Ebony Cross

25 Vigésimo Quarto Capítulo - Saudade


Notas iniciais
Penúltimo capítulo! *-* Obrigada pelo apoio, meus leitores lindos!

“O carro está nos esperando no estacionamento.” Disse Tobi, após falar com um dos atendentes do aeroporto.



“Será que é o mesmo de antes?” Perguntou Raffy.



“Não faço a mínima ideia. O cara não falou qual carro que era, mas disse que vai ter outro atendente ao lado do veículo, então saberemos qual é.”



Tínhamos acabado de desembarcar do voo para o Arizona. Pegaríamos o carro, seja ele qual for, e iríamos à Clifton.



Clifton. A cidade do Dungeon.



Assim que Regina e Amanda, as minhas médicas na Ebony Cross, me deixaram sair, dizendo que eu já estava completamente recuperada de minha “morte”, o que levou algumas semanas, fui direto falar com o Diretor Prudence. Tive que marcar horário, o que levou mais alguns dias, mas finalmente consegui falar com ele. Pedi – praticamente implorei – para ele me deixar ir até Clifton novamente. Além de pedir permissão, tive que pedir pela passagem aérea, pelo carro, e por dinheiro para nossas estadias. Não foi só isso, tive que pedir tudo isso para o Tobias e para o Rafael também. Foi um parto.



Como não era uma missão e a Ebony Cross não ganharia nada com isso, tive que usar todos os meus recursos para convencê-lo. Quando digo isso, não quero dizer que o seduzi nem nada assim. Jamais faria isso, mesmo se não estivesse namorando o Tobias. Quero dizer que tive que jogar na cara dele todas as vezes que contribuí para a instituição e nunca havia pedido um favor sequer. Tive até que lembrá-lo que até morrer eu morri pela instituição.



Com um pouco de falso choro e uma encenação de eu “lembrando” das dores terríveis que passei na luta contra Sebastian, ele finalmente cedeu. Ainda bem que ele estava tão nervoso, achando que eu estava com traumas e que precisaria de um psicólogo, que nem se lembrou de perguntar o porquê da viagem.



Andávamos pelo estacionamento, procurando o tal sujeito que estaria com nosso carro. Estávamos em completo silêncio, desde quando pusemos os pés dentro do avião. Ninguém queria falar. Estava um clima bem mórbido entre nós, afinal nosso destino era o Dungeon, onde visitaríamos Jullyan.



Vi uma figura ao longe, em pé, ao lado do que parecia ser um Land Rover. Um Land Rover verde-exército que me parecia muito familiar. Chamei a atenção dos dois, apontando para o carro e o homem ao lado.



“É o mesmo de antes, não é?” Perguntei apenas por perguntar, sem muito interesse.



“Acho que sim.” Disse Raffy, e foi andando mais ligeiro na frente.



Fiquei para trás, mas o Tobi logo percebeu e diminuiu seu passo até eu alcançá-lo. Não falou nada para mim e nem eu para ele. Apenas nos olhamos nos olhos e ele pegou minha mão, fazendo carinho nela com seu polegar. Era reconfortante. Eu estava me sentindo muito depressiva com essa viagem, mas era necessário. Nós devíamos isso ao Jullyan.



Raffy falou com o homem e acertou as coisas, agradecendo-o quando ele foi embora. O moreno acabou por sentar no banco do motorista e, quando Tobi abriu a porta do banco do passageiro, dei um leve puxão em seu braço, atraindo sua atenção. Não falei nada, mas não precisava, ele entendeu na hora. Eu estava carente, sentindo-me extremamente sozinha e prestes a chorar por qualquer coisa a qualquer hora. Tudo isso por causa do que havia acontecido com Jullyan... Eu estava morrendo de saudades. Ele fechou a porta e abriu a porta de trás, esperando eu entrar para daí entrar em seguida.



O moreno não comentou nada. Apenas ligou o GPS e nós tivemos que pôr nossas digitais na tela e deixar o aparelho escanear nossas íris para ele nos reconhecer como membros da Ebony Cross e abrir o mapa. Assim que fizemos isso, Raffy seguiu caminho.



Ainda eram cinco da tarde e o sol ainda estava no céu, o que significava que o Dungeon provavelmente estaria deserto. Estava aberto, mas só para os clientes humanos. Por enquanto.



Estacionamos o Land Rover e entramos no Dungeon. Estava tudo como antes, tudo no lugar, tudo funcionando direitinho. Nem parecia que o dono havia falecido. Eu não fazia a mínima ideia de como o clube noturno ainda estava funcionando. Achava que, com certeza, ele iria ser fechado. Pelo visto, alguém o estava administrando, mesmo sem o Jullyan.



