Apesar de ter comido o senzu, a moleza do fim de um dia demasiado comprido e cansativo abateu-se sobre mim. Afundei-me no sofá do salão da Capsule Corporation, espreguiçando-me ostensivamente. Recostei-me sonolenta, a ceder à mais absoluta das preguiças. A televisão estava ligada num programa animado de início da noite, mas o som de fundo, em que se misturava música, com exclamações entusiastas e gargalhadas contagiantes, não foi capaz de me arrancar do casulo onde me encerrava para esquecer o pesadelo que tinha vivido nas montanhas.

Bocejei ruidosamente, espreitando o monte de revistas pousado na mesa junto ao sofá. Poderia distrair-me com uma leitura leve, mas estava demasiado cansada até para folhear uma revista. Marquei mentalmente uma ida à manicure no dia seguinte, tinha as mãos numa desgraça, avaliei mirando-as com os olhos semicerrados. O cabelo estava salvo. Lavado e escovado, modelei os caracóis com espuma e gostei de ver como tinha recuperado a minha orgulhosa nuvem azul em redor do rosto. Assustei-me com a cara que vi refletida no espelho – tinha umas olheiras de meter medo. Haveria de dormir, naquela noite, com rodelas de pepino para acabar com elas.

Alisando a barriga por cima do tecido da blusa, recordei que Kuririn tinha dito que a metade do feijãozito que me tinha curado as mazelas não engordava mas, pelo sim, pelo não, no dia seguinte, para além da manicure, faria também uma visita ao ginásio. O que sabiam os homens sobre calorias?

Escutei vozes e vi os meus pais entrarem no salão. Estendi-me no sofá, cobrindo os olhos com os braços. Cruzei as pernas. Como previsto, a minha mãe bombardeou-me com perguntas, às quais não me apetecia responder. Detestava a maneira condescendente como ela me abordava quando estava preocupada comigo, tratando-me como uma adolescente em vez da mulher adulta que eu, efetivamente, era.

- Mama! – Interrompi. – Está tudo bem comigo. Só preciso descansar.

- É verdade que Son-kun regressou?

- Sim, mama… — suspirei.

O meu pai, que percebia melhor as minhas atitudes e que vinha sempre em meu auxílio, pediu à mãe que fosse ver a estufa e salvou-me do bombardeamento. A Sra. Brief estava agitada e eu percebi que não era apenas por causa da minha aventura nas montanhas quando ouvi o meu pai dizer, sentando-se na ponta do sofá que eu deixara livre, enquanto acendia um cigarro:

- Espero que o saiya-jin fique bem alojado. A tua mãe anda tão preocupada com ele, especialmente por causa da roupa. Não faz a mínima ideia do que veste um saiya-jin e já me disse que amanhã vai ao Centro Comercial para renovar o armário do quarto dos hóspedes. As mulheres têm com cada preocupação!

Espevitei-me. Sentei-me no sofá.

- Vegeta está aqui?

- Sim. Veio ter comigo esta tarde e pediu-me que o ajudasse nos treinos. Queria uma câmara de gravidade, igual àquela que eu tinha feito para Son-kun.

Bem, fazia sentido. Para onde iria ele treinar? Havia muitos lugares possíveis na Terra, sítios místicos, desafiantes, solitários, extremos. Mas nada como a Capsule Corporation, catedral da mais alta tecnologia do nosso mundo, onde poderia beneficiar dos conhecimentos do génio que era o meu pai, o Dr. Brief, ou do meu próprio génio.

Fazia duplamente sentido. Talvez a Capsule Corporation fosse semelhante a um lar, um porto de abrigo. Ele não conhecia outra casa. Estivera connosco e com os namekusei-jin, após o regresso de Namek. Chegara ali naquele dia, depois da viagem anual e infrutífera pelo espaço.

Fazia triplamente sentido! Fora o meu pai que desenvolvera a nave que Goku utilizara para viajar até Namek e que fora equipada com um convés especial onde se podia controlar a força da gravidade até um máximo de cinquenta vezes essa força. E fora por causa desse treino especial, mais umas poucas voltas do destino, que Goku atingira o nível dos super saiya-jin.

- E tu, o que fizeste? – Perguntei ansiosa.

- Ora, o que querias que eu fizesse? Ele ameaçou matar-me a mim, à tua mãe, ao gato, destruir a Capsule Corporation e afundar a cidade inteira se eu não o ajudasse. Tentei explicar-lhe que se treinasse com uma gravidade trezentas vezes superior à gravidade terrestre, o corpo dele não aguentaria tanto peso. Disse-lhe que se ele pesasse sessenta quilos, com uma força de gravidade desse calibre, o peso dele aumentaria para dezoito toneladas, humanamente impossível de suportar.

