Ecos do tempo

7 Capítulo 7


Quando acordei novamente, o familiar som dos motores do avião encheu meus ouvidos. Mas, desta vez, algo estava diferente. Eu sabia que havia a possibilidade de uma bomba. A esperança, que havia sido esmagada tantas vezes, começou a renascer em meu peito. Talvez, apenas talvez, eu pudesse fazer algo a respeito.

— Está tudo bem? — a senhora ao meu lado repetiu a mesma pergunta de sempre. Me virei para olhá-la e fiquei estupefata. Pela primeira vez em muito tempo, seu rosto havia deixado de ser um borrão indistinto e se revelava claramente diante de mim.

Seus traços, antes difusos e indistinguíveis, agora eram nítidos e detalhados. Eu podia ver os contornos do seu rosto, a expressão preocupada em seus olhos, e a textura suave de sua pele.

— Está tudo bem? — ela perguntou novamente, e eu apenas acenei com a cabeça, incapaz de encontrar palavras, paralisada pela surpresa e pela tentativa de compreender o que estava acontecendo.

Ao olhar ao redor, percebi que essa nova clareza não se limitava apenas à senhora ao meu lado. Eu conseguia enxergar o rosto de todas as pessoas ao meu redor com uma precisão que não tinha há muito tempo. Cada expressão, cada detalhe, se tornava visível e real.

Eu não sabia o que tinha levado aquilo, se a minha mente danificada finalmente estava conseguindo se recuperar ou se a presença de Edward e Carlisle tinham algo haver com aquilo. Mas a certeza era clara: alvo havia mudado em mim.

Mas eu não tinha tempo a perder agora pensando nisso.

Sem perder tempo, saí da poltrona, tentando manter a calma enquanto os minutos passavam. Desta vez, não havia hesitação. Eu sabia o que procurar, sabia o que precisava fazer.

Caminhei pelo corredor, observando os passageiros com um olhar mais atento, procurando por qualquer coisa que pudesse estar fora do lugar. Cada detalhe, cada movimento, tudo parecia mais significativo agora. Minha mente corria, tentando lembrar de todos os rostos, todas as ações que eu havia visto nos ciclos anteriores.

Determinada, segui diretamente para a primeira classe, onde sabia que Carlisle e Edward estariam. Meu coração batia forte no peito, mas agora havia um propósito em cada passo que dava. Quando cheguei ao local, avistei os dois homens sentados.

Sem perder tempo, me aproximei deles. Meus olhos encontraram os de Carlisle primeiro, e eu vi a mesma gentileza que havia sentido antes. Edward, ao lado, me olhava com aquela mesma intensidade que me deixava sem fôlego.

Então, contei toda a verdade para eles, repetindo os mesmos passos da vez anterior, e senti um alívio profundo quando ambos acreditaram em mim.

— Vamos procurar por qualquer pista de uma bomba — Carlisle disse com um tom de seriedade que não admitia contestação. — Precisamos verificar todos os lugares possíveis. Nada pode ser deixado de lado.

Assenti rapidamente, pronta para seguir suas instruções. Enquanto me preparava para sair, uma lembrança repentina e desconcertante invadiu minha mente.

— Carlisle... — comecei, sentindo-me um pouco estúpida por ter esquecido desse detalhe crucial. — Houve uma vez em que a explosão foi adiada. — Levantei os olhos para ele, tentando manter a compostura. — Se a bomba realmente está aqui, por que ela não explodiu na hora certa?

Ele me olhou com uma expressão pensativa, seus olhos se estreitando enquanto processava a informação.

— O que você fez de diferente naquela vez? — ele perguntou, a curiosidade evidente em sua voz. Relatei brevemente o surto de desespero que tive naquele momento, a confusão e o caos que se seguiram.

— Hum... — ele murmurou, passando a mão pelo queixo com uma expressão de reflexão profunda. — Talvez a turbulência tenha afetado a bomba de alguma forma. A instabilidade do ambiente pode ter interferido no mecanismo de detonação, adiando a explosão.

— É uma possibilidade — Edward concordou, sua expressão igualmente séria.

— Vamos nos concentrar em encontrar a bomba agora — Carlisle disse, com um tom resoluto. — Precisamos ser minuciosos e não deixar nenhum canto sem verificar. Cada segundo conta.

Cada um de nós mergulhou na busca com uma intensidade renovada, explorando cada canto do avião com uma atenção quase obsessiva. Carlisle, Edward e eu começamos a inspecionar todos os compartimentos visíveis e invisíveis, cada espaço que pudesse esconder uma ameaça.

