Eduardo Ravelo No. 70
2 Margarita e pecado
Naquela noite, Elizabeth chegou em casa por volta das 18 horas. Durante todo o dia, ela havia pensado na missão que se desencadearia em breve. Cooper estava ciente de tudo e a força — tarefa estava a espreita de alguma pista importante. O único contato que ela tivera com Red durante todo o dia, foi pela manhã. Ela estava muito cansada, mas queria respostas. Talvez esse fosse o principal motivo que a fizesse "dançar conforme a música" com Reddington. Ela se questionava e ficava algumas vezes pensando o quanto a vida dela havia se tornado turbulenta, depois que o criminoso a escolhera naquela ordinária manhã, há cerca de um anos. Inclusive, a relação dela com Red não andava muito boa. Nada mais justo, porque era preciso muito "sangue no olho" para aguentar Red e seu jeito enigmático. Naquele momento, Elizabeth só conseguia sentir raiva. Tinha vontade de esmurrá-lo até que ele contasse toda a verdade sobre o seu passado
Como ainda lhe restavam duas horas, ela abriu um garrafa de vinho e tomou uma taça para relaxar um pouco. Depois disso, decidiu subir para tomar um banho e só naquele momento percebeu uma luz artificial vindo do seu quarto. Achando estranho porque não tinha deixado a luz acesa antes de sair, ela sacou sua glock e seguiu a passos lentos até o cômodo. A porta estava entreaberta, o que fez Lizzie sentir um frio na espinha. Com um sopapo, ela escancarou a porta, mas o local estava vazio. Ela checou o banheiro, mas também não havia ninguém. No entanto, havia uma sacola grande de papel sobre a cama. Ela guardou a pistola e verificou o conteúdo da aparente encomenda. Era um vestido preto, novíssimo e com um grande decote nas costas. Naquele momento ela se deu conta que Red havia deixado tal vestimenta para a ocasião naquela noite.
Vou matar aquele filho da mãe!
...
A alguns quilômetros dali, Dembe parava o Mercedes Classe E 350 em frente a casa de show conhecida por Less Racho, e que seria o cenário do disfarce. Red, vestido com um terno todo preto e sem gravata, ficou um tempo observando o local antes de descer.
–Dembe, vá buscar Elizabeth em cerca de 30 minutos. Entregue isso a ela. Ordenou Red repassando um envelope para Dembe, que somente assentiu e guardou a entrega. Depois disso, ele desceu do carro e entrou no local.
...
Elizabeth havia acabado de se arrumar e ficou observando o quanto o vestido havia lhe caído bem. Seria o manto ideal para uma noite de muita bebida, risadas e sexo. Três coisas que todo ser humano precisa. Se não do primeiro, pelo menos os dois últimos são quase necessidades vitais. E há quanto tempo ela não fazia aquilo. Desde que havia descoberto a verdadeira identidade de Tom Keen, ela não havia ido para a cama com mais ninguém. Sentia falta de ser tocada e desejada. Estava tão farta de trabalho que começava a cogitar a possibilidade de pedir licença da força-tarefa. O que seria bem complicado, pois Reddington só tratava os assuntos da lista negra diretamente com ela.
Quem sabe chutar o pau da barraca?
Era algo a ser pensado, mas naquele momento ela tinha algo a fazer e que precisava ser feito. Quem sabe amanhã ela pensaria sobre isso. Ela recebeu uma ligação e pensou que fosse Red, mas na verdade era Dembe, avisando que já estava a espera dela. Ao sair, Lizzie questionou:
– Mas onde está o Red?
– Ele já está na Less Racho e pediu para entregar-lhe isso. Informou Dembe repassando o envelope que Reddington havia destinado a Lizzie.
– Mas o que? Criticou Elizabeth, que não perdeu tempo e ligou para Red.
– Lizzie, imagino que já esteja com o envelope em mãos.
– Red, o que você pensa que está fazendo? Como eu vou entrar naquele lugar? Imagino que o combinado seria que iríamos acompanhados.
– Elizabeth, olhe o envelope e apenas entregue o conteúdo ao segurança, que estará na entrada. E não se preocupe, eu estarei com você.
Houve um silêncio depois das palavras de Reddington.
– Ok, Red. Estou a caminho. Informou Lizzie encerrando a ligação.
