Efeito Borboleta

45 Monica Birkin


Notas iniciais
E continuamos a nossa aventura com Leon e Ada presos no passado em 2007.



"Pensei muitas vezes no passado com a esperança de tentar entender o presente e facilitar o futuro. Tudo o que consegui foi confundir o meu presente, alterar o meu futuro e sentir a dor do passado."

(Caio Fernandes)

***


Raccoon City

2007


Leon acordou com o barulho ensurdecedor de buzinas de carros que ecoam pelos seus ouvidos sensíveis, causando-lhe dor e fazendo a sua cabeça latejar. Seus azuis piscam tentando se ajustar com a luz do sol poente. As nuvens escuras haviam acabado de se dissipar, ainda sim ele tem um pequeno vislumbre daquele clarão colorido que sempre surgia antes, ou durante as tempestades que, dessa vez, resolveu aparecer no meio do crepúsculo de final da tarde.

— Ei maluco, sai daí! Você quer morrer?! — um motorista grita irritado lhe chamando a atenção. É só então que percebe que estava deitado bem encima da faixa de pedestres de uma rua que parece familiar. Há algo sobre este lugar que lhe parece muito diferente.

De repente ele tem um flashback da perseguição ao carro de Spencer que acaba batendo, pegando fogo e, por fim, explodindo.

— Ada! — ele murmura ao se lembrar que a Professora de Física estava dentro do carro em chamas. — Leon se levanta e tenta falar com o motorista mal humorado que o chamou de louco. — Ei, você pode me dizer que dia é hoje?

— É 13 de Junho.

— 13 de Junho? — Aquela data sempre seria um lembrete doloroso. Mas, o pior ainda estava por vir. — De que ano?

— 2007. — O choque é tão grande, ou talvez, fosse efeito de ter viajado no tempo que o faz se sentir tonto, a sua cabeça latejar com mais força e o seu nariz começar a sangrar.

***/ /***


— Ele precisa de um hospital. — Ada afirma meio ofegante, após a tentativa fracassada de tentarem mover o corpo do jovem Leon do corredor.

— O hospital não pode ajudá-lo. — Annie lhe responde com mau humor enquanto passa a mão pelos cabelos loiros de Leon.

— Então, o que devemos fazer? — Wong se sente preocupada com o rapaz e, igualmente, desconfiada das atitudes estranhas de sua antiga Professora.

— Você deve se preocupar mais consigo mesma. Ou melhor... se preocupar com a sua versão mais jovem. — Annie a puxa pelo braço para longe do corpo inconsciente de Leon. — Porque a sua presença aqui se tornará perigosa para ambas. — Aquilo obviamente deixou Ada apavorada. Ela sabia como essa história poderia terminar, porque já havia tido esta experiência horrível quando foi para o futuro e se encontrou com a sua doppelganger.

— Então, me ajude a retornar para o meu mundo! — Ela estava praticamente suplicando.

Momentaneamente, a conversa para com o barulho insistente do telefone tocando no andar debaixo, alguém parecia desesperado para falar com a dona da casa.

Pela ligação Annie é informada que havia no hospital um homem que possuía em sua carteira, documentos com o nome de Leon Scott Kennedy. Obviamente aquilo foi estranho e, mais estranho ainda, quando o cara acordou e resolveu fugir do hospital.

— O que aconteceu? — Ada indaga muito confusa e aflita, assim que a ligação termina.

— Por que você não me contou que trouxe outro Leon para cá?

— O quê? — Ada franzi a testa e estreita os olhos em sinal de total confusão. Contudo, a resposta vem quando um certo alguém cruza pela porta.

— Mãe, mãe! — Por um segundo, dois pares de íris azuis se cruzam demoradamente, até que ele vem em sua direção e desesperado a puxa para os seus braços. E enquanto a abraça apertado, aproveita para esconder o nariz nos cabelos castanhos claros meio grisalhos e inalar o cheiro de shampoo de frutas dela.

Mesmo depois de todo esse tempo, o cheiro de sua mãe continuava o mesmo. Aquilo o fez cair em lágrimas feliz por tê-la reencontrado.

A professora Kennedy podia sentir as emoções dele fluindo pelo corpo grande que estava trêmulo. Mesmo assim, ela não podia retribuir aquele abraço. Logo, aquele reencontro entre mãe e filho, se torna algo frio e desconfortável.

