu mentor por algum tempo, e depois se afastou também, balançando a cabeça para os lados simulando negação.
***
“Sim!”
“Não.” Pediu Stuart.
“Por favor, Lockhood.” Pediu ela, rindo.
“Ande logo, Hood. Aceite.” Adicionou Frank, os olhos nublados pela embriaguez. Eles estavam sentados ao redor da pequena mesa de corte redondo, sobre suas banquetas e encarando a ruiva com sua prancheta em mãos.
“O desafio é ficar seis minutos na gaiola e sair consciente. Ou vivo.” Continuou ela, ignorando as conversas paralelas entre eles.
“Só isso?” Provocou Robin, dando um passo para a frente. Ele sorriu e fixou seus olhos nos olhos verdes da garota, fazendo-a rir e provocando uma sensação amarga em Regina, que os assistia de perto.
“Lembrando que não existem regras. É lucha libre.”
“Robin…” Stuart esfregou as têmporas. O que estava acontecendo com eles? Lockhood havia bem menos que os outros dois. Regina e Frank beiravam a embriaguez, rindo descontroladamente; já estavam bem distantes de ter qualquer controle sobre a coordenação motora ou mesmo sobre seu raciocínio. Entrar em uma jaula com um bando de animais prontos para pancadaria só ia lhe render um traumatismo craniano. “Você já levou uma facada hoje, o que mais está procurando?”
“Shhhhhhh, Stuarty.” Respondeu Regina. “Deixe ele se divertir.”
“São apenas seis minutos, Grant. Eu dou conta.” Concluiu o segurança e ele sabia que havia perdido a batalha. Robin virou-se para a ruiva, sorrindo. “Pode colocar meu nome. Robin Lockhood.”
“Você tem preferência por alguma máscara?” Questionou ela sorrindo; Regina percebeu a maneira que a garota puxou uma mecha de seu cabelo liso para trás da orelha, olhando para ele como se estivesse a um passo de se jogar em seus braços e aquilo a incomodou infinitamente.
“La Parka.”
“É uma escolha interessante.” Ela mordeu o lábio, fitando o rosto dele com cuidado. “Eles vão soar o gongo em dez minutos, você terá quinze minutos para se trocar e depois o segundo gongo é para indicar a entrada na jaula. Alguma dúvida?”
“Nenhuma.”
“Boa sorte, Robin Lockhood.” Disse ela, afastando-se com um sorriso. Um assovio chamou sua atenção de volta à mesa e ele descobriu que vinha de seu chefe.
“Ela estava dando em cima de você.” Comentou ele, rindo.
Robin tentou desmentir, mas Regina o cortou, encarando-o com os olhos gélidos e intensos. “Claro que estava.”
“Hmmmmm alguém vai se dar bem essa noite.” Continuou Frank, ignorando a maneira que sua esposa encarava o homem à sua frente.
***
Dez minutos depois, ele se dirigiu ao vestiário. Sorriu encarando a roupa, mas bem, ele estava ali para aceitar a aventura. Retirou a camiseta e jogou-a na repartição, fazendo o mesmo com a calça. Enfiou-se na calça de nylon, que mais parecia uma meia calça. Grudada ao seu corpo, contornava vulgarmente cada centímetro de suas pernas, evidenciando sua bunda e o volume em sua virilha. A calça era preta, com desenhos em vermelho, alguns sinais em glitter.
Colocou as cotoveleiras vermelhas, e calçou as botas. Ao menos seu físico não deixava a desejar e se ele fosse apanhar — o que ele duvidava muito, seria com graça e elegância. Olhando no espelho, bagunçou os cabelos e pegou a máscara escolhida. La Parka era uma máscara cujos desenhos lembravam as caveiras mexicanas, com seus contornos delicados ao redor dos olhos, uma mistura sombria do desenho de um crânio com detalhes significativos da cultura mexicana. E mais do que uma escolha consciente, havia algo sobre a maneira como ele se via. Como a escuridão que vivia dentro dele, como a sombra da morte que ele sabia que jamais deixaria o seu encalço.
Afastou esses pensamentos e ouviu o segundo gongo soando pelo local. Cobriu seu rosto, puxando a máscara sobre o rosto e saiu, caminhando calmamente na direção da fila de homens que subiam para o palco. Era hora do show.
