Ecos do Acaso - Vol. II

5 O Espelho da Aldeia Esquecida


Seguindo pelo vale, encontrei a entrada de uma aldeia que não constava em mapas recentes. Os relatos antigos falavam de uma aldeia que desaparecia do mundo exterior, aparecendo apenas para aqueles que eram chamados ou observados. O ar estava pesado, húmido, e os edifícios pareciam envelhecidos de forma desigual, como se o tempo tivesse passado mais devagar ali. Cada porta e janela parecia esconder um segredo, e o som dos meus passos ecoava pelas ruas vazias.

A aplicação piscou de repente com uma frase curta: “Zona de reflexão activa.”

Segui por uma rua estreita e cheguei a uma casa antiga, quase em ruínas, onde uma porta entreaberta mostrava um reflexo distorcido da rua. Ao aproximar-me, percebi que não era apenas um reflexo normal, parecia absorver o espaço, invertendo algumas sombras e alongando os contornos. Uma inscrição antiga estava gravada no batente: “Olha, e o que vês será parte de ti.”

Entrei na casa. O chão de madeira rangia sob cada passo, e o cheiro a pó e madeira antiga impregnava o ar. No centro da sala, um grande espelho ocupava quase toda a parede. Não refletia apenas a minha imagem, mas também cenas de lugares que reconhecia das lendas que acompanhava: a ponte do Tengu, o túnel de Yūrei, a casa das lanças de fogo, a aldeia costeira. Cada cenário pulsava dentro do vidro, como se estivesse vivo.

A aplicação abriu-se de novo: “Interacção recomendada: aceitação ou recusa do reflexo.”

Olhei para o espelho, e a minha imagem começou a distorcer-se lentamente. Os traços do meu rosto alongaram-se, os olhos ficaram mais fundos, e uma sombra surgiu atrás de mim, o meu outro “eu”, mas com um sorriso frio e enigmático. O reflexo começou a falar sem emitir som, transmitindo pensamentos diretos à mente: “Aceita-me ou permanecerás parte da aldeia para sempre.”

Senti um arrepio intenso. Cada objecto dentro da casa parecia refletir versões distorcidas de mim ou de memórias que não reconhecia completamente. A aplicação piscou mais uma vez: “Escolha registada apenas na memória do espelho.”

Uma porta atrás de mim bateu sozinha, e a luz começou a oscilar. As sombras alongaram-se e dançaram sobre o chão e paredes. O reflexo começou a mover-se independentemente de mim, aproximando-se como se quisesse sair do vidro e ocupar o espaço real. Tentei afastar-me, mas os meus pés sentiram-se presos ao chão.

O espelho mostrou uma nova cena: a aldeia inteira, com habitantes que nunca tinham existido, observando-me através de janelas e portas, todos com expressões vazias, mas atentos a cada movimento. O meu outro “eu” sorriu ainda mais, inclinando-se em minha direção. O murmúrio de vozes ecoava de todos os cantos da casa: “Escolhe agora, ou serás refletido para sempre.”

O chão tremeu levemente, e a minha sombra começou a se alongar, fundindo-se com o meu outro “eu”. Um vento súbito fez folhas secas entrarem pela janela aberta, levantando poeira e cheiro a madeira queimada. Tudo dentro da casa parecia sincronizado com a presença do espelho, ajustando-se à minha hesitação, testando cada instante de indecisão.

Olhei novamente para o espelho. Não era apenas o meu reflexo. Era a minha história, todos os lugares que visitei, todas as experiências que vivi, condensadas e vivas dentro do vidro, aguardando que eu as aceitasse como parte de mim.

A aplicação desapareceu do ecrã, deixando apenas o reflexo e o silêncio pesado da casa. Senti que qualquer movimento meu seria observado, avaliado, e que a aldeia, mesmo invisível do lado de fora, continuaria a existir, silenciosa, aguardando o momento certo.

E assim fiquei, parado diante do espelho, consciente de que, qualquer que fosse a escolha, a minha imagem jamais voltaria a ser a mesma. O meu outro “eu” no vidro mantinha o sorriso frio, paciente, e a certeza arrepiante de que a aldeia esquecida guardaria a minha hesitação para sempre, se eu não decidisse.