Notas iniciais
Olá! Esse aqui está um pouco tenso, com certeza mais pesado do que os outros. Eu sabia que não ia conseguir deixar tudo tão levezinho hauahuaha Espero que gostem ♥ Ah! E claro, como podem ver pelo título, trago-vos explicações :3

Estou devendo uma coisa para vocês. Eu ainda não tive tempo de explicar o motivo pelo qual William teve um curto circuito quando eu o chamei de Willy na noite do nosso primeiro encontro. A verdade é que eu intencionalmente adiei esse tema porque ele coincide com outra primeira vez nossa: o primeiro beijo. Já adianto que na época o evento me pareceu atrevido e medianamente deselegante, mas agora percebo como foi cheio de cortejo e flerte fantasiado de malícia.

Retomando a narrativa, eu passei quase uma semana evitando Will, percebi o quão infantil isso soa e decidi conversar com o sujeito. Eu não sabia onde era sua moradia, no entanto tinha a vantagem de trabalhar no seu local predileto para comer, então apenas aguardei sua chegada. O primeiro problema foi que ele não estava sozinho. Se bem me recordo haviam dois homens, um que hoje eu conheço por Pauly Oximen, primo do meu namorado, e um outro que não me recordo bem como era. William sempre alega desconhecimento quando eu cito essa situação, porém eu tenho quase absoluta certeza que havia outra pessoa fora Paul.

Bem, estou certeza da existência de uma terceira pessoa porque o homem misterioso discutira com Will e foi isso que me impediu de me aproximar. Se eu fosse atendente poderia ter prestado mais atenção na desavença, todavia como garçonete é difícil se concentrar em uma única mesa. O que eu sei é que em determinado momento William batera na mesa alterado, porque foi nesse instante que todos do estabelecimento viraram para observar o que acontecia. Ele também gritara algo como:

—Não era pra ser você! — Direcionado ao desconhecido.

Depois disso tive que levar uma comanda para cozinha e a única coisa que Liam diz é que estava discutindo com Paul, embora já nem se lembre sobre o quê. Quando voltei a sair para a copa Will estava sozinho, muito provavelmente tinha sido repreendido por algum funcionário e seus acompanhantes tinham se afastado. Eu resolvi me aproximar.

—Bom dia, William. — Minha voz saiu tímida e ele estava agitado, pareceu não ouvir. — Bom dia. O que vai querer? — Seu olhar deslizou para meu rosto e seus olhos se encheram de algum sentimento estranho que eu não pude detectar, as sobrancelhas se arquearam e os lábios contraíram um pouco.

—Chá.

Eu sabia que aquela poderia ser a minha última chance de falar qualquer coisa naquele dia, porque nada me garantia que seria eu quem traria seu pedido, portanto resolvi tentar ser direta. Não foi fácil, tendo em vista o que havia acontecido, e já posso adiantar meu fracasso.

—Eu preciso falar com você, ‘tá me ouvindo? — Sua cabeça estava baixa, eu pensei ter visto algum assentimento, por isso dei continuidade. — Eu acho que você deve ter percebido que estou te evitando desde... Bem, desde nosso encontro, se eu posso chamar assim. E... William, você precisa ver o meu lado també-

—Eu posso ter meu chá? — Seu tom foi baixo, mas não por tristeza e sim por ter soado seco. Engoli a saliva que tinha na minha boca e confirmei, me afastando.

Algum acaso do destino fez com que eu fosse a única garçonete livre quando o chá dele ficou pronto, o que me fez ser responsável por leva-lo. Pretendia deixar toda essa história para trás, servi-lo, ir embora e seguir com a minha vida. Só adolescentes vivendo sua primeira paixão dão tanta importância a coisas tão cotidianas quanto um princípio de amizade que não deu certo. No entanto, fui surpreendida novamente.

—Sadie, não quis ser grosseiro com você. É que estou com alguns problemas. — Deixei a xícara em cima da mesa e parei para escutar. — Eu não deveria ter saído sem dizer nada naquele dia, posso te explicar tudo agora mesmo.

—Agora estou trabalhando. — Eu realmente não sei de qual lugar de mim saíra essa afirmação, no entanto até hoje me surpreendo com a responsabilidade que emanou dos meus olhos ao dizer a frase.

—Claro, eu pude perceber. — Dei um risinho cortado. — É por isso que eu vou ser rápido. Também é mais fácil de falar essas coisas sem enrolação.

—Que coisas?

—Me deixe terminar. — Eu comecei a sussurrar uma confirmação, no entanto fui interrompida. — Minha mãe me chamava de... Willy, é por isso que eu odeio esse apelido. Eu... Bem, eu tenho problemas com essa coisa toda. Então, me desculpe ter fugido quando... Enfim...

