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3 Capítulo 3: Rato de biblioteca


Notas iniciais
"Eu vivo sempre no mundo da lua. /Porque sou um cientista/ O meu papo é futurista. /É lunatico." Guilherme Arantes (lindo balão azul)

— "Organização Social e Política Brasileira”. “Conceitos Fundamentais em Química". "Iniciação à Física". "Matemática Moderna". "Educação Moral e Cívica". "História Geral". "Romeu e Julieta". O que? Como isso veio parar aqui? Ei moça, eu não peguei esse livro. Você o colocou por engano. Pegue de volta. — Luís Henrique não gostava de se meter em confusões. Não, de maneira nenhuma, ele iria assumir o empréstimo de um livro que ele não pedira. Essas bibliotecárias eram loucas. Por isso perdiam tantos livros.

— Aproveite que eu já anotei esse livro em seu nome, e dê uma lida. Ele é bem inspirador. — A moça pálida, de boca larga e olhos impertinentes, deu uma piscadela e um meio sorriso.

Luís sentiu-se enrubescer. Resolveu pegar o tal livro e sair rapidamente dali. Essas moças, atualmente andavam muito assanhadas. Ele procurou a mesa mais distante daquela moça atrevida, e sentou-se, colocando os livros emprestados, e mais alguns que estavam em sua mochila, sobre a mesa. Pegou seu caderno e caneta, ajeitou os óculos de grau no nariz, e iniciou sua pesquisa escolar. O romance do bardo inglês, ele fez questão de deixar o mais distante de si, como se o livro estivesse sujo.

Um sujeito alto e calvo, vestido de forma simples, aproximou-se da mesa de Luís. Era o professor Paulo, que ensinava Biologia. Luís era seu aluno preferido, por ser o mais inteligente e participativo nas aulas.

— Como vai, Luís? Vejo que está se dedicando aos estudos. Muito bem! Vim avisá-lo que vou abrir vagas para iniciação à pesquisa científica. Amanhã irei afixar o edital de seleção, no mural da escola. Dê uma atualizada em seu currículo. — O professor o informou.

— A seleção será através de currículo? Não haverá provas ou testes?

— Não, rapaz. Acho que a seleção por currículo é mais justa, pois afinal, em provas e testes, sempre se pode trapacear. — O professor deu um tapinha em seu ombro e se afastou.

O jovem e esforçado aluno ficou pensando, mordendo a tampa da caneta, enquanto revia mentalmente seu currículo. É, o professor tinha razão. Precisava atualizá-lo. Havia feito diversos trabalhos independentes da escola. Todos de cunho científico. Precisaria datilografar uma nova folha para o seu currículo de jovem cientista. Luís até preferia fazer um teste escrito. Ele sempre tirava nota dez em tudo. Até desconfiava que naquela escola, ninguém se igualava a ele em excelência, não que ele fosse convencido ou orgulhoso, mas os outros rapazes decididamente, se interessavam por outros assuntos que não eram da esfera escolar, tipo, rituais de aproximação e acasalamento com fêmeas.

Após uma hora, lendo e anotando tudo, Luís resolveu voltar para casa. Ele preferia o ambiente da biblioteca, mas o assédio da bibliotecária o deixara um tanto sobressaltado. A contra gosto, resolveu levar o romance trágico consigo, pois não queria encarar aquela moça novamente. Ele poderia simplesmente tê-lo deixado sobre a mesa, mas ele amava livros, não lhe parecendo justo, abandoná-los de qualquer jeito em qualquer lugar. Enquanto Luís se encaminhava para fora dos terrenos da escola, ele viu uma pequena aglomeração de atletas. Eles riam e falavam alto. Um deles tinha uma bola que rodopiava em um dedo da mão, como faziam os Harlem Globe Trotters. Apesar de interessante, Luís achou que o jogador era um exibicionista vaidoso. "Atletas" pensou com ironia.

Então subitamente a bola de basquetebol veio em sua direção. Ele a viu aproximar-se da sua cabeça, e não conseguiu reagir, pasmo que estava. A bola alaranjada de couro enrugado, com linhas divisórias que lhe davam a impressão de fatias, acertou-o nos olhos quebrando seus óculos, e nesse processo, lhe dando um corte na pálpebra do olho esquerdo. O sangue começou a gotejar na sua face e blusa. Os atletas se aproximaram pesarosos, mas antes que pudessem se desculpar, já algumas alunas haviam se juntado a Luís. Elas seguravam o rosto dele e exclamavam gritinhos de horror. A mais gordinha e baixinha delas, agarrou a bola de basquete e enfrentou os atletas, desafiadora.

— Vocês são uns trogloditas! Onde já se viu arremessar bolas nos outros alunos, longe da quadra de esportes? Olhem o que vocês fizeram a ele. Luís Henrique nunca fez nada de mal a vocês. Ele não mata nem uma mosca. Olhem em que estado ele ficou. — A baixinha invocada apontava o dedo riste para Luís, como um promotor durante a apresentação da prova condenatória. Uma pequena multidão se formou. Muitos davam palpites, e outros mais alvoraçados, chegavam a dizer que foi tudo culpa de Luís.

