Earthbound
1 0N3
No quarto, escuro como as madrugadas atordoantes daquele início de mês, lençóis jogados no chão, sem a mínima preocupação de arrumação, garrafas vazias espalhadas, fios de cabelo ressecados e tímidos, fotografias velhas espalhadas, dentre outros, faziam parte do cenário. O odor de lá indicava a falta de higiene em que o ambiente encontrava-se. Solto na cama, olhando para o teto, um homem com claramente mais de quarenta anos repousava; não estava cansado fisicamente, mas mentalmente. A fina televisão ligada criava uma trilha sonora para o local silencioso, além de uma fraca luz, uma vez que o brilho da tela estava no mínimo. Persianas cobriam as janelas e portas de vidro esverdeado, tornando ainda mais sombrio. Na mão esquerda do ex-engenheiro mecatrônico, uma fotografia de uma mulher sorridente escondia-se entre seus dedos, enquanto que, na mão direita, uma garrafa de vidro era aperada pelo sujeito. Em seus olhos castanhos, a tristeza era mais visível do que a própria pupila, uma vez que o desânimo consumiu-o. Fazia dois dias que ele evitava sair de lá, exceto para comer algo, usar o banheiro e pegar mais garrafas de cerveja, e isso destruía seu psicológico já quebrado. Ocasionalmente, o polegar dele alisava a foto, principalmente na região dos cabelos cacheados da moça. Ele segurava constantemente as lágrimas, uma vez que, durante toda sua vida, foi educado erroneamente que isso era sinônimo de fraqueza, todavia elas escapavam.
Um barulho, seguido por vibração, ecoou pelo quarto, vindos de um celular cuja película estava trincada e a luminosidade que a tela emitia iluminou em tons de azul o cenário. Aquela era a luz mais forte que invadia o ambiente cavernoso, os feixes claros pintavam o rosto desgastado do homem, clareando principalmente seu lado esquerdo, assim como a fotografia. Incomodado com a luminosidade, fechou rapidamente os olhos desacostumados com a luz e levantou-se para desligar o aparelho. Possivelmente, aquela era a segunda vez que levantara no dia, por isso suas pernas travavam ocasionalmente, pela falta de prática. A mesa-de-cabeceira de onde a luz vinha estava infestada com aglomerados de coisas desnecessárias e lixo, então, relevou e voltou à cama. Os ruídos cessaram após um minuto, o que aliviou os ouvidos dele, todavia novamente o celular tocou.
— Ah, que droga de celular!
Cobriu as orelhas com o travesseiro, porém ainda incomodava. Irritado, levantou-se para desligar de vez o eletrônico, largando na cama o que segurava nas mãos; ele derrubou as coisas sobre a mesa sem importar-se com nada, para liberar espaço e, dessa forma, conseguir enxergar o celular. Ao avistá-lo, o homem encarou-o com desprezo por um tempo.
— Deve ser cobrança ou alguém fingindo que se importa. – sussurrou consigo mesmo.
Pegou o celular, ainda resmungando, quando parou de vibrar. Como estava com ele em mãos, optou por checar as notificações. Tocou levemente com o indicador na tela, então o sistema identificou a digital, mesmo que o dedo estivesse sujo e desgastado. Como esperado, a ligação de segundos atrás veio da empresa de controle de água, todavia a chamada anterior a essa veio de um número desconhecido, o que aguçou a curiosidade morta do homem, porém foi passageira: ele retornou ao mesmo local, com o celular na mão. Desligou o celular e prosseguiu com sua melancolia autodestrutiva.
Sem perceber, ele cochilou, devido ao cansaço evidenciado pelas profundas olheiras. Sua vida foi estilhaçada, não possuía mais objetivos, metas ou razões para continuar; ele estava muito abalado, fazendo da solidão sua maior companheira, pois ela entendia as suas cicatrizes expostas. Na realidade, era a segunda vez em sua vida que chegou nesse estado, a primeira foi o falecimento de sua mãe, uma das poucas pessoas que realmente preocupavam-se com ele, entretanto a depressão, desta vez, foi mais intensa, uma vez que misturou homogeneamente todas as angústias que passara nos últimos tempos, além de estar sem ninguém para consolá-lo. A perspectiva que tinha era de escuridão e solidão, mesmo que alguns colegas de trabalho e parentes tentassem convencer do contrário. Para ele, seus únicos companheiros que o consolavam eram a bebida e o cigarro, coisas que, anos atrás, repudiava completamente.
