Efeito Borboleta
49 O Senhor do Tempo
Notas iniciais

"Quem teve o privilégio de viver muito, sabe que o tempo é um mestre muito caprichoso. Às vezes, suas lições são tão repentinas que quase nos afogam. Outras vezes, elas se depositam devagar como conta gotas diante da avidez de nossas perguntas. Amores ardentes se extinguem, urgências se acalmam, passos ágeis ralentam. Enfim, tudo muda. Muda o amor, mudam as pessoas, mudam a família. Só o tempo permanece do mesmo modo, sempre passando."
(Lícia Manzo – A Vida da Gente)
***
Corporação Umbrella
Ela se levanta meio cambaleando e precisa se apoiar pelas paredes. Uma rápida olhada pela sala a faz perceber que está numa das salas da Umbrella.
— Mas, que merda! — ela xinga ao se dar conta que está presa naquela sala. — Alguém aí, me tira daqui! — a prisioneira continua a gritar e a bater na porta, até que a fechadura da porta começa a se mexer. Isso a faz recuar um pouco insegura.
— Leon? — De repente, o detetive surge por ali a surpreendendo.
— Oi. Me desculpa pela demora. — Ele se permite sorrir aliviado por, finalmente, tê-la encontrado.
— Você... você é real? — Ainda assim, a cientista está com medo de se aproximar dele.
— É claro que sou. — Ele continua sorrindo, gentilmente.
— Mas, eu vi... eu vi... Eu vi você morto. — Seu corpo está tremendo e seus castanhos lhe olham tão cheios de tormento.
— Olha pra mim, eu tô bem aqui com você! — Leon fecha a distância entre eles, depois carinhosamente enxuga as lágrimas dela e continua dizendo palavras de conforto. —Eu prometo que não vou deixá-la para trás dessa vez. — Seu coração está tão nervoso e assustado quando Ada o abraça apertado, como se tivesse medo que ele a deixasse. E o detetive retribui tocando seus lábios nos dela, num beijo cheio de urgência e sentindo como o corpo da cientista ainda está tremendo em seus braços. Apesar da situação, ambos estavam felizes por estarem juntos outra vez. — Como você veio parar aqui? — Ele se afasta um pouco para encarar o rosto dela.
— Eu... — Ela fica com o olhar perdido fazendo um esforço para se lembrar. — Não sei. Tudo parece um borrão.
— Bom, o que importa é que eu te achei. E nós vamos sair daqui juntos. — Ele queria tanto beijá-la de volta, mas o momento é interrompido quando de forma súbita, o lugar começa a tremer. Leon entrelaçou a sua mão na dela, antes de saírem da sala para um enorme corredor cheio de paredes brancas que começam a se partir. Era como se tivesse ocorrendo um terremoto na cidade.
Sem saída, ambos saem correndo, freneticamente, esbarrando em algumas pessoas que também estão fugindo em pânico. A dupla segue desviando de todos os possíveis obstáculos que vão surgindo e tentando fugir daquela situação caótica. E, quando já estão quase encurralados por causa de uma pequena cratera que se abre na frente deles, Wesker aparece para salvá-los.
— Vocês tem que pular, agora! — Wesker estava do outro lado da cratera, tentando manter a porta do elevador aberta, para que eles conseguissem chegar até ele. — Rápido! — Ambos saltam e o cientista consegue puxar Ada, porém seu filho se desequilibra, quase caindo para dentro do buraco. — Ei, me dá a sua mão! — Leon estava tentando se segurar na beirada quando seu pai estende a mão e consegue também puxá-lo.
— Obrigado! — Pela primeira vez, não há hostilidade entre eles, mas sim alívio. Assim que estão seguros no elevador, Albert tenta subir de volta para o térreo, já que estavam nos andares subterrâneos do prédio.
— O que está acontecendo? — Leon indaga, ainda tentando recuperar o fôlego.
— Eu acho que isso é fruto do buraco de minhoca.
— É o mesmo que ocorreu em 2050? — dessa vez é Ada quem questiona.
— Sim. Acho que esse mundo está sofrendo um colapso.
