Efeito Dominó
8 Capítulo 8: Detestável Chuva
Notas iniciais
Você diz que seus pais não lhe entendem... Mas você não entende seus pais... (Legião Urbana)
O livro fora facilmente abandonado sobre a mesa de tampo retangular. Um suspiro cansativo escapou por meus lábios pelo o que me parecera a quinquagésima vez dentro das três horas em que me mantive presa com o livro em mãos. O som da chuva escorrendo do lado exterior atingia-me em cheio os ouvidos enquanto o tic-tac do relógio tornava-se algo constante e irritante. Ele estava, definitivamente, mais atrasado que o habitual. Durante as terças-feiras, meu pai sempre aparecia em casa pouco antes das sete e meia. Porém, os ponteiros marcando quase dez, deixavam claro que ele estava descumprindo sua rotina.
A imagem da garota mais jovem surgiu em minha mente. A garota que absolutamente tinha a mesma idade que eu. A garota de curtos cabelos dourados e olhos castanhos. Balancei minha cabeça para os lados a fim de desvencilhar tais pensamentos afinal, remoer aquele momento segundo após segundo em minha mente não contribuía em nada. O odor de terra molhada atingia minhas narinas quando, enfim, a porta fora aberta revelando um homem alto e de cabelos ruivos e desgrenhados pela chuva. O guarda-chuva alaranjado em sua mão estava encharcado, molhando o tapete da entrada do apartamento. Ele retirou os sapatos na soleira da porta e encarou-me.
― Desculpe a demora, querida. ― sussurrou meu pai. Encarei-o ainda em dúvidas. Ele retirou o paletó azul-marinho e colocou-o sobre um cabideiro na entrada da sala de jantar, local em que eu estava sentada. ― Como foi seu dia?
― Normal. ― retruquei. Observei atentamente a roupa que ele usava e as coisas que ele carregava em mãos, e contentei-me com a simples visualização de seu típico traje de trabalho. ― Hiruzen está lhe arrancando o couro, né? ― Hiruzen era o chefe do Departamento de Logística de um dos grandes supermercados da região e chefe sênior do meu pai. ― Logo na terça-feira ele lhe faz trabalhar até tarde...
― Os balancetes precisavam ser fechados. ― disse simplesmente sentando-se a minha frente e colocando as mãos sobre o tampo de vidro da mesa. ― Já jantou?
― Eu fiz um ensopado de frango. ― eu murmurei em resposta. ― Com fome?
― Não. Jantei na volta. ― disse e eu vi seu rosto retorcer-se em uma careta que dizia claramente: “Droga!” e ele me encarar em seguida. Meu cenho estava definitivamente franzido. Nunca que ele jantava na rua. Meu pai sempre foi um medroso em relação à comida de fast-food e refeições prontas de lanchonetes de beira de rua. Provavelmente por isso eu pouco me interessava por esse tipo de comida. ― Eu...
― Pai... Quem é ela? ― a pergunta escapara antes que eu pudesse evitar. Os olhos verdes de meu pai encararam-me. O susto era visível em sua face, tanto que aquela sensação de que tudo não passava de um sonho estava se mostrando, de fato, uma completa mentira. ― Quem é a garota que estava com você?
Ele baixou os olhos rumo à mesa. Seus dedos, longos e finos, batucaram a extensão cristalina do vidro e só então pude ter o vislumbre da falta de sua aliança de casamento. Meu pai, em todos esses anos nunca havia retirado a aliança do dedo. Nem mesmo após a morte de minha mãe.
― Você tirou a aliança... ― sussurrei as palavras enquanto a ânsia de vômito subia de meu estômago até a boca. O bolo havia sido formado na garganta quando eu, bruscamente, fiz com que voltasse a baixo. ― Você nunca tirava sua aliança. Você me dizia que isso fazia com que se lembrasse de minha mãe. Quem é ela que fez o senhor praticamente mudar suas palavras?
― Ela se chama Yuki. ― a voz de meu pai estava completamente diferente da habitual animação. O som rouco e sério escapava de seus lábios em direção aos meus ouvidos e eu forçava-me a absorver todas as palavras. ― Ela trabalha meio-período no caixa do supermercado. ― seus olhos verdes, idênticos aos meus, me encararam. ― Sakura, querida... Eu ia contar...
― Quando? ― perguntei-o. Desde o dia em que eu o vira na troca incessante de saliva com a agora nomeada desconhecida, não tivemos um diálogo digno de ser citado. Eu estava muito preocupada com as provas do que em pensar naquele assunto e bem... Para mim, enquanto o “relacionamento nada secreto” de meu pai não significasse uma mudança brusca de vida para mim, eu preferia fingir que nem havia visto nada. Mas agora... Ele havia definitivamente esquecido do respeito que tinha por minha mãe. ― A notícia de “filha, eu estou namorando uma garota da sua idade” se extraviou no correio?
