Eclipse do unicórnio
3 Thalia
Notas iniciais
Thalia
Um milênio sono adentro, enfim o castelo estava protegido. A hera venenosa encantada
que subia por suas paredes tinha se fechado não apenas em um, mas em dois anéis inteiros e
grossos em volta da construção de pedra que um dia reluzira, escondendo-a da vista de
qualquer um que por ali passasse.
Seiscentos anos foram necessários para que se formasse o primeiro anel. E, antes disso,
cerca de quinhentos para o vale abandonado e ressequido que antigamente era lar dos
súditos de Loiria desenvolver um suave outeiro relvoso. Agora era difícil lembrar como
Loiria era no passado — cem anos depois do feitiço, depois da morte do rei e da rainha, de
coração partido e sem outro herdeiro. A terra era uma ferida aberta, abandonada pelos
súditos em rixa que não viram chuva por décadas depois que a princesa Talia, o orvalho de
Deus, adormeceu. Vizinhos se voltaram contra vizinhos. Irrompeu uma guerra civil e não
havia monarquia sensata que restaurasse a ordem. Depois de um longo e silencioso milênio,
aqueles tempos de trevas se desbotaram em lembranças sombrias, e restaram poucas almas
para se recordar deles.
Para Sol e Lua, as fadas com a antiga tarefa de vigiar a princesa Talia, o duplo anel de
hera venenosa em volta do castelo parecia o lacre definitivo, excluindo o mundo do
encantamento amaldiçoado que jazia dentro de suas paredes. Elas soltaram um suspiro de
alívio, retiraram-se para seu aconchegante beiral e retornaram ao jogo de pinocle de mil anos
que Lua sempre parecia ganhar.
Não que as fadas não quisessem que a princesa revivesse — amavam-na
apaixonadamente e todo dia sentiam fundo a ausência do seu riso —, era que, ao
envelhecerem e se enrugarem, as fadas começaram a duvidar da existência de uma alma
capaz de despertá-la do seu sono. Elas debateram sobre as últimas palavras do Anjo do
Amor: o que era necessário para despertá-la, um unicórnio ou um eclipse? Haveria uma data
de validade para o encantamento, após a qual a princesa simplesmente dormiria
infinitamente? Nenhuma das duas se lembrava, e aquilo as deixava amargamente tristes.
Por séculos, o encantamento pesara muito no palácio, embora não faltassem tentativas de
suspendê-lo. Duas dezenas de príncipes dos quatro cantos da terra viajaram ao castelo
deserto, atravessaram a soleira e procuraram despertar a princesa. Embora fossem homens de
excelentes dotes — espadachins, legisladores, ourives e até um mágico —, nenhum príncipe
tentou nenhuma tática na princesa além de um beijo.
Sol e Lua não podiam avisá-los. Falavam uma língua incompreensível a ouvidos mortais.
Só podiam discutir entre elas mesmas enquanto cada belo príncipe se curvava, na esperança
de que o beijo fosse mágico.
Os lábios da Thalia adormecida estavam envenenados, provocando uma morte rápida e
dolorosa a qualquer coisa que neles tocasse. Agora, duas dezenas de cadáveres ladeavam o
altar onde Talia fora colocada temporariamente para descansar. A maioria se decompusera a
esqueletos, pois cada vez menos pretendentes arriscaram-se no castelo com o passar dos
séculos. Poucas pessoas se lembravam da história do encantamento de Thalia, que dirá da
forma para encontrar seu antigo reino.
— Antigamente aqui era tão maravilhoso — disse Sol à Lua com tristeza em sua estranha
língua. — Antigamente éramos o coração pulsante de todo o mundo.
Embora fosse menos sentimental do que Sol, de vez em quando Lua olhava o rosto da
princesa e se lembrava dos dezesseis anos abençoados que passou vendo-a crescer.
— O mundo parece cada vez mais escuro sem a nossa menina.
Thalia tinha sido uma jovenzinha valente, obstinada e radiante desde sua consciência mais
remota. Assim que conseguiu engatinhar, suas fadas passaram dias infindáveis perseguindo-a
pelo castelo, na esperança de serem rápidas o bastante para livrá-la de problemas. É claro que
Thalia tinha babás, enfermeiras, preceptores e cozinheiros lépidos, e até os pais que cuidavam
dela, mas a menina não se importava com ninguém como com Sol e Lua.
