Ecos do Acaso - Vol. I
1 A Coordenada que Não Devia Existir
Nunca descarregues uma aplicação às três da manhã. Foi isso que pensei, demasiado tarde, quando o ecrã do telemóvel iluminou o quarto minúsculo do hotel cápsula, algures entre Shinjuku e um beco que não aparecia nos mapas. Tóquio nunca dorme, dizem. Mentem. Há zonas da cidade que adormecem fundo demais.
A aplicação chamava-se RandomNautica, escrita com um erro ortográfico estranho que ninguém nos comentários parecia notar. A descrição prometia “experiências fora do padrão da realidade”. Creepypasta moderna, pensei. Um jogo urbano para turistas entediados. Activei-a sem pensar duas vezes.
Pedi uma coordenada. Não defini intenção nenhuma, erro número dois.
O ponto surgiu quase de imediato: um círculo vermelho pulsante a menos de dois quilómetros. O mapa indicava uma zona industrial antiga, perto da linha Yamanote, onde os armazéns abandonados resistiam à modernização como dentes podres numa boca demasiado branca.
A noite estava húmida. O ar cheirava a ozono e ferrugem. À medida que caminhava, o som da cidade foi ficando para trás, substituído por um silêncio desconfortável, interrompido apenas pelo zumbido distante de cabos eléctricos. As luzes dos postes piscavam com um atraso irregular, como se alguém estivesse a testar a realidade.
A coordenada levou-me a um portão enferrujado, entreaberto. Atrás dele, um complexo industrial abandonado. O mapa indicava que eu já tinha chegado, mas algo no espaço parecia errado: o ar estava demasiado parado, demasiado denso. O telemóvel vibrou.
“Anomalia detectada.”
Foi a primeira vez que vi essa mensagem.
Atravessei o portão. No centro do pátio interior, iluminado por uma única lâmpada trémula, havia algo que não devia estar ali: um torii antigo, de madeira escura, coberto de musgo e fissuras profundas. Um portal xintoísta, fora de qualquer santuário, plantado no meio do betão rachado.
Aproximei-me devagar. O chão rangia sob os meus pés, embora fosse de cimento. Quanto mais me aproximava do torii, mais forte se tornava a sensação de estar a ser observado, não de frente, mas de lado, como se algo estivesse apenas a confirmar a minha presença.
O telemóvel voltou a vibrar. No ecrã, a aplicação tinha aberto uma nova janela, sem eu tocar em nada:
“Este local não consta nos registos.”
Passei a mão pela madeira do torii. Estava fria. Demasiada fria para uma noite de Verão. Nesse instante, ouvi um som atrás de mim, passos lentos, arrastados, mas quando me virei, o pátio estava vazio.
Voltei-me para o torii. Por um segundo, apenas um, tive a certeza de que a abertura central não dava para o outro lado do pátio. Havia escuridão ali. Profunda. E algo dentro dessa escuridão respirava.
Um sussurro percorreu o espaço. Não era japonês. Não era nenhuma língua que eu conhecesse. Ainda assim, compreendi o suficiente para sentir um nó no estômago.
“Foste escolhido ao acaso.”
O ecrã do telemóvel apagou-se.
A lâmpada acima de mim estalou e extinguiu-se. O pátio mergulhou na escuridão total.
Quando tentei recuar, senti que o espaço atrás de mim já não era o mesmo.
E o torii…
O torii parecia estar um pouco mais perto do que antes.
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