***
Frank, Regina e Stuart haviam descido as arquibancadas e agora se encontravam na primeira fileira de cadeiras logo abaixo do tatame. A plateia ia à loucura a cada soco, gritos histéricos e xingamentos que não mereciam tradução voando por cima das centenas de cabeças.
Frank estava gritando palavras de incentivo, tropeçando em seus próprios pés. Ele sabia da natureza de Robin, mas aquilo — a maneira com que seu segurança estava batendo a cabeça de seus oponentes contra as grades, a agressividade com que ele fraturou meia dúzia de ossos — aquilo era selvageria e ele estava estupidamente satisfeito. Robin era exatamente o homem pelo qual ele estava pagando.
Robin sentiu quando um dos homens, vestido com uma máscara vermelha e branca, acertou um soco exatamente sobre os pontos, proporcionando uma porção imensurável de dor onde a lâmina havia entrado. Ele fechou os olhos e respirou fundo, virando-se com toda a calma do mundo. O homem sorriu, provocando-o. “Muéstrame lo que tienes, gringo”
O loiro sorriu. Capturou um dos homens que estavam entre eles e violentamente o puxou na direção de seu joelho, ouvindo o som da fratura e assim que o soltou, sangue jorrou pelo chão. Regina mordeu o lábio, fitando-o. Qualquer pessoa em seu lugar deveria sentir a mínima emoção requerida, algo como medo ou receio. O que estava acontecendo dentro daquela jaula era basicamente um show de horrores, mas não era isso que ela estava vendo. Seus olhos estavam presos, vidrados, explicitamente atados ao corpo dele. À maneira que ele se movia, como seus músculos se apresentavam, vibrando a cada movimento frenético. A calça era mais do que justa, as nádegas firmes nas quais ela adorava fincar as unhas quando ele estava se enterrando dentro dela, e o pensamento enviou ondas de prazer diretamente para seu clitóris. Mordeu o lábio, mantendo o olhar felino que percorria o abdômen definido, tesão sendo solidificado por todo seu corpo. Ele era um homem fenomenal, e ela poderia tê-lo sempre que desejasse e isso era mais do que perfeito para ela.
Mordeu o lábio ao ver os músculos de seu tríceps flexionados ao infligir socos na face do homem que o provocara. Arremessou-o longe, o corpo pesado batendo contra a grade e estatelando-se no chão. Regina observou-o chacoalhar suas mãos e desejou aquelas mãos espalmadas contra as suas nádegas, estapeando-a sem gentileza até que excitação escorresse por suas coxas. Sabia que ele não diria não. Robin tinha um passado sob o qual falava pouco, repleto de fetiches, de práticas sadomasoquistas cuja mera menção causava calafrios à sua nuca. A força dele e sua ferocidade acabaram se tornando um afrodisíaco incontrolável e ela desejou-o com tanto afinco que permitiria que ele a despisse e a tomasse ali, naquela jaula, com toda a platéia em volta.
O gongo ressoou por cima deles. Stuart havia se recusado a assistir, mas levantou-se abruptamente para ver o resultado. Robin, o único ainda em condições físicas, saiu da jaula. Ele fora o único a permanecer em pé, e parecia bastante intocável. Desceu as escadas e sorriu para Stuart que o abraçou, sorrindo. “Você é um idiota, Robin.”
“Assista e aprenda, recruta.” Devolveu ele, piscando um olho e sorrindo. Robin engoliu em seco quando seus olhos encontraram os de Regina porque ele podia ver — a luxúria em seus olhos era explícita e tentadora, assim o torpor do álcool — e ele não podia transparecer. Respirou fundo, abaixando a cabeça e apoiando as mãos nos joelhos por alguns instantes, aproveitando para fitar as pernas dela, a pele bronzeada e cremosa na qual ele adoraria passar a língua.
“Tenho uma proposta para você, Hood.” Indicou Frank e ele fechou os olhos, acalmando sua respiração. Levantou a cabeça e fitou o homem à sua frente. “Aquele cara ali” Frank apontou para a esquerda, onde um brutamontes com cara de pouco amigos o fitava. “Quer uma luta contra você. Quem cair primeiro leva o prêmio.”
Robin ergueu o rosto novamente e fitou o homem que o desafiava. A diferença de peso era desleal. Voltou sua atenção para Frank. “Qual o valor?”
