Earth Arena

1 1- Maximilliam - A Destruição


Notas iniciais
Nesse primeiro capítulo apresentarei o primeiro protagonista: Max! o excêntrico nova iorquino com uma estranha atração por fogo!

Fogo. Fumaça. Gritos. Dor.

Morte.

E é nessa parte que eu sempre acordo. Na morte.

Meu nome é Maximilliam, mas esse nome é antiquado demais. Chame-me de Max.

Tenho 17 anos, e desde o meu último aniversário tenho o mesmo pesadelo todas as noites. Não sei se devo chama-los de pesadelos ou de lembranças, afinal são flashes de meu passado. De minha tragédia.

Quando tinha 10 anos minha casa se transformou no próprio inferno, ou como os mais egocêntricos diriam: pegou fogo.

Os bombeiros disseram que foi um vazamento de gás. Mas eu pouco me importo pra causa, o que fode são as consequências. E naquele dia as consequências foram as seguintes:
Um casal, pais de um garoto e uma garota.
Uma garota, filha de um casal e irmã de um garoto
Uma babá, amiga de uma garota e um garoto.

E depois desse dia eu vivo com meus tios. Eles são gente boa, um típico casal nova iorquino, ou seja, ocupados, estressados e excêntricos. Eles sempre foram bons para mim, acho que acabei preenchendo o vácuo do filho que não tiveram por conta de um problema de fertilidade ou algo do tipo.

Foda-se. Quem é que quer saber a história de um órfão miserável sem expectativas para o futuro, certo?

Bom, depois de acordar assustado e suado por causa de meus sonhos quentes (quando digo quentes, eu quero dizer com fogo, e não com mulheres... eu adoraria que fossem com mulheres.) eu sempre desisto de dormir, e isso tem me rendido olheiras gigantescas, não que eu me importe, mas meus tios estão começando a se preocupar. Depois de enrolar na cama coçando sutilmente meu peito, eu levanto e vou ao banheiro. Depois de fazer o que devo fazer, eu lavo meu rosto. Meu corpo sempre teve uma temperatura elevada. Não interna, como acontece com pessoas com febre, sempre fui quente ao toque. A temperatura de minha pele nunca fica mais baixa do que 40°, isso pode ser algum tipo de consequência do acidente ou algo do tipo, nenhum médico soube explicar direito. Foda-se. Pelo menos isso me poupa de ter que secar o rosto depois de lava-lo ou de ter que aguentar alguém sentando do meu lado no ônibus no verão, já que ninguém aguenta de calor.

Bom... Depois de lavar meu rosto eu olho no espelho. Não consigo entender o porquê das pessoas se olharem no espelho de manhã. Elas continuam as mesmas pessoas do dia anterior certo? Deve ser por medo se transformar em aberrações durante a noite.

O espelho reflete a parte superior de meu corpo, abatido pela insônia. Não sou forte, sou magro e tenho cerca de 1,75 cm de altura com 70kg, um verdadeiro tanto faz em estatura junto com meus ombros caídos de quem passa as noites na frente do computador. Tenho marcas de queimadura nas costas e no peito (as marcas em minhas costas formam ironicamente a mesma forma das queimaduras do peito: um X vermelho que vai do ombro até a cintura.). Meu rosto é fino, com uma barba mal feita e mal formada também, fica mais no queixo e no pescoço do que na cara. Tenho olhos de cores diferentes (puta frescura), o direito é verde, o esquerdo, azul, olhos fundos e cansados, enfeitados com um nariz fino e pequeno e sobrancelhas grossas. Tenho a mania de ficar mordendo os lábios, então minha boca se parece muito mais com um linha rígida do que a boca de um adolescente normal. Os emaranhados de fios castanhos e lisos que tenho na cabeça começam a bater em meu pescoço e caem no meu rosto, me obrigando a repartir o cabelo para poder enxergar (definitivamente irei corta-los hoje.).

Saio do banheiro e coloco uma roupa qualquer que estava jogada no chão do quarto. Eu poderia te contar como é o quarto. Mas não quero. Ele não é importante.

Desço as escadas, passando pela porta fechada do quarto dos meus tios e o quarto da criança que nunca existirá (o quarto ficava vazio até meu tio decidir começar a malhar. Agora o quarto está lotado de equipamentos de ginástica fajutos.). Vou para a cozinha e bebo um copo de água. As janelas da casa estão todas fechadas e um silêncio calmo paira no ar, o que deixa a casa com um clima sombrio. Não ouso estragar um clima tão bom e abrir uma das janelas.

