Endimião o jovem pastor descendente dos deuses acima (olimpianos) perambulava com cuidado pelo Monte Latros, um dos montes que ficava mais perto de sua casa, em Mileto. Era lá que o rapaz ia quase todas as noites para ver o nascer do luar e comtemplar a beleza de Selene, e quando enfim a luz de Hélio foi se extinguindo e os véus da noite foram se apossando dos céus, Endimião sorriu ao vê-la.

Como em todas as noites, ela estava revigorante, bela e majestosa. Seu brilho suave, mas ao mesmo tempo fulguroso, parecia iluminar o monte em que ele estava mais do que o restante das coisas ao seu redor, como se a própria Selene se volta sua atenção para aquele humilde pastor.

Endimião sentou-se cuidadosamente sobre uma pedra plana, deixando que o vento fresco da noite tocasse seu rosto. Seus olhos, iluminados pela lua, refletiam a admiração e o amor que sentia pela deusa. Ele sempre ficava ali, em silêncio, esperando pelo momento em que a luz da lua surgiria e preenchia o céu com a sua presença majestosa. Cada noite, ele se sentia mais atraído pela sua luz etérea, como se algo além da física os conectasse. Algo invisível, mas inegável.

Ele sabia que Selene o observava, sabia que a lua o seguia com seus olhos prateados, mas ele não podia compreender completamente o que isso significava. Sentia uma saudade doce, uma expectativa constante de algo que ele não podia nomear. Uma saudade de um futuro que talvez nunca se concretizasse.

Selene, em sua carruagem celestial, parecia se mover com a graça de um espírito antigo, com o peso do céu nas mãos, mas o olhar dela... Ah, o olhar dela... Estava fixo nele, como se ela o aguardasse.

— Endimião...

Ele ouviu o som de uma bela voz feminina chama-lo, mas ao olhar em volta não havia ninguém. Ele quase se levantou, mas algo o parou e ele olhou novamente para a lua, sentindo uma brisa leve com cheiro de jasmim e menta no ar. Naquele momento, ele soube que era sua bela, a majestosa Selene, quem o chamava.

Em algum momento da noite, Endimião adormeceu, sendo vencido pelo abraço de Hipnos, e naquele sonho que teve... ele a viu.

Selene estava em cima de uma rocha, na beira de um riacho de águas cristalinas se banhando. A pele dela era branco perolada, quase cintilando sob a luz do luar e os cabelos, negros como obsidiana, eram tão longos que Endimião acreditou que erem um véu feito com pedaços da Noite acima.

A deusa colocava água nas mãos em concha e derramava sob o peito, molhando a parte da frente do vestido fluído e diáfano que ela usava. Seus pés, em contato com as águas, balançavam de um lado para o outro enquanto ela brincava com os peixes, que não pareciam assustados com a presença daquela jovem de beleza incomparável.

— Não acha que já está na hora de me dizer, ao invés de só me comtemplar como a uma estátua – a deusa falou com um tom de riso na voz.

Era a mesma voz que o chamou mais cedo, no Monte.

Endimião ficou paralisado ao ouvir a voz dela, agora tão clara e próxima, como se estivesse realmente ali, diante dele. Seu coração acelerou, e ele quase não acreditava no que via. A visão de Selene, a deusa da lua, em toda a sua majestade, era mais do que ele poderia ter imaginado. Ele sentiu o calor da noite, mas também algo muito mais forte: a energia divina dela que permeava o ar ao seu redor.

A deusa se levantou e caminhou até o pastor. O vestido, como ele havia previsto, estava úmido, o que lhe conferia uma visão não muito clara dos seios desnudos de Selene sob o tecido, assim como todas as perfeitas curvas que faziam com que ela fosse tão... ela.

— Eu... eu... me perdoe, senhora. Em frente a sua grandiosa beleza, eu me perco em meus próprios pensamentos.

Ela sorriu.

— Percebo isso todas as noites em que o vejo me olhando. Você me observa como qualquer outro homem observaria uma estrela cadente, com desejo, reverencia e como se eu fosse alguém inalcançável.

Agora foi a vez de ele rir.

— Para um mero pastor como eu, Majestade, a senhora nada mais é do que exatamente isso. Inalcançável. – Ele passou por ela, sentindo o doce aroma de lavanda de seus cabelos e roçando levemente a mão de pele alva da deusa. O toque simples fez com quem uma espécie de choque percorresse o corpo de Endimião. – Mas a verdade, é que todas as vezes em que eu á vejo, Selene, eu sinto como se tivesse encontrado aquilo que falta em meu mundo, a nota que faltava em minha sinfonia.

Selene o observava atentamente, seus olhos brilhando com um misto de curiosidade e algo mais profundo, como se estivesse tentando entender a verdadeira essência daquele homem. Ela o conhecia através de suas orações, através de suas súplicas silenciosas, mas nunca havia ouvido suas palavras. Agora, ele estava ali, em um sonho, expondo seus sentimentos de uma forma pura e vulnerável.

— E o que aconteceria se eu dissesse que posso te dar tudo aquilo que você mais desejou? Em meu reino, sob o luar, eu posso te conceder tudo o que você quer. Mas... infelizmente, isso te cobraria um preço. A magia sempre cobra, até mesmo dos deuses.

O homem apaixonado olhou para sua amada deusa e ficou boquiaberto com aquela revelação. Tudo o que ele mais queria era estar ao lado de sua amada, a Lua Majestosa, não importava o que seria preciso para que isso fosse possível.