Deixei os dois para trás, indo em direção ao bar. Minha curiosidade sempre foi meu ponto fraco. Esperei até o barman aparecer, o que demorou pouco, tendo em vista que o lugar estava quase vazio. Tinham apenas umas dez pessoas dançando na pista. Quando o sol descia, daí sim o lugar ganhava “vida”. Ironicamente. Finalmente Romeu apareceu. Eu me lembrava dele de quando ele levou meu colchão para o quarto de Jullyan, quando tive que dormir em seu apartamento subterrâneo.



“Luciane?” Estava surpreso em me ver. Concordei com a cabeça e lhe dei um sorriso fraco. “O que faz aqui? Como está?” Perguntou simpático, pegando um copo e enchendo-o com alguma bebida que eu desconhecia.



“Estou... bem.” Respondi, em parte falando a verdade e em parte mentindo. Ignorei sua primeira pergunta.



Deu-me o copo. “Tome. Por conta da casa.”



Arqueei uma sobrancelha para ele. “Espero que você não esteja tentando me dopar.” Falei brincando e ele riu. Tomei o líquido. Não me parecia ser nada alcoólico, mas tinha um gosto bom. “Obrigada, Romeu. Mas, posso lhe fazer uma pergunta?”



“Claro, ué. Mande bala.” Apoiou um dos seus cotovelos na bancada, segurando seu rosto com essa mão, fitando-me.



“Quem é que está pagando as contas “da casa”?”



Levantou-se quase automaticamente da bancada, percebendo, meio tarde, o que eu vim fazer aqui. Estiquei minha mão, entregando-lhe o copo, o qual ele logo lavou e secou.



“Achei que o Dungeon seria fechado depois de...” Deixei o final no ar. Eu não queria usar as palavras “morte” ou “morrer” na mesma frase em que eu usava “Jullyan” mais. Estava cansada disso. Sim, era o que tinha acontecido, mas eu não queria me lembrar de Jullyan pela sua morte. Queria me lembrar dele pela pessoa que ele foi, mesmo eu o tendo conhecido por tão pouco tempo.



“Ah não. Jullyan jamais iria querer isso.” Falou, sua voz carregada de saudade. “O Dungeon era tudo para ele, seu sonho realizado.” Sorri, imaginando a expressão de Jullyan quando ele construiu ou comprou o prédio, e depois o transformando em um clube noturno de sucesso.



“Então quer dizer que alguém o herdou? Tem alguém cuidando do lugar?”



Romeu assentiu. “Jullyan tem uma prima chamada Suzanah, que também... Tem as habilidades que ele tinha.” Explicou quando um casal sentou-se no bar. Foi servi-los.



Então Jullyan tinha uma prima vampiresa...



Aproveitei a brecha para dar uma olhada em Tobi e Raffy. Os dois estavam sentados em uma das mesas no outro lado do salão. Estavam conversando, mas me olhavam. Fiz um sinal para eles esperarem mais um pouco onde estavam e, quando me virei novamente para o bar, Romeu já estava voltando.



Jogou sua toalha sobre o ombro e retomou a conversa. “Suzanah estava morando na Itália com seu amante, mas assim que soube da – do que houve com Jullyan, veio voando para cá. Ele era a única família que ela ainda tinha. Quando chegou, falou com algumas pessoas, assinou alguns papéis, e entrou no Dungeon já como proprietária.”



“Rápida.”



“Pessoas como Jullyan e Suzanah...” Falou, lançando-me um olhar que dizia vampiros. “Não perdem tempo. São sempre muito rápidos. Mas isso não é uma coisa ruim.” Disse, ofendido.



“Ah, não. Eu não quis dizer dessa forma.” Desculpei-me. Eu sabia que o barman não era um vampiro, mas tinha vários amigos que eram. Antes de conhecer Jullyan, isso seria incompreensível para mim. “Mas, Romeu, será que tem como eu falar com essa... Suzanah? Eu... Bem, todos nós,” Apontei pros meus irmãos na mesa e o barman acenou para eles, que retribuíram. “queríamos visitar Jullyan... Nós não chegamos a nos despedir direito.”



O homem assentiu e olhou para o relógio em seu pulso. “Há essa hora ela com certeza está acordada e se arrumando. Vocês podem ir até seu quarto e tentar falar com ela, se quiserem. Ela está dormindo no mesmo quarto que Jullyan usava. Sabe como chegar lá, não?”



“Sei sim. Muito obrigada, Romeu.”



