Ecos do tempo
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu sabia que precisava fazer algo.
A sensação de estar presa em um loop interminável me consumia, e a ideia de continuar repetindo minha própria morte sem qualquer ação me aterrorizava. Era óbvio o que eu precisava fazer: evitar a queda do avião. Mas como? A causa da queda sempre era a explosão da turbina. O que eu poderia fazer para impedir isso?
A resposta parecia óbvia: nada. Não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer. No entanto, eu não podia simplesmente me resignar a repetir a mesma tragédia sem tentar mudar o curso dos eventos.
Levantei-me e me dirigi apressadamente para onde sabia que encontraria a aeromoça. Ela estava no corredor servindo bebidas a um passageiro, exatamente como na última vez. Agarrei seu braço. Ela me olhou com surpresa, mas abriu um sorriso profissional.
— Há algo que eu...
— Precisamos pousar o avião! — interrompi, minha voz soando um tom acima. A aeromoça franziu o cenho, confusa.
— Desculpe?
— Precisamos pousar o avião agora! — eu falei com urgência, minha voz tremendo. — O avião vai cair em 30 minutos!
A aeromoça abriu a boca em choque.
— Como?
— Precisamos pousar! — eu gritei, começando a sentir meu coração acelerar.
Estava desesperada. Não queria pensar no que estava prestes a acontecer, mas a ansiedade só aumentava com o passar do tempo. Os gritos, o desespero, a dor... Tudo ainda estava vívido em minha mente. Para os outros, nada havia acontecido, mas para mim, tudo tinha ocorrido há menos de 10 minutos. O desespero começava a consumir-me novamente.
— Eu preciso sair daqui — eu disse com urgência, olhando constantemente ao redor. Avistando a porta de saída, corri em direção a ela, tentando empurrar a alavanca para abri-la.
Então, dois braços me envolveram pela cintura, puxando-me para trás com força. A aeromoça gritou:
— O que você está fazendo?
Eu me debatia em seus braços, enquanto outros funcionários vinham ajudar a me conter. Estava desesperada e gritava:
— Me soltem! Vamos todos morrer!
Duas pessoas me seguraram no chão. Eu estava exausta, sem forças para continuar lutando. Todos os olhos estavam voltados para mim e para a confusão que havia criado, mas eu não me importava. Os soluços saíam descontrolados, e eu me sentia perdida, sem ninguém em quem confiar, ninguém que acreditasse em mim.
Eu era apenas uma simples garota de 17 anos, eu não tinha nada de especial, então... Por que isso estava acontecendo comigo?
Eu não quero morrer.
— Eu não quero morrer... — sussurrei em meio aos soluços.
Fechei os olhos com força quando a explosão aconteceu. Fui lançada para frente, sentindo a perna se chocar com algo, e um grito de dor escapou de meus lábios. Não abri os olhos e apenas esperei até que a consciência me abandonasse.
E então… eu estava de volta.
O silêncio ensurdecedor tomou conta de mim antes que meus sentidos começassem a se ajustar. Abri os olhos lentamente, a escuridão dando lugar à familiaridade angustiante da cabine do avião. O ar estava pesado, carregado com a promessa de mais um ciclo de desespero e morte. Meu corpo estava tenso, antecipando a dor que ainda parecia real, mesmo após ter passado.
Eu me sentia vazia, sem forças para processar o que havia acabado de acontecer. Havia tentado de tudo — gritado, implorado, lutado — e, no fim, nada havia mudado. O ciclo havia se repetido, e eu estava presa novamente.
Sentei-me na poltrona, tremendo, enquanto meu coração ainda tentava desacelerar. Os passageiros ao meu redor continuavam como se nada tivesse acontecido, e para eles, não tinha. Eu era a única presa neste pesadelo, a única a carregar o fardo de saber o que estava por vir. A realidade cruel de minha situação começou a se infiltrar, e lágrimas quentes escorreram pelo meu rosto.
“Eu não posso fazer isso sozinha”, pensei. Mas quem acreditaria em mim? Eu era apenas uma adolescente, sem poder, sem voz. Não sabia por que isso estava acontecendo comigo, mas o que mais me assombrava era a terrível certeza de que estava sozinha.
Enxuguei as lágrimas com as costas das mãos, tentando não entrar em pânico. Precisava pensar, precisava encontrar uma maneira de impedir o que estava prestes a acontecer. Sabia que tinha pouco tempo e que cada segundo era precioso.
Levantei-me e fiquei parada, observando cada passageiro, cada expressão. Passei pela mesma senhora que, mais uma vez, perguntou se eu estava bem. Mas desta vez, eu respondi.
— Não, não estou — falei e comecei a caminhar pelo corredor.
Desta vez, decidi observar o avião. Não sabia como parar um acidente que parecia estar destinado a acontecer. Era... impossível. Tudo o que tinha eram 30 minutos para tentar encontrar uma solução.