— Eu pagaria qualquer dívida que fosse cobrada, não importa qual seja.

— Até mesmo... as alegrias de viver uma vida mortal? – Selene se aproximou dele e tocou seu rosto. – Não posso pedir que me tome e deixe para trás tudo aquilo que lhe é importante, meu pastor. Isso teria que ser uma escolha sua. Você deixaria sua casa, sua família, seus entes mais queridos. A possibilidade de envelhecer e morrer.

Ele riu mais uma vez.

— Você fala como se isso fosse algo bom, bela dama.

— Vocês, mortais, não possuem conhecimento da sorte que têm. A dadiva da vida é algo lindo, majestoso e belo justamente porque termina e depois recomeça, em um eterno ciclo de renascimento, de aprendizados e amores. E você perderia tudo isso se viesse e ficasse comigo aqui, em meu reino. Pois se aceitar, estará selando seu destino em algo que você não poderá jamais mudar.

Endimião sentiu uma dor no peito, um vazio que cresceu com aquelas palavras. Ele desejava estar com ela, mas não sabia o que ela queria dizer com aquilo. Valia a pena sacrificar tudo o que conhecia e amava para viver lado dela, para ser seu eterno companheiro?

Selene olhou para ele uma última vez, seus olhos profundos refletindo a imensidão da noite. Ela parecia tão distante, mesmo estando tão perto.

— Você está disposto a isso, Endimião? — ela sussurrou, como se estivesse falando com a própria lua. — Abrir mão de tudo por um amor que desafia o próprio tempo?

Ele não sabia o que responder, mas sabia o que sentia. E aquilo, por mais que fosse misterioso e assustador, era um amor que ele não poderia recusar.

Endimião sentou-se na rocha perto do lago e comtemplou seu próprio reflexo na água cristalina. O rosto emoldurado pelos cabelos quase tão negros quanto os de Selene expressava tanto serenidade quanto confusão. Sua pele dourada pelo sol, contrastando com a pele pálida de Selene, ainda não possuíam muitas marcas de idade (ele já estava com vinte e sete anos) e os musculosos eram ainda definidos e fortes. Se recusasse a oferta de Selene, logo seria ele um velho decrepito, possivelmente sozinho em meio aa uma casa escura.

Por outro lado, se escolhesse seguir a deusa lunar, viveria a eternidade como era agora, jovem, bonito e imortal, auxiliando sua amada em seu curso pelos céus do anoitecer.

Naquele momento, o pastor percebeu que já havia tomado uma decisão.

— Eu... — Ele engoliu em seco, sentindo a imensidão da responsabilidade em suas palavras. — Eu não posso imaginar minha vida sem você. A cada noite, eu me perco em sua luz, e cada sonho que tenho contigo me leva a um lugar onde a dor e a alegria coexistem em perfeita harmonia. Se isso significar deixar para trás tudo o que conheço, então que assim seja. Eu aceito o preço. Quero estar contigo.

Selene o olhou e sorriu, mas havia um toque de tristeza em seu olhar. Ela o amava, assim como ele a amava, e Selene não jamais se perdoaria por ter dado essa escolha a ele, mas também jamais se perdoaria se não o tivesse feito. Ela sabia o que estava pedindo a ele, sabia o significado daquilo para um mortal, mas ele ainda descobriria, e a deusa torcia para que não se arrependesse da escolha que fez.

Ela se aproximou dele, tomou a mão cheia de calos do jovem pastor nas suas, e o fez levantou. Ele era mais alto que ela, mas isso de nada importava. Selene olhou dentro dos olhos do rapaz, tentando ao máximo gravar em sua mente aquela lembrança: o olhar resplandecente da mortalidade que havia nele naquele momento.

— A escolha está feita, então. E lembre-se, querido pastor, que a vida que você deixará para trás será apenas uma das muitas faces que o tempo irá moldar para você. — Seus lábios se curvaram, quase como um beijo que nunca chegaria a ser dado. — Agora, venha comigo.

Com as palavras ditas, Selene entrou no lago trazendo Endimião consigo; ele se deixou levar por ela. Quando estavam no meio do lago, ele a pegou nos braços e a beijou de forma delicada, mas que deixava claro o que ele sentia: Selene pertencia á ele tanto quanto ele pertencia a Selene.

Endimião olhou para a luz do luar mais uma última vez antes de submergir no lado, sendo imediatamente envolto em uma luz pálida que faz com que a água se torna-se translucida. Ele podia sentir que algo dentro de sim estava mudando, mas ele só perceberia o que era muito tempo depois: naquele momento, sua essência humana estava sendo consumida pelo fogo divino da imortalidade, e a partir daquele momento ele sabia que jamais viveria da forma simples que viveu no Monte Latros.

Mas em troca daquilo tudo ele a teria. Teria sua gloriosa deusa prateada, sua vida eterna, viveria para sempre ao lado da essência da noite.

Selene o conduziu para seu reino celestial, para um lugar onde o tempo não se passava como nos mundos dos mortais, e a lua reinava em toda a sua glória, iluminando os caminhos do amor eterno. Mas ao fazê-lo, Endimião perdeu a essência daquilo que os mortais tanto valorizavam: o sabor do efêmero, a beleza do passageiro.

Ele não sabia se poderia algum dia se arrepender, mas ao olhar para a deusa, ele sentiu uma tranquilidade desconhecida. Ali, ao lado de Selene, ele estava em casa, finalmente encontrado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.