Desci da cadeira alta do bar e fui em direção ao elevador, chamando os dois com a mão quando passei ao lado de sua mesa.



“E então?” Perguntou o loiro quando me alcançaram. Entramos no elevador.



“Jullyan tem uma prima chamada Suzanah que acabou herdando o clube. Estamos indo falar com ela agora.” Apertei o botão do segundo andar subterrâneo, já que o primeiro andar subterrâneo era o andar dos quartos que o clube alugava.



“Ela é...”



“Vampiresa? Sim.”



“Mas então ela ainda não está dormindo?”



Dei de ombros. “Romeu disse que ela já deve estar se arrumando. De qualquer forma, vamos bater na porta e ver se ela nos recebe, claro. Afinal, ela nem nos conhece, e nós caçamos a raça dela.”



As portas do elevador se abriram e eu senti uma forte pontada de nostalgia. O corredor longo e estreito me dava boas-vindas novamente. Andamos até a única porta do andar, o quarto de Jullyan.



Hesitei antes de bater na porta. Parte de mim estava irritada com Suzanah. Ela já chegou à cidade e já pôs o Dungeon em seu nome. Só chegou a visitar o clube depois de se tornar proprietária. E agora ela estava habitando o quarto de Jullyan, seu lar. Ela me parecia muito interesseira. Talvez fosse só eu a julgando, mas a ideia do quarto de Jullyan ser invadido, suas coisas sendo tiradas e jogadas fora, me deixava com uma raiva inexplicável.



Finalmente consegui bater na porta.



“Quem é?” Perguntou uma voz fina e dolorida, de dentro do quarto.



“Erm, aqui é Luciane Dawson. Junto comigo estão Rafael Smith e Tobias Somerville.” Esperei, mas ela não falou nada. “Nós éramos amigos de Jullyan.”



Inesperadamente, ela abriu a porta. Estava vestida com um robe preto, provavelmente com seu pijama ainda por baixo, e o cabelo preso com um prendedor. Tinha olhos verdes, do mesmo tom de um dos de Jullyan, e cabelos negros, também como os dele, mas não fazia mechas cor de sangue como o vampiro. Seus olhos estavam inchados, mas não de sono. Ela estava chorando há pouco. Deu para ver que tentou se limpar antes de atender a porta, mas os sinais ainda estavam claros em sua face.



“Eu sei quem vocês são.” Ela disse, abrindo mais a porta e saindo da frente, fazendo um movimento com o braço, pedindo para nós entrarmos. “Vocês são os caçadores que o levaram para a fábrica, onde morreu.”



Eu nunca havia pensado por esse lado. De certa forma, nós causamos a morte de Jullyan. Eu causei a morte de Jullyan. Por meio segundo, senti uma presença familiar ao meu redor. Do meu lado, dentro de mim, por todo lugar. E, como um sussurro, as palavras dele naquela noite na fábrica voltaram para mim.



Eu não deixarei nada lhe acontecer. Eu juro...



Entramos no quarto e soltei um suspiro de alívio. Estava tudo intocado. As coisas dele estavam exatamente como eu me lembrava. Suzanah não havia mexido em nada. A única exceção era que, agora, ao lado do caixão de Jullyan, havia um outro. Só podia ser dela.



Andei até o caixão de Jullyan, passando a mão por sobre a madeira e prestando atenção nas figurinhas de bandas que ele havia colado na tampa. Adrenaline Mob, Cradle of Filth, Destruction...



Voltei minha atenção à Suzanah, que me observava atentamente. A prima de Jullyan andou até onde eu estava e, como eu, pôs sua mão na tampa do caixão. Assim que a palma de sua mão entrou em contato com a madeira, foi como se ela havia levado um choque, pois a mulher começou a chorar imediatamente.



“Jullyan! Oh, Jullyan!” Berrava e soluçava incontrolavelmente. Ambos meus irmãos a fitavam com um olhar de pena e tristeza. Estavam na porta, não querendo invadir o território de nosso falecido amigo.



Sem pensar nas consequências, puxei-a num abraço apertado. Ela podia muito bem me matar, meu pescoço estava completamente exposto para ela. Sim, ela era prima de Jullyan, mas isso não provava nada! Ela ainda era uma vampiresa desconhecida, uma mulher em quem eu não deveria confiar. Porém, meu coração falou mais alto do que o meu cérebro. Ela havia desmoronado bem na frente dos meus olhos. Todas as minhas dúvidas sobre seu caráter sumiram com esse acontecimento. Ela amava muito Jullyan. Ele fora seu primo. Seu primo que morreu por minha causa.



