Eclipse Radiante
1 Barulhos
Notas iniciais
Junho de 1998, auge do mandato do Clinton. O sol estalava naquela manhã de sábado. Todos se encaminhavam para as praias, sempre muito freqüentadas aqui na Califórnia. Naquele dia não quis ir à praia, mas todos em minha casa decidiram ir, e eu acabei ficando sozinha em casa. Sempre gostei desses momentos em que não havia ninguém eu tinha a oportunidade de me encostar na poltrona e deixar apenas os meus pensamentos fluírem, mas naquela manhã um som interrompeu meu solitário momento de reflexão.
O som abafado daquela bateria a princípio não me incomodou, afinal era sempre bom ouvir a tentativa que muitos desses garotos têm na adolescência de ser roqueiros ainda mais quando se tratava desse meu vizinho, que apesar de nunca ter o visto pessoalmente já tinha o ouvido tocar variadas vezes. Mas naquele dia eu não estava com a mínima vontade de ouvir som algum, e à medida que o som foi ficando mais alto, fui perdendo a paciência.
Fui até a casa do meu vizinho soltando fogo pelos olhos, bati fervorosamente na porta dos Sullivan, sem nem me importar com o que o Sr. E a Sra. Sullivan iriam pensar. O som cessou e a porta se abriu, revelando a despenteada cabeleira de um alto e sorridente garoto loiro que punha a cabeça para o lado de fora da casa. Por várias vezes enquanto ouvia o som da bateria, ou em outras vezes guitarras e pianos, eu havia imaginado o rosto daquele garoto, enfim eu podia conferi-lo com os próprios olhos. No mesmo instante em que eu o observava ele me olhava com uma expressão de “Puta merda quem é essa vadia que não fala nada”, então eu me toquei do que eu realmente havia ido fazer ali:
- Porra cara, o som dessa bateria vai me deixar surda. Olha eu nunca reclamei dessa merda, mas hoje o negócio está demais. Será que dá pra parar com essa desgraça?
O garoto imediatamente soltou uma gargalhada estridente.
- Olha eu não faço idéia de quem você seja, mas tenta entender que é impossível diminuir o som da bateria, porque se ele não for alto o suficiente fica uma grande merda. Se estiver tão incomodada, porque não vai à praia como todas as outras garotas normais da Califórnia fazem aos sábados?
Agora foi a minha vez de sorrir:
- Bom, talvez eu não seja como as outras garotas. Mas isso não vem ao caso.
- Eu preciso treinar as passagens da bateria se um dia eu quiser ser bom, se atrapalhou o que quer que você estivesse fazendo foda-se. Eu tenho que fazer isso.
- Cara ser sua vizinha não é uma coisa muito fácil, você vai ter que pagar o meu Otorrino, já vou avisando.
Ele riu. Era incrível como ele não era um daqueles roqueiros marrentos que já saem partindo pra ignorância. Apesar de se recusar a parar com a barulheira ele estava sendo até simpático. Mas tenho que admitir que ele era no mínimo um garoto de gostos excêntricos, a começar pelas vestimentas, céus, o que era aquilo que aquele cara estava usando? Seria um roupão ou um Kimono? E o Cabelo? Parecia até o Goku.
- Então você é a vizinha do lado? Bom sua família não é muito sociável não é? Vi alguns de vocês vagamente. Qual o seu nome?
- Sarah. Sarah Thompson. E o seu?
- James Sullivan a seu dispor. Jimmy para as moças.
É sem duvidas aquele era um garoto simpático. Ele continuou falando:
- Bom, se o meu “barulho” estiver te incomodando MUITO, por que você não pega aquele CD foda do Metallica que direto você fica ouvindo até as 3h da manha, põe no Discman e vai ser feliz?
Putz! Ele sabia que eu ouvia Metallica! Pra ser sincera sempre gostei de um rock clássico e a voz do James Hetfield sempre me agradou muito. Era bom pra abrir a minha mente antes dormir, mas sempre ouvi num volume razoável, talvez meu vizinho tivesse ouvidos bem apurados, quem sabe.
