Ebony Cross
8 Sétimo Capítulo - Separação
Notas iniciais
Raffy estava no volante e o Tobias no banco do passageiro. Eu estava no de trás. Estávamos indo com o Land Rover bem devagar, uma para não fazer muito barulho e outra para podermos ver todo e qualquer detalhe. Passamos a manhã inteira procurando e nada. Procuramos em supermercados, escolas e até num shopping center. Vasculhamos cada centímetro de todos esses lugares e nenhum sinal de nenhum vampiro sanguinário.
Deu meio dia e paramos para o almoço. Não tinha nenhum lugar aberto, nenhum restaurante, lanchonete, nada, então tivemos que recorrer às nossas mochilas. Nós sempre trazíamos o básico em nossas mochilas, em caso de emergência e tal. Era um dos lemas da Ebony Cross, ‘Antes prevenir do que remediar’. Comemos umas barrinhas de cereal e algumas frutas. Não foi um almoção, mas deu para recuperar as energias pelo menos.
“Não acredito que a gente não achou esse filho da mãe ainda.” Raffy reclamou irritado. “Não é possível! Nós reviramos a cidade inteira!”
“Bem, é de se esperar.” Falei. “O diretor Prudence nos avisou que este era o pior caso da Ebony Cross em anos. Esta é a peste mais esperta que vamos enfrentar.”
“E louca.”
“E psicopata.”
Suspirei. Eu queria tanto ir embora para aquele lugar que nós chamávamos de casa... Mas, obviamente, ia demorar muito ainda para eu poder fugir pro meu cubículo que eu chamava de quarto.
“Mas não é possível.” O moreno continuou reclamando. “Ele só pode ter espiões, alguém que o avisou que estamos atrás dele.”
“Mas como Rafael? Ninguém aqui sabe quem nós somos. Tá, somos obviamente diferentes que esses góticos viciados aí, mas só porque não temos piercings e não idolatramos Vlad o Empalador não significa que sejamos caçadores.”
Enquanto os dois continuavam discutindo, eu comecei a pensar, mas pensar mesmo. Comecei a refazer mentalmente todo o nosso caminho. Nós realmente tínhamos revistado tudo, todos os possíveis lugares e cada canto desse lugar.
Talvez Raffy tivesse razão. Ele sabia e se escondeu muito bem escondido. Mas, por outro lado, Tobi também tinha razão. Como ele ia ficar sabendo e como que alguém dessa cidade descobriria que éramos da Ebony Cross?
E, do nada, aquilo me atingiu como um raio.
“Erm, pessoal.” Chamei, mas não perceberam e continuaram discutindo. “Pessoal!” De novo, nada. Puxei a orelha dos dois.
“Ai, ai, ai!”
“Tá louca Luce? Me solta!”
“Shiu. Acabei de ter uma epifania.” Instantaneamente pararam de falar e me olhavam fixamente. “Tem um lugar, muito grande e ideal para homicídios e torturas, que nós ainda não investigamos.” Dei uma pausa dramática, mais para minha diversão do que outra coisa. “O Dungeon.”
Eles piscaram. Vi pelas suas expressões que já estavam descartando a ideia e iam começar a rir de mim. Mas, de repente, veio a compreensão. O clube era enorme, tinha vários corredores que davam em várias outras salas e quartos e vai lá saber aonde mais. E lá era o lugar perfeito para escolher as vítimas. À noite, toda a população jovem dessa cidade ia se divertir lá. Realmente, era perfeito. O que mais um assassino ia querer?
“Ponham os cintos.” Raffy falou sério e acelerou o Land Rover.
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Estacionamos e descemos correndo. Era cerca de uma hora da tarde, então não íamos ter problemas com a questão de pessoas. A cidade era noturna afinal de contas. Mesmo assim, seríamos silenciosos.
“Ok, este lugar é enorme.” Raffy começou. “Sinto muito em dizer isso, mas acho melhor nos separarmos.”
Tobias olhou incrédulo para ele. “Você perdeu a cabeça?!” Falou quase gritando. “Esse cara é louco, se nós sairmos sozinhos a procura dele uma hora vamos achá-lo!”
“E qual é o problema? Nós somos treinados! Esse é exatamente nosso objetivo, Tobias! Se a Ebony Cross não achasse que fossemos capazes de enfrentá-lo eles não nos mandariam!”
“Você não está entendendo, seu idiota! Uma coisa é nós acharmos Sebastian,” Virou e me olhou com aqueles olhos castanhos, tristes e cheios de amor. “outra coisa é ele nos achar.”
Rafael ficou em silêncio e esse silêncio se manteve por mais uns cinco minutos.
Se a peste nos achasse antes de nós a acharmos, com certeza estávamos mortos. Ele é nosso pior oponente, e ele nos pegaria de surpresa, e nos mataria, lentamente e cruelmente. Contudo, bem lá no fundo, sabíamos que não havia escolha.
A única opção era marchar em direção à nossa cova.
Afinal de contas nós tínhamos honra. Nossas vidas foram dedicadas para tentar livrar a humanidade desses vermes, e fugir de um estava fora de questão. E, se ainda quiséssemos ir atrás dele, mas em grupo, demoraria o dia inteiro. Se ficássemos mais tempo embaixo do mesmo teto que o psicopata nós nem teríamos chances. Ele ia nos achar, e ia nos matar. Era uma certeza. Se fossemos atrás sozinhos, a morte seria incerta. E era nisso que tínhamos que apostar.
Segurei a mão do loiro e a apertei forte. Não existe um símbolo de adeus mais forte que este.
“Não Luce. Você não vai. Não sem mim.”
“Não adiante Tobi. Eu – Nós, precisamos fazer isso. Você sabe disso.”
Ele me encarou triste, como se quisesse congelar aquela imagem de mim para nunca mais esquecer. Como se fosse a última vez que fosse me ver.
Abracei-o por alguns minutos. Senti as lágrimas enchendo meus olhos. Segurei-as. A última coisa que ele precisava era me ver chorar. Ele me beijou. Sua língua dançava fracamente com a minha, como se já estivesse conformada que nunca provaria da outra novamente. Não trocamos mais nenhuma palavra, a dor de ouvir a voz um do outro mais uma vez seria a gota da água para nossas lágrimas.
Abracei Rafael, meu irmão de coração. O brincalhão e pentelhão que nós amávamos mais que tudo. A amizade mais pura que eu já tivera.
“Boa sorte Luce, eu te amo.” Ele disse em meu ouvido. Fiz que sim com a cabeça mas ele sabia que eu não tinha forças para falar.
Agora era a vez dos dois se despedirem. Abraçaram-se forte e os ouvi murmurarem um ‘te amo’ no ouvido um do outro. Aquilo me fez soltar mais algumas lágrimas, mas logo as limpei e me recompus.
Andamos cada um para um lado e fiquei observando-os sumirem em seus respectivos corredores. Adentrei o meu, mas logo me joguei no chão e comecei a chorar.
Chorei como não havia chorado em anos.
Chorei como quando perdi Joshua.
Notas finais
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