“Cinquenta mil dólares. O vencedor leva o dobro.”
Os olhos de Robin se abriram repentinamente. Cem mil dólares por uma luta. Cem mil dólares garantiriam os estudos de Roland por algum tempo e se colocados em algum investimento seguro poderia custear até a compra de um carro quando ele atingisse a maturidade. “Eu não tenho esse dinheiro.”
“Eu pago. Faço questão.” Por segundos Robin questionou-se sobre as intenções do moreno à sua frente.
“Nesse caso pode confirmar a luta.”
Robin seguiu seu caminho até o vestiário, com Stuart ao seu encalço. Apesar do mais novo ter mantido o silêncio ele imaginava que isso mudaria quando eles estivessem a sós. E foi exatamente o que aconteceu. Stuart bateu a porta e andou até estar frente a frente com ele, bufando; Robin retirou a máscara de seu rosto, respirando livremente. “O que você pensa que está fazendo, Robin? Você não está mais tão bêbado assim.”
“Dinheiro, novato. Dinheiro.”
“Você acha que aquele homem ali fora é algum zero à esquerda? Ele é campeão de WWE, Robin. Ele luta há anos. Vai matar você!”
“Você acha que não sou capaz?” Brincou Robin, colocando uma compressa de gelo sobre os nós dos dedos e mantendo-as ali.
“É disso que se trata? Você quer mostrar a ela que é capaz? Você quer se exibir feito um pavão e correr o risco de ser espancado até a morte porque quer impressionar Regina bêbada?” Stuart chacoalhou a cabeça, negando a si mesma o absurdo daquela situação. “Ela mal vai se lembrar de metade do que aconteceu aqui. Por que você se importa?”
“Já terminou?” Questionou Robin, começando a ficar irritado. “Eu preciso me preparar.”
Stuart encarou-o com o que Robin interpretou como desapontamento. “Faça como quiser, Lockhood. Você nunca escuta ninguém mesmo.”
O loiro estava saindo e encontrou Regina pelo caminho. Ele virou-se para ela, o semblante sério. “O que quer que aconteça com ele também será responsabilidade sua. Espero que esteja ciente.”
Ela segurou o ar, encarando Stuart com surpresa e ele a deixou, desaparecendo na escuridão do corredor.
“O que está fazendo aqui?” Perguntou Robin, de costas para ela. Estava prendendo as faixas ao redor de suas mãos, certificando-se de proteger seus ossos. Derrubar aquele monstro exigiria bastante de sua força e ele não podia permitir que seus ossos se desgastassem durante o processo. “Onde está Frank?”
“Terminando os detalhes do pagamento.” Respondeu ela, caminhando até ele. Ele permaneceu de costas para ela, e ela admirou a musculatura desenhada, seus olhos pousando nos pontos recém feitos. Ela tocou ao redor do ferimento com a ponta dos dedos, provocando um arrepio que estremeceu a espinha dele. “Por que fez isso?”
“Eu sou segurança do seu marido. Estava protegendo-o.”
“Qualquer homem no seu lugar…” Ela respirou fundo, resistindo à urgência de beijar a pele do dorso dele.
“Eu não sou qualquer homem, Regina. E eu decididamente não sou o tipo de homem que planeja matar o marido para ficar com a esposa.”
“Vire-se.”. Pediu ela, e ele deu meia volta, encarando-a. Seus olhos azuis pareciam ainda mais escuros, intensos e de certa forma, cheios. Ela deu um passo à frente, segurando-o pelo maxilar e puxando até seus rostos estarem alinhados. Inclinando-se, Regina tocou o nariz dele com a ponta do seu, roçando-os sensualmente. Quando ele inclinou o rosto e entreabriu os lábios, ela sorriu e se desvencilhou, alcançando a orelha dele. “Se você vencer essa luta, eu vou deixar você me ter exatamente do jeito que sonha em fazê-lo. Sem amarras, sem gentileza, sem limites. Eu vou ser sua...” Ela passou a língua pela orelha dele, lhe causando um arrepio. “Doce e obediente submissa.”
