EarthMoon - Interativa
18 Agosto — 4ª Parte
Notas iniciais
Uma e meia da madrugada.
Uma garotinha andava em cima dos muros que separavam o colégio do lado de fora. Se equilibrando nas partes mais estreitas e passando ao lado dos lugares onde ainda jaziam vários corpos de Lunianos; sendo que alguns deles estavam ainda vivos, sem poder se mover, apenas viam corpos de seus companheiros mortos.
– A chuva continua caindo, a chuva continua limpando, os corpos que caem... O tempo é rápido, o tempo é infinito, e nós vamos caminhando com ele... — A garota cantarolava com sua voz fina enquanto andava, de vez enquando descia e andava no meio dos corpos. — Os passáros gritam para o céu, os passáros esperam seu héroi, enquanto pereciam refletindo sobre tudo...
...
Era um quarto bonito e bem arrumado. Muito barulho se ouvia proveniente do piso inferior do dormitório; Terráqueos com medo, alguns chorando porém disfarçando sua tristeza e outros poucos chegavam a frieza de comemorar o massacre de Lunianos que estava havendo.
Porém, naquele quarto, jazia o silêncio. O número da porta era o 239, que fora trocado com o número 246, que era o original daquele quarto. Aliado do silêncio uma penumbra causada pelas luzes apagadas; encostado em uma parede e escondido de modo que se abrissem a porta não o vissem lá, um garoto Luniano. Agarrado ao seu peito, uma pelúcia remendada, que já deveria ter muitos anos de idade.
– Você não mudou nada né? Não fazia idéia que essa boneca ainda estava inteira.
O Luniano, mesmo estando com a guarda em alta, foi surpreendido. Levou um forte chute no estômago, sendo arremessado para a parede no quarto. Ele olhava surpreso e ao mesmo tempo assustado. Sua reação, sem responder, foi arremessar-se no chão para pegar uma faca que havia na mesa perto dele.
Porém, antes de alcançar a faca, o terráqueo pisou árduamente em sua mão. O Luniano mordeu o lábio de dor, mas antes que pudesse pensar em algum outro plano, ouviu um estilete se abrir em seu ouvido.
– Eu sempre te ajudei, cara... Poderia ter se mexido menos... — O Terráqueo falou, enquanto uma lágrima caía de um de seus olhos.
O chão, as paredes e boa parte do corpo do Terráqueo foram jorrados de sangue; sem contar o corpo do Luniano, que fora morto com dois cortes no pescoço.
...
– Ei! Ei! O que está acontecendo?? — Um Terráqueo que estava escondido junto de Lunianos no depósito perguntou, socorrendo três Lunianos de doze anos que estavam passando mal, suando e sem ar. — Vocês comeram algo ruim??
– ... ... ... — Eles tentaram falar, mas apenas saíram alguns chiados.
– Saí do meio. — Ayesha afastou o Terráqueo dos três Lunianos doentes, os outros observavam com medo. A Luniana delicadamente abriu os olhos deles; estavam completamente pretos.
– O que é isso...? — O Terráqueo mumurrou. — Eles não tinham olhos...
– Eles vão morrer. — Ayesha falou indelicadamente, e com um pouco de raiva. — É uma bactéria que já nasce dentro de vocês, humanos. Mas se ela se instala em nós, é morte certa. Aqueles filhos da puta devem ter infectado muitos lugares, já que algum deles estudavam aqui!!
– Então, todos os Lunianos que tiverem contato com isso vão morrer...? — O Terráqueo estava chocado, suando frio.
– Não. Há alguns Lunianos que nascem com essa bactéria igual aos Terráqueos, por isso são imunes. Sem ser essa parcela, todos os outros morrem; porém há alguns que morrem em poucas horas e outros que duram até meses, dependendo da resistência do Luniano.
Ayesha foi até algumas caixas do depósito; especificamente, as caixas aonde se guardavam armas. Revirava armas brancas e de fogo, e quando escolheu algumas armas, foi decidida até a porta do depósito.
– Espera...!
– Eles já passaram dos limites. Não irei mais me resguardar. Cuide deles para mim. — Ayesha falou aquelas curtas palavras e desapareceu no meio daquela guerra.
...
– Vamos lá! Onde é que fica esse esconderijo? — O Terráqueo perguntava, sentado em cima de Khal e com a faca rente a pescoço e a pistola encostada em sua nuca. — Fizemos um acordo, lembra? Ah é, você é um Luniano, não sei por quê eu ainda esperei que você fosse me falar... E então, vai responder ou não?!!
Khal estava cada vez sem conseguir respirar por causa da faca quase encostada em seu pescoço. Aquele duelo havia sido incrivelmente rápido, o Terráqueo provavelmente fora treinado para matar ou para combater. Mas naquele momento, só pensava como livrar ele e os outros. De qualquer maneira, o depósito cedo ou tarde seria encontrado; isso se já não tivesse sido descoberto. Mas a sua consciência pesava.