O celular tocou novamente, mesmo que tivesse sido desligado há minutos atrás, acordando-o no processo. Ele não se lembrava do que fez, então não se importou pelo estranho fato e desligou novamente. Com a mente atormentando seu juízo vital, tentou adormecer mais uma vez, só que o alarme de incêndio tocou logo em seguida. Ele não se preocupou com o possível fogo em si, apenas com o ruído irritante que o alarme emitia, então, ligou o celular para acessar a Master Key da casa. Respirando densamente, passou a digital novamente, abrindo a tela inicial; buscou o aplicativo da Master Key, mas o estresse dificultava a concentração. Apesar disso, conseguiu acessar o aplicativo e, bem direto, desligou o sistema de detector de fumaça, mesmo que não fosse o ideal.
O vazio de seu interior, disfarçado de fome, atraiu-o, pedindo para o mesmo suprir o vácuo com algum alimento açucarado. Obediente ao sentimento, o homem, o qual já desistiu de resistir, dirigiu-se à cozinha. Encostou a mão no identificador de digital da porta, a qual abriu por meio das mágicas fantásticas que a tecnologia proporcionava, e, em passos arrastados, caminhou até a escada. O corredor estava escuro, mesmo entrando luz natural, mas era claro o suficiente para os olhos notívagos enxergarem os detalhes ambientes; passo por passo, degrau por degrau, ele descia as escadas, indiferente ao mundo, somente ansiando a morte, as quais aparentavam ser grandes como de um castelo. As luzes do andar de baixo, diferente do de cima, acenderam somente com a presença dele, o que o incomodou:
— Eu tenho que me lembrar de desligar isso depois...
Ainda não cessou o alarme, disparando freneticamente em ritmo periódico, entretanto, embora seja ativado somente por fumaça, ele disparava em frenesi, mesmo não havendo nenhum sinal de fumaça por perto e com o sistema desligado. O homem passou direto pelo vermelho da luz do alerta, caminhando até a cozinha. Imunda, o tal cômodo encontrava-se bagunçado, repleto de lixo e talheres usados, mas não impediu que o homem pegasse, na despensa, uma barra de chocolate que abrira no dia anterior. Ele deu uma generosa mordida, sentindo os prazeres que o açúcar fluindo pelo sangue trazia a seu corpo, levando a barra consigo para o andar de cima. Enquanto subia as escadas, mais uma vez o celular toca.
— Porcaria, de novo! Essa gente é insuportável!
Pisava com mais força, liberando a raiva acumulada em cada passo, até chegar ao andar de cima. Observando do início do corredor, o quarto aparentava estar mais escuro, somente iluminado pelo celular tocando, o que, somado aos outros erros que aconteciam sucessivamente, estressava-o. Aquela chamada telefônica durou mais que as anteriores, indicando uma preocupação maior por parte de quem estava ligando, estava com mais de dois minutos de ligação.
— Não vai parar de tocar, não? – ele reclamava, enquanto abria a porta com a digital.
Mordeu a barra brutalmente, para aliviar a raiva, e pegou o celular com a outra mão. Por não ter habilidades com a mão esquerda, acidentalmente atendeu à ligação em vez de recusar. Não demorou, a outra pessoa iniciar a conversa:
— Alô? – uma voz masculina com traços joviais apresentou-se, mas não obteve resposta imediata do homem. – Alô? Alô?!
— Quem é? – disse, chateado.
— Harry. Quem fala é o Brendon?
— Não. Tchau.
— Ei, espera! Não desligue! – mesmo que quisesse muito desligar, o homem irritado manteve a ligação. – Eu sei que é você, Brendon. Só você ainda usa o modo de ligação por voz, além disso, eu liguei para o seu número.
— Fale o que quer. – mastigava sorrateiramente entre as palavras, sem paciência para ouvir os outros.
— Ok, ok... Cara, você está sumido por alguns dias... Eu sei que sua situação é difícil, eu sei que ela faz falta, mas precisa me escutar... Vamos combinar para sair para um restaurante com o pessoal. Sabe, eles sentem sua falta. Josh, Natty... Ficar sozinho por tanto tempo não é bom.
— Claro que não se importam, é tudo fingimento.
— Brendon, eu realmente entendo sua situação, você tem seus motivos para estar amargurado, mas faça isso por você. Ela não queria que você ficasse assim, cara. Dê uma chance para si mesmo.
— Eu estou muito desanimado para fazer qualquer coisa. Só quero ficar em paz.
— Certo, entendo... Se precisar de qualquer coisa ou mudar de ideia, ligue para mim.