Rindo, ela se afastou e ele mordeu o lábio. O volume em sua calça fina agora beirava o constrangimento; Regina saiu do vestiário logo em seguida, repetindo a ele que ela estava torcendo pela vitória. Ela estava bêbada. Podia sentir em seu hálito e na maneira que seus olhos desfocados perambulavam de um lado para outro sem um foco real. Eles estavam bebendo há horas e Frank estava completamente entregue também.
Robin balançou a cabeça. Regina havia lhe dado o incentivo extra que ele procurava. Mordeu o lábio imaginando a si mesmo, amarrando as belíssimas pernas, abrindo-as, o líquido quente de uma vela acesa caindo sobre o dorso da mesma, os gemidos lânguidos de dor e prazer misturando-se e ohhh. Ele tinha que vencer.
***
Ele tinha que sobreviver.
El Matador, o campeão de lucha libre local tinha uma força inumana. Ele acertara um soco no maxilar de Robin cujo estrondo fora ouvido até nas últimas fileiras da arquibancada. Uma dor assustadora o abraçou e seus olhos lacrimejaram e Robin perguntou-se porque diabos ele não escutara Stuart.
A risada de seu oponente o despertou. “Vamos, franguito.”
Robin cuspiu um punhado de sangue e levantou-se. Da arquibancada, Frank estudava a situação um tanto aflito. Perder cinquenta mil não lhe faria cócegas, mas Lockhood era muito mais valioso e ele estaria dando um tiro no próprio pé se este fosse nocauteado. Regina, ao seu lado, estava com as duas mãos entrelaçadas, semelhante a uma fiel realizando uma oração e talvez ninguém soubesse, mas ela estava realmente fazendo uma. As palavras de Stuart estavam vivas em sua mente e a culpa pelo que poderia acontecer no ringue lhe parecia assustadora.
Um golpe em falso custou uma joelhada na boca do estômago de Lockhood, e ele foi arremessado sem piedade contra a grade, tendo seu rosto batido contra o metal. A dor em seu corpo era quase desesperadora, mas ele escolheu ignorá-la.
“Eu sei quem você é, muchacho.” Continuou o mascarado, provocando-o. Robin tentou levantar-se. Um chute contra o seu tórax o fez rolar alguns metros e ele esforçou-se para se levantar. “Você é aquele militar que matou a própria unidade, não é? Um bastardo americano.” Sibilou o lutador, desprezo deslizando através de suas palavras.
Robin olhou em volta apenas para ter certeza de que somente os dois estavam ouvindo aquela conversa. Cuspiu sangue novamente, certo de que estava com algum corte na parte interior da bochecha. “Você é uma desonra para qualquer país, porco americano.” Ele tentou acertar Robin, que desviou. “Não é à toa que sua esposa se matou. Um desertor como você…”
Levou três segundos. Três segundos para que Robin levantasse, e com uma força descomunal, derrubasse o homem que tinha o dobro de seu tamanho. E o que aconteceu depois disso se tornou um borrão em sua mente. Quando voltou a si, estava sendo puxado por uma multidão e seu adversário estava desacordado no chão, cercado por uma poça de sangue vermelho vivo. Robin estava ouvindo uma voz gritando desesperadamente Eu não sou um desertor e somente quando Regina lhe deu um tapa no rosto que ele despertou de seu transe. A voz era dele. Ele estava gritando.
“Wow!” Gritou Frank, gargalhando enquanto eles caminhavam para a mesa do bar. “Garçom, meu amigo, traga champanhe! Vamos comemorar!”
Robin massageou as próprias têmporas, sentindo uma leve pontada de dor. Alguém lhe trouxera uma camiseta e ele a vestiu, ciente de que estava com metade da roupa da luta. Precisava trocar de roupa, mas naquele momento, um drinque viria a calhar. O garçom logo trouxe a primeira rodada de tequila de cereja, uma cortesia da casa ao vencedor. Os quatro viraram seus copos no ar de maneira orquestrada, dispensando o limão e o sal como acompanhamento. “Aquilo foi animal.” Comentou Stuart, impressionado.
“O que aconteceu lá em cima?” Perguntou Robin e os três lhe encararam com dúvida.
“Você não… lembra?”
“Me deu um branco… Quando me dei conta os seguranças estavam me puxando para longe do El Matador.”