- E ele, papa?

- Ele ficou furioso, rebentou-me com a porta do laboratório, gritou-me que não era humano e ordenou-me que começasse já a trabalhar no que me pedia.

- E tu, papa?

- Eu disse-lhe que podia começar a treinar dentro de dias. A máquina da gravidade já está instalada na nave que ele nos roubou, há um ano atrás. Apenas tenho de verificar o seu funcionamento e ajustar o mecanismo para que permita mais do que cinquenta vezes a força da gravidade. – Acrescentou, puxando uma passa ao cigarro. – E também devo por o stereo a funcionar em condições, não gosto de deixar pontas soltas no meu trabalho. Son-kun não se preocupou com o stereo, mas acho que um bom som ajuda qualquer ambiente. Mesmo num com uma força de gravidade gigantesca.

- Posso ajudar, papa?

Riu-se para mim, deu-me uma palmadinha no joelho e respondeu:

- Não será necessário. Serão apenas trabalhos de manutenção e pequenos ajustes. Sei que não gostas de tarefas rotineiras, gostas mais de inovações e de desafios.

- Mas, se quiseres…

- Obrigado, minha querida. Mas não será mesmo necessário.

Recostou-se a saborear o cigarro. O gato preto apareceu, roçando-se nas minhas pernas, saltando depois para o sofá e daí para as pernas do meu pai, escalando-o até ao ombro, onde gostava de se aninhar. O meu pai acariciou-o.

Fiquei agitada com a conversa. Saber que Vegeta estava na minha casa deixou-me curiosa e apreensiva. Como se iria ele comportar? Ou mais importante ainda, como iria eu comportar-me? A dúvida avolumou-se-me no cérebro, como uma bola azul a soltar faíscas e a crescer no firmamento. As montanhas desfaziam-se à medida que a bola inchava, inchava. Freeza sorria, um braço levantado, o dedo indicador esticado a fazer crescer uma bola antagónica, rosácea e a refletir os raios solares como se estivesse coberta de milhentos espelhos. Sentia o calor, sentia o medo. Olhei para o guerreiro que nos defendia e que comandava a bola azul. Gritei o nome dele.

- Vegeta!!

Abanaram-me. Despertei.

- Bulma-chan, estavas a ter um pesadelo?

Esfreguei os olhos. Tinha o meu pai debruçado sobre mim com um ar preocupado.

- Talvez… Não me lembro… de ter adormecido.

- É melhor ires dormir. Estás cansada. O dia foi muito longo.

- Acho que os próximos dias prometem ser ainda mais longos…

O gato miou. Até o bichano parecia preocupado comigo.

Encaminhei-me para o quarto, amolecida pelo sono. Estava tão dormente, que não me lembro de ter chegado aí. Só sei que acordei na manhã seguinte, estendida sobre a cama, completamente vestida e calçada.

Felizmente, Freeza não tinha voltado aos meus sonhos. Nem Vegeta.

***

Não encontrei Vegeta nesses dias que mantiveram o meu pai ocupado a preparar a nave “Capsule 3” com a máquina que multiplicaria a força da gravidade. Não sei onde se recolhia e nem o procurei. Achei que não o devia fazer, porque afinal ele era um convidado e não se deve importunar os nossos convidados. Mas tentei várias vezes um encontro fortuito, que nunca ocorreu. Sabia que ele dormia no quarto dos hóspedes, como chamava a mamã, mas de todas as vezes que passara pela porta do quarto e espreitara lá para dentro, via o lugar impecavelmente arrumado, a cama feita com as cobertas bem esticadas sobre o colchão, como se ninguém tivesse passado lá a noite.

Yamucha veio ver-me no dia em que o meu pai anunciou que a nave estava pronta. Soube que Vegeta estava ali e acho que ficou com ciúmes. Não sei se por causa de mim, se por haver um sítio especial para treinar com uma câmara onde a gravidade podia ser controlada e que iria ser utilizado por outro que não ele, que era praticamente da casa. Deixou-me um ramo de flores e uma caixa de bombons, que eu devorei em dois dias. Claro que passei o resto do mês no ginásio.

Aos poucos, fui-me esquecendo de Vegeta. Acho que chegou a haver dias inteiros em que nem me lembrei sequer que ele e eu partilhávamos a mesma habitação. Até que chegou outubro e os dias começaram a ficar mais frios e a encolher e aconteceu algo de extraordinário.

Notas finais
Continua...
Próximo capítulo:
O mundo salvo por causa de um acidente.