Embora fosse mais próxima das fadas do que de qualquer outro desde que foram trazidas
à terra pelo Anjo do Amor, nem Thalia conseguia ter fluência na língua impronunciável das
fadas. Elas não podiam ter uma conversa verbal, mas isso nunca parecia perturbar sua
amizade. Desde que era um bebê, Thalia as compreendia e elas a entendiam muito bem.
Ela fora abençoada com uma infância feliz e inocente, em parte porque o rei e a rainha
decretaram que ninguém no reino poderia falar do feitiço que aguardava a filha. Não
queriam que ela crescesse sob a sombra escura de um destino que há muito tentavam
esquecer. O rei até acreditava ter ludibriado a maldição de Darnile ao banir todos os
unicórnios e cavalos mestiços para um raio de mil hectares ao redor de Loiria. O decreto real
manteve calada a língua de quem vivia na vizinhança do castelo, mas é claro que nada podia
impedir que os súditos de Loiria fofocassem sobre um tema tão cativante como a princesa. A
época, o lugar e a certeza do encantamento de Thalia eram as conversas preferidas nas
estalagens e mercados do reino durante toda a juventude da princesa.
Ainda assim, as crianças não conseguem deixar de ser ingênuas e portanto, pela maior
parte da sua vida, Thalia pouco ouviu do seu feitiço. Só depois de ter passado onze verões em
uma inocência feliz, ela soube da existência da criatura chamada unicórnio:
Sol, Lua e Thalia faziam um jogo de esconde-esconde em um dos muitos sótãos do castelo.
Quando Thalia deu com um imenso armário de tapeçarias enroladas que nunca vira,
escondeu-se dentro de uma delas. Sol e Lua a localizaram rapidamente — seu riso sempre a
entregava — e rolaram a tapeçaria com grandiloquência. Depois ficaram paralisadas. Foi
revelado não apenas a princesa, mas um retrato detalhado de um lindo e jovem príncipe
cavalgando um fascinante unicórnio em direção ao pôr do sol.
— O que é este monstro? — falou Thalia, ofegante, ajoelhando-se na tapeçaria. Seus olhos
estavam arregalados de fascínio enquanto os dedos acompanhavam o chifre longo e prateado
do unicórnio.
— Uma tolice, princesa — gritou Sol em sua língua desconcertante.
— A imaginação de um artista — concordou Lua —, nada mais!
Embora não conseguisse entendê-las, Thalia sabia que elas mentiam. A curiosidade sobre o
unicórnio a consumia, e tornou-se uma obsessão da qual ela nunca se livrava.
— Um dia vou cavalgar um animal desses. Talvez até com um príncipe como esse. Mas
terei meu próprio animal, e ele poderá ter outro. — Ela olhou para Sol e Lua, rindo com
alegria da sua imaginação. — Quem sabe eu ganhe um, uma fera de chifre, no meu
aniversário?
Thalia estava tão extasiada com sua descoberta que nem percebeu as lágrimas se formando
nos olhos prateados e dourados de Sol e Lua.
Abandonando o sótão e as brincadeiras, Thalia correu para a sala do trono para contar aos
pais o que queria de aniversário. O rei e a rainha entreolharam-se e assentiram uma única
vez. A tapeçaria foi queimada.
Durante as semanas seguintes, o palácio foi vasculhado repetidas vezes em busca de
qualquer sinal do animal ofensivo. Thalia chorou a perda do seu sonho, mas seus ouvidos
começaram a se aguçar sempre que ela ouvia uma criada cochichar sobre por que o rei e a
rainha foram tão rigorosos em sua refutação do belo cavalo de chifre.
— Sua Alteza pode queimar a tapeçaria — entreouviu uma criada murmurar a outra —,
mas não pode abater todos os unicórnios da terra. Se tiver que ser, a princesa encontrará seu
unicórnio quando for a hora.
— Unicórnio. — Thalia pronunciou a palavra do canto frio do sótão onde se escondia. Sim,
jurou, ela encontraria seu unicórnio quando fosse a hora.
Durante anos, ela cavalgou com seu cavalo cinza, Pony, até os recessos mais fundos da
floresta. Às vezes, quando tinha certeza de estar só, Thalia prendia uma cenoura a um cipó e
amarrava na cabeça de Pony, posicionando-a como um chifre entre as orelhas do cavalo.