— Merda! Como paramos isso?
— Só se conseguirmos fechar o buraco de minhoca. — Os dois homens se encaram, compartilhando do mesmo medo.
Quando estavam quase chegando no térreo, as luzes começam a piscar e o elevador também começa a tremer. Eles tentam apertar o botão de emergência que não funciona. As portas não abrem, ao invés disso, o elevador começa a despencar, o que os levaria direto para a morte. Entretanto, o que acaba os salvando é que naquele momento ocorre um Blackout que, consequentemente, trava tudo.
Para conseguirem sair dali, eles tiveram que abrir as portas na força bruta, afinal, não havia como pedir ajuda. Além disso, eles estavam correndo contra o tempo. A ironia de tudo, é que o trio acabou saindo no andar onde se encontrava o projeto não finalizado da Máquina do Tempo.
— Nós não estamos aqui por acaso, né — Ada murmurou olhando para aqueles computadores cheios de arquivos do projeto que ainda estavam intactos. Aliás, aquela sala parecia o único lugar intacto ali. — Se esse mundo vai se autodestruir... Então, há uma possibilidade de todo esse pesadelo acabar aqui?
— Tudo começou exatamente neste lugar. Portanto, é justo que esta história também termine aqui, não é mesmo Ada? — De repente a figura misteriosa e assustadora de seu Algoz, resolveu aparecer naquele exato momento.
— Desgraçado! — Leon vocíferou se colocando na frente de Ada enquanto Wesker empunhava a sua Samurai Edge.
— Já ouviu falar sobre o Paradoxo final? — indagou o Senhor do Tempo imperturbável. — Um viajante vai para o passado e tenta impedir que a Máquina do Tempo seja construída. Claro, isso é pura teoria — ironiza. — Uma teoria que ouvi uma vez de uma cientista. E isso ficou na minha cabeça... Até que um dia, resolvi fazê-lo na prática. — Ele resolveu que estava na hora de revelar toda a verdade. — Mas, ao invés de ir para o passado, acidentalmente, acabei indo parar no futuro. E foi naquele futuro que me tornei quem eu sou hoje.
— UM ASSASSINO — Wesker enfatizou sentindo suas mãos que seguravam a arma, tremer.
— Você deve se lembrar bem daquela noite, doutor Wesker. — O Senhor do Tempo parou bem na sua frente, porém o cientista não conseguia apertar o gatilho. — Lembro-me que estava escuro, eu estava com medo também e só queria parar tudo isso. — Pela primeira vez, houve uma pequena amostra de vulnerabilidade em sua voz. — Já parou para pensar, que a escolha egoísta de vocês dois de proteger a máquina do tempo, foi o que causou a tragédia daquela noite? — A figura sombria deu um rápido olhar na direção de Ada que estava ao lado de Leon, antes de retornar a sua atenção para Albert. — Já parou para pensar que, se você não tivesse mentido para mim e ligado para a polícia, nada daquilo teria acontecido.
Simultaneamente, vários Flashbacks de 2050 cruzam as mentes do Assassino e do Cientista:
"Afinal, quem é você?" pergunta Wesker lhe entregando alguns arquivos que na verdade eram falsos. Ele estava tentando ganhar algum tempo até que a polícia chegasse.
"Não importa!" Nesse momento a polícia chega e cerca a casa, encurralando-o. "Vocês vão se arrepender por isso!"
— Enquanto estava tentando fugir com os arquivos falsos que Você me deu... — Ele estava encarando Wesker, embora não desse para ver o seu rosto por debaixo do capuz. — No escuro eu empunhei a minha arma e, por instinto, atirei...
"Mamãe!" A pequena Alice grita no meio do escuro. Aquela era a primeira e única vez que Leon pôde ouvir a voz dela tão real. Quando as luzes se acenderam, Ele se viu diante do tenente Kennedy, ambos estavam apontando a arma para o outro em completo choque. Uma tragédia havia acabado de acontecer...
