Ecos do tempo
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Se eu ainda tinha alguma esperança ao entrar na cabine de comando, essa esperança desapareceu rapidamente. Não havia nada ali, nada fora do comum, nada que pudesse explicar o porquê da explosão. Os pilotos estavam concentrados e tudo parecia normal.
Não havia sinais de sabotagem, nenhum indício de falha mecânica. Nenhum dos tripulantes ou passageiros parecia estranho, e nada justificava o motivo para o desastre iminente.
Então, o que eu deveria fazer? Como poderia impedir o inevitável?
Essas perguntas ecoavam na minha mente, mas as respostas me escapavam completamente. Cada tentativa de raciocinar parecia inútil, como se eu estivesse batendo contra uma parede invisível. Eu me sentia impotente, perdida em meio a um ciclo que parecia não ter fim. Pela primeira vez desde que tudo começou, a determinação que me havia guiado até ali foi substituída por uma sensação avassaladora de desespero. O vazio que se instalou em meu peito era esmagador, e, sem saber o que mais fazer, só conseguia me render ao sentimento de que, talvez, não houvesse nada que eu pudesse fazer para mudar meu destino
Com a cabeça entre as mãos, finalmente me rendi à brutal realidade. Não havia nada que eu pudesse fazer. Absolutamente nada.
Todo o meu esforço, toda a minha luta, não haviam levado a lugar nenhum. Senti-me esmagada pela impotência, uma sensação sufocante de derrota que parecia engolir tudo ao meu redor.
Sentei-me em uma cadeira na cabine, olhando para o nada, deixando o tempo passar. Os minutos se arrastavam, cada um mais pesado que o anterior, enquanto eu aguardava o inevitável. Não havia mais luta, nem tentativa de escapar. Só restava a aceitação amarga de que a explosão viria, trazendo consigo a dor, a morte... e o ciclo continuaria.
Eu estava presa em um pesadelo sem fim, onde cada tentativa de mudança resultava em fracasso. E enquanto o relógio avançava em direção ao momento fatídico, eu me permiti afundar na desesperança, ciente de que estava vivendo um tormento sem saída.
Naquele momento, desisti de lutar, de tentar entender ou evitar o que estava para acontecer. Apenas fiquei ali, imóvel, esperando o fim que sabia que viria, porque, no fundo, sentia que nada, nenhuma ação ou decisão minha, poderia mudar o que estava destinado a acontecer.
Eu não sabia ao certo quantos ciclos haviam se passado. O tempo parecia desmoronar em uma sequência interminável de tentativas e falhas. No início, acreditei que isso poderia parar se eu simplesmente não fizesse nada, talvez morrer fosse melhor do que passar a eternidade repetindo o mesmo ciclo.
Mas os ciclos nunca pararam.
O pânico me dominava cada vez mais. A ideia de ficar para sempre naquele loop me aterrorizava. Talvez, de fato, eu já estivesse morta e aquele fosse o inferno, obrigando-me a reviver o dia da minha morte sem cessar.
O que eu havia feito para merecer aquilo? Que erro cometi?
Essas perguntas ecoavam na minha mente, enquanto eu tentava desesperadamente entender o que estava acontecendo. Estava começando a duvidar da minha própria sanidade, me perguntando se talvez estivesse louca, se tudo aquilo não passava de uma alucinação criada pela minha própria mente. Aquilo era real? Ou eu estava presa em um pesadelo do qual não conseguia acordar?
A desesperança e a frustração começaram a me consumir, me levando à beira da loucura. Quando cheguei ao vigésimo ciclo, minha resistência mental estava em frangalhos. Eu simplesmente não conseguia mais suportar. A necessidade de sair daquele avião se tornou insuportável, uma obsessão desesperada. Eu precisava fugir, escapar de qualquer forma, mesmo que para isso eu tivesse que fazer algo impensável.
Minha mente estava completamente fragmentada, os limites entre realidade e ilusão se desfazendo diante de mim. Eu estava perdendo o controle, mergulhando cada vez mais fundo na loucura que parecia ser a única saída daquele ciclo infernal.
Então, quando acordei novamente, perto do trigésimo ciclo, a desesperança havia se transformado em uma determinação frenética. Corri em direção à cabine de comando, sem pensar nas consequências, sem me importar com o que poderia acontecer.