— Vocês não podem ficar aqui! Precisam ir embora antes que... — Ela se afasta dele friamente e troca um olhar sombrio com Ada. — O Meu FILHO está lá em cima me esperando.

— Mas, Monica... — Ada tenta dizer, porém é novamente interrompida.

— Monica? Por que você está chamando ela assim? — Leon indaga com aqueles olhos azuis refletindo um turbilhão de sentimentos enquanto olha entre a sua mãe e Ada.

— Porque este é o nome verdadeiro dela... — Wong responde encarando seriamente a mãe de Leon. — Monica Birkin.

"Monica Birkin?" Então, essa era a peça importante que faltava para montar aquele enorme quebra-cabeça. Agora tudo fazia sentido, Annie Kennedy e Mônica Birkin eram a mesma pessoa.

— Tira ele daqui, agora! — Annie retorna a dizer praticamente os expulsando da casa.

— Mãe, por que você está agindo como se eu fosse um estranho? Sou eu, o seu filho! — Ele dá um passo mais perto forçando-a a recuar. Aqueles olhos azuis refletem desespero e a fazem quase fraquejar. É, então, que o barulho de passos no andar de cima, lhe chama a atenção.

— Por favor, saia! — Sua mãe muda o tom para um sussurro de súplica. Mesmo frustrado e triste, Leon entende o recado, portanto deixando Ada puxá-lo pelo braço para fora da casa, antes do outro Leon surgir no alto da escada.



***/ /***


"LEON PSICOPATA KENNEDY"


Era o que estava escrito no portão da residência Kennedy, fazendo Leon se lembrar o porquê já odiou tanto a escola e a sua fase adolescente.

— O Bullying é uma grande merda. Nenhuma criança deveria passar por isto — Ada comentou se sentindo tão chateada.

— Apenas ignore isso. — Ele dá de ombros. Eles ficaram um tempo ali na frente da casa, conversando sobre o que havia acontecido.

Ada não se lembrava do acidente de carro, mas se lembrava de Spencer tê-la sequestrado e da discussão deles. Então, o detetive teve que lhe explicar, mais ou menos como acabaram chegando ali.

— Então, ao invés de morrermos... nós acabamos viajando pelo espaço-tempo e chegamos a esta... outra dimensão?! — Ada não conseguia parar de pensar que, mais uma vez, eles enganaram a morte.

"Uma vez que a capacidade de viajar através do tempo se expandir, a morte não terá mais sentido." As palavras de Spencer voltaram para a atormentá-la. E o pior é que agora aquela teoria insana estava se tornando real.

— Eu não entendo... Por que minha mãe estava me tratando daquele jeito? — No momento era o que estava mais atormentando a mente de Leon. Ele queria tanto voltar para dentro daquela casa e falar com a sua mãe.

— Leon... — Mas, Ada resolveu ficar no seu caminho e impedi-lo.

— Porra, é a minha casa! — ele resmunga frustrado encarando a mulher pequena em sua frente.

— Não nesse mundo. — Ada lhe enfrenta colocando suas mãos sobre o peito dele, impedindo-o de seguir em frente. — Nesse mundo já existe um Leon, uma versão mais jovem sua. E você não deve cruzar com ele... — Ela estava tentando trazer algum juízo para aquela cabeça teimosa dele. — Só a sua simples existência aqui, pode matá-lo, sabia?

— O quê? Eu... eu não quero matá-lo... Eu só... — Ele recua dois passos para trás e desvia o olhar.

— Eu sei. Mas, isso pode acontecer, acidentalmente. Eu sei porque já... Já aconteceu comigo. — Seus olhos se cruzam, fugazmente.

— Com você? — Ele ficou surpreso com essa revelação inesperada. — Me explica isso direito.

— Não importa. — Ela se distrai retirando o suéter que usava para aliviar um pouco a sensação de calor, causada pela mudança de estação que aqui estava entrando no verão. — Você tem os seus segredos e eu tenho os meus. — Afirma antes de sair caminhando pela rua.

— Adaaaa! — Ele não tem saída a não ser segui-la, sem saber aonde iriam.

***/ /***


— A gente tem que achar uma forma de retornar ao nosso mundo — ela diz antes de morder um pedaço de seu cachorro-quente, pois estava faminta. Eles acabaram parando em uma lanchonete.