— De repente eu estava olhando para o meu próprio reflexo e entre nós estava no chão, o corpo de Alice sujo de sangue e sem vida. — Por um instante, não havia frieza em sua voz, apenas pesar. — Eu sonhei com aquela garotinha a minha vida inteira, sem saber o que ela realmente significava para mim. — Quando ele disse aquelas palavras era como se o coração de Ada gelasse, era como se a sala de repente ficasse fria. O choque estava estampado no rosto dos três. — Naquele momento, eu descobri... que havia assassinado a minha própria filha.
— Para! Para com isso! — Ada tapa os ouvidos não querendo ouvir mais aquela história trágica.
— Quem é você de verdade? — Leon grita numa mistura de raiva e confusão, se afastando de Ada e vindo parar na frente do assassino. Nesse instante; o homem que se alto-proclamava o Senhor do Tempo; decide abaixar o capuz e, enfim, revelar o seu rosto.
— Eu sou você, Leon. — Era um rosto marcado pelo tempo, há várias rugas, manchas da idade, cabelos grisalhos e olhos azuis... frios. — Eu sou o monstro que você se tornará no futuro. — Ele toca no rosto do seu Eu do passado.
— Não. Isso não faz sentido! — Leon dizia exasperado enquanto afasta, rispidamente, aquelas mãos frias de sua face. Ele havia acabado de ter um déjà vu sobre o corredor escuro e a garotinha que agora estava atormentando a sua mente. — Não! Eu não vou me tornar um monstro como você! — insanamente, ambos: o Leon jovem e o Leon idoso, murmuram aquelas mesmas palavras em uníssono.
— Um dia eu disse essas mesmas palavras para o Senhor do Tempo, achando que eu tinha uma escolha. — Ele dá as costas para Leon e olha para um grande painel, onde há um esboço do Buraco de Minhoca. — Eu o persegui por todas as dimensões tentando pará-lo. Tentando matá-lo. — O Senhor do Tempo estava compartilhando do mesmo ódio. Um ódio que vem lhe guiando por todo esse tempo. — Eu já fui um jovem como você confrontando o meu futuro. Até que descobri que eu podia controlar o Tempo... Uma habilidade que parecia tão incrível.
— Mas, na real é uma maldição! — Leon interviu sentindo uma amargura o dominar. Há uma luta interna dentro de si acontecendo agora.
— Você tem razão. Do que adiantava controlar o Tempo, se não consegui vencer o meu próprio destino? — Uma série de outros flashbacks surgem em sua mente enquanto continua a narrar aqueles fatos bizarros. — Eu tentei impedir que tudo isso acontecesse, tirando a minha própria vida...
Na primeira vez, ele deu um tiro de revólver em sua própria cabeça, na segunda vez foi atropelado, na terceira vez saltou de uma ponte, na quarta vez se jogou em um rio.
— Na última tentativa, tentei voltar para o ano do meu nascimento. — Ele se lembrava daquela fatídica noite de 1989, onde o doutor Park acabou morrendo. — Eu tentei matar o bebê ainda no ventre de minha mãe e, assim, impedi-lo de se tornar o Assassino. Entretanto, eu sempre falhava e outra pessoa morria. — Há uma tensão terrível e obscura na sala. Todo mundo estava atordoado. —Em todas essas vezes, eu sempre acabava acordando em outro mundo paralelo e tendo que ver tudo se repetir de novo e de novo e de novo, até que um outro Eu assumisse o meu lugar.
— Não. Eu não acredito em você! — Leon teimosamente estava determinado a dar um fim aquilo. — Wesker, atira nele!
— Só há dois Destinos lhe esperando no final... — O Velho o ignora ainda parecendo inabalável. — Ou você se sacrifica como vários outros e morre tentando salvá-la... — E, então, se vira já empunhando a sua arma e apontando para a cabeça de Leon. — Ou vive o suficiente, para se transformar no Assassino desta história. — Depois dá uma piscadela para Wesker.
— O quê? Não... Não faça isso! — Leon murmura em forma de súplica, ao encarar Wesker que agora estava apontando a arma para Ada.
— Wesker, por favor, chega de derramar sangue! — Ada súplica fechando os olhos.