“Você perdeu a melhor parte, então.” Gabou-se Frank. “Foi tudo muito rápido. Você o derrubou no chão e de repente, parecia estar furioso. Ele não teve tempo de reagir. Seus punhos pareciam uma metralhadora, pa, pa, pa. Você o segurou pelos cabelos e bateu a cabeça dele no chão e continuou o socando mesmo depois da inconsciência dele e do sinal sonoro, por isso os seguranças vieram.” Frank fitou seu rosto, portador de algumas escoriações e um leve inchaço. “O mais impressionante é que você estava apanhando dele antes disso. E de repente você enlouqueceu.”
“O que foi que ele lhe disse?” Perguntou Stuart, curioso.
“Eu não lembro.” Mentiu Robin. Mas ele se lembrava sim, de cada palavra. Do tom usado através delas, dos sentimentos que elas lhe causavam. Mas esse não era um assunto que ele queria partilhar. O garçom aproximou-se com outra rodada e as garrafas de champanhe, e ele sentiu-se grato pela oportunidade que ele precisava para que aquele assunto morresse.
***
Robin havia bebido, mas não tanto quanto ela. Se Regina estava bêbada antes, agora ela estava literalmente flutuando em sua corrente sanguínea. Já estava quase amanhecendo quando eles decidiram retornar para o hotel. O táxi os deixara na porta e Frank seguiu caminho direto para a suíte, confiando a Stuart que permanecesse com Regina até ela chegar ao quarto.
Assim que ele desapareceu, Regina segurou no pulso de Robin — agora vestido com suas roupas normais — e o puxou para fora do prédio, empurrando-o no espaço entre duas largas colunas. Ele fechou os olhos e gemeu quando a boca dela tomou a sua, o calor abrasador e pecaminoso daqueles lábios acendendo terminações por todo o seu corpo. O toque entre as línguas provocou um gemido dela e ele a girou, pressionando-a entre seu corpo e a parede.
Regina arfou contra os seus lábios, encaixando a perna dele entre as suas e buscando uma tentativa de fricção. Robin segurou-a pela cintura, pressionando-a contra a parede e tentou mantê-la imóvel. Mas não era o que ela queria. Ela o queria, e o queria agora e se tivesse que ser ali, do lado de fora do hotel, às seis da manhã, ali seria. A imagem daquele homem penetrando-a enlouquecidamente contra a parede, suas calças arriadas até o calcanhar e o movimento firme e lento, quase punitivo — oh— era uma imagem gloriosa.
Ela alcançou o zíper do jeans e tentou descê-lo mas ele a impediu. A mão dele estava firme ao redor de seu pulso, e ela achou que talvez ele estivesse relutante sobre estarem em público ou talvez, talvez ele precisasse de um incentivo mais direto. Ela sorriu, mordendo o lábio inferior e tentou deslizar contra a parede para ajoelhar-se e dar a ele um bom momento, mas ele a segurou pelos ombros.
Irritada ela o encarou, mantendo contato visual. “O que é, Robin?”
“Você está bêbada.”
“Você também bebeu, Robin. Não é grande coisa.” Ela revirou os olhos. Ela estava pouco se lixando para seu estado mental. Qual era o problema dele?
“Regina, você está bêbada demais. Você acabou de sugerir sexo oral e nós estamos literalmente na rua. Nós podemos ser presos.” Riu ele.
Aquele diálogo estava começando a irritá-la. Assim como a hesitação dele. Ela não queria que ele fosse um cavalheiro; sua calcinha estava encharcada e ela passara a noite toda pensando nas diversas posições em que queria ser fodida por ele. E tudo estava acabado.
“Então é essa sua resposta? Você não vai transar comigo?”
Ele tentou segura-la pela lateral do rosto, mas ela desvencilhou-se do toque dele. “Regina.” Ele respirou fundo. “Eu adoraria foder você a manhã toda, até que você estivesse assada, até que você perdesse a força nas pernas. Mas não assim. Não estamos no mesmo patamar neste momento e eu não quero pensar que me aproveitei dessa situação no futuro.”
“Eu odeio você.” Resmungou ela, empurrando-o para longe. Ele tentou segui-la, mas ela gritou para que ele se afastasse. Furiosa, ela entrou no hotel e avistou Stuart. “Não me siga. Estou indo para o meu quarto sozinha.”