Pego meu casaco e saio para caminhar. Este tem sido meu hobby desde que os pesadelos começaram, cerca de um mês atrás. Se não consigo dormir vou caminhar e aspirar o ar poluído com cheiro de sonhos despedaçados e capitalismo galopante de Nova Iorque.

Moro em um bairro relativamente bom, Claro, nele existem crimes de vez em quando: um assassinato aqui, um assalto ali, mas o que seria de um bairro sem isso, não é? Pelo menos não é o subúrbio.

O Sol ainda não apareceu, devem ser umas 4:30 da manhã. Estranhamente eu não sinto mais sono e o Sol parece já começar a raiar, denunciado pelo ambiente que fica mais claro aos poucos. Algo está definitivamente errado.
Depois de alguns minutos andando o Sol começou a se mostrar. Como de costume, eu olhei para ele, parado no meio da rua, e continuei olhando, e não parei de olhar mesmo quando percebi que aquele não era o Sol e sim algo muito parecido com o Sol, aliás, não parei de olhar mesmo quando aquela bola vermelha gigante tocou os galhos das árvores e as incinerou instantaneamente, mas devo confessar que no momento em que a bola incandescente torrou um adormecido Mrs. Sparkles (a gata de estimação da Sra. Burton, minha vizinha) eu comecei a correr na direção oposta daquela coisa.

Você deve pensar que por ter passado por traumas com fogo na infância eu tenho medo do fogo. Muito pelo contrário. Eu acho o fogo fascinante. Nada pode parar o fogo. Você entra no caminho: queima. Você coloca algo no caminho: queima. Você corre: vira carvão. Você coloca a Mrs. Sparkles no caminho: churrasco de gato. E acho que foi por culpa da minha fascinação pelo fogo que resolvi não fugir da bola de fogo que apareceu, resolvi acompanhá-la calmamente, como um dono levando um cãozinho para passear, afinal, a bola era lerda pra caralho. Acho que uma criança engatinhando ganharia uma corrida contra aquela coisa enorme.

Acompanhei a esfera enquanto ela queimava árvores, caixas de correio, carros, bicicletas, animais de estimação desavisados (confesso que ri maldosamente com alguns deles) e qualquer outra coisa que estivesse no caminho. Enquanto acompanhava a esfera, já tinha me esquecido da hora, já que a iluminação daquilo fazia parecer que eu estava em pleno meio dia no parque.

Esta estava sendo a minha melhor caminhada na história das caminhadas matinais. Até que as porcarias dos vizinhos começaram a acordar. E ligar para os bombeiros. E gritar. E socorrer seus animais de estimação. E a me chamarem de louco.

Eu ainda não tinha percebido mas a esfera de fogo produzia um calor extremamente intenso, árvores começavam a pegar fogo enquanto a esfera ainda estava a cerca de 5 metros de distância. Eu acompanhava meu pequeno sol de estimação (ninguém ainda tinha dito que era dono daquela bola de fogo, então achei uma boa ideia adotá-la) a cerca de míseros 1,5m de distância. E não estava sequer com calor, talvez a amizade fosse recíproca, afinal.
Se tem uma coisa que eu admiro nos bombeiros da minha região é o fato de eles demorarem para chegar nos lugares onde são chamados. Especialmente quando são chamadas estranhas, do tipo: "TEM UMA BOLA DE FOGO GIGANTE DESTRUINDO O MEU BAIRRO". Um serviço, sem dúvidas, excepcional. E foi graças a essa demora que eu pude continuar me divertindo com a destruição causada pela esfera.

Lembra de quando falei da Sra. Burton? A dona do gato queimado? Lembra? Pois é, deixe me descrevê-la um pouco: Ela tem 83 anos e Mal consegue se mexer. Acredito que minha descrição tenha sido o suficiente. Ah sim! Estava me esquecendo, ela também tem uma tendência a cair na frente de bolas de fogo gigantes procurando por sua gata torrada. E foi exatamente isso o que ela fez.