— Não fizemos por mal. A bola simplesmente escapuliu de nossas mãos. Nós não estávamos mirando ninguém. — Falou João Evangelista, o capitão do time de basquetebol. Parte da pequena multidão o apoiou, enquanto outra parte o vaiou. Logo se iniciou um bate boca entre a audiência, não demorando em virar baderna.

— Parem com isso! PAREM COM ISSO! — O diretor da escola aproximou-se daquela aglomeração. Os alunos lhe deram espaço, como se houvessem sido atingidos por chicotadas. O diretor Sebastião Maia acercou-se de Luís Henrique que já estava todo ensanguentado.

— Um dos professores, por favor, leve este aluno para a enfermaria da escola. Alguém pode agora me dizer o que aconteceu?

Houve um bate-boca barulhento, onde todos falavam ao mesmo tempo, e todos faziam acusações a esmo. O diretor Maia resolveu levar o time de basquetebol e a aluna baixinha, chamada Maria Dolores, para sua sala.

— Então? O que vocês me dizem, rapazes? — O diretor Maia inquiriu os atletas, que estavam sentados desconfortavelmente em um sofá na sala do diretor.

— Estávamos brincando com a bola, quando ela escapuliu e acertou aquele rapaz, contra nossa vontade. — Explicou novamente, João Evangelista.

— Mesmo assim não deixa de ser uma irres... _ Maria Dolores aproveitou para alfinetar.

— Mocinha, fale somente quando lhe for dito que o faça. — Corrigiu-a o diretor. — Então, quem foi o último a pegar na bola?

O diretor nem piscou quando viu a mão esticada de Gabriel.

— Muito bem, você Gabriel, e você João, serão punidos por comportamento irresponsável, que colocou em risco, a integridade física dos outros alunos. Os outros podem se retirar.

— Espere aí! Isso é injusto. Foi o time todo que estava brincando com a bola. O time todo deveria ser punido. — Maria Dolores estrilou.

— E você mocinha, também será punida por não saber se comportar perante o diretor da escola. Você também permanecerá. — O diretor a olhou seriamente.

Embora os jogadores de basquetebol quisessem permanecer unidos, e receber a punição juntos, João e Gabriel os convenceram a sair da sala. Então, para evitar mais confusão, eles se foram.

— João Evangelista, seu time terá que jogar sem você. Como capitão, você é responsável pelas consequências dos atos do seu time. Ficará sem jogar basquetebol, por três jogos.

— Está bem senhor. — João abaixou a cabeça e mordeu os lábios. Ele sabia que o diretor tinha razão. Resolveu aceitar a punição sem reclamar.

— Pode sair agora, João. — O diretor o liberou.

Gabriel deu um tapinha no ombro de João, para animá-lo. Maria Dolores bufava de raiva. Para ela aquilo não era punição. Por ela deveria ser dado queixa na polícia, e se possível, expulsão da escola.

— Você Maria Dolores, deverá cumprir castigo de uma hora, durante três dias, auxiliando o professor de Educação física, durante as aulas dele.

Maria Dolores fechou a cara e olhou para Gabriel, como se pensasse "Pelo menos o seu castigo será pior que o meu." Então saiu.

O diretor ficou olhando para Gabriel, como se este fosse um caso perdido. Gabriel recordou-se da última conversa que tivera com ele, e ficou imaginando que o diretor sabia que estava mentindo novamente.

— Venha comigo Gabriel. — O diretor saiu de sua sala, e não olhou para trás, para ver se seu aluno o acompanhava.

Gabriel a princípio, ficou sem saber o que fazer, mas decidiu seguir o diretor. Este se dirigiu à pequena enfermaria escolar. Perguntou por Luís Henrique, e entrou em um cubículo de cortinas divisórias, que davam mais privacidade aos pacientes, que estivessem deitados nas macas. Luís Henrique estava deitado, com um grande curativo que lhe cobria o olho.

— Como vai rapaz? Você está melhor? — O diretor o inquiriu.

— Sim senhor. — Ao dizer isso, Luís tentou se levantar, mas foi impedido pelo diretor.

— Gabriel, sua punição será ajudar este aluno aqui, na adaptação às suas atividades escolares, uma vez que ele não pode usar um dos olhos.

— Isso não é preciso. — Luís apressou-se em dizer.

— Talvez você não precise da ajuda dele, mas ele precisa pagar pelo transtorno que houve. — O diretor esclareceu.

— Está certo diretor. — Gabriel aceitou seu castigo, enquanto olhava curioso para aquele rapazinho franzino, de rosto bonito como o de uma boneca.

Notas finais
Nas escolas brasileiras não existe o sistema de detenção, como nas americanas, sendo mais frequente suspensão e expulsão.