Ecos do Acaso - Vol. II

3 O Fantasma do Túnel de Yūrei


A estrada que levava ao túnel abandonado de Yūrei era estreita e ladeada por pinheiros escuros, cujas copas formavam um teto que quase bloqueava a luz do sol. A névoa matinal ainda se agarrava às encostas da montanha, envolvendo tudo numa penumbra constante. O túnel era conhecido por ser maldito: histórias de motoristas que desapareceram, sussurros ouvidos sem ninguém à volta, e sombras que não pertenciam a este mundo.

Segui pela estrada, sentindo cada pedra sob os pneus da mota. O ar estava pesado, quase líquido. À medida que me aproximava da boca do túnel, percebi que os sons da floresta desapareciam. Nenhum pássaro, nenhum vento, nenhum murmúrio. Apenas o silêncio absoluto, que parecia engolir cada pensamento.

A aplicação piscou de repente. Apareceu com um ícone de um túnel e uma frase simples: “Entrada activa.”

Estacionei a mota a alguns metros de distância. Olhei para a abertura escura do túnel. O interior parecia maior do que a própria boca. Um frio intenso escapava do vão, atingindo-me os ossos. Respirei fundo e avancei.

Mal entrei, senti a atmosfera mudar completamente. A escuridão não era apenas a ausência de luz; parecia sólida, a envolver-me, a pressionar-me os ombros. O som dos meus passos ecoava de forma estranha, como se a distância que percorri fosse maior do que a que realmente andara. Um leve sussurro percorreu o túnel: palavras indistintas, arrastadas, impossíveis de decifrar, mas claras no tom de aviso.

Segui adiante. Ao centro, notei marcas antigas nas paredes: mãos pressionadas contra o cimento, como se alguém tivesse tentado escapar ou avisar os que viriam depois. O chão estava húmido, e pequenas poças refletiam o meu reflexo deformado. Mas não era só o meu reflexo. À distância, uma silhueta aparecia e desaparecia, impossível de focar. Alta, pálida, cabelo comprido cobrindo o rosto, uma imagem clássica de Yūrei.

A aplicação abriu-se de novo: “Presença detectada: espírito errante.”

A figura moveu-se ligeiramente. Sem passos audíveis, aproximou-se de mim, mantendo o corpo parcialmente oculto nas sombras. O coração disparou. Cada músculo da minha face e braços parecia paralisar, mas o corpo continuava a avançar. Um vento frio percorreu o túnel, trazendo consigo o cheiro de lama antiga e perfume indescritível, doce e desagradável ao mesmo tempo.

Senti a necessidade de recuar, mas cada passo parecia esticar o túnel à minha frente, tornando impossível medir a distância. A silhueta desapareceu à minha direita, reaparecendo à esquerda. Comecei a ouvir o murmúrio de vozes, todas a falar simultaneamente: pedidos de ajuda, advertências, gritos silenciosos. Cada uma parecia conhecer-me, mas de uma vida que eu não vivia.

A aplicação piscou outra vez, desta vez com um alerta vermelho: “Interacção obrigatória.”

A Yūrei aproximou-se mais. Quando ergui os olhos para tentar olhar para o rosto, vi apenas sombras densas e uma única lágrima escorrer pelo cabelo negro. Um som baixo, arrastado, ecoou no túnel, quase como uma pergunta: “Ficar ou partir?”

A escolha parecia impossível. Se permanecesse, talvez entendesse a história do espírito e do túnel, se partisse, poderia escapar, mas o eco das vozes continuaria a seguir-me, silencioso, invisível, presente em cada noite. O chão tremeu ligeiramente sob os meus pés, como se o túnel estivesse vivo, a observar-me, a reagir à minha hesitação.

Um relâmpago de luz atravessou a entrada do túnel, revelando, por um instante, várias figuras à minha volta, todos espectros de passageiros que desapareceram antes de mim. Olharam para mim em uníssono, não com ódio, mas com expectativa.

A aplicação mostrou a última mensagem antes de se desligar sozinha: “Escolha registada apenas na memória do túnel.”

Fiquei parado, sentindo o peso da escuridão e o sussurro persistente das vozes. O túnel continuava a respirar em torno de mim, invisível, vivo, aguardando a minha próxima decisão. E compreendi, com uma clareza arrepiante, que algumas portas nunca se fecham totalmente, e alguns espíritos nunca nos deixam ir por completo.