Vamos deixar uma coisa bem clara, eu não sou um cidadão exemplar, eu não cumprimento desconhecidos no ônibus, eu joguei o papel de uma bala no chão uma vez sem qualquer peso na consciência, eu não compro biscoito de escoteiras mirins e eu não sorrio para câmeras com placas dizendo "Sorria, você está sendo filmado.". Mas quando uma senhora quase centenária cai na frente de uma bola destrutiva procurando por um animal morto eu não sou capaz de deixá-la para morrer. Simples assim.

Eu corri para frente da esfera e ajudei a Sra. Burton a se levantar do asfalto e a atirei na calçada (ela pode ter quebrado algumas costelas ou a bacia, mas pelo menos não tinha virado churrasco idoso) e logo quando estava prestes a sair da frente de meu mais novo brinquedo de destruição em massa meu pé ficou preso, me fazendo cair de joelhos. Eu olhei para ele e percebi que meu All-star favorito tinha acabado de ter sua sola derretida e presa no asfalto. Eu me virei para tirar o sapato, mas já era tarde demais, minhas roupas começavam a pegar fogo e pela primeira vez em anos, eu começava a suar por culpa do calor. Olhei para frente e vi fogo. Vi Fumaça. Vi gritos. Vi dor.
Vi morte.

Eu nunca pensei no que deveria fazer na hora da minha morte. Ia ser muito legal se eu gritasse "PELA AMÉRICA!" antes de morrer, ou olhar para uma garota extremamente atraente e dar uma piscadinha dizendo "foi bom te conhecer gata...", mas no momento da minha morte a única coisa que consegui fazer foi dizer "cacete, que calor..." e fechar meus olhos.

Mas eu não morri. Ou morri? Eu não sei muito bem ao certo, só sei que quando abri os olhos novamente eu estava no meio da rua, dentro de uma esfera vermelha transparente (de onde eu conseguia ver a Sra. Burton ainda chamando por seu animal perdido e sendo socorrida por vizinhos.) e em minha frente eu via a figura mais incrível que já vi na minha vida. Era uma pessoa com asas. Ou era uma ave? Ou era um dragão? Ou era um monstro?... Na minha frente eu vi uma coisa com asas, mas a forte luz que era emitida por ela não me deixava ter certeza do que se tratava. Eu olhei para os seus olhos e senti meu corpo sendo queimado como foi queimado sete anos atrás. Minhas cicatrizes pareciam estar em chamas.

"Bom Dia.”
Eu esperava qualquer coisa. Um "Você está pronto para morrer?" ou "Qual o seu último desejo?" ou quem sabe um "Hasta la vista, Baby" ou até mesmo um "Pílula azul ou vermelha?", mas eu com certeza eu não esperava por um "Bom Dia."

A coisa alada tinha uma voz grave e quente (não sei explicar como, mas sua voz era quente, não excitante, quente, quente do tipo "posso esquentar uma marmita só falando em cima dela").

Eu pensei em várias respostas possíveis, e de todas eu escolhi a mais inteligente: "Hã?”.

"Bom dia." Ele (?) repetiu.

"Bom dia." Respondi ainda insatisfeito com tal fala.

"Qual o seu nome?" Ele questionou com um leve sorriso no que eu achei que fosse sua boca.

"Max." Respondi. Com esse começo de conversa eu esperava que sua próxima pergunta fosse: "Quantos anos você tem?" ou "Quais suas expectativas de trabalho aqui na Bola de Fogo S.A.?".

"Quanto tempo, Max, peço perdão pelo que vou fazer agora, mas você foi escolhido, eu estou prestes a mudar seu destino para sempre, e você não pode recusar. Não é de hoje que nos conhecemos, mas a partir de hoje, seremos um só." Após dizer isso a coisa me cobriu com suas asas fazendo com que eu só conseguisse ver chamas e sentir a pior dor de todos os tempos. Não foi qualquer dor. Foi uma dor que eu imagino que seja equivalente a ter lava injetada diretamente no seu peito, como se algo denso e incandescente estivesse entrando pelo minha caixa toráxica e se espalhando pelas minhas veias como se estivesse sendo bombeado pelo meu coração. Foi esse tipo de dor.

Acho que fiquei estático por alguns minutos, pois não me lembro muito bem do que aconteceu depois da dor, só me lembro da esfera em minha volta se dissolvendo, pessoas me olhando, Sra. Burton chamando sua gata, sirenes de bombeiro e uma vontade insuportável de queimar o mundo. Isso é o que eu me lembro do momento que mudaria tudo que eu sei sobre mim mesmo.

Notas finais
Espero que tenham gostado. o/