Easy
18 17 – Bad Blood
Notas iniciais
Parabéns, Trevor. Agora você acabou de estragar a única amizade verdadeira que poderia ter com alguma garota.
Esse foi o primeiro pensamento que passou pela cabeça dele quando a francesa bateu com força a porta da casa. Mas em menos de dez segundos depois dele já estava convencido de que aquilo não possuía a menor importância. Ela não tinha importância alguma. America não tinha importância alguma.
A hora havia passado como se fosse segundos, e agora o céu já estava completamente escuro. Trevor suspirou, guardou as coisas que estavam em cima do balcão e voltou para a biblioteca a fim de terminar o trabalho, que já estava quase pronto. Faltava apenas uma página, e após escrever e apagar diversas vezes pois estava errando muitas palavras, o concluiu.
Se jogou para trás na cadeira. Ele poderia muito bem sacaneá-la, tirar o nome de America do trabalho. Ser um verdadeiro babaca, como ela mesma o chamava. Mas não. Não chegaria a esse ponto.
Em vez de continuar pensando nisso, ele se levantou de um pulo, já com uma ideia na cabeça do que iria fazer naquela noite relativamente “morna” – estava um pouco quente e uma brisa fria soprava; o clima estava agradável – de outubro.
Ele andou até seu quarto e pegou sua toalha, e enquanto andava até o banheiro, Anúbis, que dormir serenamente em sua cama, acordou e começou a miar.
— O que foi, cara? – perguntou, e o gato miou novamente em resposta.
Ele deu risada e entrou no banho, que não durou dez minutos. Seu cabelo estava pingando quando atravessou o quarto em direção ao guarda-roupa. O gato, que havia descido da cama e se encontrava no tapete, pulou de volta para a cama, assustado, quando várias gotas de água caíram nele.
Trevor vestiu-se em poucos segundos, perfumou-se com um de seus perfumes prediletos e saiu do quarto, e foi como se o gato se materializasse ali, ao seu lado. O guiou até a cozinha, miando alto, e o rapaz entendeu que ele estava com fome.
Baixou seu prato de ração – Maya o advertira por uma mensagem de texto mais tarde, antes de embarcar no voo, que ele não podia comer o tempo todo – e o gato começou a comer alegremente, abanando a cauda de um lado para o outro. Trevor riu baixinho e consultou o relógio pendurado na parede. Eram quase nove horas da noite.
Maya estava viajando e Dan estava estudando com uma colega chamada Aria – embora Trevor duvidasse muito que eles estivessem realmente estudando – e além deles restava Zeke, um “amigo” – mais para conhecido, apenas”, Zack, seu irmão, e outros não tão relevantes. Ele tinha muitos conhecidos na cidade, porém nenhum se igualava a Dan ou Maya, ninguém mais era tão seu amigo quanto eles.
E apesar de tudo, Trevor não se importava de sair sozinho.
***
America o odiava. Bem, o ódio era algo muito forte. Talvez não fosse exatamente o que sentia em relação a Trevor, mas era algo muito parecido.
A primeira coisa que notou quando entrou na sala de aula foi que ele não estava lá. Murmurou um baixinho “graças a Deus” e sentou-se, se camuflando em meio a horda de alunos que estavam ali.
Havia alguns dias que ela não enxergava Madison, Amanda ou Andy – embora estes dois últimos estivessem sempre juntos. E poucos minutos depois ela recebeu uma mensagem de texto de Madison.
“Oi amiga! Não pude te avisar antes mas precisei vir a Chicago novamente, passar um tempinho com a minha tia, que passou por uma cirurgia um tanto complicada. Se algum professor perguntar alguma coisa, por favor, diga isso para eles.
Já estou sentindo a sua falta! Lhe avisarei quando voltar.
Beijos, Madison.”
Ela guardou o celular em sua bolsa no exato momento em que a professora entrou na sala. Mesmo que não fosse uma professora tão alheia ao que acontecia dentro da sala, ela era muito rigorosa quanto a regra de “sem aparelhos eletrônicos em sala de aula”.
Dan passou ao seu lado e seus olhares se encontraram; ele lhe deu uma longa olhada antes de se sentar no fundo com seus parceiros e algumas garotas. Trevor não estava lá com eles.
Observando melhor, Dan era bonito. Porém ela tinha de admitir, ele não chegava nem aos pés da beleza do melhor amigo.
Contra sua vontade, sua mente ficou curiosa sobre o motivo dele não ter ido à aula naquela manhã. Ela mesma se deu uma resposta: provavelmente tinha ido a alguma festa na noite passada e bebera demais. Era a rotina dele.
Ela revirou os olhos e suspirou ao pensar nisso. Como ele podia ser tão... desprezível? Sem nem ao menos se esforçar? Ele parecia ser um idiota desde que nascera. Thomas era muito melhor que ele. Isso era fato.
Tentando distanciar sua mente dos dois McCalton, ela abriu seu caderno e começou a escrever.
America estava jogada no sofá olhando TV. Andy estava ao seu lado, tagarelando sobre como as aulas estavam tão chatas na última semana, e que a única coisa que salvava era a presença de Amanda lá.
— Andy? – a francesa chamou, com um sorriso travesso nos lábios. – Posso dizer uma coisa?