Os comissários me olharam surpresos quando me viram aparecer de repente, mas já não me importava com mais nada. Peguei o extintor de incêndio e, sem hesitar, comecei a bater na porta de embarque, tentando abrir a alavanca que estava travada. A adrenalina corria pelo meu corpo, e meu único pensamento era de que precisava sair daquele avião, a qualquer custo.
Como das outras vezes, fui imobilizada por dois funcionários, mas, enquanto gritava e lutava, algo inesperado aconteceu. Notei que, com os golpes desesperados, consegui rachar a janela de vidro da porta. Em um instante, a rachadura se espalhou, e a janela se partiu, explodindo em milhões de cacos que foram lançados para fora.
A despressurização foi imediata e brutal. Todos nós fomos sugados em direção à abertura, mas o espaço era pequeno demais para que qualquer um de nós fosse realmente expelido. O avião começou a sacudir violentamente devido à turbulência, e fui arremessada para cima com uma força que parecia impossível de resistir. Minha cabeça bateu com força no teto da cabine, e tudo ao meu redor se apagou em uma escuridão repentina.
E então, eu não senti mais nada.
Q Quando abri os olhos, a dor na cabeça era intensa, latejando com cada batida do meu coração. Estava deitada em um espaço tão apertado que, ao estender a mão, consegui tocar o teto. Olhei para o lado e vi uma aeromoça sentada ao meu lado, com uma expressão de dor enquanto pressionava uma bolsa de gelo contra a testa.
— Não se levante — avisou a aeromoça, percebendo que eu tentava me erguer. — Você bateu a cabeça com força antes, sangrou bastante. Sorte que tínhamos um médico a bordo.
Minha mente ainda estava confusa, lutando para se lembrar dos eventos anteriores. — Onde estamos? — perguntei, tentando entender o que havia acontecido.
— Aqui é a cabine de descanso — respondeu a aeromoça. — Trouxemos você para cá depois que desmaiou. Estávamos preocupados, mas o médico disse que você vai ficar bem.
As memórias começaram a retornar aos poucos: a janela quebrada, a despressurização, a turbulência violenta... Mas algo estava errado. O avião já não deveria ter caído?
Um pânico crescente tomou conta de mim. — Que horas são? — perguntei, minha voz carregada de urgência. A aeromoça me olhou com uma expressão confusa, claramente surpresa pela minha pergunta.
— Isso importa agora? — Ela revirou os olhos. — Sabe o que você fez? Estamos pousando antes por sua causa!
Pousando?
— Que horas são? — repeti com o mesmo tom de urgência, e a aeromoça suspirou sem paciência, retirando o celular do bolso.
— São 10h47min, faz um pouco mais de 30 minutos desde que você desmaiou.
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Era impossível. Pela primeira vez, o ciclo não havia reiniciado às 09h45min. O avião não havia explodido, e eu estava viva, consciente, ainda dentro daquela aeronave. O pânico que me dominava durante tantos ciclos começou a se dissipar, dando lugar a uma confusão ainda maior.
A aeromoça, ainda irritada, olhava para mim como se estivesse esperando uma resposta. Mas eu mal conseguia processar o que estava acontecendo. Como isso era possível? O que havia mudado?
Tentei me levantar, apesar da advertência da aeromoça, mas minha cabeça latejava com uma dor intensa, fazendo-me cambalear e me apoiar na parede estreita da cabine de descanso. Tudo ao meu redor parecia surreal, como se eu ainda estivesse presa em um sonho. Mas a dor era real. O cansaço em meus músculos, a respiração pesada, tudo indicava que aquilo não era uma ilusão.
Isso é real. Tentava me convencer do que parecia impossível. Pela primeira vez, eu me permiti sentir um pouco de esperança.
O avião estava pousando. Eu não sabia se deveria me sentir aliviada ou mais apavorada do que nunca. E se tudo isso ainda fizesse parte desse pesadelo? E se, de alguma forma, aquilo fosse uma armadilha, um truque da minha mente fragmentada ou algo ainda pior?
Mas havia algo que eu não podia ignorar. Por mais aterrorizante que fosse, havia a possibilidade de que, de alguma forma, eu tivesse quebrado o ciclo. Algo que eu fiz, talvez o caos que causei ao tentar abrir a porta de emergência, ou o simples fato de ter perdido a consciência mais cedo do que estava programado havia alterado a sequência dos eventos.