Primeiro, verificamos os compartimentos de bagagem. Carlisle e Edward se moveram com eficiência, tirando as malas e examinando cada item com um olhar crítico. Eu examinei os compartimentos superiores e inferiores, conferindo a possível presença de qualquer coisa fora do lugar. A sensação de urgência aumentava a cada segundo que passava.

Em seguida, percorremos as fileiras de poltronas, movendo as almofadas e verificando os espaços abaixo dos assentos. Cada estofamento, cada dobradura das poltronas foi cuidadosamente examinada. Passamos pelos corredores, abrindo os compartimentos de armazenamento e verificando os equipamentos de emergência com um olhar atento.

Apesar do esforço extenuante, não encontrávamos nada. O silêncio no avião era quase opressivo, quebrado apenas pelo som constante dos motores e o ocasional murmúrio baixo de passageiros alheios à nossa busca frenética. O tempo parecia se arrastar, e a sensação de desespero começava a se instalar.

Depois de uma busca exaustiva e meticulosa, finalmente nos reunimos novamente na área central do avião. A frustração era evidente em nossos rostos. Carlisle estava com as mãos na cintura, sua expressão preocupada. Edward parecia frustrado, passando a mão pelo cabelo em um gesto nervoso.

— Não encontramos nada — Carlisle disse, sua voz carregada de cansaço e preocupação. — Precisamos considerar todas as possibilidades.

— E se a bomba não estiver aqui? — Edward sugeriu, sua voz carregada de frustração. Seus olhos varriam o ambiente, em busca de qualquer coisa que pudesse ter passado despercebida. — E se ela estiver na parte externa do avião?

— Oh meu Deus, é claro — exalei, a surpresa estampada no meu rosto. — A explosão sempre ocorre na asa do avião.

A realização me atingiu como um balde de água fria. Por que nunca pensei nisso antes? Meu foco estava sempre no interior do avião, ignorando a possibilidade de que a ameaça pudesse estar fora de nosso alcance imediato.

— Como vamos acessar a parte externa? — perguntei, minha voz tremendo ao perceber a gravidade da situação. Não havia formas óbvias de acessar aquela área durante o voo. — Isso é... impossível.

Carlisle e Edward trocaram um olhar rápido, um que parecia conter muito mais do que simples determinação. Havia algo indefinível na expressão deles, como se compartilhassem um segredo que eu não poderia compreender.

— Não se preocupe com isso. Vamos dar um jeito — Carlisle disse, sua voz firme e cheia de uma confiança que me deixou confusa.

Edward, ao lado dele, assentiu com um movimento brusco. Sua expressão era dura, quase fria, mas havia uma preocupação visível por trás daquele exterior sombrio. Seu olhar se fixou em mim, e por um momento, senti como se ele estivesse lutando contra algo dentro de si, como se a ideia de me deixar sozinha fosse insuportável. Era como se ele já soubesse como resolver a situação, mesmo que, para mim, parecesse completamente impossível.

— O que vocês... — comecei a perguntar, mas Carlisle, sempre tão calmo e controlado, interrompeu com um sorriso suave, que mais parecia uma promessa silenciosa de que tudo ficaria bem.

— Isabella, precisamos que você fique aqui e mantenha todos calmos. Não há tempo para explicar agora, mas confie em nós. Vamos resolver isso.

Minha mente estava em turbilhão, lutando para processar o que ele estava dizendo. Como eu poderia ficar aqui e simplesmente esperar? O perigo era real, e a bomba estava lá fora, possivelmente prestes a explodir. Tudo dentro de mim gritava para agir, para fazer algo, mas a tranquilidade na voz de Carlisle, combinada com a intensidade no olhar de Edward, me fez hesitar.

— Confie em nós, Bella — Edward disse, sua voz baixa e carregada de um tom sombrio, mas seu toque em meu ombro foi surpreendentemente gentil, quase protetor. — Voltaremos em breve.

Antes que eu pudesse responder, eles se afastaram, movendo-se com uma rapidez e uma graça que pareciam quase sobre-humanas. Os dois seguiram em direção à parte traseira do avião, onde ficava a área de acesso técnico, um local que, eu sabia, deveria ser impossível de abrir em pleno voo.