— Sinto muito, mas essa é a única forma. —Wesker afirma em tom rancoroso com um dos dedos quase prestes a apertar o gatilho.
— Wesker, por quê? Por que você vai fazer isso? — Leon queria tentar mudar a mente de seu pai, mas eles estavam encurralados de todos os lados.
— Por que a única forma de se libertar do ciclo infinito do Destino, é se... — Wesker dessa vez desvia o olhar para o seu filho e o encara, intensamente. — Se a primeira viajante do tempo morrer. — Naquele momento, Ada sabia que o destino dela já estava marcado.
— Foi assim que descobri, que a garotinha que tanto assombrava os meus sonhos... não era Alice... — Cruelmente, o Senhor do Tempo os interrompe. — Na verdade ela era aquela cientista que me falou sobre o Paradoxo final. — Num piscar de olhos suas armas mudam de direção.
— Nãoooo! — Leon exclama aterrorizado se jogando sobre Wesker tentando impedi-lo de matar Ada. Nesse momento, três tiros são disparados: um da arma de Wesker que atinge a cabeça do velho, dois do revólver do próprio velho que atinge, enfim, o seu alvo. Tudo ocorre ao mesmo tempo em que a sala começa a tremer, objetos começam a despencar e o chão a se partir formando uma grande cratera que vai sugando tudo.
— Adaaa! — Mas, surpreendentemente, Leon outra vez consegue fazer o tempo parar, tempo suficiente para conseguir chegar até Ada e segurar uma de suas mãos, antes que ela seja sugada para dentro daquele buraco negro. — Eu peguei você... — Ele diz ofegante. — E não vou te deixar.
— Sinto muito, Leon. — Seus pequenos olhos estão cheios de lágrimas, seu corpo está sangrando muito, se sente fraca demais para continuar lutando. Dessa vez, ela quer descansar. — Tu... tudo... aconteceu... porque fui egoísta... — Sua mão está começando a escorregar, deixando Leon ainda mais desesperado.
— Escuta, eu prometi que iríamos sair daqui juntos. — Leon está fazendo uma força descomunal para segurá-la, a ferida em sua barriga deve ter reaberto, ainda assim ignorou a dor e tentou salvá-la. No entanto, ela não queria ser salva.
— Tá tudo bem... É hora de superar o... passado e... seguir... em frente — murmura tão, fracamente. — Então, você pode... me... me deixar ir... agora. — Ela lhe dá um último sorriso triste, antes de tossir sangue.
— Não. Eu não posso. — Seus olhos azuis refletem a mesma angústia dos pequenos castanhos mel.
— Leon, eu... — Ela sabia que aquela era sua última chance de poder se declarar de verdade e dizer o quanto o amava, mas já não tinha mais forças.
— Eu sei. Eu sei... Eu também te amo. E eu nunca vou te esquecer. — Leon sabia que não importava em que mundo estivesse, ele nunca conseguiria esquecê-la. — Nunca! — Aqueles pequenos castanhos mel agora refletiam uma serenidade. Ela estava pronta para partir, portanto, deixa a sua mão, dolorosamente, deslizar pela mão dele. Kennedy que ainda está abalado, por alguns instantes fica paralisado quase deixando a letargia o dominar, enquanto assiste o corpo de sua amada cair e desaparecer naquele abismo profundo.
Ele se levanta e, logo, se depara com Wesker parado a poucos metros dele. Seus olhos se enchem de lágrimas, porém ninguém diz nada, deixando um silêncio sepulcral ficar entre eles.
Quem sabe num outro mundo paralelo, a vida deles pudesse ter sido diferente. Que ele, Albert Wesker, pudesse ter feito a escolha certa naquele dia dentro do seu carro quando Monica lhe revelou que estava grávida. Ao invés de renegar o filho, o cientista iria sorrir de felicidade e revelaria que a amava, que queria ficar com ela e formar essa pequena família. E, assim, ver o seu filho crescer para se tornar um homem incrível.
