Easy

2 Capítulo 2: Discoteque


Notas iniciais
"E alguém me ensinou a fazer isso direito/ Que quente ele era!/ Agora vamos dançar e bater até que nós estejamos prontos pra cair" Tina Charles (Dance little lady dance)

Nas quartas e sextas, à tarde, Gabriel ia para a igreja do bairro. Ele fazia parte do coro de jovens da igreja de São José. Aprendia técnica de canto e ensaiava hinos. Alguns jovens dedicavam-se a tocar instrumentos, mas o forte de Gabriel era mesmo o canto. No domingo e em dias especiais, eles se apresentavam, causando comoção geral, pois eram realmente muito afinados. Alguns de seus amigos atletas caçoavam dele, por causa da indumentária que usava, mas Gabriel não se incomodava de usar aqueles trajes, que o deixavam parecido com um padre, chegava a se sentir realmente importante, e sabia que deixava sua mãe muito orgulhosa. Se ele tivesse sorte, quem sabe até poderia aparecer na televisão, no especial da noite de natal.

No sábado à noite, tudo se modificava. Era a hora de liberar os demônios, e deixar os hormônios à flor da pele. Gabriel e Marcelo iam a uma discoteque. Havia inúmeras na cidade, mas eles escolheram uma em particular, a Crocodilos, ou Croco para os fregueses habituais, que lhes parecia glamorosa o suficiente para sentirem-se super-astros, e amigável o suficiente para não os expulsar por serem menores de idade. Eles começavam a se preparar para a badalação bem cedo, por volta de nove horas da noite. Às dez horas saíam de casa, e prometiam aos pais que voltariam até às duas horas da madrugada. Gabriel usava um terno branco de poliéster, com uma camisa preta por dentro, com grandes lapelas que sobressaíam sobre o terno, ainda colete branco, e sapato social preto com meias pretas. O cabelo ele penteava todo para trás, com cuidado para deixar um topete. Os trajes de Marcelo eram semelhantes aos dele, mudando uma cor aqui e acolá.

— E aí cara, tudo bem? — Gabriel cumprimentou o porteiro.

— Tudo joia! — O porteiro respondeu.

— Tudo azul, cara? — Marcelo cumprimentou o segurança.

— Maneiro! — O segurança respondeu.

— O que é que tu mandas, bro? — O bilheteiro perguntou.

— Nós dois vamos arrebentar nas pistas, homem. — Gabriel respondeu.

Ao entrarem na discoteque, tiveram que se acostumar à ausência de luz. O ambiente era refrigerado, mas havia tanta gente ali, que se podia sentir o ar fervendo. Havia um bar apinhado de gente, e algumas mesas dispostas em uma área mais afastada. E havia a pista de dança. Ela recebia luz estroboscópica, jatos de luz branca, e até o piso se iluminava, dando a impressão que se dançava sobre um placar eletrônico, ou uma fogueira. Confetes, balões, purpurina, e por vezes, jatos de espuma eram jogados do teto, sobre os dançantes. Além da música, havia outros sons esquisitos e festivos, que imitavam sirene de ambulância, rugidos de animais, e até a fala de personagens de desenho animado. Frequentemente, alguém iniciava uma coreografia nova, e muita gente começava a imitar os novos passos, como se todos tivessem ensaiado aquilo, mas era espontâneo, todos aprendiam na hora.

Gabriel e Marcelo se embrenharam entre os dançantes. Em pouco tempo, já estavam rebolando no ritmo da música, às vezes combinavam os passos como um dueto, às vezes dançavam com outros dançarinos, que nem conheciam, mas cujo ritmo e coreografia se assemelhavam com os deles. Nesta noite, Marcelo iniciou uma sequência de coreografia com uma garota mignon, de vestido de lycra verde escuro, e sapatos plataforma. Após vários passos sincronizados, eles passaram a dançar agarrados, como se fosse um tango estilizado. Haviam aprendido isso, assistindo o filme do Travolta. Quando a música se modificou, a garota desconhecida sorriu, e pediu para eles irem tomar um refrigerante. Marcelo então parou de dançar e a seguiu.

Gabriel também estava dançando com uma garota desconhecida, na mesma coreografia, mas na hora em que a música acabou e outra começou, ele não deu tempo para a garota se comunicar, engatou logo outra coreografia, em que dançava sozinho, imitando passos de balé clássico. A garota então se resignou a ficar olhando-o dançar, assim como os outros dançarinos. Logo Gabriel estava sozinho, no centro de uma roda, que se afastava cada vez mais para lhe dar espaço. O show era dele. Gabriel não se fez de rogado. Arriscou passos de dança espanhola, misturado a balé clássico, rock psicodélico, e samba, por que não? A multidão ia ao delírio. Todos riam e aplaudiam. Quando a música acabou, Gabriel foi ovacionado, e inclusive o DJ o parabenizou. Ele não cabia em si de contentamento.

— Marcelo! Poxa cara, tanto que eu te procurei! Você me viu dançando, chapa? Todos me adoraram. FOI A GLÓRIA!

— Parabéns, chapa. Olha, eu não vou voltar com você, tá? Eu arranjei uma paquera, e ela tá dando mole pra mim. Eu não vou perder esse rolo. Amanhã a gente se fala. Se cuida, bro!

—... Ah! Tá. Se cuida você também. — Gabriel ficou um pouco frustrado por perder a companhia do melhor amigo, mas se era por causa de uma gatinha, então tudo bem.

Gabriel foi ao bar para matar a sede. Teve que esperar um tempão por sua vez. O tempo que passava sem dançar, lhe parecia um desperdício, isto é, não existia nada melhor do que se remexer de modo perfeito e gracioso, sendo aplaudido por uma multidão de desconhecidos.

— Você dança bem. Poderia entrar numa competição de dança.

Gabriel se virou para ver quem estava lhe falando isso. Era uma garota alta e magrela, usando um vestido de poliéster estampado, num estilo que lembrava uma camponesa, com as mangas arriadas nos ombros. Ela tinha os cabelos descoloridos e fartos, em um corte muito copiado naqueles tempos, tentando ficar parecida com Farah Fawcett-Majors, a pantera.

— De que competição de dança, você está falando?

— Uma que vai haver aqui mesmo na Croco, e que vai ser veiculada na TV. Quem sabe um diretor de TV até te contrate?

— Qual é o prêmio?

— Cinco mil cruzeiros. Não é muito, mas já dá pra quebrar um galho.

— É, acho que vou entrar.

— Esqueci de te avisar. Não é uma disputa individual. A competição é para casais.

— Sei. E seu interesse nisso, qual é?

— Eu também quero competir, mas ainda não arranjei um parceiro. Estava pensando se você não gostaria de me guiar.

— Olha, eu topo, mas precisamos ensaiar.

— Concordo plenamente. Aqui está o meu telefone, pra quando você quiser ensaiar.

— Oh puxa! Deixa eu te dar o meu número também.

Ficaram conversando um tempo, até Gabriel voltar novamente para a pista de dança. Por uns segundos, pensou que deveria ter dado em cima da garota, pra ver se ela não dava bandeira pra ele, mas o que ele queria mesmo era dançar. Quem sabe no futuro, quando estivessem ensaiando, ele se lembraria de tentar conquistar aquela garota. Como era mesmo o nome dela? Puxa vida! Ele se esquecera de perguntar. Gabriel pegou o papelzinho que ela havia lhe entregado. Estava escrito: "Me liga. Júlia".