Fiquei parada, assistindo enquanto eles desapareciam pela porta, meu coração acelerado e minha mente fervilhando de perguntas. Como eles poderiam sair do avião a essa altura? Era uma ideia insana. Eu sabia disso, e ainda assim, algo na maneira como eles se comportavam, na segurança que transmitiam, me fez acreditar que, de algum modo, eles realmente poderiam lidar com essa situação impossível.

Minutos se passaram como horas, enquanto eu tentava manter a calma e ignorar o medo crescente em meu peito. E se eles não conseguissem? E se a bomba estivesse além do alcance deles?

De repente, um estrondo abafado sacudiu o avião, um som que parecia vir de fora, da asa. Meu coração saltou na garganta. O que estava acontecendo lá fora? Eu corri para a janela mais próxima, tentando ver algo através da escuridão da noite. Tudo parecia calmo, mas eu sabia que as aparências podiam enganar.

E então, quase como se fosse um reflexo de minha ansiedade, senti a aeronave estabilizar. O tremor cessou, e o som dos motores voltou ao seu ritmo constante. Não havia mais sinal de turbulência, nem qualquer outro indício de que estávamos em perigo iminente.

Mas onde estavam Carlisle e Edward? O que eles haviam feito? Minha mente estava em conflito entre o alívio e a preocupação crescente. Estava claro que havia mais coisas acontecendo ali do que eu podia entender. Algo me dizia que, quando eles voltassem, minhas perguntas finalmente teriam respostas—respostas que poderiam mudar tudo o que eu sabia até aquele momento.

Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, Carlisle e Edward finalmente voltaram. Eles apareceram na parte traseira do avião, movendo-se com a mesma rapidez silenciosa com que haviam partido. Meu coração deu um salto ao vê-los, mas a apreensão não me deixou em paz.

Eu corri até eles, mal conseguindo conter a mistura de alívio e confusão que me dominava.

— O que vocês fizeram? — perguntei, minha voz cheia de urgência. Minhas palavras saíram mais fortes do que eu pretendia, mas eu precisava saber. Como eles conseguiram lidar com algo tão impossível?

Carlisle, sempre calmo, me lançou um olhar tranquilo, mas evasivo.

— Fizemos o que precisava ser feito, Isabella — respondeu ele, mas sua resposta não trouxe o alívio que eu esperava. Não havia nenhum detalhe, nenhuma explicação, e isso me deixou ainda mais inquieta.

Me virei para Edward, procurando respostas em seu rosto. Mas me apenas me olhava, seu rosto impassível, sem demostrar nada.

— Edward... — comecei, tentando encontrar as palavras. — Como vocês conseguiram? O que realmente aconteceu lá fora?

Ele me olhou profundamente nos olhos, seu olhar cheio de uma estranha mistura de tristeza e resolução. Por um instante, pensei ver algo mais, algo que ele estava escondendo, mas antes que eu pudesse decifrar, ele desviou o olhar.

— Bella, o importante é que você está segura agora — disse ele, sua voz grave e controlada. — Não precisa se preocupar com os detalhes.

Algo em seu tom me disse que ele estava evitando me contar a verdade, algo que eu não estava pronta para ouvir. A maneira como ele disse "você está segura agora" soou como uma promessa e isso me deixou inquieta.

Eu queria insistir, queria saber o que realmente havia acontecido, mas algo no olhar de Edward me impediu. Havia uma escuridão ali, uma sombra que parecia profunda demais para ser trazida à luz. E pela primeira vez, me perguntei o que mais ele estava escondendo, que segredos sombrios estavam enterrados sob aquela fachada de força e proteção.

Apesar das perguntas que fervilhavam em minha mente, eu acenei lentamente, aceitando, por enquanto, a resposta vaga que me deram. Mas sabia que essa não seria a última vez que eu perguntaria. Algo estava mudando entre nós, e a cada momento que passava, eu sentia que estava me aproximando de uma verdade que poderia mudar tudo.

Edward me chamou suavemente para nos sentarmos e esperarmos juntos. Sem dizer nada, apenas acenei com a cabeça e me deixei guiar até os assentos. Carlisle se afastou e imaginei que ele quisesse nos deixar a sós. Edward se sentou ao meu lado, e ficamos em silêncio, lado a lado, enquanto o tempo avançava inexoravelmente em direção às 10:45.

O silêncio entre nós era pesado, carregado de tensão. Eu sentia o peso de cada segundo que passava, os minutos se esvaindo como areia em uma ampulheta. Meu nervosismo crescia a cada instante, e o relógio parecia correr mais rápido do que o normal. A ameaça da explosão pairava no ar, um fantasma invisível que eu não conseguia afastar.