Talvez um dia, num outro mundo diferente, seu sonho se tornará realidade. Uma realidade cheia de felicidade e esperança. É com essa esperança pulsando tão forte em seu peito que Wesker se despede, silenciosamente, de seu filho. Leon não pode fazer nada, senão assistir o corpo de seu pai lentamente se desintegrar na sua frente, o deixando completamente sozinho e vazio. Tudo a sua volta continuava a desmoronar.
"Do que adiantava controlar o Tempo, se não consegui vencer o meu próprio Destino?" Porém, antes que aquele mundo se destruísse de vez e ele também desaparecesse, Kennedy se lembrou que ainda podia controlar o Tempo, pelo menos uma última vez.
— Eu ainda posso mudar o meu Destino. — Inesperadamente, como se tivesse apertado o botão de retrocesso rápido, ele fez com que a sua vida passasse como um filme, retrocedendo até o momento em que está de volta no ventre de sua mãe e, a partir daquele ponto, decidiu resetar tudo.
Com tudo resetado e em seu devido lugar, Leon desapareceu junto com o Buraco de Minhoca que se fecha para sempre, deixando que o Tempo, enfim, retornasse ao seu fluxo natural.
Raccoon City
2026
Ada está sentindo muita dor, uma dor que vai se apossando de todo o seu corpo enquanto seus olhos encaram um par de olhos azuis tristes. Ela tenta lutar para permanecer ali ao seu lado, porque de alguma forma que não consegue explicar, aquele homem parece ter um grande significado em sua vida. E isso a assusta e a deixa desnorteada. Entretanto, o seu corpo vai ficando cada vez mais fraco, em seguida, a sua mão que estava entrelaçada a dele, desliza. E, então, a cientista começa a cair na velocidade da luz e segue assim numa queda eterna, sendo consumida por uma escuridão que a faz se sentir vazia. Esse vazio a acompanha... Até o instante em que desperta em sua sala dando de cara com o rosto preocupado de Rebecca Chambers.
— Olá, Ada. Não queria te assustar. — Rebecca lhe cumprimenta com cautela. — Você está bem? Parece meio pálida.
— Ah... Sim. Só estou cansada. — Ada gagueja um pouco. Elas logo são interrompidas pelo barulho irritante do alarme anunciando o final das aulas.
— Ah, graças a Deus! Agora podemos descansar. — Chambers afirma daquele jeito sempre animado. — Quer tomar uma cerveja comigo? Eu pago.
Jack's Bar
— Sabe como eu me sinto toda vez que acordo? Como se tivesse acabado de voltar de uma longa viagem. — Eventualmente, após algumas doses de cerveja, Ada resolveu revelar mais sobre esses sonhos para a sua colega de trabalho. — Só que nessa viagem eu era uma pessoa diferente, vivendo uma vida diferente. E havia esse cara que continua aparecendo em meus sonhos.
— Esse cara? Que cara? — Rebecca lhe questionava curiosa para entender a mente conturbada de sua amiga.
— Ah, eu... eu não sei. Não sei exatamente quem ele é. Mas de alguma forma... me lembro tão nitidamente do rosto dele, dos olhos azuis, de sua voz.
— Ah, que loucura! Mas diz aí, ele é bonito?
— Ah, Becca, para! — Ada ri por um momento, porém depois fica carrancuda. — Como posso continuar sonhando com alguém que nunca conheci? — Ada tem passado as últimas semanas se questionando sobre isso. — O mais estranho é que... esses sonhos surgiram, após a morte do meu pai. — Seu tom se tornou melancólico.
— Eu sinto muito pelo doutor Park. Sinto falta dele também. Ele era uma pessoa incrível. — Havia uma sincera admiração na voz de sua amiga.
Doutor Park teve uma morte súbita, morreu enquanto dava uma palestra sobre como a Ciência era capaz de mudar o mundo. Ao menos ele morreu, fazendo aquilo que mais gostava.
— Até mesmo a minha psicóloga acha que os sonhos estão conectados ao luto... e a minha rotina agitada de trabalho. — Agora ela não conseguia mais parar de tagarelar.
— Ela tem razão. — Rebecca a provocou. — Você precisa dar uma pausa e ir se divertir um pouco...