– Na... Na biblioteca... Atrás de uma das estantes! — Khal tossiu pelo esforço que fez para falar, quando o Terráqueo sorriu, se preparando para golpear Khal com a faca, que apertou os olhos.
– 'chei! — Sem fazer um ruído sequer, um par de pernas finas se envolveram no pescoço do Terráqueo, o levanto para o chão e momentaneamente o sufocando. Era a garota que estava perambulando pelos muros há pouco tempo.
– Que porra é essa, Ana?! — O Terráqueo gritou, e se livrou das pernas da garota. — O inimigo é ele, não eu!
– Seu mentiroso! — A garota tentou dar mais um chute no Terráqueo, mas ele desviou. — Você disse que meus p'is e meu m'ninho tinham morrido! Mas eu o encontrei 'qui dentro!
– Isso é bom! Mas não muda o fato de que eles sã o inimigo! Seus pais continuam mortos!
– Eu não estou mais do lado de vocês! Se vocês estão matando Lunianos, eu não vou brigar! — Ela falou, cruzando os braços e virando a cara. Antes de perceber, Khal agarrou sua mão e correu junto dela.
O som de apenas um tiro resoou da arma de Khal havia deixado para trás.
– Que pena, eu gostava tanto das palhaçadas dessa menina... — O Terráqueo mumurrou, virando e costas e largando a arma no chão. — Vou logo ir para este esconderijo deles, depois cuido desse coelho.
Khal ficou olhando chocado a garota que havia acabado de lhe salvar no chão, morta por um tiro certeiro nas costas. Fora apenas alguns pouquíssimos minutos com ela, mas continuava sendo uma menina de no máximo dez anos morta pelos ex-companheiros.
– Eu vou... Eu vou acabar com esse cara com as minhas próprias mãos!! — Khal apanhou a pistola do chão, já deixou a destravada e seguiu na mesma direção daquele Terráqueo.
...
Laryssa estava no coreto do parque; Hugo havia pedido para ela esperar lá. A Terráquea engolia seco, imaginando o que ele havia feito; ela sabia que ele poderia assassinar alguém e voltar como se nada houvesse ocorrido.
Hugo havia também proibído-a de voltar para o colégio até segunda ordem, reforçando o pensamento da Terráquea que ele tinha algo haver com aquele massacre, tanto que a retirou do colégio naquele dia e sabia do horário de transmissão. Estava angustiada, imaginando se seus companheiros ainda estavam vivos.
– Demorei? — Hugo apareceu encharcado no coreto. Não havia chovido e nem nada do tipo. Ele subiu os degraus e sentou ao lado dela, mas sem encostar para não molhá-la, com todo o cuidado lhe entregou um animal de pelúcia velho e remendado. — Não vou obrigar você a aceitar esse presente, até porque o antigo dono não cuidou muito bem dele, mas esse animal eu queria que ficasse em boas mãos, e não com qualquer um.
Laryssa pegou o animal de pelúcia; era uma mistura de urso com coelho. Ela mordeu o lábio de susto, mas disfarçou, quando percebeu uma mancha de sangue em uma das orelhas do bicho. Não conseguiu mais se segurar depois daquela. Saltou do banco e encarou Hugo, segurando sua camisa com as duas mãos e lançando o animal de pelúcia no chão.
– Chega disso! — Ela gritou. — Confessa! Quem foi que você matou?!! O que você faz nesse grupo que está massacrando os Lunianos e meus amigos?!
...
Baltazar, já exausto, resolveu fazer a sua última parada em busca de sobreviventes no ginásio da piscina. A princípio se assustou pela forte coloração vermelha da piscina, mas ao mesmo tempo estava um pouco aliviado em ver See do lado de fora; estava com o braço ensanguentado, mas vivo.
– Ufa, já é o terceiro! Não que seja muito comparado ao número de mortos, mas... — Baltazar correr na direção de See para ajudá-lo. — Calma aí, pequeno. Eu sei de um lugar onde dá para nós escondermos...
Quando o Baltazar chegou perto de See para levá-lo para o esconderijo, sentiu uma facada na lateral do quadril. Não fora uma simples facada, e sim uma que a ponta poderia ser vista do lado oposto a facada. Era See quem havia desferido o golpe.
– Isso que deu... Confiar em Terráqueos! Eu fui muito burro! — See gritou em prantos consigo mesmo, após Baltazar cair por conta do golpe; seus dois amigos haviam morrido no tiroteio dentro da piscina. Antes de poder reagir, o Luniano deu outra facada em Baltazar, dessa vez nas costelas e se retirou, deixando o Terráqueo ferido e sangrando no meio do ginásio.
Não era mais uma disputa unilateral; vários eram os Lunianos não iriam deixar serem extintos daquele lugar.
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