Meus olhos voltavam incessantemente para o relógio, enquanto minha mente imaginava todos os cenários possíveis. O pânico começou a tomar conta de mim, a incerteza do que poderia acontecer era insuportável. E se o avião ainda explodisse? O que faríamos?

Carlisle e Edward estavam por perto, mas o alívio que eu deveria sentir com sua presença não conseguia dissipar o medo crescente dentro de mim. Minha mente repetia o cenário da explosão como um filme de terror que eu não conseguia parar de assistir.

Quando faltavam apenas alguns minutos, senti que não conseguiria suportar a pressão sozinha. Olhei para Edward, que estava ali, firme, com o rosto sombrio, mas sereno. Aquele simples ato de estar ao meu lado me dava alguma força, mas não era o suficiente para conter o terror que crescia dentro de mim.

— Edward... — minha voz saiu mais trêmula do que eu esperava. — Pode segurar minha mão?

Ele não hesitou. Sem dizer uma palavra, entrelaçou seus dedos nos meus, sua pele gelada causou arrepios a minha, mas o contato me trouxe uma calma instantânea, como se a escuridão que sempre o cercava pudesse, de alguma forma, proteger-me do pior.

O relógio marcava 10:13... 10:14... E então, finalmente, 10:15. Apertei a mão de Edward com força, esperando pelo pior, meu coração batendo tão rápido que parecia prestes a explodir junto com o avião.

Mas nada aconteceu.

Um segundo se passou. Depois outro. E mais outro.

Quando abri os olhos novamente, o avião ainda estava em perfeito estado. Não havia sinal de explosão, nenhum indício de que algo estivesse prestes a acontecer. O alívio que senti foi tão intenso que quase me fez chorar. Minha respiração, que eu nem percebi que estava prendendo, saiu em um suspiro tremido.

Os segundos passaram, transformando-se em minutos, e o silêncio permaneceu. A explosão que eu tanto temia não veio. Meu coração, que havia disparado de pavor, começou a desacelerar, o alívio substituindo o medo.

Finalmente, olhei para Edward, que ainda segurava minha mão. Havia algo reconfortante na firmeza do seu toque, na presença dele ao meu lado. O terror deu lugar a uma onda de gratidão, e percebi que, com ele ali, eu me sentia segura, mesmo nas situações mais desesperadoras.

— Nós estamos bem, Bella — Edward disse, sua voz baixa, mas cheia de uma certeza tranquilizadora. E, naquele momento, acreditei nele. — Está tudo bem — havia um vislumbre de algo parecido com um sorriso em seus lábios, como se tentasse me tranquilizar. — Nós conseguimos.

Eu acenei, ainda sem palavras, mas a onda de alívio que me envolveu era quase esmagadora. Por um momento, todo o medo, toda a ansiedade, desapareceu, substituídos por uma calma que eu não sentia há muito tempo. Com Edward ao meu lado, segurando minha mão, soube que, pelo menos por enquanto, estava segura.

As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, não de tristeza ou medo, mas de pura alegria. Estávamos vivos. O perigo havia passado, pelo menos por agora.

Sem pensar, virei-me para Edward e o abracei, apertando-o com força. — Obrigada, Edward. Obrigada por tudo — sussurrei, minha voz embargada pelas lágrimas.

No início, senti o corpo dele ficar tenso sob meu toque. Era como se não soubesse como reagir ao meu gesto, talvez surpreso pela intensidade da minha gratidão. Mas, lentamente, ele relaxou e, para minha surpresa, retribuiu o abraço. Seus braços me envolveram com uma firmeza que, de alguma forma, me fez sentir ainda mais segura.

O mundo ao nosso redor parecia se dissolver por um momento. Não havia mais o som dos motores, o pânico ou o medo. Apenas eu e Edward, naquele abraço que, mesmo que por um breve instante, afastava toda a escuridão.

Finalmente, quando as lágrimas começaram a secar, me afastei um pouco, o suficiente para olhar nos olhos dele. Edward ainda estava sério, mas havia algo de diferente em sua expressão, como se ele estivesse permitindo a si mesmo, pela primeira vez, baixar a guarda.

— Nós conseguimos — murmurei, sorrindo entre as lágrimas.

— O que pensa em fazer agora? — ele perguntou de repente, a curiosidade estampada em seu rosto.

Balancei a cabeça, tentando organizar meus pensamentos.

— Eu não sei, parece surreal que tudo finalmente acabou — respondi, minha voz refletindo a confusão e alívio que sentia.