— Pode – ele falou, ficando quieto e ficando nervoso de súbito.
— Eu acho... – America falou pausadamente – que você está gostando dela. Pra valer. – pigarreou. – Quer dizer, não só como amiga.
— Eu sei o que quer dizer. – ele disse baixinho, um tanto estarrecido sobre as palavras dela.
Os dois ficaram em silêncio, sem nenhum ousar falar uma palavra sequer. A francesa ficou receosa da reação dele, mas ele reagiu bem melhor do que ela esperava.
— Será que isso é possível? – ele perguntou, olhando para o nada. – Ah, meu deus.
— Claro que sim. Isso quer dizer que você é bissexual, e não há absolutamente nada de errado com isso!! – ela exclamou, ficando animada. – Andy, isso é incrível!! – ele ainda estava quieto, assimilando aquilo. Achava que a amiga podia muito bem estar certa.
Ele olhou para ela, notando um duplo sentido em sua frase. Ergueu uma sobrancelha.
— Quer dizer, não é como se eu não apoiasse o fato de você gostar de homens. Não é isso; eu apoio totalmente e você sabe disso. O que quero dizer é que Amanda é uma pessoa incrível. Seria ótimo, maravilhoso, vocês dois juntos. Eu apoiaria totalmente. – ela finalizou a frase com um sorriso no rosto.
— Obrigada, Mare. – Andy disse depois de um tempo e a abraçou.
***
Thomas estava se girando na cadeira na sala de seu sócio em Washington, que pegara emprestada por alguns dias, havia já meia hora. A grande pasta em sua frente permanecia intocada. Não conseguira se concentrar em momento algum; não conseguira trabalhar. Estava apreensivo sobre a reunião que teria no dia seguinte com os chefes da maior empresa de marketing de Washington, e os documentos que precisaria estavam totalmente incompletos.
O motivo de sua desconcentração era ninguém menos, ninguém mais que America. Desde que conversara com ela antes de viajar, não conseguia tirá-la da cabeça; seu rosto, seus cabelos, seu jeito. Tudo.
O que o incomodava era um pouco era o fato dela ser um tanto – e bastante – próxima de seu irmão. Mas ele não imaginava que Trevor lhe daria a oportunidade perfeita para se aproximar dela.
***
Andy tinha ido embora não fazia muito tempo. Já era quase meia noite e America estava com um pouco de sono. Estava feliz por Andy, se o que ela achava era verdade. Fazia um longo tempo que o amigo não era realmente feliz e aquilo a incomodava. Tudo o que mais queria era vê-lo feliz.
Sentiu sua barriga roncar e foi até a cozinha. Ainda tinha um pedaço de lasanha na geladeira; o esquentou no micro-ondas e o devorou em poucos minutos.
E involuntariamente seus pensamentos se voltaram para Trevor. Tinha de admitir, sentira falta dele na aula. Mesmo que não gostasse de alguns dos atos dele, sentia falta de suas piadas – muitas vezes, quase todas, sem graça – e de algumas das idiotices dele. Suspirou. Não devia estar sentindo a falta dele. Não logo dele.
Serviu-se de um copo de refrigerante e lavou seu prato, voltando para a sala logo em seguida. Seu sono havia se dissipado e como não tinha aula pela manhã no dia seguinte, podia dormir um pouco mais tarde. Deitou-se no sofá e se enrolou em seu cobertor, já que estava frio em seu apartamento. Começou a passar pelos canais até chegar nos HBOs, onde passavam alguns filmes interessantes. Não fazia muito que começara a ser exibido Homem de Aço, que ela adorava. Adorava principalmente o ator que interpretava o protagonista.
Sem conseguir se concentrar muito no filme, ela se lembrou do convite que Thomas lhe propusera antes de viajar, de jantar com ele. Começou a listar em sua cabeça os prós e os contras, e depois de alguns instantes chegou à conclusão de que não haviam contras. Ele era bonito, jovem, inteligente, vinha de uma família decente – mesmo que isso incluísse Trevor, pois eram irmãos –, tinha uma empresa bem-sucedida de marketing que só subia cada vez mais... não havia um motivo concreto para recusar aquele convite. Não tinha nada a perder.
Perdera quase todo o filme. Ficara divagando, sem conseguir se concentrar, e então decidiu ir dormir. Recolheu seu copo, desligou a TV e depois de voltar da cozinha, carregou seu travesseiro e seu cobertor para seu quarto. Voltou a sala para apagar a luz e quando estava prestes a ir ao banheiro para escovar os dentes, ouviu a campainha tocar.
Arqueou uma sobrancelha. Quem seria a uma hora dessas? Andy? Não, ele teria lhe ligado antes.
Olhando pelo olho mágico, não havia nada. Destrancou a porta e ao abri-la, encontrou um imenso e lindo buquê de rosas brancas e laranjas, com um pequeno bilhete dentro. Pegou o buquê e o bilhete, fechando a porta em seguida. Ao abrir o bilhete, lá estava escrito em uma caligrafia mais que perfeita, que ela sempre reconheceria:
“Por favor, não me odeie.”
America riu e então sorriu ao ler isso, enxugando uma única lágrima irritante e teimosa. Aquelas eram suas flores favoritas. Como ele sabia disso?
E do outro lado da cidade, Trevor se perguntava se ela gostara das flores.
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