- Parece que você não vai parar mesmo com isso.
- Você demorou pra perceber.
- Ah, esquece, só tenta não bater essa porra como se o mundo fosse acabar hoje
- Acho que você não entendeu, essa é que é a essência do negócio.
Começamos a rir juntos, o que a principio era pra ser uma briga de vizinhos tornou-se o começo de uma amizade.
- Eu tenho uma banda Sarah
- Sério? Eu achei que você fosse um daqueles caras que são tipo ‘Bandas de um homem só’ e saem tocando quinhentos instrumentos simultaneamente.
- Muito engraçado — ele disse num tom irônico – mas é serio, minha banda se chama ‘Suburban Legends’ e é até bacana. Você podia vir ver a gente tocar um dia desses?
- Quem sabe não é?
A banda do Jimmy (ah qual é, ele disse que as moças podiam chamá-lo assim) era razoável, mas é claro se formos levar em conta que eram apenas um bando de garotos querendo fazer um som. Mas é óbvio que quando ele me perguntou o que eu havia achado das músicas eu disse que era tudo uma grande pilha de merda, e no fundo era mesmo. Faltava alguma coisa naquela banda que eu não sabia explicar, mas que faltava isso faltava. De fato Jimmy e eu ficamos amigos, nossas relações se estreitaram não apenas por sermos vizinhos, mas também porque ambos havíamos freqüentado a Huntington Beach High School, mas como ele mesmo me disse uma vez, ele tinha sido expulso. Ao contrário de mim que fechei meus anos escolares com notas até razoáveis. Contudo, havia algo que me aproximava de Jimmy, e talvez tenha sido o que me fez adorar ser sua amiga. Jimmy, assim como eu, possuía dentro de si grandes sonhos e estava disposto a lutar o quanto fosse necessário para torná-los concretos. Podíamos passar horas devaneando sobre como seria as nossas vidas quando enfim estivéssemos realizados.
Por trás daquele enorme garoto com cabelos de Super Sayajin existia alguém que queria viver intensamente uma vida onde o Rock fosse eterno, e que apenas grandes ídolos do Rock tiveram a coragem de viver. Jimmy pensava grande, e aos poucos para mim ele deixou de ser apenas um baterista de uma garagem qualquer, depois de um tempo eu passei a ouvi-lo falar de seus desejos quase como se fossem planos certos do seu futuro.
Mas é claro que ele não era perfeito. Acho que ficou claro que ele era um garoto bem malandro, sua ficha de ‘Traquinagens’ era extensa (e põe extensa nisso), na minha cabeça ele estava mais para um grande imbecil inconseqüente, mas depois de um tempo fui descobrindo certas coisas que me ajudaram a interpretar o real motivo daquele garoto querer viver tão intensamente cada segundo de sua vida. Talvez aquela bateria fosse uma metáfora a respeito do pequeno instrumento que ás vezes batia falho dentro do seu peito. Ele tinha problemas cardíacos, mas aquilo nunca impediu que ele tornasse as batidas daquela bateria quase que as batidas do próprio coração. Apesar de tudo acredite, aqueles que não o odiavam, amavam-no incondicionalmente. Percebam que eu não o odiava, então tirem suas próprias conclusões sobre meus sentimentos por ele.
Mas eu também possuía meus sonhos, claro que não eram tão estratosféricos quanto os dele, mas desde criança sempre carreguei uma vontade tremenda de me mandar da Califórnia, nunca gostei de praia mesmo, aquela areia entrando nos lugares mais inimagináveis, o sol extremamente quente e todos aqueles homens gordos que não podiam pegar um pouco de sol que logo ficavam rosa, enfim, aquele lugar era pequeno demais para mim. Queria cursar uma boa faculdade e que de preferência se mantivesse bem longe da salinidade do mar. Nisso Jimmy e eu sempre concordamos: ambos tínhamos uma sede incontrolável por liberdade.