Com todo o cavalheirismo, Dembe abriu a porta do carro para que Lizzie entrasse. Depois disso, seguiram para a casa de show. A agente abriu o envelope para ver o seu conteúdo e se deparou uma identidade com sua foto, mas com outro nome: Kathleen Garcia. Cerca de 20 minutos depois, eles haviam chegado ao destino. Dembe novamente abriu a porta para que Elizabeth descesse. Esta que agradeceu e seguiu para a entrada do local.
Na porta haviam homens de preto fazendo a segurança. Um deles portava uma lista que Lizzie acreditou que fosse dos convidados para aquela ocasião. Ao chegar diante do grandalhão, ela cumprimentou e entregou a identidade. Ela achou aquilo um tanto esquisito, sentiu-se uma adolescente tentando entrar em uma festa com identidades falsas. No entanto, manteve a tranquilidade
– Srta Kathleen Garcia, aproveite a festa. Disse o homem devolvendo-lhe a identidade.
– Obrigada! Sorriu Lizzie.
O local possuía uma iluminação baixa e apesar de ter um pé na cultura latina, uma banda ao centro tocava jazz. Talvez numa tentativa de dar um ar eclético ao local. Ficava difícil identificar as pessoas que ocupavam o ambiente, mas ela percebeu diversos sotaques. Haviam mais homens, todos muito bem vestidos; e menos mulheres, mas todas impecáveis. Um garçom se aproximou e lhe ofereceu uma margarita. Lizzie aceitou, tomou um gole, caminhou alguns passos, mas começou a se perguntar onde diabos estava Red. Sem ele, a missão cairia. De repente uma voz calma sussurrou em seu ouvido.
– Uma mexicana uma vez me disse que tequila era, sem dúvidas, a bebida do pecado. Imagina então o tanto de transgressão que deve haver em uma taça de margarita.
Lizzie sentiu um frio na espinha até perceber que se tratava de Red. Ao mesmo tempo, sentiu-se estremecer com aquelas palavras e com a voz do criminoso. Sua reação foi censurar tais sensações, mas manteve a linha do disfarce.
– Eis então o motivo do meu apreço pela bebida. Disse Lizzie se virando lentamente para encarar Reddington, que aproveitou e a envolveu delicadamente pela cintura.
Loucura
Naquele momento a banda começou a tocar a música Feeling Good, de Nina Simone.
Birds flying high you know how I feel
Sun in the sky you know how I feel
Breeze driftin' on by you know how I feel
Com a mão esquerda, Red foi deslizado pelo braço de Lizzie, no sentido cotovelo/mãos, até chegar a taça e tirá-la delicadamente da mão direita da agente. O homem fazia uma cara como ela nunca tinha reparado antes. Um olhar ainda mais misterioso, mas com um certo sarcasmo. Ela sentiu arrepiar cada centímetro do seu corpo, e pediu aos céus que Reddington não percebesse. Para disfarçar o desconcerto, ela sorriu e sussurrou:
– Onde você estava?
– Aproveitando um pouco a festa, mas conforme prometido, aqui estou eu.
– E por que deixou para me encontrar somente aqui?
– Eu não poderia arriscar chamando atenção. Tenho negócios com o dono do local. Se o FBI derrubar o ponto, não posso estar ligado.
Ao terminar, Red ficou encarando Lizzie por alguns instantes.
– Você ficou linda nesse vestido.
– Eu deveria denunciá-lo, Red, por invasão de domicílio. Não faria tanta diferença diante da sua extensa ficha criminal, mas somaria mais alguns meses a sua sentença.
Red gargalhou e pareceu se divertir com o comentário.
– Meu Deus, vou pensar bem antes de entregar um presente a você, Lizzie.
Os olhos misteriosos de Red não paravam de encarar profundamente a agente. Ela estava sem reação diante daquilo, mas começou a não entender porque, ao mesmo tempo, estava gostando daquela situação. Alguns pensamentos começaram a preencher a cabeça de Elizabeth. Red puxou-a para mais junto do seu corpo e sussurrou no ouvido esquerdo da mulher:
– Há uma mesa bem próxima da terceira coluna. Um homem de cabelos negros e lisos, e terno cinza. Ele é seu alvo. Não esqueça, Elizabeth Keen, hoje você é Kathleen Garcia. Disse Reddington, soltando Elizabeth e saindo elegantemente na direção oposta. Lizzie paralisou por alguns instantes como se esperasse por outras palavras. Logo após, virou-se lentamente, avistou seu alvo, respirou fundo e seguiu rumo a missão.
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