Ecos do Acaso - Vol. II
8 A Floresta dos Sussurros
A entrada na floresta era marcada por um torii velho e rachado, quase engolido pelo musgo e pelas árvores que cresciam desordenadamente. Conhecida como a Floresta dos Sussurros, ninguém entrava ali sem sentir que algo invisível observava cada passo. As histórias falavam de espíritos antigos, yokais que imitavam vozes humanas, e de viajantes que desapareciam para nunca mais serem vistos. A névoa tornava-se mais densa à medida que avançava, transformando o caminho num corredor entre sombras e silêncios que pareciam vivos.
A aplicação piscou de repente: “Zona de risco: vigilância ativa.”
O chão estava húmido, coberto de folhas em decomposição e raízes que surgiam como serpentes negras. Cada passo que eu dava parecia despertar algo adormecido. Sussurros surgiam entre os troncos, algumas vezes claros, outras apenas fragmentos de palavras: “Volta… Não é seguro… Segue o teu próprio passo…”. Não havia vento, mas as folhas moviam-se, e sombras alongavam-se como se tivessem vontade própria.
Segui por um trilho estreito, ladeado por árvores altas. Cada tronco parecia projetar rostos e formas humanas, mas quando olhava mais de perto, eram apenas cascas e musgo. O ar cheirava a terra molhada e a madeira antiga, e cada respiração parecia absorver um pouco da minha força. Senti um arrepio percorrer-me a espinha, não pelo frio, mas pela consciência de que a floresta estava viva e a reagir à minha presença.
A aplicação abriu-se de novo, desta vez com uma instrução curta: “Escolha: observar ou ignorar os sussurros.”
Enquanto hesitava, percebi que algumas sombras começaram a mover-se de forma independente. Formas humanoides surgiam e desapareciam, sempre nas margens da visão periférica. Um riso distante ecoou entre os troncos, seguido de um murmúrio mais suave, repetindo meu próprio nome. Cada sussurro parecia puxar-me em direções diferentes, testando a minha sanidade e a minha atenção.
A meio do caminho, um pequeno lago apareceu entre as árvores. A água estava escura, quase negra, refletindo o céu coberto e a névoa. Ao aproximar-me, vi que o reflexo não era apenas o meu; outras figuras estavam misturadas na água — passageiros de lugares que já visitara, sombras de experiências passadas, ecos de encontros anteriores com yokais e espíritos. Cada uma observava-me, imóvel, mas viva na forma como o reflexo se movia com o meu.
A aplicação piscou mais uma vez: “Interacção recomendada: confrontar ou desviar-se.”
Enquanto olhava para a água, senti que uma presença se aproximava por trás. Uma figura feminina, vestida de branco, surgiu lentamente entre a neblina. O cabelo comprido escondia o rosto, mas podia sentir os olhos fixos em mim. Os sussurros multiplicaram-se, ecoando em minha mente, repetindo palavras que não compreendia, mas carregadas de aviso e curiosidade. As sombras na floresta começaram a avançar, estendendo-se como braços invisíveis.
O lago começou a agitar-se sozinho, formando ondas que não obedeciam ao vento, e reflexos antigos começaram a se mover para fora da água, aproximando-se de mim. A figura feminina inclinou-se, e um sussurro claro surgiu: “Segue o teu caminho ou torna-te parte da floresta.”.
A aplicação desligou-se. Restava apenas a floresta, os sussurros e a certeza de que qualquer passo em falso poderia significar ficar preso naquele espaço, entre sombras e reflexos, para sempre. O caminho à frente permanecia coberto de névoa, e a presença invisível aguardava, silenciosa, pronta a reagir a qualquer decisão.
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