Depois de uns tempos Jimmy decidiu largar o ‘Suburban Legends’ e resolveu ingressar em um novo projeto que ele e alguns amigos, que eu inclusive lembrava vagamente de conhecer dos tempos da escola: O Matt e o Brian eu conhecia bem, Zacky conhecia só de vista, o outro Matt, o Wendt, que eu conhecia menos ainda. Mas enfim chegou uma tarde em que eu ouvi um novo som, bem, ainda era uma porcaria, mas aquele som possuía o elemento que tanto faltou no ‘Suburban Legends’: ALMA.
Imediatamente fui para a casa do meu estimado vizinho, ao chegar lá Matt, que estava nos vocais, ao me ver ali deu uma piscadela e um sorriso pra mim, Brian (outro garoto que assim como o Jimmy era excêntrico além da conta) olhou pra mim com uma cara meio que de sono, e mordendo o lábio inferior numa tentativa frustrada de sedução tocava guitarra, Zacky olhou para mim mas não pareceu dar muita importância. Já o Jimmy suava em bicas, e levou certo tempo para me notar ali. Fiquei até o fim do ensaio e quando os outros garotos foram para suas respectivas casas aproveitei para sentar na calçada e conversar um pouco com meu amigo, da mesma forma que sempre fazíamos ao fim de cada ensaio. Ele parecia entusiasmado com a nova banda, afinal ali estavam seus melhores amigos fazendo o que mais gostavam. Já tinham até decidido como a banda se chamaria, e o nome carregava consigo uma mescla da personalidade daqueles garotos: Avenged Sevenfold.
Porém aquela tarde não significava apenas o começo de uma nova banda, marcava também a separação de dois amigos que haviam aprendido a ser inseparáveis:
- Então é isso?
Aqueles dois olhos tão profundos e azuis quanto o oceano me fitavam a espera de uma resposta.
- É, daqui a dois dias me mudo para Manhattan e ingresso na Faculdade de Nova York
Ele abaixou os olhos como se pensasse um pouco
- Bom, enfim seu sonho começa a se realizar, logo vai se ver livre de todos esses surfistas bronzeados da Califórnia – ao dizer isso ele deu um leve sorriso, expressava uma pequeno desaponto talvez.
- Não apenas o meu sonho Jimmy, dessa vez eu tenho certeza que com o Avenged Sevenfold você vai conseguir chegar onde quiser. Pode escrever o que eu digo.
Ele parou por um instante, olhou para a rua e pareceu refletir se o que eu acabara de dizer realmente poderia ser verdade. Eu sabia que sentiria mais saudades dele do que de qualquer outra coisa, afinal aquele garoto louco de certa forma marcara a minha vida. O sol já se punha quando entrei em casa, ele ainda permaneceu sentado ali sozinho por alguns minutos, parecia pensar, mas infelizmente eu nunca soube exatamente em quê.
Nos dois dias seguintes não vi nem ouvi nenhum sinal dele, apenas no dia de minha partida aquele garoto calçado em meias que quase tocavam nos joelhos veio em minha direção e me abraçou forte:
- Você foi a vizinha mais imbecil e chata que eu já tive, mas foi a melhor vadia que já bateu na minha porta para reclamar do som, normalmente só as amigas velhas da minha mãe faziam isso.
Segurei o choro, mas não consegui conter o impulso que me atacou de repente: Dei um beijo estalado naqueles lábios que exibiam sempre o mesmo sorriso malandro. Ele pareceu não entender o significado do que eu acabara de fazer, de fato nem eu sabia. Mas naquele momento não havia mais tempo para interpretações, chegara a hora de partir.
Sentada no banco do carro vi a imagem de um Jimmy atônito na porta de sua casa ficar para trás, ele e toda a Huntington Beach. Nunca mais eu veria de novo aquele baterista insano, pelo menos era o que eu pensava. Mas o destino é mesmo uma coisa engraçada e instável demais para se prever.
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