Earth Arena

2 2- Max - A Primeira Faísca


Notas iniciais
E eis que 5 anos depois a história ressurge das cinzas, essa eu dedico especialmente pros 4 leitores que já leram o capítulo anterior, é nóis.

ESTÁ QUENTE DEMAIS.

Minha cabeça está girando, entre luzes de sirene e vozes alarmadas, tudo o que eu consigo sentir é o calor infernal que me rodeia, o calor infernal que sai de mim, ao olhar para minhas mãos, manchas vermelhas apareciam e desapareciam em minhas palmas, como se meu sangue estivesse inquieto. Uma leve camada de vapor se soltava de meus dedos. Meus olhos começavam a funcionar de novo, e parei de olhar para minhas mãos para focar nos meus pés, descalços, vestindo o que restara de um par de all-stars derretido e queimado, reduzidos a carvão fedido.

Peraí.

Olho para meus braços, minhas pernas, meu corpo. Queimou tudo, cara. Eu estou vestindo pedaços de pano queimado que mal são o suficiente para cobrir minhas vergonhas. Que ótimo. E se não bastasse isso...

ESTÁ QUENTE DEMAIS.

Finalmente consigo voltar a respirar, mas sinto como se tivesse acabado de tomar o caldo mais quente da minha vida e estou soltando todo o vapor por minhas narinas, sinto aquela sensação amortecida da língua queimada e meus dentes doem com o calor que sai de dentro de mim. Decido sair do meio da rua para não chamar tanta atenção, o que já vai ser difícil levando em consideração que estou praticamente como um mendigo queimado e peladão.

Ah, droga. Tarde demais. Estou cercado de pessoas boquiabertas, a equipe dos bombeiros acabou de chegar e já estão vindo na minha direção. Eu tento avisar que eles não precisam se aproximar estendendo meu braço na direção de um deles, mas isso não só foi ineficiente como também causou algo completamente surreal. Ao apontar a mão para um dos socorristas, uma onda de calor intensa percorreu meu corpo até meu braço, minhas mão, e depois sumiu, reaparecendo somente alguns milissegundos depois, no corpo do bombeiro fazendo com que ele caísse no chão, em chamas, e me passando a sensação de que eu tinha acabado de tocar o corpo do homem.

ESTÁ UM POUCO MENOS QUENTE, MAS AINDA ESTÁ QUENTE DEMAIS.

Ai meu Deus. Fui eu quem fiz isso? Eu acabei de fazer chamas surgirem no ar? Todo esse calor armazenado em mim, eu posso controlar? Isso não faz sentido nenhum.

Desconhecendo o que acabara de acontecer, as pessoas ao redor de mim entraram novamente em pânico, agora tentando ajudar o bombeiro que rolava no chão tirando suas vestes. Eu não tinha cabeça para isso não, meus amigos, eu queria era dar logo o fora dali, e tinha a distração perfeita. Sem pensar duas vezes, comecei a correr em direção à minha casa, deixando pedaços de roupa queimada por todo o caminho.

Seria impressão minha ou caminho teria sido bem mais rápido do que o de ida? Talvez pelo pânico eu tivesse achado que tinha vindo mais rápido, talvez só estivesse em choque. De qualquer maneira, cheguei em casa em questão de minutos, desesperado, pulei a cerca para o jardim de casa, voando por cima da grama por alguns instantes, fazendo com que toda a grama que tocasse meus pés ao tocar o chão se transformassem num monte incandescente de mato queimado. Prontinho, tio e tia, finalmente aparei a porcaria do gramado.

O que estava acontecendo? Por que tudo que eu interagia pegava fogo? Eu estou virando um super-herói? Estou possuído? Bom, podia pensar nisso com mais calma dentro de casa. Mas é mesmo uma pena já que...

ESTÁ QUENTE DEMAIS.

Eu não aguento. Chego até a porta de casa mas caio de joelhos com a mão na maçaneta. Estou ofegante, suando, começo a ouvir os estalos da madeira embaixo de mim, os três degraus que subi para entrar na varanda ficaram queimados com o formato dos meus pés por onde pisei, se continuar ajoelhado estou certo de que logo logo chamas vão tomar toda a frente da casa. Sem perceber, minha mão cai junto com a maçaneta no chão, eu olho e percebo que a maçaneta está derretida, completamente líquida na palma de minha mão. Meus tios ficarão orgulhosos.

Eu tenho que sair daqui. Se eu entrar em casa vou colocar fogo em tudo e em todos e eu já vivi minha cota de incêndios assassinos da vida. Eu me levanto e começo a caminhar lentamente de volta para a rua, minha visão começa a ficar turva, entre escuridão e chamas, a única coisa que eu não vejo é a rua, olho para os meus braços e para minhas mãos, tenho a impressão de que meus pelos estão se mexendo de um lado para outro, mudando entre pelos e uma chama fraca. Eu estou pegando fogo? Ah caralho.

EU NÃO AGUENTO MAIS.

