Ecos do Acaso - Vol. I

6 A Floresta que Aprende os Teus Passos


A aplicação parecia preferir lugares onde o movimento humano se diluída, margens, limites, zonas onde a orientação depende mais da memória do que de placas.

A coordenada seguinte levou-me para longe do betão. Aokigahara. O nome apareceu completo, sem distorção, como se não tivesse nada a esconder. A Floresta do Mar de Árvores estendia-se aos pés do Monte Fuji, silenciosa e densa, famosa por histórias que ninguém conta até ao fim.

Cheguei ao início de um trilho pouco depois do amanhecer. O céu estava cinzento, baixo, e a humidade colava-se à pele. Um aviso em madeira indicava o percurso principal, acompanhado por fitas coloridas presas às árvores, marcas deixadas por quem entra para conseguir sair.

A aplicação vibrou.

“Área de aprendizagem activa.”

Entrei na floresta.

O som mudou quase de imediato. Os ruídos exteriores desapareceram, substituídos por um silêncio irregular, quebrado apenas pelo estalar ocasional de ramos sob os meus pés. O solo era macio, coberto por musgo espesso. Cada árvore parecia ligeiramente inclinada na minha direcção, como se escutasse.

Caminhei durante cerca de vinte minutos, sempre em linha recta, seguindo as fitas. O trilho parecia estável. Demasiado estável. Quando me virei para trás, tive a sensação desconfortável de que a distância percorrida era maior do que devia.

O telemóvel acendeu-se sozinho.

Relato associado encontrado.

“A floresta não perde pessoas. Apenas aprende como andam.”

Continuei.

Comecei a notar pequenas mudanças. As fitas que eu tinha visto antes surgiam agora em cores diferentes. Algumas estavam atadas de forma mais recente. Outras pareciam antigas, quase integradas na casca das árvores. Em certos pontos, havia pegadas no solo, exactamente do meu tamanho.

Pareciam recentes.

O trilho dividiu-se. Não me lembrava de ali existir uma bifurcação. Parei. O silêncio tornou-se mais denso, quase expectante. Escolhi o caminho da esquerda.

Após alguns minutos, o trilho voltou a unir-se ao principal.

Reconheci o local.

Era o ponto de entrada.

O coração acelerou. Verifiquei o relógio. Não tinham passado mais de quarenta minutos desde que entrara. Ainda assim, a luz parecia diferente, mais baixa, como se o dia tivesse avançado sem mim.

A aplicação mostrou uma nova mensagem:

“Padrão confirmado.”

Senti uma presença atrás de mim. Não ouvi passos, mas a certeza era absoluta. Virei-me lentamente.

Entre as árvores, vi movimento. Uma silhueta avançava com cuidado, imitando a forma como eu caminhava momentos antes. Parava quando eu parava. Avançava quando eu avançava.

Não tinha rosto.

Era uma espécie de recorte humano feito de sombra e musgo, com contornos imprecisos, como uma memória incompleta. Quando se aproximou mais, percebi algo perturbador: os pés tocavam o chão exactamente onde os meus tinham tocado antes.

A aplicação vibrou violentamente.

“Cópia em progresso.”

Afastei-me rapidamente. O trilho começou a alterar-se. Árvores caídas que não estavam ali antes bloqueavam o caminho. As fitas desapareciam ou surgiam cortadas. A floresta rangia, não com vento, mas com deslocação.

Ouvi outro som.

Passos.

Não eram meus.

Corri. O ar tornava-se cada vez mais pesado, difícil de respirar. As árvores fechavam-se ligeiramente, obrigando-me a baixar a cabeça. Entre a vegetação, vi mais figuras, imóveis, paradas em posições estranhas, como tentativas falhadas de repetição.

Cheguei a uma clareira pequena. No centro, havia um monte de pedras empilhadas, cobertas de musgo. Um marcador improvisado. Alguém tinha deixado ali um telemóvel antigo, desligado.

No ecrã estilhaçado, uma mensagem congelada:

“Não aceleres. Ela aprende melhor assim.”

O som de passos aproximava-se por todos os lados.

A aplicação abriu-se uma última vez.

“Deseja sair com o padrão actual?”

Olhei em redor. A clareira parecia mais pequena. A figura sem rosto aproximava-se, agora quase perfeita na imitação dos meus movimentos.

Não respondi.

Dei um passo em frente.

A floresta respondeu, ajustando-se.

E, naquele instante, tive a certeza desconfortável de que, mesmo que encontrasse a saída, algo sairia comigo, sabendo exactamente como eu ando, como hesito, como fujo.

E isso parecia ser suficiente.