Ecos de Amor
2 Presente de Aniversário
Notas iniciais
Antes de eu contar a história de como eu e William saímos a primeira vez, eu gostaria de falar um pouco de mim. Vou partir dos meus pais. Apesar de terem notáveis diferenças eles se amavam muito, desde cedo passaram a morar juntos e foram o primeiro amor um do outro!
Mas havia um problema: o policial David Brown desejava demasiado ter um filho e a dona de casa Bianca Horman sempre detestou essa possibilidade. O fato é que aconteceram algumas discussões até que eles chegaram no consenso de tentar uma vez. Minha mãe considerou que um menininho não faria mal.
A essa altura é perceptível que eu sou filha única, não é? Então, para a decepção geral, eu nasci, ou seja, uma garota. Não é em vão que meu nome seja Sadie (e meu apelido Sad igualzinho “tristeza”* mesmo). Meus pais brigaram muito tempo, porque bem, David permanecia querendo um menino.
Até que meu tio surge na história. Na verdade, Matthew surge quando meu pai ainda tem dez anos. Talvez daí venha a vontade tão grande de ter um rapazinho. Mas, enfim, Matthew e Beatrice Verona já eram casados quando eu nasci e ele não teve dúvidas sobre se mudar para uma casa imediatamente ao lado da nossa, engravidar a esposa e abrir uma joalheria, tudo no período de dois anos.
Para que ninguém se assuste com esse rápido avanço eu quero deixar bem claro que minha família nunca foi rica, mas também nunca foi pobre. Eu, por exemplo, só comecei a trabalhar depois dos vinte e cinco anos, quando meu pai morreu. O sonho de Matthew era me ver na sua loja, porque existem poucas coisas que meu tio ame mais que a Joalheria do Matt, talvez por isso eu tenha cursado Recursos Humanos e Administração, mas de qualquer forma, a gente já sabe que não foi assim que a carruagem andou.
Lembram que a esposa de Matthew, Beatrice, engravidou? Então, para a alegria infinda do meu pai nasceu Joseph, meu primo-irmão apenas dois anos mais novo. Eu digo “primo-irmão” porque, além de termos sido criado juntos, David foi mais pai dele do que meu e Matt foi dos dois, eu diria.
Em suma essas foram as circunstâncias desagradáveis que acarretaram meu nascimento e meus primeiros anos de vida. O porquê de tudo isso? Bem, essa foi a conversa que tive em primeiro encontro (uma saída de amigos!) com William. Era meu vigésimo sétimo aniversário, no mês de março, eu já morava sozinha e, por coincidência, ele vinha me chamando para sair fazia alguns dias. Resolvi aceitar. Joseph não teria como comemorar comigo mesmo, ele estava passando a maior parte do tempo na casa da noiva Sarah, pois ficava mais perto da delegacia onde trabalhava (sim, Jow seguiu os passos do tio) e minha mãe se mudara para o outro lado do país, praticamente, com um amigo que tinha de longa data e, pouco mais de um ano após a morte de meu pai, se tornou seu namorado. A verdade é que foi bom para mim ela ter feito isso, já que eu a sustentava e tinha apenas o dinheiro de garçonete e algumas heranças.
Will e eu saímos por volta das 16 da tarde e fomos ao cinema assistir um filme qualquer. Em realidade, um bem chato, daqueles que se você estivesse assistindo em casa dormiria a sessão inteira e se estivesse no cinema também. Não lembro quem escolheu, acho que fui eu, apesar de nunca assumir publicamente.
O pior de tudo é que durava duas horas, então quando saímos estávamos mortos de fome. Era um pouco cedo para jantar, mas o dia estava ruim o suficiente seguindo meu jeito de fazer as coisas e eu resolvi só concordar com as ideias de William. Fui parar em um restaurante muito chique, até hoje me pergunto como Liam conseguiu pagar aquela refeição, e começamos a reclamar desesperadamente do filme, fazendo piadas e mais piadas, críticas e mais críticas. Depois que a comida chegou eu resolvi mudar de assunto e comecei a contar a minha história, essa mesma que falei anteriormente. Em algum momento disso, deixei escapar que era meu aniversário. Eu realmente não pretendia avisar, no entanto não me arrependo. Ele ficou surpreso e um pouco bravo por eu não ter dito, embora tenha se esforçado para disfarçar, e resolveu que aquele seria meu melhor aniversário. Will disse que não tinha comprado nenhum presente, então faria com que o próprio dia fosse um.