"Acalme-se." eu ouço aquela voz grave dentro da minha cabeça, "você vai acabar nos matando." ele continua, como se com o segundo comentário ele fosse me ajudar a ficar calmo. "Você já foi envolto pelas chamas antes, você as conhece.". Nunca achei que era assim que uma pessoa desenvolvia esquizofrenia. Dentro da minha própria cabeça eu respondo "Do que você está falando? Você quer que eu fique calmo? Eu não consigo respirar, se eu cair no chão vou acabar colocando fogo em tudo."

"Acalme-se. O fogo não fará nada que você não quiser. Nós estamos no controle, Max. Os primeiros momentos serão difíceis, mas você precisa manter a calma."

Nesse ponto eu já não preciso mais me preocupar em ir até a rua, já não consigo ver mais nada, sentir mais nada, ouvir mais nada, apenas sinto o calor insuportável percorre meu corpo. Pelo menos posso conversar com meu amigo imaginário.

"Me acalmar? Eu não sei nem o que está acontecendo. Se você reverter essa porra toda eu juro que nunca mais saio para caminhar de madrugada, cara."

Fogo. Fumaça. Gritos. Dor.

Morte.

Ah não. Por que eu estava vendo aquilo? Eu estava acordado, não estava? De onde estavam vindo as visões do meu pesadelo? Acho que estava sentindo o mesmo calor que senti naquele dia. Infelizmente eu não podia acordar e fazer a cena sumir, as imagens não paravam quando eu saía do quarto gritando pelos meus pais e ouvia os gritos da babá saindo do seu quarto já envolto em chamas. Eu não queria ver aquilo. Eu queria sair dali... eu precisava sair... eu queria que tudo aquilo desaparecesse, se fosse para queimar, que queimasse rápido.

Isso foi o necessário para que realmente queimasse. No momento em que me entreguei ao desejo de que tudo virasse cinzas o quanto antes, tudo foi envolvido pelas chamas. A antiga casa de meus pais se transformou numa grande fogueira e eu estava lá, parado, no meio das chamas, apontando e controlando labaredas, que dançavam ao meu redor como num filme macabro da Disney...

Espera aí.

O que está acontecendo?

"MAXIMILLIAM! ACORDE!" a voz ressoou em minha mente, me trazendo de volta para as chamas reais. Eu não estava na minha antiga casa, e pelo menos eu tinha conseguido chegar no meio da rua. Mas a festa acaba aí, para aonde quer que eu olhasse, tudo estava em chamas, árvores caídas, pessoas correndo para fora de suas casas em chamas, o asfalto embaixo dos meus pés começava a derreter. O bairro estava sendo devorado por labaredas. Eu fiz aquilo?

OH FUCK.

A casa dos meus tios.

Lentamente me viro para trás, enquanto uma árvore em chamas cai na minha frente. A casa está em perfeito estado em meio ao caos, apenas com as pegadas incandescentes na grama e a maçaneta derretida. Menos mal né?

"O que aconteceu?" eu me pergunto.

"Você precisa de controle, garoto. O fogo não perdoa atitudes inconsequentes, não se deixe ser devorado." ressoou a entidade em minha cabeça. "Eu preciso sair daqui, não posso continuar fazendo churrasquinho de mundo, vamos para um lugar mais tranquilo para você me explicar direitinho o que está acontecendo." eu respondi. "Eu concordo, precisamos nos esconder. Os outros também já chegaram e provavelmente vão começar a nos procurar em breve".

"Eu preciso mesmo é parar com as drogas, meu Deus." eu disse para mim mesmo, agora em voz alta, antes de sair correndo em direção à escola. Hey, não me julgue, era domingo e a escola estava vazia, pelo menos lá eu teria um ambiente grande para me esconder e se no fim das contas acabasse botando fogo em tudo, pelo menos arranjava uma folga para os meus colegas.

Tudo estava estranhamente fresco e a voz em minha mente estava quieta durante todo o percurso. Eu cheguei na escola em instantes, mesmo ela ficando há uns 40 minutos de caminhada de casa, e dessa vez não foi por falta de consciência, eu realmente corri muito rápido. Tipo muito rápido mesmo. Eu definitivamente estava virando um super herói, só precisava trabalhar no fato de que eu tinha colocado fogo numa vizinhança toda. Pulei o portão sem esforços, e corri para o vestiário. Eu já não estava mais tão quente e nem emitia tanto calor, consegui abrir a porta para os chuveiros normalmente, para minha alegria. Tirei os restos de roupas que me cobriam e um frio correu minha espinha quando finalmente percebi que aquela seria a primeira vez que olharia no espelho depois de tudo o que aconteceu. Finalmente senti o medo de me olhar e ver uma aberração. Virei lentamente para o espelho no fundo do vestiário. E para minha surpresa, tudo estava diferente: meu cabelo estava cortado do jeito que eu queria, barba feita e eu tinha um corpinho malhado que nunca tinha imaginado alcançar. Bom, eu não sabia de nada que estava acontecendo, não ia reclamar de ter me deixado em forma, mas depois de ver aquilo eu tinha apenas uma certeza na minha cabeça: eu definitivamente tinha feito um pacto com o demônio.

Notas finais
E pega fogo o cabaré. Hoje eu não arredo o pé. Pode vir que eu to em chamas. ~socorro~
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.