― Espera... ― a voz dele cortou qualquer declaração que pudesse vir a sair em seguida e eu rapidamente percebi que havia falado demais. ― Como sabe que ela é da sua idade?
― Eu vi vocês dois juntos... ― sussurrei. A expressão no rosto de meu pai ultrapassou o nível de confusão e chegou, com glória, no nível hardcore de desconhecimento total sobre o assunto. ― Umas semanas atrás... Vi vocês dois juntos em uma rua aqui perto.
― Sakura... ― ergui-me da cadeira e peguei o livro que eu havia abandonado na mesa de vidro. Meus passos não eram rápidos, mas eram certeiros. ― Onde pensa que vai?
― Eu preciso pensar. ― falei pegando o guarda-chuva na entrada e sumindo pela porta.
[...]
O vento frio batia contra meu rosto fazendo com que a existência do guarda-chuva passasse como algo sem a mera importância. Carros passavam pelas ruas fazendo com que as poças de água e lixo acumuladas sobre o asfalto espirrasse contra os passantes. Encarei o local a minha frente e só então notei para onde meus passos haviam me trazido. Franzi o cenho, ainda confusa, mas contentei-me com apenas um suspiro e sentei-me em um banco da parada de ônibus que ali havia.
Como já passava das dez, apenas um ônibus passaria por ali e bem... Eu realmente não precisava pega-lo. Observei as pessoas que ainda aguardavam por sua última esperança de ir para casa. Havia um rapaz, não mais velho que eu. Ele usava um capuz vermelho que cobria parcialmente os cabelos alaranjados. Fones de ouvido tampavam qualquer outro som enquanto ele remexia nas teclas do celular. Ao seu lado, uma mulher de, provavelmente, quarenta anos estava tentando secar os cabelos de uma pequena garotinha que apenas sorria enquanto observava a chuva caindo. Ao lado desta, um velho senhor limpava os óculos enquanto o jornal aberto na página de cruzadinhas estampava-se em seu colo.
Encarei a rua e vislumbrei a figura ainda embaçada de um ônibus. O veículo com uma pintura em verde-musgo estacionou, com dificuldade, próximo ao ponto de ônibus. Encarei as pessoas ao meu lado que agora entravam no ônibus e vislumbrei a única que havia saído.
Já havia o visto algumas vezes. Talvez mais vezes que o necessário. Nunca havia, de fato, conversado com ele, mas sabia por Naruto que era uma boa pessoa. Os cabelos ruivos encharcaram-se facilmente quando ele desceu sob a chuva. Os olhos em formato amendoado e em um castanho caramelizado me encararam arregalados. Ele deu um mínimo sorriso e aproximou-se de mim.
― Ei... ― sussurrou facilmente. O encarei por dois ou três segundos após isso antes de voltar meus olhos ao chão. ― O que está fazendo aqui? Ainda mais com esta chuva...
― Eu estava dando uma volta... ― sussurrei em contrapartida. ― O que faz aqui por estas bandas, Sasori?
― Eu estou voltando de uma confraternização do pessoal que trabalha comigo. ― a frase escapara tão facilmente enquanto ele sentava-se ao meu lado no assento vago. O som da chuva ia aos poucos diminuindo. O vento batia fraco contra meu rosto enquanto eu balançava o guarda-chuva. ― Estou passando a semana na casa do Naruto, ele não te contou?
― Não conversei muito com ele... ― resmunguei. ― Eu não sabia que você trabalhava.
― Faz um pouco de tempo... Não é o melhor emprego do mundo, mas consigo pagar a faculdade. ― Sasori comentara. Por um segundo senti uma forte pontada de inveja em meu peito. Talvez com um emprego eu não tivesse tempo de continuar pensando em coisas como em meu pai se agarrando com uma garota da minha idade. ― Eu trabalho na locadora do outro lado da cidade.
― Vocês contratam sempre por lá? ― perguntei atentando-me a provável estupidez que eu estava fazendo. Trabalhar podia me fazer parar de pensar em várias coisas, mas ainda assim iria me desgastar demais. ― Eu meio que estou querendo um emprego...
― Eles sempre precisam de novas atendentes e pessoal pra arrumar os filmes nas prateleiras. ― disse facilmente ― Posso perguntar pra eles se quiser.
― Se isso não for te incomodar...
― Não é nenhum incômodo. ― o ruivo retrucou aparentemente animado. ― Eu ia achar divertido trabalhar com você.
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