Chamava? — Eu sei que posso ter soado insensível, mas quando notei que o verbo estava no passado meu cérebro deu um bug e eu quase não ouvi o restante.

—É, ela morreu. — Ele bebeu um gole de chá enquanto eu digeria as informações e depois pareceu esperar alguma reação. Seu semblante estava impassível, com o tempo e a durabilidade de nosso relacionamento eu apenas reafirmei o quão indecifrável William pode ser.

—Nossa, não sei o que dizer... Eu não tinha como saber disso tudo, mas ainda assim me sinto culpada... Você me fez ter um dia tão bom e eu aparentemente só te trouxe um gatilho de sofrimento. Desculpe de verdade. — Recebi um meio sorriso como resposta. — E eu sei que esse assunto é delicado, não quero ser insensível, mas como você ‘tá contando tudo isso... Do que ela morreu? Não precisa responder se não quis-

—Foi minha culpa. — Cortou rápido, tomou fôlego e, quando eu tornei a fita-lo, vi um brilho diferente em seu olhar. Até a voz carregada pareceu desaparecer. Eu reconheci de uma vez aquela malícia. — Existe uma maneira de você compensar, se quer saber.

—Sadie! — Virei para trás com tudo. O gerente da lanchonete, na época, era o velho Daens, que tinha por volta de trinta e cinco anos, porém era chamado “carinhosamente” de velho por ser rabugento, foi ele quem me chamou. — Isso é um pedido demissão ou vai voltar ao trabalho?

—Eu estava anotando outro pedido!

—No caso o cliente quer que você reescreva a Bíblia? — Minha mentira pronta já tinha sido usada milhares de vezes por mim e por outros funcionários, então não foi surpresa que tenha caído na desmoralização imediata. William arregalou o olhar e pareceu pronto para falar alguma coisa, no entanto não o fez. Eu não gostaria que ele tivesse dito algo e acho que ficou transparente na minha face.

—Desculpe, sr. Vou voltar ao trabalho agora mesmo.

Se te parece frustrante ter que sair antes de ouvir o resto da conversa, imagine para mim. Passei o resto do expediente remoendo aquela conversa e imaginando o que poderia ter acontecido para que William Oximen pensasse ser culpado pela morte da própria mãe e me martirizando pela insensibilidade, por tê-lo chamado pelo “apelido proibido” e tudo o mais. De qualquer forma, quando acabou meu horário de trabalho o homem estava lá, na porta do estabelecimento, e se ofereceu para me acompanhar até minha casa. Eu cedi sem muita insistência.

No caminho jogamos conversa fora, provavelmente por falta de coragem para retomar aquele assunto. No entanto, quando estávamos chegando perto da rua onde moro, eu disse:

—Eu quero saber. —Ele não pareceu surpreendido. — Como posso compensar?

—Um beijo.

Eu dei risada, revirando os olhos. Entenda: eu não o conhecia há tempo suficiente para beijá-lo. Na realidade, sabia pouquíssimas coisas sobre o indivíduo e, ainda assim, eram suficientes para teorizar um passado problemático e obscuro. Todas as características de William estariam na Lista de Coisas Com as Quais Não Se Envolver, caso isso existisse. Senti meu rosto ruborizar levemente e vê-lo com a malícia palpitante me fez corar ainda mais. Mas então eu decidi. Seria só um beijo, não seria? Aproximei meu rosto, um pouco provocativa, assumo, e indaguei:

—Um selinho serve?

—Caso você tenha menos de vinte e dois anos, sim.

Dessa vez rimos ao mesmo tempo. E nos beijamos. Eu não lembro exatamente em que momento do final da tarde estávamos, só lembro que o empurrei até o poste de luz ao lado e cortei o momento.

—Só isso?

—Caso você tenha mais de vinte e dois anos, sim — respondi com o sorriso dançando nos lábios e dessa vez ele gargalhou mais alto do que eu.

Pus-me a andar com o passo apertado, gritando alguma despedida e o deixando para trás com um ar de “quero mais” e confusão. Talvez Will tenha dito para que eu voltasse, no entanto ignorei tão bem que sequer lembro se realmente aconteceu.

Antes que alguém pergunte, nosso primeiro beijo foi relativamente curto, porém foi ótimo. E como disse no início, hoje eu percebo que foi um daqueles momentos nos quais sentimos, em algum canto da alma, que a próxima decisão vai mudar nosso futuro para sempre. Às vezes ainda me pergunto se fiz o correto.

Notas finais
E aí, acham que a Sadie fez o certo? Agradeço todos os comentários e acompanhamentos ♥ Sério mesmo! Até a próxima!