Tália ficou maior do que as roupas e superou preceptores e fantasias infantis, mas nunca
abandonou o jogo de fingir que Pony era o unicórnio mítico dos seus sonhos.
Quando tinha 17 anos, cavalgou para os pastos mais distantes de Loiria. Sol e Lua
tentavam acompanhá-la, mas Thalia estava em uma idade em que queria tão
desesperadamente ser independente que aprendera a ultrapassar até suas fadas. Escapou das
fronteiras do reino e parou em um riacho largo para matar a sede.
Enquanto ela e Pony bebiam da água cristalina, Thalia examinou o reflexo do cavalo. De
repente, a cenoura que prendera em sua cabeça parecia a coisa mais estúpida e mais infantil
que vira na vida. Ela a jogou no riacho, depois lançou os braços ao redor do cavalo.
— Você tem sido meu mais querido amigo, Pony. A partir de agora, eu o amarei como é e
jamais desejarei que seja diferente.
— Todos deveríamos fazer tal juramento àqueles que amamos. — Uma voz atravessou o
riacho e sobressaltou Thalia. Quando ela levantou a cabeça, um jovem de cabelos claros a
olhava. Era a mais linda criatura que ela já vira; até focar os olhos no cavalo.
Não era um cavalo.
O rapaz montava um unicórnio branco e reluzente.
— Um unicórnio! — Talia suspirou, sentindo-se fraca. — Sonhei com este momento por
toda minha vida.
O rapaz riu.
— Sim, sei que eles são muito raros por estas paragens. Um antigo conto de fadas sobre
uma princesa destinada a ser morta pelo chifre de um unicórnio.
— Ah, ela não morrerá. Apenas adormecerá. — As palavras saíram pelos lábios de Thalia
automaticamente. Assim que as pronunciou, Thalia ofegou e cobriu a boca. Até aquele
momento, nunca soubera ter consciência do motivo por que todos os unicórnios tinham sido
banidos de Loiria. Agora sua mente voltava à expressão dos pais no dia em que ela pediu
Ela fechou os olhos, segurou a cabeça e ouviu cada fofoca sussurrada que já enchera o ar
a sua volta...
A mística do unicórnio a tentará.
Ela cobiçará um animal que não lhe pertence.
Lançará a mão a seu chifre.
Ele a perfurará e...
E ela cairá no mais profundo sono.
Aquela era a última parte, não era? Thalia não conseguia mais enxergar direito. Por toda a
vida aqueles fragmentos foram murmurados em sua presença. Thalia imaginou os rostos dos
pais mais uma vez, o medo incorporado a seus olhos. Não sabia de onde vinha a estranha
profecia, mas sabia que o rei e a rainha acreditavam nela.
Mas como poderia ser verdade?
Mesmo que fosse, a história falava de sono, não era? E não de morte.
Thalia meneou a cabeça. Estava velha demais para fantasias. Se o chifre do unicórnio a
feriria, por que ela se sentia tão estranhamente compelida a atravessar o riacho e ir até ele?
Seus pés se arrastaram pelo leito de seixos do córrego. A água gelada ensopou o vestido
até os joelhos. Pony relinchou atrás dela, seguindo-a, cauteloso.
Logo a princesa se aproximava do animal. Colocou-se diante do jovem que o montava.
— É apenas um conto de fadas, não? — sussurrou ela, olhando-o no alto, ao sol.
— Evidentemente. — O rapaz riu, afagando o pescoço do unicórnio. — Esta é Rose. Ela
não faria mal nem a uma mosca.
A mão de Thalia foi atraída para o unicórnio como a um ímã. Ela estremeceu de deleite
quando encostou na suntuosa pelagem aveludada, tão diferente de qualquer cavalo em que
tivesse tocado. O unicórnio reagiu amorosamente, aproximando o focinho de Thalia e
baixando a cabeça.
— Princesa! Princesa! Pare!
Thalia ouviu a música das fadas atrás de si. Reconheceu o som que Sol e Lua costumavam
fazer para chamá-la, mas nada a impediria de desfrutar do momento quando o animal que
desejou por toda a vida curvava-se para seu abraço.
Ela sentiu uma leve pontada no pescoço, pouco acima da clavícula. Por um momento, o
mundo ficou escuro e nebuloso — então a princesa Thalia caiu nas margens do riacho em um
sono mais profundo do que qualquer mortal um dia experimentou.
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