— Não posso retornar agora. Amanhã é o dia da morte da minha mãe — Leon murmura melancólico e sem nenhum apetite. — Eu preciso tentar fazer alguma coisa e impedir que isso aconteça. — Ele para e encara Ada que continua devorando o seu lanche. — O que você sabe sobre Monica Birkin?

— Eu já disse... Monica é a sua mãe.

— Como você sabe disso?

— Porque... — Ela hesita pegando um guardanapo e limpando a boca, enquanto pensa em como contar aquela história. — Quando viajei para o futuro... conheci outras versões de Spencer, Wesker e da sua mãe. Só que lá ela se chamava Monica Birkin e era viúva de William Birkin.

— O quê? — Ele estava muito chocado. — Espera, William foi marido dela? Então...

— Não, não... William não era o seu pai. — Tentar explicar aquela confusão do futuro era mais difícil do que imaginava.

— Mas, você sabe quem é? — Aqueles azuis lhe encaram cheios de expectativa. — Quem é ele? —Ada fica tensa, sabendo que seria impossível mentir para aquele Detetive.

— Isso só a Monica pode te responder. — O seu nervosismo a faz abandonar a metade de seu cachorro-quente. — Mas sabe outra coisa que eu descobri no futuro... — Ela decide trocar de assunto. — Sua mãe já lhe disse que você é muito parecido com o seu tio?

— Você conheceu ele? — Ele estava numa mistura de curiosidade e confusão.

— Não... Eu não. Mas, a minha versão daquele futuro o conhecia muito bem. — Seu semblante é marcado por puro remorso ao se lembrar que aquele Leon do futuro havia se suicidado.

— Por que você não me falou sobre isso antes? Por que escondeu tudo isso de mim? — Leon se altera um pouco, indignado pela falta de confiança.

— Ah, deve ser porque você também escondeu que estava investigando sobre a morte do meu pai. — Ada o encara raivosa e emburrada. — E pior, você descobriu quem era o meu pai biológico e não disse nada. — Por um minuto, os dois se encaram num silêncio desconfortável. — Então, dane-se! — ela exclama entredentes, se levantando de forma súbita e sai.

— Ada, espera! — Novamente, Leon é forçado a sair no encalço dela. — Aonde você vai? — Ele consegue segurar um dos braços dela a forçando a parar.

— Eu não sei! — ela grita tão raivosa. — Talvez, para qualquer lugar longe de você. — Ainda com raiva puxa o seu braço se livrando da mão quente dele.

— Me desculpa! — ele grita de volta, desesperado por fazê-la ouvi-lo. — Eu ia te contar.

— Quando? — Ela se vira para encará-lo ainda muito emburrada.

— Eu queria pegar antes o Assassino e só depois eu iria te contar. — Aqueles olhos azuis eram sinceros e isso foi desarmando ela.

— Sabe, eu tive um flashback... — Ada fecha os olhos, lutando contra aquelas memórias turbulentas. — Eu me lembrei da noite em que meu pai foi assassinado. Sua mãe também estava lá. Ela salvou a minha vida.

— O capitão Burton deve tê-la ajudado a mudar de identidade e, foi assim que conseguiram enganar a morte por um tempo. — Leon reflete sobre isso.

Agora que ele retornou para o passado, percebe que ganhou mais uma chance de impedir a morte da sua mãe. E dessa vez, não podia falhar. O problema era que entre querer e fazer havia uma grande diferença, pois no caminho haviam coisas imprevisíveis que poderiam acontecer. Coisas do tipo: os olhos azuis de Leon serem atraídos para um poste que não parava de piscar do outro lado da rua. E, próximo ao poste, há alguém encapuzado os observando.

— O assassino está aqui! — Leon murmura em reconhecimento, antes de largar Ada sozinha e sair numa perseguição maluca atrás do sujeito. Todavia, uma viatura passava bem naquela hora e quase atropela o detetive que é forçado a parar. Há um breve desentendimento entre ele e os policiais, o qual resulta em sua prisão.

— Ei, vai com calma! Eu também sou policial. — Ele se debate tentando se explicar.

— Então, onde está o seu distintivo? Onde está os seus documentos? — No momento, Leon sabia que estava ferrado.

— O verdadeiro bandido está a solta. E vocês vão deixá-lo fugir?! — ele continuou resmungando enquanto Ada surgia ali cansada de correr atrás dele e acabou presenciando Leon sendo algemado e depois sendo levado pela viatura da Polícia.


{Continua...}