Easy

8 7 – Bottoms Up


Notas iniciais
Olá. 24 acessos no último capítulo e nenhum comentário, o que dizer disso? :( Enfim, a música desse capítulo é Bottoms Up, do Nickelback. Capítulo totalmente do Trevor. Boa leitura.

Trevor estava fervendo de raiva. Fervendo mesmo. Seu irmão sempre tinha que aparecer e estragar tudo. Estragar tudo para Trevor, porque Thomas adorava fazer isso. Sempre adorou. Desde quando os dois eram apenas meninos ingênuos. E desde que a mãe deles faleceu isso se tornou o hobby favorito dele.

America não era a única que caíra na armadilha de “oi, sou Thomas, um cavalheiro e sou perfeito” dele. Ele sempre fizera isso; sempre enganava as garotas. Mas Trevor não deixaria isso acontecer, não de novo. Não com aquela garota.

Ele socou o travesseiro com força, frustrado. Poderia até ser um pensamento um tanto... psicopata, porém tudo o que queria naquele momento era que aquele travesseiro fosse o rosto do irmão. Lembrou-se de quatro anos atrás. Era 2009. Tinha dezessete anos e o irmão dezenove. Trevor sempre fora o mais forte dos dois, e naquele dia eles discutiram. Faziam exatos dez anos que a mãe deles havia falecido, no aniversário de Trevor e Thomas o culpava pela morte dela. Ele sempre o culpou, isso era verdade, mas naquele dia era especial. Era diferente.

Ele estava o culpando por tudo naquele dia. O pai dos dois, Richard, estava viajando, como sempre, portanto não ouviu a discussão dos dois – e também não faria diferença se houvesse escutado, pois as únicas coisas que ele fazia naquela enorme e vazia casa era se trancar em seu escritório, beber seu uísque e ignorar completamente os filhos. Ele era especialista em ignorar as pessoas.

Os dois irmãos discutiram e Thomas fez Trevor ficar com muita raiva. O mais novo, que no dia estava completando dezessete anos, estava cansado de ser culpado por tudo, principalmente pela morte de sua mãe Clarisse. Naquele dia, seus olhos não eram mais azuis. Eram apenas duas orbes vazias, com a raiva queimando lentamente dentro delas. Era capaz de ouvir o crepitar dentro de si. Trevor não se lembrava de nada naquele momento, só que estava cheio de ser sempre o culpado da história. Então ele começou a socar e socar o irmão, pegando-o desprevenido, com toda a sua força – que não era pouca – e só parou quando viu que Thomas estava perdendo a consciência. Havia deixado uma cicatriz feia na testa dele. Ele, que sempre tivera o cabelo curto, se obrigou a deixá-lo crescer para então cobrir a horrível cicatriz, como ele dizia que era.

Ele não revidara em momento algum, e isso mostrou o quanto ele era fraco quando se tratava de força física. No dia seguinte, eles não falaram nada um para o outro. Nem uma palavra sequer, nada sobre a discussão e nem sobre a briga. E têm sido assim desde esse dia.

Trevor escutou um barulho de chuva e voltou à realidade, esquecendo aquele dia trinta e um de outubro. Olhou para a janela e viu que de fato havia começado a chover. As gotas escorriam pela janela e ele pensou seriamente em não ficar em casa.

Pegou seu celular e digitou o número de sua melhor amiga, até aparecer o número completo automaticamente – ela era a pessoa para quem ele mais ligava. Ela atendeu no quinto toque.

— Porra, eu estava dormindo – ela resmungou, mau humorada, com a voz sonolenta. – O que você quer, Trevor?

— Aleluia, Maya. Tá a fim de sair hoje? – ele disse, ignorando o resmungo dela.

— TREVOR! São quase onze horas da noite! Eu estava dormindo e você me acorda para sair nessa chuva? – ela gritou, incrédula e exasperada.

Ele não ligou para o tom na voz dela.

— Maya Scalettine, dando uma de boa garota, indo dormir cedo? Essa eu duvido. E além do mais, qual é o problema? Você não é manteiga para derreter na chuva, certo? – retrucou, em um tom desafiador.

Ela resmungou algo. Bocejou e então falou:

— Black Candle. Quinze minutos.

— Fechado.

Tomou um banho rápido – seus banhos eram geralmente de cinco minutos – e se arrumou. Coturno preto, calça jeans, uma camiseta de manga curta vermelha-escura escrito “New York Yankees” – seu time de beisebol preferido – em letras estilo collegiate e sua usual jaqueta de couro. Podia ser inverno, verão, fazer chuva ou sol, mas ele continuava com ela sempre. Ela era sua marca registrada – além da moto, claro.