— Para onde você estava indo? Por que viajou? — Edward continuou, seus olhos brilhando com uma curiosidade genuína. Havia algo quase infantil em sua maneira de perguntar, o que fez meus lábios se curvarem em um sorriso.

No entanto, o sorriso se desfez rapidamente quando eu tentei lembrar o motivo exato da minha viagem. A razão parecia ter escapado da minha mente, como um fio solto em meio a um emaranhado de pensamentos. A viagem estava inicialmente envolta em uma névoa de ansiedade e pânico, e agora, com o perigo aparentemente afastado, os detalhes da minha missão se tornaram nebulosos.

— Eu... — comecei, mas as palavras ficaram presas na minha garganta. — Eu não sei... — Puxei os fios do meu cabelo com as mãos, a ansiedade começando a tomar conta de mim. Meus olhos se arregalaram de medo. — Eu não consigo me lembrar.

Edward notou meu desespero e, em vez de pressionar, tentou oferecer um conforto silencioso. Ele colocou uma mão gentil em meu ombro, um gesto pequeno, mas significativo. Sua presença parecia oferecer um anseio de segurança, mesmo que eu não conseguisse reter as memórias que estava tentando recuperar.

A confusão e o medo eram esmagadores. Tentei desesperadamente agarrar as memórias que se dissipavam, mas cada vez que eu fechava os olhos, as lembranças fugiam como vapor. Meus esforços para recuperar o rosto da minha mãe, a última conversa que tivemos, e a briga que tivemos se tornavam uma fonte constante de angústia e desespero.

Eu fechei os olhos, tentando visualizar o rosto de minha mãe, mas tudo o que conseguia ver era uma névoa turva. Suas características eram sombras imprecisas e os detalhes, uma confusão de cores e formas. A voz dela, que eu sabia que deveria ser clara e reconhecível, se tornava um sussurro distante e inidentificável. Cada tentativa de recordar nossa última conversa era como tentar pegar areia que escorrega entre os dedos.

A briga que tivemos, um episódio que deveria ter sido um ponto claro na minha memória, parecia ser apenas uma série de flashes de emoção e palavras que não podiam ser totalmente identificadas. O que eu conseguia lembrar eram fragmentos de gritos, uma sensação de raiva e frustração, mas a clareza e a resolução estavam faltando. Esses pedaços de memórias vinham e iam, uma sensação de descontinuidade e perda.

Eu me encontrava em um estado de pânico silencioso, lutando para manter a calma enquanto as lembranças continuavam a escapar. A sensação de que algo essencial estava se desfazendo era quase insuportável. O medo de que essas memórias nunca voltassem, de que eu estivesse perdendo partes importantes da minha vida, era opressivo.

— Por que é tão difícil? — murmurei para mim mesma, minha voz cheia de desespero. O som era abafado pela agitação ao meu redor. Eu puxava meus cabelos com força, a angústia estampada no meu rosto.

Edward, ao meu lado, percebeu o tumulto interno que eu estava enfrentando. Ele me observava com uma preocupação palpável, o olhar intenso e sério. Sua presença era uma âncora em meio à tempestade emocional que eu enfrentava.

— Bella, eu entendo que isso é doloroso — ele disse com um tom suave e encorajador. — O trauma pode afetar a maneira como lembramos as coisas. Não se pressione demais para recuperar tudo de uma vez. Dê tempo a si mesma. Às vezes, as memórias voltam quando menos esperamos.

Eu balancei a cabeça, sentindo um aperto no peito ao tentar absorver o que ele estava dizendo. A lógica em suas palavras não conseguia aliviar o peso da frustração que eu sentia. Cada tentativa de lembrar parecia aumentar o meu medo de perder essas memórias para sempre.

— E se eu nunca conseguir lembrar? — perguntei, minha voz embargada pelo medo. — E se essas memórias se perderem para sempre? O que eu vou fazer?

A tristeza no olhar de Edward refletia a gravidade da situação. Ele tentava oferecer um sorriso reconfortante, mas a dor em seus olhos indicava que ele também estava preocupado.

— Não pense assim — ele respondeu com firmeza, tentando acalmar meu desespero. — Há sempre esperança. Vamos focar no presente e no que podemos fazer agora. Você não está sozinha nisso.

Apesar da oferta de conforto de Edward, o medo continuava a me assombrar. Eu sabia que precisava encontrar uma maneira de lidar com isso, só não sabia como fazer isso.