“Desculpe.” Falei em seu ouvido. Ela deu um soluço violento e apertou seus braços ao meu redor, desfrutando do conforto que eu a ofereci.



Após alguns minutos nessa situação, seu choro foi diminuindo e ela foi se acalmando. Finalmente se afastou de mim, limpando o restante de lágrimas de seu rosto.



“Agora eu vejo o porquê de Jullyan ser seu amigo.” Ela disse, surpreendendo-me. “Obrigada.”



Eu não havia entendido direito o que ela quis dizer e acho que isso estava visível em meus olhos, pois ela, em seguida, explicou-se.



“Você é diferente.” Falou, um sorriso sincero brotando em seus lábios. “Você é uma caçadora, mas vê dentro dos olhos do seu inimigo que não há apenas um monstro dentro. Há uma alma, que, sinceramente, muitas vezes é maléfica,” Confessou sobre sua espécie. “mas que, às vezes, pode ser boa.” Pegou minha mão direita, apertando-a. “Tem um coração muito bom, e muitos podem achar que isso é uma fraqueza, mas é sua maior defesa. Com isso você conseguirá vários amigos fiéis que, como Jullyan, lhe ajudarão em qualquer circunstância.”



Suas palavras me deixaram mais leves e, novamente, senti aquela presença por todo o lado.



'Jullyan.' Pensei, e pude ouvir sua risada claramente em minha mente, como se ele realmente estivesse ao meu lado. Sorri.



“Suzanah, nós gostaríamos de visitá-lo.” Ela concordou e pediu para nós a seguirmos.



Saímos do apartamento e subimos pelo elevador até o piso térreo. Passamos pelo salão, que já estava mais lotado do que antes, mas não tanto quanto chegava pela madrugada. Passamos do lado do bar e Romeu me lançou um sorriso fraco. Acenei com a cabeça para ele, em resposta.



Saímos pela porta dos fundos, um lugar que eu nunca havia estado antes. A porta dava para um enorme quintal que eu jamais imaginaria que existisse ali, no mesmo terreno que um clube noturno. No fundo do quintal havia uma árvore chorão gigante, deveria ter mais de trinta anos, e embaixo dela havia uma lápide.



A lápide era simples e pequena, no formato tradicional. Havia um amontoado de flores de várias cores na frente. Chegamos mais perto dela e ouvi, atrás de mim, Suzanah agradecer ao Raffy por ter trazido o corpo de seu primo.



Pelo que me contaram, quando Raffy chegou com o corpo no clube – Tobias já estava a caminho do aeroporto para falar com o Diretor pelo telefone e conseguir um avião particular para me levar de volta – já era dia e ele teve que pedir pra uns dos humanos que limpavam o local para acordarem Romeu. Ele entregou o corpo ao barman e já teve que correr para o aeroporto para não perder o voo.



Romeu deve ter contado para Suzanah tudo que aconteceu, então.



Ajoelhei-me na frente da lápide, e todos os outros me imitaram. Fechei meus olhos e juntei minhas mãos em posição de prece. Eu podia não ser muito religiosa, mas acreditava em Deus e acreditava que, onde quer que Jullyan estivesse, ele me escutaria agora.



“Jullyan,” Falei em minhas preces, minha cabeça baixa. “Jullyan, estou com tanta saudade! Você nem imagina o quanto sua risada, seu jeito exótico e sua presença amigável fazem falta. Você era nosso D’Artagnan!” Ri baixinho com a comparação de nós com os três mosqueteiros. “Você nos ajudou muito... Ajudou tanto! Sem você, nós nunca teríamos sequer achado Sebastian. E, mesmo se por um milagre o achássemos, sem sua ajuda em batalha, com certeza perderíamos. Você deu sua vida por mim. Prometo que não foi em vão.” A essa hora eu já estava chorando. “Você me amou, Jullyan, e por esse amor você me salvou.”



Senti, mais uma vez, a aura que eu agora tinha certeza que era de Jullyan. Essa aura fez eu me sentir alegre. Confesso que fiquei um tanto aliviada que ele não estava nem um pouco bravo ou magoado comigo. Afinal, ele me amou tanto que queria que eu fosse sua companheira para toda a eternidade, e eu recusei. No final, morreu por mim, e eu nunca sequer dei motivos para ele fazer nenhuma dessas coisas.



Deu sim. Ouvi sua voz em meu ouvido, causando-me um arrepio leve e gostoso. Você é minha amiga, Luciane. E você também me amou, como amigo. Isso já me basta.



“Ah, Jullyan...” Falei em voz alta, começando a soluçar alto.