Era uma tarefa bem difícil partindo do princípio que faltavam aproximadamente quatro horas para que a noite terminasse e que tudo tinha sido catastrófico até o momento. Meus únicos presentes tinham sido ser liberada mais cedo da lanchonete, várias mensagens bonitinhas e, claro, comer naquele local maravilhoso.
Depois daquilo, de alguma forma, fomos parar em uma discoteca, ou boate. Eu não sei como Will me arrastou até lá, porque definitivamente não é o lugar que eu frequento, porém foi muito mais divertido do que imaginei que seria. Não tinha tanta gente, ou talvez o lugar que fosse muito grande, ainda assim estava tudo agitado, a música variava de suportável a prazerosa e eu particularmente amo dançar.
Foi o tiro no escuro mais perfeito que alguém já deu. A verdade é que eu gosto tanto de dançar que, antes de entrar na faculdade de RH, queria cursar Belas Artes. Mas como desde que criança fazia aulas das mais variadas expressões corporais, somado ao fato de meus pais sempre esperarem que eu fosse trabalhar na Joalheria do Velho Matt (esse é o nome agora), acabei deixando de lado.
E, bem, naquele dia que era para ser especial, mas estava sendo péssimo, Will me fez lembrar como a dança é apaixonante. Ele deveras não queria, no entanto até pulou e se remexeu um pouco ao meu lado, uns vinte ou quinze minutos. Já eram quase onze horas (o tempo passa voando enquanto nos divertimos) quando eu sentei em algum banco do bar ao lado do meu mais novo amigo. Eu reparei que ele tinha bebido o que eu consideraria bastante, mas não estava bêbado, se estivesse seria o ébrio mais quieto da humanidade. Resolvi perguntar se estava tudo bem.
—William, você ‘tá bem? — Eu recordo de estar ofegante por causa do cansaço e também suava bastante. —William?
—Ahn? — Pareceu acordar de um devaneio, coisa que eu descobriria ser uma espécie de mania dele: sonhar acordado. — Desculpa, eu estava distraído. O que você disse?
—Perguntei se ‘tá tudo bem. Você parece distante — pedi um drinque que já não me recordo. — Queria te agradecer por hoje, foi um dia ótimo. Mas a gente falou tanto de mim e quase nada de você.
—Hoje é o seu dia, não vamos perder tempo comigo. — Sorriu amarelo — Quanto anos você faz mesmo?
—Vinte e sete. — Bebi um gole. — Não fuja da conversa.
— Eu faço vinte e nove esse ano, em setembro. Moro em uma casa pequena, mas confortável, gosto de correr de manhã e por enquanto é isso.
—Temos aqui um atleta, então, Willy?
Nessa hora os olhos dele se levantaram de tal maneira que eu me assustei, William começou a olhar para todas as direções possíveis e engoliu em seco. Eu questionei algumas vezes o que tinha acontecido e se eu havia falado algo de errado, todavia era tarde. Alguma coisa daquela situação era um gatilho para aquele homem. Ele disse que precisava ir ao banheiro e o dia maravilhoso acabou aí, comigo plantada num barzinho de boate esperando alguém que não voltaria.
Eu admito que fiquei muito brava, tive que voltar de Uber para casa (já tentaram conseguir um Uber depois da meia noite?) e no dia seguinte, por sorte, era minha folga semanal na lanchonete. Fui para casa onde Jow estava morando visitar minha “sobrinha” Sally, que na realidade é filha da Sarah com seu falecido ex marido e passei mais ou menos uma semana ignorando William, mas depois percebi que eu estava sendo infantil e até insensível.
Will tinha me feito ter um ótimo dia, me relembrando como eu simplesmente amo dançar, pagando um jantar caríssimo, me ouvindo tagarelar e ainda suportando um filme que eu escolhi, a maior parte disso sem suspeitar que era meu aniversário e tudo sem esperar nada em troca. E, depois disso, por algum motivo provavelmente com forte teor emocional, como uma recaída, acabou me abandonando na discoteca, não era algo suficientemente ruim para que eu ignorasse como ele tinha sido magnificente para mim. E essa é a história de como meu primeiro encontro com William foi um presente de aniversário cheio de coisas quase banais (como assistir um filme e jantar), mas incríveis, e com boas pitadas de nostalgia (da minha parte) e de mistério (da dele).
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