— Uhum. Tchau. – mesmo que quisesse manter a postura de marrento e sem emoção, era notório que ele estava desgastado.
— Se cuida.
Desligou em seguida. Por uns instantes, até esqueceu-se da raiva, mas após olhar para o chocolate, ela retornou; também notou que a televisão havia realmente desligado, embora não tenha feito isso. Brendon colocou o doce acima do criado-mudo e usou a Master Key para ligar a televisão; de fato, a tecnologia auxiliava-o muito, sem necessidade de ter vários controles, somente um no celular, o verdadeiro prodígio da modernidade. Aproveitou para também ativar o condicionador de ar do quarto, uma vez que o suor já escorria pelas protuberâncias de seu tórax. Voltou à cama, cobriu-se com o lençol e encheu os pulmões de coragem para começar a escrever, uma das poucas coisas o qual não havia desistido. Pegou seu caderno e caneta, os quais estavam guardados na mesa-de-cabeceira, pensando nas palavras de Harry, principalmente “ela não queria que você ficasse assim”. Na verdade, era por isso que estava escrevendo naquele momento. Brendon sentou-se na cama, apoiou o caderno nas pernas e folheou-o até a página 65, a qual foi a última página que escrevera em sua história de terror; o estado mental o qual estava passando naquele momento possivelmente poderia ajudar a criar cenas mais emocionantes e tensas ao livro, baseando-se em experiência própria. Bastou inspirar-se nas profundezas da mente para a escrita começar a fluir, após longos e arrastados minutos para a tal inspiração chegar.
Ele continuava escrevendo interruptamente por mais dez minutos, quando chegou a um impasse na trama. O personagem do livro começou a demonstrar sinais de insanidade, mas Brendon não sabia como desenvolver claramente essa loucura; colocou-se na situação do protagonista e refletiu o que faria naquela situação, o que, de certa forma, ajudou a continuar a descrição da cena. A tinta da caneta deslizava pelo papel amarelado, algo tão clássico em um mundo tão moderno, mas que nunca perderá seu charme, aos poucos cada milímetro do azul na folha tornava-se uma palavra, as quais, por sua vez, compuseram a estrutura da frase. Essa magia de escrever fazia Brendon esquecer-se momentaneamente das aflições internas que sentia desde que era adolescente, uma de suas principais qualidades visíveis. Ainda que a caneta fazendo contato com seus calos incomodasse, isso foi relevado durante a escrita, sua prioridade momentânea.
Essa evasão à realidade durou uma hora. O álcool acumulado começou a fazer efeito, principalmente em causar tonturas e dor de cabeça; a sede também foi outro desconforto, então, para cessar, optou por buscar água no pequeno refrigerador que tinha em seu quarto. Precisou apenas levantar-se da cama, mas manter-se de pé era uma dificuldade. Ele via o piso distorcer e misturar-se com os outros objetos, formando ondas de tralha, além de sentir os pés afundarem no chão. Sentia-se um montador de touro, mexendo de um lugar para outro, porém sem sair do lugar. Com a beirada da cama como um apoio, seguiu assim até a pequena geladeira, com receio em cair; a vista embaçada, dentre outras coisas, atrapalhavam sua orientação, tornando algo tão simples e usual em uma tarefa complicada para sua cabeça zonza. Faltavam cerca de cinco passos para chegar ao objetivo, todavia a mudança abrupta que passou em tão pouco tempo, algo até anormal, tornava o trajeto exponencialmente maior. De um lado para o outro, desorientado, Brendon caminhava desajeitado, alucinando aos poucos. Por fim, chegou ao destino e abriu a porta do refrigerador com dificuldades.
Os itens de dentro misturavam-se com as prateleiras, confundindo as formas ao ponto de não ser possível identificar o que era. As garrafas de cerveja estavam unidas com as jarras de suco, adquirindo uma aparência antropomórfica bizarra de um corpo humano. Os potes de sorvete, junto com as garrafas d’água, aparentavam rostos conhecidos. Com dor de cabeça, Brendon sentia a loucura daquelas alucinações, o que o inspirou na construção das cenas em seu livro, todavia a situação desconfortável em que se encontrava fez o homem desacelerar. Sua mão lentamente abaixava, seu corpo caía sem pressa e sua visão escurecia progressivamente, enquanto encarava as alucinações com forma humana, as quais demonstravam um sorriso. De tamanha tontura, ele regurgitou no chão e, por falta de água, desmaiou, mergulhando o rosto no próprio vômito.
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