Na última vez, o desespero me impulsionou, e eu não pensei com clareza. O medo ainda estava presente, mas eu não podia continuar me lamentando. Estava na hora de encarar a verdade: isso não iria parar. E eu tinha que encontrar alguma forma de dar um fim a isso.
Em vez de seguir o caminho habitual, decidi ir na direção oposta, rumo à cabine do piloto. Para entender o que estava acontecendo, precisava obter informações diretamente daquele local.
Passei por vários passageiros, movendo-me rapidamente pelo corredor até chegar à primeira classe. Sabia que era proibido estar ali, mas a falta de vigilância na entrada facilitou minha passagem.
Esperava encontrar um grupo de pessoas arrogantes e elegantes, típicas da imagem que sempre tive da primeira classe. No entanto, ao atravessar a cortina que separava as classes, fiquei surpresa ao ver que as pessoas pareciam... normais. Havia uma quietude ali, quase reconfortante, mas ainda assim algo parecia fora do lugar.
Os rostos eram diferentes, mas não necessariamente superiores. Alguns estavam imersos em conversas discretas, outros absortos em seus dispositivos eletrônicos, e alguns apenas descansavam em seus assentos luxuosos. Ninguém parecia notar minha presença ou se importar com minha aparente intrusão.
Mais à frente, ficava a cabine de comando, separada da primeira classe por uma cortina azul. Sabia que haveria comissários lá dentro, o que tornaria difícil para mim entrar sem ser notada. Precisava de uma distração.
Olhando ao redor, avistei uma poltrona vazia perto da cortina e me dirigi até ela. Havia um homem sentado ao lado, mas ignorei-o e me sentei na poltrona. Olhei para o relógio: eram 09h54min. Ainda tinha 21 minutos restantes. Espiei pela brecha da cortina e vi dois comissários dentro da cabine de comando: um homem baixo e calvo e uma mulher ruiva, ambos pareciam distraídos com seus afazeres.
Precisava encontrar uma forma de tirá-los dali se quisesse alcançar a cabine de comando.
Então, um calafrio percorreu meu corpo. Era uma sensação estranha, como se alguém estivesse me observando. Meus instintos gritavam para que eu saísse daquele local. Olhei para o lado e meus olhos se fixaram no garoto ao meu lado, ele era alto e bonito, tinha o cabelo curto e liso de um tom acobreado, seus olhos dourados eram semelhantes aos do médico que me atendeu anteriormente, assim como a pele assustadoramente pálida.
Os olhos do garoto me observavam com uma intensidade perturbadora. Senti um arrepio na nuca. Por um momento, pensei que os olhos dele escureceram e engoli em seco. Algo dizia a mim para ficar longe daquele garoto.
— Me desculpe, assento errado — disse, levantando-me rapidamente e me virando para sair, mas senti uma mão segurar meu braço.
Meu coração disparou e me virei lentamente para trás. O mesmo garoto me segurava, e um suspiro de pavor escapou de meus lábios ao perceber que seus olhos estavam completamente pretos.
— Edward — disse uma voz masculina aparecendo ao nosso lado. Era o mesmo médico que havia me atendido antes, Carlisle. Ele colocou uma mão no ombro do garoto chamado Edward. Mesmo assim, Edward não desviou o olhar de mim. — Edward! — Carlisle falou novamente, apertando seu ombro. Finalmente, Edward olhou para Carlisle, e ambos se encararam por alguns segundos antes de Edward assentir discretamente com a cabeça. Após alguns segundos de silêncio constrangedor, Edward soltou meu braço.
— Me desculpe pelo comportamento do meu filho — disse Carlisle, agora se dirigindo a mim e sorrindo. — Ele normalmente não age assim, só está um pouco nervoso com a viagem.
Mordi o lábio e olhei rapidamente para Edward, que agora encarava o chão. Seus ombros estavam tensos e suas mãos cerradas em punho, e ele parecia mal respirar.
— Tudo bem, não há problema — eu disse a Carlisle, forçando um sorriso. — Eu… Eu preciso ir.
— Tudo bem, desculpe novamente — disse Carlisle, sorrindo. Assenti e me dirigi rapidamente para sair da primeira classe.
Suspirei aliviada assim que me afastei daquele garoto estranho, mas meu alívio foi breve ao perceber que havia desperdiçado minha chance de alcançar a cabine de comando. Eram 10h06min. Não havia muito que eu pudesse fazer naquele momento, então restava-me esperar uma nova oportunidade.
Voltei ao meu assento e apertei o cinto de segurança, um reflexo do trauma passado. Não queria ser arremessada e quebrar os ossos novamente como da última vez. Tinha um plano em mente, e tudo que precisava era que os comissários saíssem para conseguir acesso à cabine de comando.
