Ecos Dissonantes
1 Ecos dissonantes
Notas iniciais
"A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido. Poucos psicólogos contestarão estes fatos, e a verdade admitida deve firmar para sempre a autenticidade e dignidade das narrações fantásticas de horror como forma literária."
__ H. P. Lovecraft
Ele ficou ali, parado, observando durante semanas, apesar da fome que sentia, ele se manteve firme, seu olhar demoníaco não desgrudava em momento algum da casa que vigiava. O demônio sentia uma coisa estranha se formando em seu estômago, ele não se alimentava há muitos dias e a sensação de... “Fome” era ruim, mas ele tinha um trabalho a fazer, e nada iria atrapalhá-lo.
O homem, Joshua ou apenas Josh, era um alvo fácil, sua casa era modesta, até um pouco rústica demais, nada de sistemas de alarme ou câmeras de segurança, ou qualquer outra dessas parafernálias que os humanos usavam hoje em dia para acreditarem que estão seguros em seus próprios lares. “Como são tolos.”, ele pensou abrindo um sorriso cruel. O lugar nunca ficava totalmente sozinho, pois quando Josh não estava em casa, a namorada dele, Sophie estava, a criatura sentiu uma enorme curiosidade a respeito desse desencontro do casal, havia momentos em que Josh estava em casa e Sophie queria entrar, então ela o esperava sair para poder entrar na residência. A estranheza do fato era tamanha, que fez com que o demônio nutrisse uma grande curiosidade pela mulher, e após muitos dias parado apenas vigiando, ele decidiu sair do seu posto, e a seguiu.
Ele sabia que Josh estava traindo a namorada já há alguns dias, mas ela ainda não havia se dado conta. O demônio gostava dela, era uma mulher bonita, perfeita em seu modo de agir e pensar, nunca julgava ninguém e mesmo que a julgasse, ela nunca ficava irritada por muito tempo. Ele se perguntava se – talvez – houvesse escolhido a vítima errada, até que ele a viu se entregar a outro homem. Isso o deixou em um estado de êxtase sem igual. Josh traía Sophie, e Sophie traía Josh, um merecia o outro, mas ele sabia que merecia os dois, e ele os teria.
Ao meditar a respeito de quem mataria primeiro, ele preferiu seguir os bons costumes e dar cabo da vida da mulher primeiro, afinal, ele era um cavalheiro. Sem muita dificuldade ele armou a emboscada e a pegou, mas Sophie não parava de chorar e de se lamentar, e implorava pela vida, isso o deixou tão frustrado que ele quebrou o pescoço da mulher. Ela estava caída aos seus pés, seus olhos mortos ainda o encaravam e isso o deixou mais aborrecido.
— O que foi? – ele gritou chutando o cadáver. – Seu namorado corno vai logo atrás de você! Então não precisa me encarar dessa forma... É só esperar por ele na porta do inferno... – novamente ele chutou o corpo e cuspiu no belo rosto, agora pálido, que exibia uma expressão de desespero. – Vadia miserável...
Novamente ele chutou o cadáver e desapareceu noite adentro sem deixar nenhum vestígio de que estivera naquele lugar.
***
Três noites mais tarde, ele já estava pronto para enviar Josh ao reino dos mortos. Assim como fez com Sophie, ele esperou por Josh e, quando sentiu a sua presença, ele o pegou de surpresa.
Qualquer pessoa que observasse aquela cena veria um menino de mais ou menos quatorze anos, de pele pálida e com os cabelos muito negros que caíam sobre seus ombros até a base do pescoço, ele era magro e tinha as feições muito infantis. A situação seria estranha apenas devido ao fato de que aquele garoto estava carregando um homem adulto com o corpo mais avantajado que o do menino, que o colocara em seus ombros e caminhava como se não estivesse carregando nada. Um observador mais atento veria que aquele menino não era exatamente um ser humano, mas sim um ser que não era deste mundo, que levava consigo mais uma vítima de sua perversidade.
***
Josh abriu os olhos e encarou apenas a escuridão, ele estava em um estado agitado de meia-vivacidade. Às vezes ele pensava sobre por que ninguém fora procurar por ele, e Sophie? Onde ela estava? Será que havia desistido? Suas noites foram preenchidas com visões da face maliciosa de seu torturador. Então vinham os pesadelos, mesas surreais onde o sequestrador de Josh saltava sobre ele, empurrando, espetando, cortando. Havia cenas em que alcançavam a beira da sanidade, nas quais monstros agachavam-se no rosto de Josh, forçando o sangue salgado de larvas e contorcidas massas disformes para dentro de sua boca, obrigando-o a fechá-la em seguida, engolindo tudo aquilo.