Não me arrependo de nada, se é isso que lhe preocupa. Pude sentir o sorriso em seu tom de voz. Eu já vivi por muito tempo, e você não merecia morrer tão cedo. Você ainda tem muitas coisas boas para fazer, muitas pessoas para ajudar e muitas vidas a salvar.



“Ah Jullyan! Jullyan! Estou com tanta saudade, Jullyan!”



Eu sei. Também estou, mais do que posso expressar em palavras. Mas você vai seguir em frente, com Tobias. Um homem bom que lhe merece e que cuidará bem de você. Tive que sorrir. Eu lhe amo, Luce. Esqueça da dor de me perder, mas não se esqueça de mim.



A sensação de conforto da aura de Jullyan foi se dissipando até sumir completamente e eu soube que ele havia ido embora. Senti-me um pouco vazia, mas estava em paz. Limpei as lágrimas de meu rosto, grata por eu nunca usar maquiagem, e fiquei em pé. Os meninos e a Suzanah ainda estavam ajoelhados, conversando e dizendo adeus. Não quis atrapalhá-los, então dirigi-me de volta ao clube.



Sei que foi uma tremenda de uma falta de educação, mas voltei ao quarto de Jullyan, que, apesar de estar igualzinho a como estava antes, agora era de Suzanah. Entrei e, lutando contra as lágrimas, fui até o aquário que ficava bem do outro lado do quarto. Espiei lá dentro e, como eu esperava, encontrei a tarântula do vampiro.



Fiquei lá, olhando para ela, e conversando banalidades com ela. Era uma aranha, afinal.



Depois de uns cinco minutos, Suzanah entrou no quarto. Não falou nada, apenas encostou suas costas na porta e me observou. Não me importei, continuei a conversar com Pandora. Tirei-a de dentro do aquário e deixei ela se aventurar por meus braços. Fazia cócegas.



Se tinha uma coisa que eu achava que eu nunca faria na vida, era deixar uma aranha gigante, peluda e feia andar pelo meu corpo.



Pois é, culpa do Jullyan.



Quando os meninos vieram, Suzanah andou até mim. Pegou Pandora, que estava caminhando pela minha nuca, e fez carinhos no aracnídeo.



“Você gosta dela?” Perguntou a mim, e eu respondi com um aceno de minha cabeça. “Jullyan amava essa malandra...” Ela olhava atentamente para Pandora, mas eu sabia que ela estava lembrando de Jullyan, provavelmente algumas memórias dele com seu bichinho de estimação.



Ela estendeu a mão, Pandora me olhava com seus quatro olhinhos pretinhos. Peguei-a em mãos, acariciando sua cabecinha peluda. Ela até que era... bonitinha.



“Cuide dela.” Falou a vampiresa, e eu, Raffy e Tobi fizemos uma cara de surpresa. Ela deu de ombros. “Você era amiga de Jullyan. Eu já tenho todo o legado que ele construiu. Agora você tem sua amiga fiel para se lembrar dele.”



Olhei novamente para Pandora. Em seguida olhei para meus irmãos. Raffy provavelmente havia gostado da ideia, pela sua expressão. Tobi sorria levemente.



“Tudo bem.” Falei, e, com um último carinho na aranha, a coloquei dentro do aquário novamente. Tobi veio até nós e pegou o aquário para mim.



Nos despedimos de Suzanah e de Romeu, prometendo que os visitaríamos quando a instituição permitisse.



Prometi isso ao Jullyan também.



Fomos até o aeroporto e, dessa vez, conseguimos um voo só para nós. Pelo o que o homem da recepção falou, o Diretor estava nos procurando. Consegui levar Pandora comigo no avião, só que eu não ia soltá-la lá dentro.



Fiquei olhando pela janela, observando Clifton e depois o Arizona se distanciarem, até chegar ao ponto que eu só conseguia ver nuvens.



Tobias sentou-se ao meu lado, pondo o aquário de Pandora do outro lado do corredor, na cadeira ao lado de Raffy, que ficou falando com ela como se ela fosse um filhotinho de labrador. Tive que rir. Acho que o maior desejo de Raffy, depois de ser o pai dos filhos da Amanda, era ter um animal exótico de estimação.



Tobi passou seus braços por mim, abraçando-me por trás. Depositou um beijo em minha bochecha e cochichou em meu ouvido. “Eu amo você.”



Sorri e, nas nuvens, vi o rosto de Jullyan sorrindo para mim de volta.



Notas finais
Por favor, deixem comentários! Esse é o penúltimo capítulo da história pessoal, acho que merece vários comentários!
Está quase no fim. ç.ç