Eu sabia que precisava descobrir mais. Com as mãos trêmulas, tentei falar com a aeromoça novamente.
— O que aconteceu enquanto eu estava desacordada? — perguntei, minha voz falhando enquanto tentava manter a calma.
A aeromoça, visivelmente cansada e ainda irritada, suspirou antes de responder.
— Depois que você desmaiou, o piloto decidiu que seria mais seguro pousar em um aeroporto próximo. Não podíamos arriscar que algo mais acontecesse. Já enviamos um aviso de emergência, e vamos pousar em breve. — Ela pausou, olhando para mim com mais atenção. — Mas você precisa ficar calma. O que quer que tenha acontecido com você... Eu nunca vi alguém reagir assim. Acredite, todos nós ficamos com medo.
Acenei com a cabeça lentamente, ainda tentando compreender o motivo daquilo tudo estar acontecendo, mas a verdade era que eu estava longe de me sentir calma. Precisava descobrir o que exatamente havia quebrado o ciclo, o que tinha permitido que o tempo avançasse. E, mais importante, o que aconteceria a seguir?
Quando o avião finalmente começou a descer para pousar, um suspiro de alívio escapou dos meus lábios. Eu estava aliviada, pensando que finalmente havia quebrado o ciclo, que aquele pesadelo estava chegando ao fim.
Mas essa sensação de alívio durou pouco.
Antes que pudesse processar o que estava acontecendo, um estrondo ensurdecedor me fez encolher. O avião sacudiu violentamente, e eu me segurei a parede, meu coração batendo descontroladamente. O som de metal retorcido e o cheiro de fumaça começaram a invadir a cabine. As luzes piscavam, e o pânico tomou conta dos passageiros.
Olhei ao redor, sem acreditar no que via. As máscaras de oxigênio caíram do teto novamente, e as pessoas começaram a gritar, o caos se instalando de maneira familiar e aterrorizante. Eu estava vivenciando o mesmo evento catastrófico que havia tentado evitar. O ciclo não havia terminado. De alguma forma, o avião estava prestes a cair novamente.
A gravidade começou a nos puxar para baixo e senti o peso do desespero se instalando novamente. Meu rosto ficou pálido enquanto a realidade se instalava. O ciclo parecia ter começado a se reiniciar e eu estava presa na mesma sequência horrenda.
Os gritos e a turbulência aumentavam, e me preparei para o impacto. A sensação de déjà vu era esmagadora. A dor que eu conhecia bem estava prestes a se repetir, e minha mente gritava em pânico.
A descida foi devastadora. O impacto do meu corpo contra a parede, a tão conhecida dor e a sensação de tudo ao meu redor desmoronando eram excruciantes. Lutei contra a dor, mas era inútil. A escuridão tomou conta, e eu perdi a consciência novamente.
Quando acordei, o relógio marcava 09h45min. O ciclo havia reiniciado, e eu estava de volta à minha poltrona, exatamente como antes.
Meus ombros caíram em desesperança. Por um breve momento, um alívio tênue havia surgido em meu coração, me fazendo acreditar que talvez, de alguma forma, eu tivesse conseguido quebrar o ciclo. Mas esse sentimento se dissipou rapidamente, substituído por algo muito mais devastador.
A realidade me atingiu com uma força brutal, e a esperança que eu havia sentido se transformou em uma dor insuportável, uma angústia tão profunda que ultrapassava qualquer dor física que eu já tinha experimentado. Era como se meu espírito estivesse se fragmentando, pedaço por pedaço, cada parte de mim desmoronando em um abismo sem fim.
Como um frágil copo de porcelana, meu mundo inteiro se quebrou em mil pedaços.
Olhei ao redor, vendo os mesmos rostos, ouvindo as mesmas conversas, sentindo o mesmo frio na espinha. A realidade de estar presa em um ciclo eterno, repetindo a minha morte inúmeras vezes pela eternidade, caiu sobre mim com um peso esmagador.
O ciclo havia retornado, e eu estava de volta ao mesmo ponto de partida, encarando a inevitabilidade de mais uma repetição. A sensação de estar em um pesadelo sem fim era insuportável e não havia mais nada, nem mesmo um único fio de esperança, que me impedisse de quebrar.
Eu estava condenada e reviver essa tragédia, dia após dia.
Por toda a eternidade.
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