Os dias, se é que as noites se diferenciavam dos dias naquelas trevas perpétuas onde ele se encontrava, eram piores. Numa das ocasiões, quando o sono abandonou-o, Josh, despido, usado e machucado, esteve primorosamente ciente de cara sensação que seus nervos torturados lhe traziam. Sua língua estava cortada, ressecada e inchada por incontáveis ferroadas, era a única coisa que conseguia mexer. Abelhas pousavam em seus olhos e ele não podia fazer nada mais do que piscá-los para afastá-las. Elas faziam uma constante companhia em seu tormento, seu zumbindo excitado contra as fracas batidas de seu coração. Criaturas e vermes disformes rastejavam e escorregavam por seu corpo inchado, e uma coisa indescritível movia sobre seu abdome com uma frígida deliberação.
Então, em uma noite ele despertou para encontrar seu raptor aguardando por ele. O rapaz estava sentado sobre seu peito, roubando seu oxigênio e encarando-o com olhos negros e profundos. O corpo dele estava gelado.
Mais daqueles insetos saíram correndo de cima de Josh, indo em direção ao rapaz, que estava despido, dando boas vindas por sua presença. Inúmeras formas negras entravam e saíam rapidamente do nariz do rapaz, de sua boca sorridente e de sua virilha.
— Curioso... -- ele disse em um tom de voz brando e indolente enquanto acariciava a face de Josh. -- Seus olhos... São como olhos de gado -- ele riu enquanto retirava uma agulha enfiada numa meada de seda que estava ao lado do homem. -- Gosto de você... Sua garota inflou a minha fúria, mas você é diferente. Eu gosto de você, gosto da forma como você vê a si mesmo... É tão... Digno de pena...
Ele colocou a ponta da seda no buraco da agulha e em seguida tocou a palma da própria mão com aquele objeto, que fez Josh suar ainda mais frio. Ele não tinha ideia do que aquela pessoa iria fazer, mas aquela agulha não parecia estar ali para que ele pudesse tricotar uma meia. Como se Josh tivesse acabado de confessar seu temor, o rapaz trespassou a mão com a agulha e abriu um sorriso bestial quando reconheceu o pânico no rosto de sua vítima.
— Eu posso ver os teus pensamentos – ele beliscou a banha do homem com uma pequena prega e deslizou a agulha por ela, provocando tremores e lamúrias de dor. – Teus olhos, eu já disse... Olhos de gado, o mesmo olhar de um animal do campo. Isso te rotula como inconsciente, inocente, ainda sem preparo algum para compreender os caminhos sinuosos da vida. Isso o indica como uma presa.
O rapaz tocou as pálpebras de Josh com o polegar, isso fez com que o homem ficasse agitado.
— Posso ver os seus medos, Joshua... – ele murmurou enquanto continuava a costurar, vagarosamente a pele de sua vítima, bordando-a com padrões antiquíssimos. – Oh, não se preocupe! Não pretendo vazar-lhe os olhos ou arrancá-los da órbita... Eles serão necessários em outra hora.
Cada ferida provocada pela agulha se fechava após a passagem da mesma, graças à potência do sangue de demônio que embebia a linha, mas Josh continuava tentando gritar até que nenhum outro som saísse de sua boca. Silenciosamente o seu corpo estava sendo destruído.
— Aqui... – o sorridente algoz finalmente disse, parando para colocar Josh sobre sua própria virilha inchada. – Segure isso, se puder, é claro. E pense naquilo que mais lhe agradar. Isso vai te ajudar a passar o tempo enquanto eu te conto tudo o que você deve saber a respeito do lugar de onde eu venho.
***
Somente uma parte do chão de pedra era visível com aquela luz fosca, naquela superfície coberta com manchas marrons. Moscas e vespas se arrastavam nas paredes e sobre o chão, agindo em conjunto sobre o sangue seco. Suas asas batiam incessantemente no calmo e silencioso ambiente. Apenas aguardando.
Parado com uma lanterna em sua mão, o rapaz se lembrava. Sobre ele, Josh estava enforcado com uma grossa corrente presa ao teto; intrincados costuras cobriam seu corpo nu. Josh gritava como ele gritava noite após noite, mas os sons não saíam por sua garganta seca. Suas orelhas foram arrancadas e lançadas no óleo em chamas. Contudo o rapaz havia colocado um tampão em cada ouvido, e Josh agora passava seu tempo ouvindo os segredos que uma mosca lhe contava. A outra mosca o ignorava e andava sobre sua cera de ouvido.
O rapaz observa impassível como Josh vomitava quando sufocado. Uma mosca voava sobre uma oleosa mistura de saliva e sangue, que havia saído de seus lábios rachados. Muito mais se seguiu. Josh não viveria muito tempo, mesmo se as moscas saíssem de sua garganta; seu pescoço inchado e seus olhos esbugalhados em um pânico silencioso. Ele se contorceu na corrente como um peixe fisgado, se retorcendo em agonia como o inseto que saía de dentro dele. O rapaz acenou com a sua cabeça, em aprovação e se foi. O enxame emergira da crisálida desse humano sem sua ajuda, e o rapaz precisava vigiar outros anfitriões mortais durante esse tempo. Era temporada de armazenamento.
A hora de despertar para as trevas havia chegado.
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