Antes de vestir sua camiseta, observou-se no espelho. Observou devagar seus dois braços tatuados. No esquerdo havia uma linda carpa em preto e branco, além de outros pequenos desenhos. No direito havia uma flor de lótus também em preto e branco e uma carpa menor abaixo. Trevor tinha outras tatuagens em outras partes do corpo também, como nas costas, nas pernas e nas mãos. No peito ele tinha uma cruz. Era uma espécie de ironia, porque ele não acreditava em Deus. Bem, Deus não evitou sua mãe de morrer nem de seu pai se tornou o hipócrita em que se transformara.

Suas tatuagens eram inúmeras. Ele nunca parava para contá-las, mas sabia que devia estar perto de completar trinta, e estava com vontade de fazer mais uma. Nem todas tinham um significado exato como a cruz ou as letras C. C. L. M. em seu pulso – as iniciais de sua mãe –, muitas eram apenas pequenas coisas que ele gostava.

Trevor olhou para seu rosto no espelho, estava com uma barba rala por fazer. Seus olhos, que quando pequeno eram azuis e agora eram verdes com pequenos vestígios do azul, tinham um tom verde vivo e possuíam o mesmo brilho divertido de sempre. Vestiu a camiseta e seus bíceps se sobressaíram um pouco. Isso, ter os bíceps e o tórax bem definidos eram duas das – diversas – coisas que o fazia ganhar as garotas. Seus olhos também contribuíam bastante para isso.

Vestiu a jaqueta de couro e penteou seu cabelo, que já estava seco, só para depois bagunçá-lo novamente. Adorava sair com o cabelo bagunçado, parecia um charme a mais. Passou seu perfume favorito e pegou seu celular, sua carteira e suas chaves. Se olhou uma última vez no espelho. Estava apresentável. Desceu a escada e foi até a garagem.

— Vamos passear, baby – disse à sua moto quando acendeu a luz.

Sorriu e logo estava acelerando mais e mais na rua. As pessoas já estavam praticamente acostumadas com as esportivas pois estava se tornando cada vez mais comum a presença das motos em Nova Iorque, mas ainda era algo que chamava a atenção de quase todos. E Trevor gostava quando as cabeças se viravam apenas para vê-lo passar.

Ele parou em um sinal vermelho e sentiu os pingos de chuva – que até então ele não percebera – em sua jaqueta.

— Ai – ele grunhiu baixinho quando um respingo de chuva extremamente fria caiu em sua nuca, na parte em que o capacete não protegia.

Ele ouviu risadinhas, claramente femininas, e olhou para o lado. Uma garota em um carro ao seu lado o observava. Trevor não teve tempo de observar com clareza o rosto dela porque o sinal se transformou em verde exatamente neste momento, mas ele teve o tempo suficiente para sorrir para ela.

Felizmente, não pegou outros semáforos vermelhos novamente até chegar no Black Candle, o bar que ele, Dan, Maya e todos os seus outros amigos frequentavam. Estacionou a moto e entrou no estabelecimento, e poucas pessoas olharam para ele. Apenas algumas garotas que ele conhecia de vista do colégio onde estudara até completar o ensino médio e alguns caras que ele não conhecia. Havia bastante gente lá, como todo dia. Aquele lugar era sempre cheio; era um dos mais populares da cidade.

Caminhou até o balcão e viu que estava cheio também. Mas bem no final haviam dois lugares vazios, e era como se houvessem cartões com os nomes dos “donos” dos lugares, pois ninguém sentava ali. Bem, essa era uma das vantagens de Maya frequentar o Candle – como costumavam chamar o bar – desde sempre.

Ele sentou-se e logo Gracie, a garota que atendia ali e que era amiga dele, se aproximou.

— Oi, Gracie – ele disse. – Vê uma Heineken pra mim, por favor.

— Oi, Trev. – ela terminou de entregar uma cerveja para o cara sentado ao lado dele. – O dia em que você chegar aqui e não pedir uma cerveja, acho que eu me demito. Ou filmo, porque vai ser algo muito raro. – ela disse, rindo.

Ele riu também. Ela deu meia volta, pegou a cerveja, a abriu e entregou para ele. Trevor tomou um longo gole e pousou a garrafa no balcão. Uma mão totalmente tatuada a pegou e tomou um gole, e então disse, com a voz um tanto mau humorada:

— Ora, o bad boy é educado até para pedir uma cerveja.