O momento do acidente estava se aproximando. Coloquei meus fones de ouvido e ajustei o volume da música ao máximo, tentando bloquear os gritos que sabia que viriam. O tempo passou rapidamente e, como de costume, o estrondo e a queda se repetiram. E então, eu acordei de volta no início do loop.
Sem tempo a perder, levantei-me da poltrona e me dirigi rapidamente para a primeira classe. Embora o medo de encontrar Edward novamente ainda me atormentasse, era o menor dos meus problemas neste momento.
Cheguei ao banheiro e tranquei a porta atrás de mim. Peguei o papel higiênico e amassei-o antes de colocá-lo na pequena pia. Lembrei-me do isqueiro que meu pai me dera quando eu tinha 15 anos, um presente que sempre considerei inútil, já que não fumava. Mas agora, ele teria um propósito.
Respirei fundo e acendi o isqueiro, rezando para que o fogo não se alastrasse e não causasse uma tragédia ainda maior. Após confirmar que a chama estava acesa, saí do banheiro e fechei a porta atrás de mim. Tentei ser o mais discreta possível, torcendo para que ninguém percebesse minha expressão culpada. Sentei-me em uma poltrona vazia e observei atentamente a porta do banheiro. Não demorou muito para que a fumaça começasse a se espalhar.
— Que cheiro é esse? — perguntou uma mulher à minha frente, olhando para a porta. — Fogo! — gritou, e o pânico começou a se espalhar rapidamente.
Os gritos e a comoção se intensificaram. Os comissários apareceram e alguém pediu um extintor de incêndio. Aproveitei a distração causada pela emergência e me levantei, dirigindo-me para a primeira classe. Com algumas pessoas visivelmente assustadas pela agitação, fiz o possível para parecer assustada e me acomodei em uma poltrona distante, longe de Edward e Carlisle.
Os dois comissários de antes passaram correndo para o local do incêndio, a ruiva carregando um extintor e o outro com uma expressão preocupada. Aproveitei a oportunidade e fui em direção à cabine de comando. Passei pela cortina que separava a primeira classe e avistei a porta da cabine. Tentei abri-la, mas estava trancada e só podia ser aberta pelo piloto ou copiloto.
Ao lado da porta, havia um telefone, provavelmente usado pelos comissários para se comunicar com os pilotos. Não havia muito tempo para pensar. Peguei o telefone e esperei.
— Sim? Quem fala é o copiloto — respondeu uma voz masculina do outro lado da linha.
— Aconteceu um incêndio aqui atrás, preciso da presença de um dos pilotos — falei com urgência, torcendo para que ele não suspeitasse de nada.
— Um incêndio? — a voz respondeu, alarmada. — Como isso aconteceu?
— Ainda não sabemos. Precisamos que um de vocês venha verificar a situação e avaliar se será necessário realizar um pouso de emergência.
Por favor, acredite!
Rezei silenciosamente para que meu plano funcionasse.
— Certo. — respondeu o copiloto, e suspirei aliviada quando ele desligou.
Em pouco tempo, a porta da cabine se abriu e um homem de uniforme azul apareceu. Ele me encarou com uma expressão confusa.
— Quem é você? — perguntou, franzindo a testa.
— Sou uma passageira, me pediram para entrar em contato com você — respondi, tentando soar o mais convincente possível, mas seus olhos me encaravam cada vez mais desconfiados.
— Por que você...
Antes que pudesse terminar a frase, a explosão ocorreu e ambos fomos arremessados para frente. A porta da cabine estava aberta, e ouvi o piloto gritar. A dor explodiu em minha cabeça quando bati em algo, deixando-me tonta e com os ouvidos zunindo. O copiloto se levantou apressadamente e se sentou na cadeira ao lado do piloto.
— O que aconteceu? — ele perguntou, a voz carregada de pânico.
— Eu não sei, algo explodiu! — respondeu o piloto.
O avião começou a cair descontrolado para frente, a força da gravidade era esmagadora, eu não conseguia sequer me mexer.
— Eu não consigo controlar! — gritou o piloto, e foi a última coisa que ouvi antes de tudo escurecer e eu perder a consciência.
Quando abri os olhos novamente, me vi de volta à minha cadeira. O loop havia recomeçado mais uma vez. A sensação de déjà vu era esmagadora, como se estivesse presa em um pesadelo do qual não conseguia acordar. Meu corpo estava tenso, e a familiaridade da situação me envolveu como um peso insuportável.
Respirei fundo, tentando acalmar o pânico que ameaçava me dominar. O tempo estava correndo contra mim, e cada reinício era uma nova chance de mudar o destino que parecia inevitável. Mas a pergunta que ecoava em minha mente era a mesma de sempre: “Dessa vez, conseguirei encontrar uma solução?”
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