EarthMoon - Interativa
4 Abril — 3ª Parte
Notas iniciais
– Arg... Você vai ser o meu companheiro de quarto? Estava torcendo tanto que fosse não fosse um animal... — See torceu o nariz ao ver o garoto que iria ser seu companheiro de quarto.
– See, não é? Talles, prazer. Escute, eu sei que nós temos uma rixa por causa de nossas raças, mas vamos ao menos tentar se dar bem, ok? — Talles estendeu a mão para See.
– Tsc, que tal se cada um ficar no seu canto, sem incomodar o outro? — See respondeu rudemente, e se jogou na segunda cama.
Os dois ficaram quietos em seus cantos; See com a cara no travesseiro, Talles mexendo com iscas. O quarto era relativamente pequeno; uma cama normal e um beliche, embaixo do beliche havia uma escrivaninha com luminária, uma mesa baixa no centro do quarto e um rack encostado no canto.
– Eu vou entender perfeitamente se você não quiser me responder. — Talles quebrou o silêncio. — Mas por que vocês nos odeiam tanto?
– Porque vocês são um bando de animais. — See resmungou e depois de alguns minutos, voltou a falar. — Por que você acha que estamos em extinção? Cada vez mais Lunianos tem se mudado para a terra em busca de emprego, já que lá na Lua só trabalhamos com agricultura e mineração. Aqueles que vão nunca mais voltaram, aí a nossa população está diminuindo cada vez mais. Vocês terráqueos matam os Lunianos! Por isso eles não voltam!
– ... — Talles tentou assimilar algumas informações. — Nem todos os Terráqueos são assim, não generalize; afinal, também viemos de Lunianos.
– Vocês todos tem as mesmas raízes. Quando os Lunianos ficaram aqui, se tornaram animais. Por isso todos os Terráqueos são iguais.
– Que lógica.
...
– Nós não contamos isso para os mais novos, mas a principal causa do ódio é por que uma vez que um Luniano vai para a terra, ele não consegue mais sair de lá, se apega muito ao planeta. A maioria cria um ódio por conta disso, diminui a nossa população. — Khal começou a explicar para Laryssa após ter pego suas coisas.
– Mas não é só reproduzir e mandarem os filhos para a Lua? Como uma regra de dois filhos, um deles vai para a Lua.
– Não, é muito complicado de explicar. Também é a questão da felicidade do Luniano. Um Terráqueo e Um Luanino não podem ter filhos. Não é nem pela questão ética; o filho normalmente nasce nati-morto ou vive poucos dias...
– Por que isso acontece...?
– Apesar de no lado de fora sermos iguais, no lado de dentro é diferente. Como você deve saber, não temos pulmão e por isso não respiramos, temos altas taxas de vitamina A e pouca vitamina C, nosso corpo já nasce despreparado para tanta gravidade... Isso tudo é diferente entre nós. Um filho é "construído" através da mistura de genes do pai e da mãe, por isso uma criança normalmente nasce sem condições de viver na Terra ou na Lua. Por exemplo, um bebê pode estar se desenvolvendo com pulmões, mas no útero de uma Luniana. O bebê vai morrer no útero por não receber oxigênio, entendeu?
– Coitados...
– Para uma criança "híbrida" chegar a nascer, ela teria de herdar 99% dos genes apenas e um dos pais e torcer para que o 1% restante fosse algo que fosse igual em ambas as raças. Como a distribuição de genes é sempre 50% e 50%, quase sempre a criança morre com poucas semanas ou nasce morta. E também tem o fato de que Lunianas só podem engravidar uma vez; depois da gravidez, ela para de produzir óvulos. — Khal acabou e ficou em silêncio. — É por isso que não gostamos de terráqueos, eles indiretamente estão extinguindo a nossa raça...
Talles POV
– Olha por onde anda, animal! — See gritou comigo por ter esbarrado em algumas caixas dele. Começamos bem a manhã.
– See, poderia parar de me chamar de animal? — Me agachei e peguei algumas coisas que tinha de tomar antes de ir para a aula. See esgueirou-se por cima do meu ombro.
– O que é isso, animal? — Me chamou novamente de animal, mas dessa vez não pareceu tão ofensivo. Ele tentou pegar uma, bati na mão dele e fiz ele largar o que tinha pego.
– Sério, é melhor não comer isso. Vai te fazer mal.
– Acha que eu não aguento o que um animal como você aguenta?! — See pareceu indignado e, mesmo com a minha contra-indicação, comeu. Suspirei.
– Eu avisei...
...
Nós da oitava série tinhámos as seguintes aulas: Matemática, Gramática, Estudos Sociais (História e Geografia), Estudos Naturais (Biologia, Física e Química) e Educação Física. Nossas aulas vão das oito da manhã até as quatro da tarde, quando vamos para aulas extracurrilares ou ficamos vagabundando pelo colégio.
Na nossa turma, 2-B, tinha 20 alunos. Dentre eles, eram 14 Terráqueos e 6 Lunianos; o professor também era Luniano. Até mesmo com um docente presente, era ridículo o bullying escancarado.
– Lamento, mas na verdade a África é dividia em cinco regiões... — A professora de Estudos Sociais falou para uma Luniana.
– Ei! Vocês também são desprovidos de cérebro?! — Um dos Terráqueos gritou e levantou uma onda de risada entre os Terráqueos; a professora nada fez.
– O próximo problema é o seguinte: E uma fazenda há porcos e galinhas. O número de porcos é o dobro do número de galinhas. Sendo que há 48 patas ao todo, calcule o número de porcos e o de galinhas. Vejamos... Wholeing. — O professor de Álgebra apontou para See.
– É fácil, mestre! São 36 Terráqueos e 12 Terráqueas! — See fez cálculos rápidos e falou com orgulho, sendo aplaudido pelos outros Lunianos.
Durante o resto daquela aula, See teve de ficar em pé no canto da sala.
...
– Ei, o Lunático aí atrás! — O professor gritou para See, de cabeça baixa na carteira. — O que foi?! Levante a cabeça e preste atenção!
– Meu estômago...
– Arg, vocês tem frescura até com a nossa comida...? — O professor perguntou, com raiva. — Vá para a fossa logo e pare de atrapalhar a aula!
– É fonte, professor! — Corrigi ele, e sussurrei para See quando ele passou pela minha carteira. — Eu falei que isso ia fazer mal a você.
– Vai te catar. — See falou seco para mim, dei uma pequena risada.
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