Ecos Caleidoscópicos

3 Capítulo 3 – Atitude


Notas iniciais
“Quando olho em seus olhos É como observar a noite estrelada Ou um belo amanhecer Há tanta coisa que eles carregam E assim como as velhas estrelas Eu vejo que você chegou tão longe Para estar bem onde você está Quão velha é a sua alma?” (I won’t give up – Jason Mraz)

Passados alguns minutos que Jeb havia passeado por ali, casualmente, conduzindo aquela coisa, a expressão geral era de inconformidade, reprovação. Ele estava causando polêmica. Eu queria confiar nele. Ele era nosso líder, foi capaz de nos refugiar aqui nesse lugar incrível... Mas com essas atitudes... Eu me perguntava se Jeb não estava começando a caducar.

Na cozinha, os murmúrios eram incessantes: “Você viu aquilo? O que Jeb está pensando? Pobre louco...” pura tensão, exceto por Wes que ainda mantinha alguma indiferença ao resto. Na verdade, ele parecia animado. Eu depositei a colher na tigela de sopa e olhei para ele de um jeito explicitamente inquisitivo.

– O quê? Não temos muita ação aqui em baixo... – Seus lábios riam enquanto sopravam a sopa. Meu olhar foi de questionador para incrédulo.

– Vai dizer que você não ficou... Incomodado... Com nojo? – Ele deu de ombros. Impossível que ele não tivesse sentido nada! Eu mal conseguira me concentrar no trabalho com aquela coisa rondando... carregando uma pá. Eu não engolia aquela história de “Aliens-Paz-e-Amor”. Cutuquei Wes novamente.

– Claro que fiquei. Incomodado, não com nojo. – Parei a colher no meio do caminho até a boca. – Qual é, Lily? É um corpo humano como qualquer outro. Por que eu teria nojo? – Revirei os olhos. – Eu também acho que Jeb está fora de si, mas nós sabíamos que ele era maluco desde o início. O jeito agora é deixar a coisa rolar, certo?

Eu fiquei só olhando. Eu sabia que Wes era jovem, mas pensei que ele possuía mais bom senso. Ele ergueu as duas mãos para mim.

– Sério. Não me olhe assim! Não vê como essas pessoas ficam fuxicando como velhas desocupadas? Sim. Eu queria que Jeb se livrasse daquilo. Só que ele não vai. Sabemos disso. Então, por que causar problema? Além do mais, eu prefiro acreditar que Jeb continua sendo um gênio com carapuça de louco.

Limitei-me em balançar a cabeça. Não sei se por desacordo ou por relutância em encontrar sentido nas palavras de Wes.

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– Eu odeio ela. – Sussurro com o rosto enterrado entre os joelhos.

– Quem? A buscadora? – Ian pergunta baixo.

– A buscadora. A Peg. As Almas. Todos! – Minha voz aumentando, beirando o grito a cada palavra. Ian pressiona minhas costas gentilmente. – A buscadora por matá-lo. Peg por ter vindo aqui. As Almas por tirarem nosso mundo, nossas vidas... Por existirem! Odeio, odeio, odeio. – Minhas mãos em punhos cerrados golpeiam minhas pernas e Ian volta a segurá-las com firmeza.

– Não, Lily. – Seus braços me envolvem como um pacote. – Você não está sendo sincera. – Ele murmura. – Você não odeia a Peg. Ela é sua amiga. Ela era amiga do Wes. – Eu vacilo à menção do nome e Ian aperta seu abraço, desculpando-se. – Ele não iria querer que você a odiasse, iria?

Demoro a absorver o questionamento, apesar de a resposta ser muito clara. Não. Ele não iria. Wes foi uma das primeiras pessoas a aceitar Peregrina, a querer conhecê-la e entender seus motivos. Mas ele era compreensível com todo mundo. Ele era Wes.

Empregar o passado assim dói. E eu só... Preciso culpar alguém... Preciso que a dor passe... De alguma forma.

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Observei Wes entregar a foice para Peregrina naquela manhã. Depois, ele a ajudou a encher os sacos com o trigo colhido, aí ele buscou água para eles, sempre de olho nela, até Ian retornar. Então ele voltou para a linha onde Lucina e eu estávamos, trazendo-nos água. Eu peguei a garrafa, mas Lucina rejeitou. Wes olhou para mim em busca de uma resposta e eu meneei a cabeça na direção de Peg. Lucina afastou-se discretamente.

– Jared ficou uma fera, foi o bastante pra muita gente regredir. – Eu lamentei. – Acho que se Jeb houvesse apontado aquela arma no meio dos olhos dele, ele teria ficado menos surpreso.

– Nem brinca... Mas ele vai superar. Quer dizer, ele só não esperava voltar para casa e nos encontrar “mimando o inimigo”. Ele só ficou chocado, isso passa. – Ele disse a última sentença mais como um desejo do que uma previsão. – Só acho que não foi justo da parte de Jeb envolver o Jamie nisso. Sabe, apesar de tudo ele é só uma criança. É quem mais pode sair perdendo nessa história toda.

– Não há esperança de finais felizes para nós, Wes. Nenhum. Não mais. — Ele assobiou, balançando a cabeça em desacordo e continuou trabalhando. – Quer uma dica? Pare de ler os livros que a Sharon guarda na escola. É sério, pro seu próprio bem, Wes. Se quiser ler algo podia pedir ao Ian, ele tem uns romances policiais bem legais. Não fazem sentido aqueles romances de contos de fadas, não faziam antes e agora muito menos. – Eu disse em tom zombeteiro.

– Não sei não... – Ele sorriu de leve. – Eu acredito no final feliz do tipo “garoto conquista a garota” – Ele levantou o olhar rapidamente e voltou a ensacar o trigo.

– É mesmo...? Não vejo jeito de isso acontecer com o Jared, por exemplo, não depois de tudo. – Ele ficou indiferente. – De olho em alguém? – Levantei uma sobrancelha para ele. Ele me olhou, mas não respondeu. Depois levantou, examinou em volta e parou observando Peg e Ian. Eu também os observei, mas não entendi o propósito de Wes. Tive a impressão de que ele olhava para mim, e quando me virei ele voltava a sua atenção para o trigo.

Notas finais
Acho que me apaixonei pela sabedoria da alma de Wes... ao menos é assim que o imagino. Alguém tem algo a dizer?