Ele passou a caminhar atrás dela e Regina inclinou o corpo, olhando para ele. “Você é surdo? Não. Me. Siga. Eu vou para a suíte sozinha.”
O loiro observou-a caminhar para o jardim de acesso às suítes e perguntou-se o que diabos tinha acontecido com ela.
***
Ela o odiava. Infinitamente. Ele era um idiota de marca maior e ela abominou a si mesmo por perder tempo com ele. Desde quando ele decidia as coisas por ela? Desde quando Robin Lockhood mandava em sua vida? Desde nunca, e não seria agora que iria começar.
Ela entrou na suíte, a respiração densa e pesada. Seu corpo todo vibrava com raiva, frustração, tensão. Foi quando ela o avistou sentado na beira da cama, ainda acordado. “Pensei que tivesse ido dormir.” Comentou ela. Frank estava sentado na beira da cama, descalço e com a camisa aberta, sua calça caída sobre o chão do quarto.
“Você está bem?” Perguntou ele.
“Estou bem.” Comentou ela, chutando os saltos e então ela percebeu, pelo reflexo do espelho, a maneira que os olhos dele deslizaram pelo seu corpo. E aquilo lhe causou sensações… quentes. Inesperadas, mas bem-vindas. Regina virou-se para ele com um sorriso perverso nos lábios. “Na verdade, melhor agora.”
Frank permaneceu imóvel até que Regina caminhou até ele, os dedos dela percorrendo seus cabelos e puxando-os e suas bocas se encontraram. A sensação quente despertou sua memória muscular e ele a puxou, fazendo-a sentar em seu colo; o vestido subiu ainda mais e ele deslizou as mãos pelas suas coxas, apertando. Ela continuou beijando-o, brincando com a língua no interior da boca dele até que ele gemeu contra a sua boca.
As unhas dela encontraram a camisa entreaberta e ela a empurrou para longe, jogando-a em algum lugar e não se incomodou quando os lábios dele encontraram a pele de seu pescoço. “Regina” Gemeu ele e ela sentiu um leve estranhamento. Não era o sotaque ou a voz que ela gostaria que fosse, mas a pressão contra seu clitóris era gostosa; ela ignorou os apelos de sua mente e seguiu seu plano.
Puxando o cabelo dele, ela o trouxe para sua boca. Ele beijou-a com tesão, a língua suave e preguiçosa e ela sentiu seu corpo todo eletrizando-se. “Diga-me o que quer e será seu.” Sussurrou ele, inclinando-se para beijar o pescoço dela.
“Eu quero que você se deite e fique quieto. Eu não quero ouvir sua voz, entendido?”
Confuso, mas inebriado pela atmosfera sexual, ele assentiu. Regina livrou-se do vestido e ele subiu às mãos para os seios dela, apertando-os enquanto ela se desfazia da própria calcinha. Ela puxou a boxer dele para baixo e alinhou seus sexos, permitindo que ele deslizasse lentamente para dentro dela. O gemido que ressoou de sua garganta fez com que ele apertasse ainda mais seus seios, os dedos pressionando seus mamilos. Ela passou a mover-se lentamente, aproveitando a sensação de preenchimento, os olhos fechados.
“Regina, eu…”
A voz dele quebrou seu encanto, e ela abriu os olhos. Debruçou-se sobre ele e o beijou com força antes de voltar a sussurrar. “Eu disse que não quero ouvir sua voz.”
Ele balançou a cabeça, aceitando suas condições e ela entrelaçou seus dedos nos dedos dele, segurando-o imobilizado contra a cama. Passou a movimentar-se de maneira firme sobre ele, cavalgadas rápidas e constantes, movimentos firmes e um ritmo razoável. Sua memória trazia Robin de volta e ela o afastava, lutando contra as armadilhas de sua libido. Manteve o ritmo, seu corpo todo balançando a cada vez que os corpos se chocavam, uma massa densa de prazer solidificando-se na parte baixa de seu ventre e então ele os virou, abrindo as pernas dela e invadindo-a com força e ela não poderia ter se sentido mais grata. Ele estava estocando nela com toda sua força e fuck yessss era exatamente o que ela queria. Regina fechou os olhos e cruzou as pernas ao redor da cintura dele, lábios contra os seus beijando-a lascivamente até que, algum tempo depois, o orgasmo a encontrou.
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