Isso a faz lembrar de sua última conversa com o pai:
"Você precisa parar um pouco e ir se divertir, filha." Ada ainda se lembrava perfeitamente do doutor Park bebendo o seu chá, tranquilamente, enquanto azucrinava o seu juízo. "Quem sabe assim, você conhece o pai do seus filhos."
"Meu Deus, pai! Até você?!" Ela já havia ouvido essa mesma cobrança de outras pessoas, que na sua idade já tinha pelo menos um filho.
"Sabe, estou ficando velho. E meu desejo agora é poder conhecer os meus netos antes de morrer." Ele lhe dá um olhar entusiasmado.
— Ele morreu antes que eu pudesse realizar o sonho dele. — Ela afirmou, interrompendo os seus próprios pensamentos.
— E qual era o sonho dele?
— Ser avô. — Ada dá um sorriso triste. — Acho que ele tinha medo que quando morresse, eu estaria só... — E, no fundo, ela sentia um sentimento terrível de solidão e uma imensa saudade.
— Agora faz sentido os sonhos estarem ligados a ausência do seu pai — Rebecca falou calmamente como se fosse a sua própria terapeuta. — Mas, você deve dar tempo ao tempo. Logo, a dor da perda vai cicatrizar.
— Será? — Ada indagou com um olhar cheio de desesperança. Nesse instante, ela se distrai ao ouvir três polícias entrando no bar: capitão Burton, Chris e Jill.
— Ah, senhorita Park. Como vai? Sinto muito pelo seu pai! — Diz o capitão, se aproximando da mesa com uma voz cheia de pesar. — Eu sempre lembrarei do sorriso alegre e da voz gentil dele.
— Ah, obrigada por guardar lembranças carinhosas dele, capitão Burton. — Ada falou meio tímida. Os dois se despediram, cordialmente, antes do homem ir se juntar com o casal de polícias na mesa ao lado que também a cumprimentaram.
Jill e Chris que já tinha uma filha pré-adolescente, recentemente, decidiram se casar no próximo final de semana.
— Sabe a irmã do detetive Redfield? A Claire me convidou para ir com ela no casamento deles. — Rebecca de repente teve uma ideia que achou incrível. — Você podia vir com a gente. Quem sabe não é lá que você achará o homem dos seus sonhos.
— Obrigada, mas eu tô preferindo ficar em casa com os meus livros. — Seu estado de espírito era de alguém ainda muito pessimista. — Além disso, acho pouco provável que... o Homem dos Meus Sonhos, esteja lá naquele casamento. — Ela sorriu sarcasticamente. — Bem, eu acho que vou indo agora.
— Boa noite, sua chata! — As duas se despedem com um breve abraço.
Assim que sai do bar, sente uma brisa fresca balançar os seus cabelos e ainda lhe trazer um perfume que, logo, lhe deixou agitada. Ela bem que tentou ignorar isto, porém assim que se vira para seguir seu rumo, sem querer seu corpo se choca contra outra pessoa. Com o impacto a sua bolsa cai no chão, porém duas mãos imediatamente conseguem segurar as suas costas e impedi-la de também cair.
— Me desculpa! — Exclama aquela voz rouca e aqueles olhos azuis familiares, com o seu perfume que parece penetrar por cada poro de sua pele. Seu coração no momento está batendo tão forte e suas pernas parecem meio bambas. Ainda assim, o homem alto de cabelos castanhos claros e belos olhos azuis desvia o olhar e se afasta.
— Aqui está a sua bolsa. Me desculpa, senhorita. — Há esse sorriso simpático estampado na cara dele, enquanto Ada apenas lhe dá um breve sorriso tímido, antes de pegar a bolsa de volta.
— Bom, se você está bem, eu vou indo. Tenha uma boa noite, senhorita. — E então o Homem dos seus sonhos lhe dá uma olhada tão intensa, antes de atravessar a rua e desaparecer pela noite, deixando Ada com o coração acelerado e com uma ideia fixa na cabeça.
O Homem dos Seus Sonhos era real e estava bem ali, em Raccoon City.
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